Posted tagged ‘Zé Dirceu’

Gilmar e Zé Dirceu

04/05/2017

Gilmar Mendes manda soltar Zé Dirceu, travestindo qualquer conceito de presunção de inocência, e desdenha Moro e Cia dizendo: “São jovens que não têm experiência institucional!” E é verdade! No momento em que institucionalizamos o crime, a experiência está só com aqueles que tratam intimamente desse assunto a mais tempo. Em seguida Gilmar tirou de sua concha outra pérola: “Creio que hoje o tribunal está dando uma lição ao Brasil. Há pessoas que têm compreensão equivocada do seu papel. Não cabe ao procurador da República pressionar, e não cabe a ninguém pressionar o Supremo Tribunal Federal. É preciso respeitar as linhas básicas do Estado de Direito. Quando nós quebramos isto, nós estamos semeando o viés autoritário, é preciso ter cuidado com esse tipo de prática.” E também é verdade! O Supremo, por definição, está acima de qualquer coisa, inclusive da verdade, da justiça, da ética, e do pasmo nacional frente à sensação de impunidade e de que o conceito de crime ganhou uma elasticidade mórbida.

Matar alguém é crime. Comandar um esquema que desvia bilhões que impediriam que milhares morressem por falta de recursos na saúde e na segurança merece um habeas corpus porque nem o dedo de Deus pode pressionar o Supremo. Minha vó diria que isso é birra!

A realidade prescreveu.

19/08/2012

Prescrever, no jargão jurídico, significa ficar sem efeito por ter decorrido um certo prazo legal, perder-se por prescrição, ou cair em desuso. Procrastinar significa deixar para depois; o mesmo que empurrar com a barriga. Os fatos, observados por nós na vida política, são tratados desta forma. São procrastinados até prescreverem. Um dia caem no esquecimento ou, de forma mais trágica, no não-conhecimento.

Eu conversava com uma roda de jovens com a idade média de 21 anos. Todos adultos produtivos, alguns pais ou mães, todos motoristas, eleitores e pagadores de impostos. Num determinado momento alguém comentou sobre a veemência de um dos advogados defendendo um homem público que teria sido injustamente acusado por algo que não havia acontecido, a meia vida de distância no passado, num dos governos que haviam transitado por aqui. Fiz as contas. Quando veio a público o episódio do mensalão, um termo tratado com ironia e desconhecimento pela maioria dos presentes, o jovem comentarista teria uns 12 anos. Não demonstrava, agora, ser um alienado, mas na época o foco do seu interesse certamente era outro. No seu julgamento, e de todos os de sua geração, essa aberração política pode ter acontecido numa outra encarnação, em outra dimensão, ou talvez tenha sido uma obra ficcional de gosto duvidoso, totalmente dissociada das coisas que significam algo para ele.

Quando tentei argumentar sobre o quanto a corrupção pode ser nociva, destituindo a necessária confiança no poder público, e de que forma aqueles homens haviam roubado de todos nós, outro jovem me matou: “Qual é, tio!? Nós nem sabemos se isso realmente aconteceu! É possível que o golpe esteja exatamente na tentativa de nos fazer acreditar que os caras são culpados! Sacou?”

Nós estamos destinados a viver eternamente na fantasia de que a coisa tem conserto? Pensando bem, acho que a realidade prescreveu.

A corrupção será institucionalizada?

11/08/2012

Não é a verdade sobre a conduta dos 38 indiciados que está em julgamento. E sim a institucionalização da corrupção. Aos olhos do país (e dos observadores mundiais) já é sabido que todos os envolvidos estão doentes e com febre. O processo atual é uma mera colocação de termômetro para determinar o quantum de cada um para que se estabeleça o remédio e a dose. Não seria admissível que os poderes envolvidos tivessem chegado a esse ponto por mera teatralidade para valorizar um engano. Partimos do princípio de que o judiciário é composto por homens sérios e adultos (se bem que o mesmo sempre foi afirmado dos que agora são réus!).

É com uma ponta de esperança que a parte do povo que não perdeu a memória espera que esse momento único seja exemplar. Hoje o judiciário é o poder que nos representa. A política do país pode ganhar um marco divisor em que a moralidade foi estabelecida. Depois desse julgamento nós poderemos dizer se somos ou não um país confiável. Como é a nossa cara. Não para os outros! Mas para nós mesmos.

A matemática do Mensalão

07/08/2012

Enquanto avalio na net o novo gráfico do Modelo Padrão, já com o bóson de Higgs, a minha esquerda, uma TV, ponteada pelas vozes de Bonner e Patrícia Poeta, zumbe as loas recitadas por advogados que procuram transformar os 38 do Mensalão em criaturas angelicais da mais absoluta candura. São tão veementes em sua retórica jurídica e usam termos tão sábios e rebuscados que a minha parte estúpida (pois todos nós a temos) chega a pensar: “Será que tudo que nasceu há 8 anos (agora em 18 de setembro) foi uma fantasia inconsequente que colocou essas pobres almas na berlinda graças à maledicência de alguns?” “Será que estamos sendo absurdamente injustos?” “Como somos maus!” Depois, invertendo a premissa do direito que afirma que todo indivíduo é inocente até que se prove sua culpa, pois sabemos, por indignantes experiências velhas e recentes, que todo político é culpado até que se prove sua inocência, apaziguo a minha crise de consciência e assisto o resto do zumbido como se ele fizesse parte de uma ficção e não da realidade da qual faço parte, assim como você, ocasional e amnésico leitor.

Os ditos 73 milhões de reais – que alimentaram o esquema que, se alega, era direcionado por Zé Dirceu e sua trupe – não se movimentaram sozinhos. Alguém deu e alguém recebeu. Essa quantia, apontada por Gurgel, fora da concepção do homem comum, pode ser a metade do iceberg que nos é dado conhecer, mas que já nos arrepia por suas dimensões de zeros à direita.

Inevitável especular, ainda usando a regra da metade, sobre o longo e tedioso julgamento, nos intervalos entre os justos cochilos dos magistrados. Teremos uma metade de culpados. Dos 18 restantes teremos uma metade composta pelos que ainda não tiveram a prescrição de suas penas (como se os delitos caducassem!). Para facilitar a conta um dos 9 restantes pode até escapar por um dos meios normais que a vida faculta! Metade dos 8 restantes obterão alguma vantagem que os desvios da lei permitem: computando atenuantes, permitindo recorrências, ou prisões domiciliares em mansões. E, se a justiça funciona nesse país, 4 irão em cana. Mas terão a pena reduzida por bom comportamento e em muito menos da metade do tempo de 18 de setembro de 2004 até agora, voltarão ao convívio de seus pares, com suas dívidas pagas.

Como? Você quer saber sobre os 73 milhões? Que… 73? Que milhões? Ora! Parece doido!