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Ovos fritos com bacon no café.

31/01/2012

Mãos às costas, lá ia o velhinho, pela praia deserta, às seis da manhã. Estava irritado com alguma coisa que Juvenal dissera na noite anterior. (Ou talvez  com o fato de não conseguir lembrar o que Juvenal dissera.)

Encurvado pela cifose ele tinha, a cada passo, a intermitente visão da unha torta do dedão direito. Divagava sobre a hipotética arquitetura divina, tentando traçar um paralelo entre a dimensão maçambiquiana e a própria existência, e dava furtivas olhadas para que o caminho imediato não lhe provocasse tropeços. Então, vinda do nada, caminhando no sentido contrário, surgiu a diminuta figura de uma outra criatura madrugadora.  A visão curta não lhe permitia uma definição precisa, mas tudo indicava que se tratava de uma mulher.

Resquícios hormonais caíram na circulação escorrendo de recipientes esquecidos e fizeram com que abandonasse os moluscos e o dedão e prestasse mais atenção no horizonte. Com sorte seria jovem, pelo menos mais jovem do que ele (o que não seria tão improvável assim). E também bonita e vistosa, segundo os seus já elásticos e engavetados critérios de estética e sensualidade. Isso até lhe abriu o apetite e passou a pensar em comer duas torradas com leite quando voltasse pra casa, e não apenas uma como era de hábito.

A silhueta inicialmente indistinta crescia com passadas largas enquanto inversamente encolhia a circunferência abdominal do velhinho. Ficou uns quinze ou vinte centímetros mais alto sem perceber o protesto das vértebras que queriam dolorosamente se render ao apelo gravitacional.

Era jovem. Era bela. Estava cada vez mais perto. Era do número que ele lembrava ser o seu. Estava de tênis e boné. Ele ajustou os óculos para se certificar que não estava nua, mas usava um minúsculo conjunto de paninhos displicentemente jogados sobre os limites entre o pudor e imaginação.

E então, repentinamente, quando ela estava apenas a uns três ou quatro metros dele, como se ele fosse um marco pré-estabelecido, ela deu meia volta e retornou pelo caminho que viera. O velhinho sentiu a boca seca. Alguma coisa palpitou arritmicamente no peito, mas ele estava mais preocupado em não piscar. Pois naquele instante o universo, como num passe de mágica, ficara imóvel entre duas batidas do coração.

Não fora simplesmente uma meia volta. Mas uma meia volta eterna. Para ser recuperada infinitas vezes ou enquanto sua memória sobrevivesse. Em “ssslllooowww motion”. Como num suave movimento de balé ou num volteio de pião invisivelmente equilibrado no nada o pé direito dela havia parado no fim de um passo qualquer e o esquerdo não o imitara. Ao invés disso ele recuara, levado por uma perna esguia que girava para fora e para a esquerda ao mesmo tempo em que as coxas, o umbigo, os seios, os ombros e o pescoço, como uma onda, se adaptavam aos novos comandos. No rodopio a ponta do pé direito imprimiu uma pequena cova na areia, o braço esquerdo, equilibrando o movimento do corpo, deslizou para trás num arco perfeito, o direito se ergueu e na ponta dele surgiu uma mão delicada que acenou para o velhinho, a jovem iluminou o rosto com um sorriso, e os lábios dela se uniram e soltaram no ar um beijinho mudo que calou o mar.

O cabelo em rabo de cavalo, saindo por trás do boné, imitando um ponteiro de relógio que anda ao contrário, desenhou uma linha fictícia no ar. E o corpo todo, refeito do brusco intervalo, voltou a ondular em sua essência, de volta ao espaço-tempo normal, se afastando dele.

O velhinho custou a se mover. Piscou avidamente para recuperar a umidade das escleróticas. Nos poucos segundos em que ficou paralisado viu o dorso e o par glúteo se afastarem dele. Tentou retomar a caminhada num ritmo mais acelerado para prolongar aquele momento, mas os ciáticos protestaram de forma veemente. Respirou fundo preparando o espírito para se conformar com a lembrança do encontro e disse três vezes, admirado e sôfrego: “Mazá! Mazá! Mazá!” Depois, enquanto assistia às nádegas, e todo o resto, saltarem graciosamente sobre um pequeno córrego, pensava que Juvenal dificilmente acreditaria naquilo.

E por falar em Juvenal, repentinamente, se lembrou o que lhe irritara tanto na noite anterior. O amigo desaconselhara caminhadas matinais e com ares doutorais dissera que é nessas horas que os velhos mais morrem de enfarto. O velhinho sorriu e de peito erguido voltou para casa. Sentia-se um vencedor. Comeria ovos fritos com bacon no café.

Sexo Seguro

25/11/2011

Na faculdade, há 40 anos, corria uma piada, agora velha, mas que exemplificava perfeitamente as conseqüências do sexo sem camisinha:

O estancieiro rico mandou o filho pra capital “pra estudar pra ser engenheiro-construtor”. Lá, o estudante, longe da censura paterna e se sentindo abonado com a mesada que recebia se tornou um assíduo freqüentador dos mais chiques bordéis. Todo mês fazia uma relação de suas despesas e mandava para o pai, numa carta, para que o velho continuasse a fazer os repasses de acordo com as suas necessidades. Assim, escrevia: “Faculdade: 800 contos; aluguel: 600 contos; alimentação: 400 contos; livros: 300 contos; vestuário: 200 contos; locomoção: 100 contos…” E, cuidando para não chocar o pai com a natureza de suas atividades extracurriculares, acrescentava: “… marteladas: 4.000 contos.” O pai, não entrando no mérito do que seriam as marteladas, ou julgando que aquilo deveria ser algo relacionado com a faculdade, fielmente mandava o dinheiro.

Aconteceu que a pecuária passou por momentos difíceis e começou a ficar caro para o estancieiro sustentar o filho na capital. Então o velho mandou uma carta explicando a situação e acrescentou uma nota em que dizia: “Se possível, procura diminuir as despesas nas marteladas!” O filho até que tentou e nas cartas seguintes escrevia: “… marteladas: 2.000 contos.” Mas o pai do guri, se vendo cada vez mais apertado, mandou um telegrama: “Situação difícil! Manera nas marteladas!” E a resposta imediata passou a ser: “… marteladas: 1.000 contos.” E depois um compadre do velho passou pela capital, encontrou o estudante, e disse: “Olha! A situação do teu pai está desesperadora! Corta essas marteladas ou ele vai mandar chamar você de volta pra estância!” E o relatório mensal de despesas começou a contar com coisas do tipo: “… marteladas: 100 contos.” E depois: “… marteladas: 50 contos.” E ainda: “… marteladas: 10 contos.” E por fim, para alívio do pai do esforçado martelador, foram suspensas as referências a quaisquer despesas com marteladas.

Dois meses depois o estancieiro recebeu um telegrama lacônico: “Conserto do martelo: 30.000 contos.”

Naquela época não se falava em camisinha. Uma temida doença venérea poderia ser tratada com antibióticos e no máximo tiraria o guerreiro da luta por algum tempo ou prometeria uma prostatite para o futuro. Os cuidados se resumiam em ter certeza se a guria não era menor, nem de família, se usava pílula, e se, apesar de todas as precauções, não ficara embuchada.

Pois hoje, com tudo que se sabe sobre prevenção, com tudo que é propagado e ensinado, ainda tem esperto que me aparece com gonorréia ou sífilis, argumentando que transar com camisinha é a mesma coisa que chupar bala sem tirar do papel.

Pelo menos vão pensar assim até que o martelo apodreça e caia.

O Momento do Pecado.

17/11/2010

Era uma vez um velho padre, mas muito, muito velho. Ele também era um homem casto, mas muito, muito casto. Vendo a idade da morte cada vez mais próxima este senhor pensou: “Passei a vida toda ouvindo os pecados dos outros, trocando-os por penitências, e os perdoando. Mas como será o pecado? Qual será a sensação de quem peca?” Movido por esta curiosidade pediu a seu anjo da guarda que lhe fosse concedida a permissão para experimentar esta sensação antes de morrer. O anjo comunicou o seu pedido à chefia. Depois de algum tempo disse ao padre que a permissão lhe fora dada e valia apenas para um pecado. O padre, antes de escolher o pecado, ponderou demoradamente sobre uma constatação que fizera. Dos pecados que as pessoas contavam e recontavam incontáveis vezes, sem dúvida, sobressaía a fornicação, que aparentava ser irresistível, tendo mais força do que o medo do castigo eterno. Escolheu, assim, fornicar. O anjo lhe perguntou se ele tinha certeza. E explicou que algumas coisas combinavam mais com as pessoas mais jovens e que achava que o momento não seria muito adequado para aquele pecado em especial. Mas o padre, decidido, respondeu que já havia escolhido. O anjo, então, disse: “Sendo assim…!” E foi embora.

Seguindo orientações do motor de busca Google em resposta à pergunta “como cometer o pecado da fornicação” o padre se preparou para a única experiência sexual de sua vida. Escolheu o melhor antro, a profissional mais conceituada em seu meio, com o melhor currículo, e, conforme fora orientado, pediu o serviço completo. A partir daí a prostituta desempenhou da melhor forma a sua função com a finalidade de agradar aquele cliente muito especial. O velho padre considerou as posições ridículas e cansativas. Avaliou o prazer como efêmero e discutível. Não compreendeu a atração que aquilo exercia sobre os fiéis que se confessavam com ele. Só não dormiu no ato por causa das dores. E foi embora decepcionado.

Moral: até pra pecar há o momento certo.

Pérolas da copa (1)

14/06/2010

Logo após a vitória de 2×0 da Coréia do Sul sobre a Grécia a venda de camisinhas quintuplicou em algumas lojas especializadas em Seul. Será que caiu em Atenas? Será que caiu só a venda ou caiu a motivação para o uso delas? Será que os sul-coreanos festejam as vitórias no futebol usando bolas mais íntimas? Será que a superpopulação chinesa se deve ao seu fraco desempenho futebolístico? Não havendo vitórias não são vendidas camisinhas e assim os espermatozóides ficam livres para cumprirem suas missões! Será que esta relação entre o futebol e a camisinha é algo apenas oriental? Já foram feitas estatísticas no Brasil? Se formos hexa há possibilidades de que a população venha a diminuir? Será que depois de skolar e brahmar o brasileiro ainda vai se lembrar de comprar camisinhas?

Milagres da farmacologia moderna!

08/05/2010

No fim do mês passado completei 60 anos. Houve todos os tipos de piadas sobre agora ser um sex…agenário; que enquanto sessenta ainda se levanta, depois setenta, tenta, e nada. E assim por diante. Os meus parentes e amigos fizeram questão de deixar bem vívida a idéia de que agora o tempo deve ser contado não no sentido do que passou mas do que ainda falta, e outras gentilezas do tipo. E como a maioria dos amigos de uma pessoa são de sua faixa etária, ou aproximados, vai aqui a minha contribuição, como médico, para os 60 anos, ou mais, de todos eles. Trata-se de um pequeno pacote de medicamentos composto por 4 drágeas numeradas de 1 a 4.

Quando você não se lembrar mais para que serve aquele apêndice existente entre suas pernas, que teima em se esconder sob a prega de sua barriga, e que ocasionalmente você vê em espelhos ou fotos, tome a drágea número 1. Ela se chama MELEMBRINA. Fará você recordar quase instantaneamente da função daquele órgão. Se você for do tipo emotivo lágrimas de saudade poderão transbordar de seus olhos. Não fique envergonhado. As estatísticas afirmam que isto é extremamente comum embora seja negado pela maioria. Neste momento é bom estar acompanhado por uma parceira sexual, do sexo de sua preferência.

Engula então a drágea número 2, chamada LEVANTOL. E não se assuste! Pois modificações na micro rede vascular interna daquele órgão, antes esquecido, farão com que ele cresça, intumesça, como uma fênix renascendo das cinzas, ou como um gato dado como morto ressuscitando de sob as lenhas do fogão, numa imagem menos mitológica e mais gaudéria.

Chega então o momento de ingerir a drágea número 3. PAUDUREX. Um milagre da moderna indústria farmacêutica. Capaz de manter o órgão renascido por cerca de 40 minutos em atividade febril ou enquanto durarem as coronárias de um usuário possesso. Não é aconselhável que portadores de stents, marcapassos, ou pontes de safena ultrapassem os 10 minutos recomendados para estes casos nos capítulos 47 a 52 do 3º volume da bula do pacote.

E, finalmente, quando o usuário percebe que tem que – note que não é quando percebe que vai, mas quando percebe que tem que – chegar ao clímax ou se esvairá desidratado e estorricado, deve engolir a drágea número 4, a ACABIM, a mágica das mágicas, a explosão sensória final que tudo justifica, até a manobra suicida de ter tomado o pacote inteiro. Há relatos de sobreviventes que descrevem visões que ultrapassam a nossa dimensão. Obviamente, estes medicamentos devem ser usados sob rigorosa orientação médica.