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O boiadeiro já havia dito a João de Santo Cristo!

05/11/2014

José Dirceu, julgado e condenado a 8 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal como mentor do Mensalão, foi solto, após 11 meses, para cumprir o resto da pena em sua  humilde residência. Embalada por penas amenas e todos os desvios atenuantes que a lei oferece, a soltura do Zé dá o tempero da pizza que só não foi servida antes das eleições para que o fato não fosse usado eleitoralmente.  Proféticas as palavras do boiadeiro a João de Santo Cristo em Faroeste Caboclo: “Estou indo pra Brasília. Nesse país, lugar melhor não há.”

Espero que a justiça e a complacência popular pensem da mesma forma a meu respeito se um dia eu estiver no lugar do Zé.

Os mensaleiros presos e o revisionismo histórico.

18/11/2013

Quando os dias de hoje virarem história e essa história for revisionada (vide o caso Jango, cuja exumação, no máximo, levará à adição de uma nota de rodapé com a correção da causa mortis), nada mais poderá ser feito para mudar a realidade, justa ou injusta. Os revisores do futuro poderão até concluir que a verdade sobre o mensalão não é exatamente essa que a mídia hoje nos conta e que, pelo calor da adolescência democrática do país, todos engolem com sofreguidão. Alguns acharão estranha a alegação dos Josés, Dirceu e Genuíno, de que são presos políticos! Como assim? Foram presos pelo próprio partido político deles por motivos políticos? (Isso partindo do pressuposto de que realmente serão presos!) Outros olharão velhas fotos e dirão: “Esse que fez uma capa de super-herói com um lençolzinho deveria ser tratado!”. Detalhistas vão analisar os semblantes dos acompanhantes dele e se perguntarão: “Será que ele apenas estava no lugar errado e na hora errada e não soube como cair fora?”. Muitas outras questões poderão ser levantadas. Por exemplo: Se o chefe da quadrilha era o José Dirceu, por que o Valério recebeu a pena maior? Afinal, no total, quanto foi desviado? Quanto cada um deles conseguiu colocar no bolso? Quais os votos que foram comprados e em que votações? Quem piscou (e quanto custou essa piscada) na hora que o Pizzolato fugiu? E será que tudo não passava, como disse o Rui Falcão, de um “projeto de país” que nos beneficiaria e que só não foi alcançado por culpa da língua de trapo do Roberto Jefferson? E ainda: aquela que não consegue calar! Pensem bem e respondam: quem foi o maior beneficiado com a negociata política? De uma coisa estejam certos: essa última não deve ser feita ao Lula, pois ele não sabe de nada!

O gigante adormecido

20/09/2013

Teorizando! Se o Roberto Jefferson, então um estrela secundária, ao perceber que a própria queda era inevitável, tivesse ficado com a boca fechada, como convinha aos principais protagonistas do governo, nós não saberíamos nada sobre os 2,6 bilhões de reais movimentados, de 1997 a 2005, pelo Valerioduto, mensalão seria uma palavra desconhecida, Dilma e Genuíno, hoje, poderiam ser proeminentes ministros, Delúbio, quem sabe, estaria à frente de uma importante estatal e José Dirceu, ungido por Lula, seria o presidente do país, todos os dias em nossa sala, sorrindo como a estrela do PT, rumo à reeleição.

Pelo menos esse era o plano original! Mas como a canoa furou, se fez necessário um remendo, Dilma virou presidenta, passamos a viver num futuro alternativo que não havia sido previsto, o podre veio a público e o seu cheiro foi negado e provado por nove anos com o nome de ação penal 470. Hoje, sob os olhos crédulos e benevolentes da massa desembolsada, os poderes unidos abençoaram esse teatro, rotulado de esforço das instituições pela governabilidade e manutenção do estado democrático, onde a compra de votos passou a ser institucionalizada, a corrupção um negócio lucrativo e a impunidade, pelo menos quando o ladrão é grande e o roubo é colossal, uma realidade com a qual, parece, vamos ter que nos acostumar.

É infantil pensar que Lula “não sabia de nada”. Assim como é burrice achar que não aconteceu o roubo. Já ouvi, da boca de petistas de peso, que não houve roubo para o bolso de ninguém, ou esse, se houve, foi de pequena monta, mas sim para custear um projeto de governo, de país, pensando no bem do povo como um todo. Lindo!

Mesmo não acreditando nessa teoria da absolvição, podemos entender porque Lula dizia que não havia acontecido nada e, depois, que não sabia de nada. Podemos até entender os esforços do governo para livrar a cara dos companheiros caídos. Afinal, dos encontros para planejar o custeio do projeto de governo devem ter respingado provas para todos os lados. Mais tarde, nas conversas sussurradas, devem ter ocorridos sinalizações do tipo: “Tá legal! Eu seguro o tranco! Mas vocês que ficaram de fora vão fazer todos os esforços para que a coisa seja amenizada! Não seria interessante arrastar todo mundo, não é mesmo?” Foi assim que sobrou para o Valério. O único ladrão sem currículo. Sem companheiros. O estranho no ninho. O bode expiatório ideal. Talvez o mais lento! Sem dossiês. O pato.

Se os bilhões roubados fossem transformados em recursos utilizáveis para salvar vidas podíamos configurar um massacre. Mas como foi tudo no papel fica fácil recitar preciosismos jurídicos e firulas regimentais para encompridar uma novela que já podia ter acabado. Nesse ínterim, o gigante voltou a adormecer, deitado eternamente em berço esplêndido, sob um formoso céu, risonho e límpido, como dizia o profeta Duque Estrada.

Barbosa, Lewandowski e a chicana.

17/08/2013

Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, no julgamento de um dos recursos do mensalão (lembra? aquela novela misteriosa iniciada há 8 anos que trata dos subornos envolvendo… ah! vá ao Google e se informe!), acusou Ricardo Lewandowski de estar fazendo chicana, em referência à análise do recurso, requerendo redução da pena, apresentado por um dos réus.

 O papo foi mais ou menos assim: Lewandowski disse: “Presidente, nós estamos com pressa do quê? Nós estamos fazendo justiça.”

E Barbosa respondeu: “Vamos fazer o nosso trabalho e não chicana, ministro.”

 A corporação judiciária caiu de pau em Barbosa! Esse negro, filho de pedreiro, arrimo de uma família pobre de sete irmãos, que estudou em escola pública e foi funcionário de uma gráfica, não pode faltar com o respeito e usar um palavrão desses, insinuando coisas suspeitosas sobre um dos colegas!

 Para quem não sabe, a palavra chicana significa processo artificioso, abuso de recursos e formalidades em questões judiciais, querela de má-fé, cavilação, razão falsa e enganosa, maquinação fraudulenta, sofisma, enredo, ardil, raciocínio vicioso aparentemente correto e concebido com a intenção de induzir ao erro, premissa ou argumentação cujo propósito se estabelece na intenção de produzir uma ilusão da verdade, apresentando uma estrutura lógica, porém com relações incorretas e propositalmente falsas, discussão argumentativa que supostamente demonstra a verdade, mas que possui em sua essência características ilógicas, todo discurso tendencioso cuja intenção reside na ideia de uma proposta capciosa para que se opte pelo erro, ação realizada com a intenção de ludibriar e enganar, mentira.

 Ainda traduzindo, mas simplificando, chicana significa enrolar para ganhar tempo (ou outras coisas mais substanciosas), quando todo mundo já está cansado de saber que a missa acabou há meses.

Pelo tamanho da explicação pode se entender porque Barbosa usou só a palavra chicana, mais curtinha, embora quase totalmente desconhecida da grande parte da população brasileira.

Mas isso não importa! O fato é que nas altas esferas jurídicas a palavra chicana é considerada um palavrão! E, convenhamos, Lewandowiski, sabedor do significado da palavra e das implicações de seu significado, não podia “lewar” aquele desaforo para casa! Ficou injuriado e devolveu: “Vossa Excelência está dizendo que estou fazendo chicana? Peço que se retrate imediatamente.”

Mas o Barbosa fez um gesto com o braço e a mão direita, que, se fosse traduzido, seria muito pior que dizer chicana, e emendou: “Não vou me retratar!”

Lewandowiski ainda esboçou uma reação indignada: “Como? Vossa Excelência tem obrigação. Eu não admito isso…”

Mas Barbosa bateu o martelo (acho que os juízes devem bater o martelo nessas ocasiões) e fez Lewandowiski engolir o seu não-admitismo, finalizando: “Está encerrada a sessão.”

Cena de filme! Tensa! Caras amarradas no final. Embora eu sempre ache bonitinho como eles se tratam de Vossa Excelência mesmo quando se xingam!

Como cidadão não vou entrar no mérito da elegância de Barbosa. Dizem que a Lei Orgânica daquela casa estabelece que os magistrados devem se tratar com “urbanidade e cortesia”. Até ontem a palavra chicana permanecia como uma coisa perdida nos rodapés do vernáculo e não seria considerada ofensiva para 99,9% dos brasileiros. Mas já que o seu contundente significado veio a público graças à veemente indignação do interlocutor de Barbosa podemos todos nós, de alma lavada, embora ainda com o corpo encardido, concordar com o presidente do STF.

Está havendo chicana? Sim! Alguém está ganhando tempo e dinheiro com isso? Sim! E, além disso, Lewandowki deveria ter a noção do deboche quando perguntou “…nós estamos com pressa do quê?” Ora, senhor juiz, se depois de oito anos de análise o senhor ainda não conseguiu chegar a uma conclusão sobre esse assunto velho e batido em paralelo com a realidade brasileira, eu conheço meninos pobres, que devolvem ao donos carteiras perdidas, que podem  desenhar para o senhor.

O país tem pressa! Pressa de acabar com a corrupção! Pressa de terminar com os assassinatos cometidos por esses homens que estão sendo julgados. Porque cada vez que morre um brasileiro por falta de atendimento, ou de equipamento, ou de medicamentos, que seriam adquiridos com o dinheiro público, eu lhe digo que esse dinheiro nós sabemos onde está e de que forma foi roubado.

O senhor já sabe o que significa chicana. Dispa a toga e desça algumas classes e o senhor vai saber o que significa pressa.

Furos na Constituição

12/12/2012

Independentemente do resultado final, até o momento o Supremo Tribunal Federal deixa claro o que o cidadão comum deve pensar sobre a lei que rege o país. Quatro ministros dizem uma coisa e quatro ministros dizem outra bem diferente. O grupo Barbosa determina que os parlamentares julgados e condenados não podem continuar exercendo os seus cargos. O grupo Lewandowski afirma que a destituição dos réus condenados cabe ao Legislativo. Uns se apoiam na lógica do Código Penal e outros nos contracensos da Constituição.

Pense como um leigo! Se nem os juízes do Supremo chegam ao um consenso sobre uma questão transbordante de obviedades, como nós, pobres mortais, podemos saber o que é o certo e o que é o errado na Constituição? Qual vai ser o significado do Supremo, e do termo supremo, se for devolvida ao Legislativo a palavra sobre o que deve ser feito com os mandatos daqueles que já passaram por CPIs, julgamentos e condenações num processo tão longo que beira o esquecimento? Como pode uma Constituição tropeçar em seus incisos para criar tantas interpretações? Como pode uma Corporação Fisiológica continuar a exigir os seus direitos contra a opinião maciça da sociedade?

Uma coisa é certa! Quando é possível chegar a um quatro a quatro numa questão como essa, podemos concluir uma de duas coisas: ou as cabeças dos juízes estão tirando par ou ímpar, ou a lei é torta.

A Dose do Crime

08/11/2012

Como já virou costume (e corre o risco de ser incorporado ao folclore) a troca de farpas entre Barbosa e Lewandowski ou entre Barbosa e Marco Aurélio abrem capítulos paralelos sobre o que é a corrupção e a justiça. Num determinado momento Barbosa pergunta: “Então corromper o guarda da esquina é o mesmo que corromper um parlamentar?” Admiro a postura severa de Joaquim Barbosa frente ao desafio do julgamento do Mensalão. A situação pede que seja assim! Mas em referência à pergunta vou responder como cidadão: Corromper qualquer um é o mesmo que corromper um parlamentar! A motivação é a mesma. As consequências para a sociedade podem ser diferentes e deduzo que serão tão maiores quanto for a posição hierárquica do corrompido. Mas o ato de corromper, no sentido que se dá à palavra relacionando-a à política, embora pudéssemos dizer o mesmo para qualquer significado que se a dê, nada tem a ver com o status daquele que se deixa levar pela sedução para o crime. O ato é o mesmo. E no tocante ao tamanho do pecado, independente do prejuízo para a sociedade, eu ainda arriscaria dizer que a corrupção é tanto mais imunda quanto for a inocência ou a ignorância do corrompido. Um empresário que corrompe um juiz merece ser preso, junto com o corrompido. Ambos, pelas responsabilidades inerentes aos seus portes, devem ir para a cadeia. Quem corrompe uma criança deveria ser condenado ao inferno. O político que alicia um eleitor ignorante e compra o seu voto deveria ter o seu direito de concorrer definitivamente anulado. Mas o eleitor ignorante deveria ser estimulado a descrever as circunstâncias que o levaram ao pretenso delito, ser educado para que aquilo não aconteça novamente, e, nessa primeira vez, perdoado!

Da lavagem de dinheiro pode ser que sobre sabão pra nossa alma.

03/09/2012

Quem afirma algo prefere estar certo. O contrário seria ilógico. Ninguém normal, aparentemente, defenderia um ponto de vista na expectativa de estar equivocado. Pois isso pode ser contradito! Antevejo, e até com certo prazer, a possibilidade de estar errado sobre as sentenças referentes ao mensalão. E se isso for um sinal de insanidade piro com satisfação.

Claro que sempre é precipitado dizer qual vai ser o desfecho de uma questão jurídica partindo dos indícios até agora apresentados. Há quem lembre da velha máxima que comparava o que ia na cabeça de um juiz com o que podia sair de dentro de uma urna ou da barriga de uma mulher. A ecografia desmistificou a última parte da máxima, mas, pelo menos de forma figurada, ainda não é possível ter absoluta certeza do que as urnas dirão.

E já que as urnas foram citadas podemos embrulhar nesse pacote outras constatações: a Dilma não é o Lula. Enquanto o segundo faz declarações em que nos rotula de burros, ou pelo menos subestima a nossa inteligência, a primeira se mantêm à margem, como, aliás, deve se manter o executivo enquanto o judiciário avalia a questão do momento. Com isso não se afirma que Dilma seja perfeita, ou não esteja aproveitando o desvio do foco para aprontar das suas! Certamente ela não agrada a todos os paladares nos mais diversos menus. Não agrada, por exemplo, ao próprio PT, que dando mostras de estar magoado, gostaria que a presidente tentasse induzir Fux e Rosa, ministros que ela nomeou, a pegar leve em suas decisões. Quando chegamos nesse ponto o que mais surpreende e a indignação pública do partido dos trabalhadores.

Enfim, pode ser que haja políticos presos. Não que fiquem muito tempo ou percam as mordomias! E sobre isso é interessante o que li como resposta de um dos advogados de defesa quando perguntado sobre a reação do seu cliente frente à possibilidade de prisão: “…todo revolucionário se prepara a vida inteira para a possibilidade de ser preso…” – respondeu o digno e mui caro defensor.

Ora! Vejam como são as coisa! Como estou desinformado:! Eu não sabia que ainda havia uma revolução! Ou então: eu não sabia que o assalto havia sido executado nos tempos da revolução!

Enquanto isso, no boteco da esquina, num dos intervalos do julgamento, um cara perguntava pro compadre:
― Quer dizer que vão recuperar a grana que os caras levaram?
― É claro que não! Não ouviu dizer que houve lavagem? Dinheiro lavado se desmancha!