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Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (5 de 5))

06/06/2011

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09

 No quarto dia o Dr. Sério Fuss foi comunicado pela direção da polícia de que teria 48 horas para dar um fim àquela situação insustentável. O delegado passou a considerar a hipótese de estrangular Magda e dar aquela história por acabada.

Sério chegou a conversar com Magda e tentou lhe explicar o problema que enfrentava e a impossibilidade de manter indefinidamente aquele teatro surreal. Magda disse que a solução era simples. Bastava fechar o consultório do dentista e ordenar que ele fosse atender longe dali se comprometendo a nunca mais passar pela Rua das Violetas. Pronto! O seu sonho nunca se realizaria. Ele foi obrigado a concordar que, por mais absurda que fosse a proposição dela, aquela seria uma solução definitiva.

Assim, Sério foi ao consultório do dentista. O local estava abarrotado graças à propaganda inusitada decorrente do sonho de Magda com sua morte. Ênio ouviu incrédulo à proposta do delegado baseada na sugestão de Magda. Em seguida ele fez uma contraposta. Sugeriu que o delegado pedisse exoneração do cargo e deixasse a delegacia para um colega mais capacitado. Nessa hora o Dr. Sério Fuss pensou seriamente na possibilidade de empurrar o Dr. Ênio Canino para baixo de uma ambulância e concretizar o sonho de Magda.

Ainda durante aquele dia, como num eco às pressões que Sério sofria, a turba acampada nas extremidades da área isolada começou a fazer um barulho preocupante. O presidente da Associação dos Amigos e Protetores dos Idosos, acompanhado por meia dúzia de cabeças brancas, esfregou um mandato na cara de um dos policiais e foi até a delegacia para verificar as condições do tratamento dispensado à prisioneira. Pouco adiantou o delegado afirmar repetidamente que Magda não era prisioneira, que a cela estava aberta e que ela podia sair a hora que bem entendesse. Logo ele percebeu que todos os ouvidos estavam surdos para o que ele dizia e eles só ouviam o que estavam dispostos a ouvir.

Ênio foi almoçar no bistrô, caminhando pela calçada como um pavão, sabendo que naquela hora as lentes buscavam os seus movimentos e mais o promoviam. Semíramis trouxe um sanduiche para o delegado que comeu escondido em sua sala. Alguém tivera a idéia de incrementar o barulho com o rufar de tambores e buzinadas doentias. Foram agitadas bandeiras de partidos políticos. Um carro de som, a oeste, na Bispo, começou a despejar uma música estridente alternada com o berro de palavras de ordem. O povo imediatamente começou a se aglomerar mais densamente naquelas imediações. Magda resolveu tirar um cochilo e deixou que Lúcifer saísse entre as grades pra dar um passeio.

10

O dentista voltava do almoço. Estava um pouco contrariado por que as atenções nas proximidades do bistrô foram desviadas para o alvoroço do carro de som na outra quadra. Magda dormitava em sua cela e sonhava. Lúcifer miava desesperado, aparentemente preso num arame no terreno baldio do outro lado da rua.  Ênioobservava o gato de Magda se contorcendo enquanto tentava se livrar do arame. Sério foi até a porta da frente da delegacia. Ele não conseguia encontrar uma saída coerente e já pensava em pedir demissão como Ênio havia sugerido. Naquele instante Sério viu que Ênio atravessava a rua indo em direção ao gato. E então tudo aconteceu muito rapidamente.

Uma ambulância desgovernada ou sem freios rompeu a frágil contensão ao norte da Rua das Violetas, achou o Dr. Ênio Canino no meio da rua e foi esmagá-lo contra a parede do consultório. Assim morreu o dentista. E a notícia de sua morte foi imediatamente transmitida de pessoa a pessoa e já era conhecida pelo povo descontrolado que se reunia nas esquinas em menos tempo do que Sério levou para fechar a boca. Os estalos da vida.

Quando a massa quebrou os cavaletes, e passou por cima dos guardas, Sério correu para dentro do prédio e foi encontrar Magda acordando de seu cochilo. Ainda sonolenta ela disse que sonhara com um linchamento e que agora a vítima seria o próprio Dr Sério Fuss. Lúcifer se esgueirou para a cela e acomodado no colo de sua dona apreciou deliciado quando a turba invadiu a delegacia em perseguição ao delegado.

Só nesta hora Lúcifer miou e sorriu, mas a estas alturas ninguém estava prestando muita atenção num detalhe como esse.

 

Miau e FIM

Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (4 de 5))

02/06/2011

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07

Se os sonhos de Magda haviam chamado a atenção dos meios sensacionalistas após a morte de Calapaentro Crespo, a morte de Astrogildo Gisto se tornou rapidamente num prato transbordante. Sério Fuss viu a pacata Rua das Violetas transformada num pandemônio midiático. Logo ficou difícil saber qual era o inferno maior. Se a fúria de Magda, ou o ímpeto sem constrangimento dos repórteres e dos operadores de câmera.

A verdade é que o suicídio havia acontecido. Exatamente como Magda sonhara. E agora eram dois sonhos realizados. E ele suspendera a operação para aparar o suicida justamente no dia em que aconteceu. Os seus próprios subordinados, anteriormente queixosos e que alegavam não haver sentido no que faziam, agora o olhavam como se ele fosse um péssimo administrador, um imprevidente, ou coisa pior. O seu único cúmplice, o dentista, preferia ficar fechado no consultório, mergulhado em bocas, com as brocas abafando os comentários com seus zunidos acelerados.  Sério usava um “nada a declarar” quando a pergunta era sobre os sonhos, e um “os fatos estão sendo apurados” se lhe enfiavam um microfone na boca em busca de uma explicação para as duas mortes em tão pouco tempo numa rua de sessenta metros.

Para ele parecia que as coisas não podiam ficar piores, mas ficaram. Magda atravessou a rua com o ar de quem sonhara novamente. Desta vez ela vinha acompanhada por um pequeno séquito formado pelos repórteres persistentes e os curiosos da ocasião.

Magda foi até o delegado. Fumegava mas entre a fumaça dava para ver o seu semblante de agora-você-vai-ver. Pediu que o dentista fosse chamado para ouvir o seu último sonho, mas o delegado disse que o Dr. Ênio estava ocupadíssimo naquela manhã e não estava interessado se ela sonhara ou não. Magda afiançou que Ênio ficaria imediatamente interessado quando soubesse que desta vez o sonho era com ele. Opolíneo correu para o consultório do dentista.

08

Assim, um público diversificado, composto pelo delegado, pelo dentista, pelo pessoal da delegacia, por quatro repórteres, e inúmeras pessoas ávidas por algo que enriquecesse suas vidas, ouviu quando ela disse que o Dr. Ênio Canino morreria atropelado por uma ambulância no meio da rua, em frente ao seu consultório, num dia indeterminado, mas num futuro próximo.

Ênio, a vítima em potencial, descrendo das revelações, afirmou que bastaria que ele não atravessasse a rua para que o sonho não se concretizasse. Os microfones se viraram automaticamente para a velhinha, porque sabiam que dali viria a réplica que lhes interessava. E Magda, com um sorriso de desdém, completou que, além disso, exigia ser mantida na delegacia até que o sonho se realizasse ou fossem tomadas medidas definitivas que o evitassem. Pois não estava nem um pouco disposta a ver a sua terceira tentativa de evitar uma tragédia ser jogada fora e, ao mesmo tempo, não queria que desta vez o delegado achasse uma desculpa para relacioná-la diretamente com a morte do dentista.

E assim, uma das duas celas da delegacia foi inaugurada com a presença de Magda, sua cadeira preferida, sua cama coberta por colchas rendadas, sua TV, e Lúcifer.

A notícia de que na delegacia da Rua das Violetas uma senhora de oitenta e tantos anos ocupava uma das celas rapidamente virou notícia com todas as interpretações possíveis. Uns jornais afirmavam que ela havia sido presa pelo delegado para que não pudesse matar o dentista do bairro. Outro dava detalhes sobre os sonhos proféticos e a ineficiência do delegado em colaborar com a santa velhinha em seus esforços para evitar a morte de dois infelizes. Um terceiro garantia que Magda era descendente direta de uma antiguíssima estirpe de profetizas. Houve depoimentos acalorados nos programas de televisão sobre os direitos humanos, a veracidade das previsões de Magda, o surgimento de novas religiões, e a incompetência das autoridades.

O movimento se transformou rapidamente num colossal transtorno. Foram chamados policiais do comando geral para reforçarem o contingente. No terceiro dia o Dr. Sério Fuss empurrou o povo, montou cavaletes de contenção e ordenou o fechamento da Rua das Violetas e das duas quadras da Rua Bispo Escalaverde que levavam à delegacia. Os veículos públicos tinham passagem, mas o trânsito do bairro ficou confuso. Houve protesto dos moradores. Algumas faixas com alusões à insanidade de Sério e outras pedindo a liberdade de Magda passaram a decorar as três bocas de rua. Fanáticos de religiões obscuras montaram barracas nas calçadas próximas ao perímetro isolado. Equipes de cinegrafistas monitoravam o tumulto à distância, de cima de se suas caminhonetes. Repórteres entrevistavam todo mundo e tudo que era insinuado ia alimentar as incansáveis línguas e ouvidos do mundo da notícia. Ficou impossível para o delegado ir para casa. Sério passou a dormir na cela ao lado da que era ocupada por Magda.

09

No quarto dia o Dr. Sério Fuss foi comunicado pela direção da polícia de que teria 48 horas para dar um fim àquela situação insustentável. O delegado passou a considerar a hipótese de estrangular… (continua aqui)

Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (3 de 5))

26/05/2011

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05

Com a porta fechada, e alguns ouvidos colados nela pelo lado de fora, Sério e Ênio ouviram inquietos o relato em que Magda dava ao seu sonho a pintura de um fato consumado. Desta vez, se ninguém tomasse as devidas providências, aconteceria o suicídio de Astrogildo Gisto, o cara baixinho e amalucado que morava três pisos acima de Magda.

Astrogildo, peladão e embriagado, pularia de cabeça do quarto andar no meio da noite. Quebraria o pescoço ao se estatelar contra a calçada e teria morte imediata. Magda disse ao delegado que era só montar um esquema semelhante aos que os bombeiros usam para aparar um saltador, utilizando uma rede de proteção. Ênio argumentou que, se Astrogildo vinha planejando se suicidar, isso poderia ser facilmente evitado. Era só promover o atendimento preventivo do baixinho por profissionais capacitados. Magda desaconselhou essa conduta porque a abordagem introduziria elementos imponderáveis ao determinismo onírico fazendo com que o suicida optasse por outro horário ou até outro lugar e as variáveis de espaço-tempo lhes tiraria a oportunidade de ajudar. O que ficou muito bonito na boca da velha senhora. Confuso, mas bonito, e deu nos dedos do dentista que se saíra com frases também bonitas após a morte de Calapaentro.  Magda completou afirmando que depois de ter saltado a tentativa já fora levado a cabo e no íntimo do suicida em potencial ficaria a sensação de ter recebido uma nova chance de forma quase milagrosa. Aí sim, no andor da mágica, poderia ser ajudado por psicólogos e o escambau. Os dois homens torceram a boca e o nariz, mas não retrucaram. Sério considerou que com a ajuda de mais dois policiais a idéia da rede poderia funcionar. Ênio alegou que tinha uma extração e se despediu. Todos os ouvidos se desgrudaram da porta. Magda admoestou Sério sobre as suas responsabilidades e foi embora. E a vida continuou na Rua das Violetas.

06

Quando Astrogildo Gisto aparecia, saindo ou chegando, os assuntos eram suspensos e todos o seguiam com os olhos; quando ele desaparecia da vista, como num passe de mágica, as pessoas continuavam conversando como se nada tivesse acontecido. Afinal, no primeiro dia, extra-oficialmente ninguém, a não ser Magda, Sério e Ênio, sabia de qualquer coisa. É claro que os policiais tiveram que ser informados de suas atribuições noturnas. E quando a noite fechava e Astrogildo apagava as luzes, Zé Romeu e Apolíneo, com o reforço de dois policiais do distrito mais próximo, munidos com uma grande rede emprestada pelos bombeiros, se acocoravam sob o peitoril da janela do quarto de Magda, e ficavam à espreita na operação apara-gato. Ela ganhara esse nome por que na primeira noite os policiais perceberam um movimento no alto do prédio e às pressas estenderam a rede, mas quem saltou lá de cima foi Lúcifer.

Na terceira noite um dos policiais emprestados foi requisitado e Olívio Zino ganhou um trabalho extra. Na quarta noite o outro policial também foi embora e ficaram só os três heróis que já eram patrimônio da rua. Mesmo havendo um rodízio para descanso durante o dia, após a quinta noite os três foram até o Dr. Sério Fuss e disseram que aquela função, além de extremamente cansativa, estava ficando sem sentido, e já corriam boatos de que o delegado estava com as arruelas frouxas.

Sério pediu só mais um pouco de paciência e foi fazer uma visita para Magda. Ele queria saber se ela poderia dar algum detalhe sobre a data da ocorrência, pois estava ficando difícil manter a sua equipe em plantão permanente. Magda, pacientemente, explicou ao delegado que tal nível de precisão não havia sido incluído naquele pacote, mas que ele podia confiar que as sua providências seriam recompensadas.

Naquele tarde, durante um café no bistrô, Sério comentou o impasse com Ênio. O dentista perguntou ao delegado se ele não havia pensado na possibilidade daquilo tudo como uma pegadinha da velha. Sério sentiu os ouvidos zunirem, engoliu em seco, viu toda a lógica na afirmação de Ênio, imaginou o riso de Magda por trás das cortinas enquanto ele fazia o papel de palhaço, e, ao voltar para delegacia, chamou a sua equipe e desmontou a operação apara-gato.

E naquela noite Astrogildo Gisto escreveu uma carta explicando que dava fim à vida por que, ainda jovem, não pudera salvar o pai que morrera afogado numa pipa de vinho. Astrogildo tentara puxar o velho pelas botas e caíra sentado num formigueiro. Enquanto o velho Gisto era levado em definitivo para as terras de Baco, Astrogildo pulava desesperado tentando catar as formigas grudadas em sua bunda. Assim justificado, Astrogildo saltou para a morte. Exalava o fedor de um parreiral azedo. Estava nu como viera ao mundo. E quebrou a coluna cervical a cento e sessenta e seis centímetros da janela do quarto de Magda. Medidas da vida.

Magda acordou com o plôf do corpo contra a calçada. A Rua das Violetas acordou com os gritos de Magda. E o Dr. Sério Fuss acordou às três da madrugada com o telefonema assustado de Zé Romeu.

07

Se os sonhos de Magda haviam chamado a atenção dos meios sensacionalistas após a morte de Calapaentro Crespo, a morte de Astrogildo Gisto se transformou rapidamente num… (continua aqui)

 

Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (2 de 5))

22/05/2011

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03

O Dr. Sério Fuss foi acordado às cinco da manhã. Da delegacia o informaram que a Rua das Violetas era um caos. Havia um incêndio, um carro dos bombeiros, uma ambulância, uma multidão assustada, uma provável vítima fatal, e uma velhinha histérica exigindo a sua presença e o acusando de tudo que estava acontecendo.

Sério entrou na delegacia pela porta que dava para a Bispo, longe dos olhos de Magda, e Zé Romeu lhe relatou a ocorrência. Lá pelas quatro da madrugada todos foram alertados quando perceberam a crepitação do fogo e o cheiro de fumaça. Foi Zé quem chamou os bombeiros, mas o fogo foi rapidamente alimentado pelos materiais combustíveis do estabelecimento. Não foi possível salvar Calapaentro. Ele costuma beber muito para conseguir dormir. Certamente estava anestesiado pelo álcool. Fumava. Talvez fumasse deitado. Fora uma morte horrível, mas que há de se fazer? Coisas da vida.

Sério quis saber sobre o movimento na rua antes do incêndio. Zé lhe disse que estava tudo normal. O bistrô fechara às dez. Um casal de velhinhos saiu da casa de Gertruda naquela hora. Eles se despediram e foram embora. Magda abriu a janela pelas onze e soltou Lúcifer. As luzes do apartamento de Astrogildo foram as últimas a serem apagadas quando já era quase uma da madrugada. Logo depois um casal de namorados se beijou de forma ousada sob a luz do poste do meio da quadra, quase em frente ao terreno baldio. Zé pigarreou e eles foram embora rindo. E depois tudo ficou calmo até que aconteceu o incêndio.

Sério deu recomendações para que Magda fosse levada pra casa com alguém para lhe fazer companhia. Não pretendia encontrá-la naquele momento. Logo que Magda estivesse fora do caminho queria ser avisado para poder ir até a outra esquina. Ele necessitava conversar com os bombeiros. E assim que o Dr. Ênio chegasse ao consultório queria vê-lo.

Apolíneo pegou a pessoa mais a mão, Gertruda, que de braços cruzados, num longo camisolão vermelho, assistia de longe o trabalho dos bombeiros, e os dois conseguiram arrastar Magda pra casa. Depois avisou Sério, que saiu sorrateiro. Enquanto subia a rua para o norte o Dr. Sério Fuss sentia os olhos de Magda, a espreita, cravados em sua nuca.

O4

Ênio e Sério conversaram no consultório do dentista. O assunto, evidentemente, era qual a relação do sonho de Magda com aquela absurda concretização na noite seguinte. O pragmatismo deles não admitia qualquer justificativa baseada na premonição. Deveria existir uma explicação mais lógica. Foi Ênio quem aventou a hipótese de uma Magda culpada. Será que a velhinha poderia ter provocado o incêndio no armazém? Com o objetivo de fazer valer o alegado aviso que tivera em sonho! Por se sentir desacreditada! Embora fosse difícil imaginar uma senhora octogenária com a habilidade e a capacidade física para levar a cabo tal tarefa. Ela teria contado com a ajuda de alguém? Estavam os dois conjecturando sobre o tema quando Semíramis bateu à porta e pediu que Sério voltasse para a delegacia. Magda estava lá, dando entrevista para a televisão. E tudo que ela dizia era confirmado por Olívio Zino, Apolíneo e Zé Romeu.

Quando Sério entrou na delegacia o mal maior estava feito. Ele sabia que todos os remendos que ele pudesse costurar não seriam suficientes. A mídia recebeu o reforço ávido de dois jornais sensacionalistas. Sério já estava perdendo a compostura quando Ênio tomou para si as atenções ao afirmar que o poder público estava ciente de suas obrigações, mas que não podia pautar suas ações numa premissa esotérica. Aquilo soou bonito. Confuso mas bonito. Tanto que teve a mágica de levar os repórteres a buscarem um fechamento para suas investidas. Os protagonistas presentes ficaram em silêncio absorvendo o significado daquela revelação. O delegado e o dentista trocaram olhares cúmplices. Magda soltou um guincho bufado e foi para casa. E aquilo soou como uma declaração de guerra.

A vida na Rua das Violetas voltou ao normal. É claro que na esquina com a Capaespada ficaram os restos carbonizados do velho armazém. E é claro que a auto-reclusão ressentida de Magda dava um toque destoante ao espírito anteriormente alegre da pequena rua. A aparente tranqüilidade acabou no dia em que Magda atravessou a rua, armada com uma sombrinha, rumo à delegacia.  Semíramis chamou o Dr. Ênio às pressas. Magda voltara a sonhar.

05

Com a porta fechada, com alguns ouvidos grudados nela pelo lado de fora, Sério e Ênio ouviram inquietos o relato em que Magda dava ao seu sonho a pintura de um fato consumado. Desta vez, se ninguém tomasse as devidas providências, aconteceria o suicídio de… (continua aqui)

Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (1 de 5))

17/05/2011

01

Todas as histórias necessitam de um cenário. Esta é uma tragicomédia surreal e não foge à regra. Então, primeiro, vou pintar o cenário:

Magna Pitareta e seu gato Lúcifer moravam na pequena Rua das Violetas. Magda era uma senhora pequenina e simpática, com mais de oitenta anos. Lúcifer trazia no pescoço uma coleira com esse nome. Um dia apareceu por lá e foi adotado por Magda. Ela tentou rebatizá-lo de forma mais católica, mas o gato só atendia pelo nome da coleira e assim ficou.

A Rua das Violetas tinha uma quadra só. Era limitada ao norte pela Avenida Comendador Capaespada e ao sul pela Rua Bispo Escalaverde. No lado oeste a esquina com a Bispo era ocupada pela delegacia de um bairro tranqüilo. Um bom lugar para se aposentar, no pensamento do delegado Sério Fuss. Ao lado da delegacia, indo pro norte, já no meio da quadra, ficava a clínica odontológica do Dr. Enio Canino, e depois, na esquina com a Capaespada, um bistrô, que nas estações quentes estendia suas mesas pela calçada. Do outro lado da rua, na esquina em frente ao bistrô, erguia-se o Armazém Crespo, do gordo Calapaentro Crespo. Ao lado do armazém, agora voltando pro sul, havia um estreito terreno vazio e depois dois pequenos prédios de quatro andares. No primeiro prédio, no apartamento térreo da frente, moravam Magda e Lúcifer.

O nome na rua era outro; o que agora não vem ao caso; mas ela ficou conhecida como Rua das Violetas por que Magda e Gertruda Hans, sua vizinha da esquina com a Bispo, ano após ano, tinham como hábito uma saudável e ritual competição expondo as suas preferidas nas quatro janelas e distribuindo vasinhos por toda a rua.

Naquela rua só transitavam carros do serviço público e bicicletas. Olívio Zino, o eterno guarda da rua, fiscalizava a circulação das crianças, de um eventual pipoqueiro e do jornaleiro. O único personagem estranho, um baixinho chamado Astrogildo Gisto, morava no quarto andar do prédio de Magda.

Era um período de floração e havia uma farta distribuição de violetas para as recepcionistas do dentista e da delegacia. O bistrô recebia sua cota extra. Só Calapaentro não era simpático com as violeteiras. Um velho azedo. E assim ficou pronto o cenário para a nossa história.

02

Numa manhã tranqüila Canino emergia de um molar quando viu, pela janela do consultório, Magda aos prantos, com os braços erguidos, atravessando a rua quase correndo em direção à delegacia. Semíramis, a menina da recepção foi solícita e procurou acalmar a velhinha que permanecia inconsolável. Os seus soluços e a conversa na recepção atraíram o Dr. Sério. Num instante Magda estava rodeada pela recepcionista, pelo delegado, pelo dentista, por Zino e os outros dois policiais da delegacia, Apolíneo e Zé Romeu. Todos, aos poucos, conseguiram que ela explicasse o motivo do seu desconsolo. Lúcifer não morrera.  Suas violetas não haviam secado. Magda sonhara que o Armazém de Calapaentro tinha sido consumido por um incêndio com Calapaentro dentro. E descrevia aquilo com tanta dramaticidade que todos foram até a porta da delegacia e olharam para o norte. E lá na esquina, Calapaentro Crespo, como todos os dias, atendia os seus fregueses baixando com o dedão o prato da balança enquanto ruminava um mau humor crônico. Fora isso parecia tão saudável quanto sua obesidade permitia e alheio aos sonhos de Magda.

Enio e Sério levaram Magda para o escritório do delegado, explicaram que o dono do Armazém estava bem, que tudo não passara de um sonho, que ela deveria se acalmar, voltar para casa e cuidar de seus afazeres, pois nada de trágico havia acontecido. Magda, aos poucos, foi se deixando convencer, mas pediu que o delegado tomasse todas as providências para proteger Calapaentro, pois o sonho fora por demais real para não ser considerado um aviso. O Dr. Sério Fuss deu a sua palavra de que todas as medidas seriam tomadas e aquele sonho ruim não se concretizaria. Por fim Semíramis e Zino acompanharam Magda até o seu apartamento e só saíram de lá quando ela, mais tranqüila, se acomodou em sua cadeira preferida com Lúcifer ao colo.

Naquele dia Magda não veio entregar o lixo como um pacote de presentes como fazia nos dias em que o caminhão passava. O coletor perguntou pro Zino se ela estava bem e quando soube a razão de seu recolhimento achou graça. Aparentemente Magda tivera uma das crises de caduquice tão comuns em sua idade.

Mas naquela noite um incêndio queimou o Armazém Crespo poupando só as pedras do alicerce. E o gordo e infeliz dono do Armazém morreu torrado entre batatas e carretéis.

03

O Dr. Sério Fuss foi acordado às cinco da manhã. Da delegacia o informaram que a Rua das Violetas era um caos. Havia… (continua aqui)