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A relação das endívias com os chifres.

28/12/2011

Sou ex-cátedra em equívocos tais como a da relação entre o touro e as aspas, o que determinaria que toda vaca é mocha. (Mico pago e só morto aos dezoito. Fazer o quê?) Há pouco tempo, num almoço em família, confessei minha frustração ao descobrir, já aos quarenta e me esqueci, que o sagu não dava em tenras vagens de interior felpudo colhidas sob frondosas árvores de um extenso e fresco saguzal. Após risos gerais uma arquiteta presente perguntou: “Então como é que eles nascem?” O que, obviamente, desencadeou uma nova e apoplética onda de gargalhadas. (Ela jamais esquecerá!) Isso prova que algumas certezas que se tem pela vida não são tão certas assim.

Agora, a propósito da ceia de Natal, foi dito que teríamos endívias recheadas. Após alguns segundos alguém perguntou: “Pescadas aonde?”

Irresistível! Passei uns quinze minutos dissertando sobre a origem das endívias pescadas no Mediterrâneo no inverno europeu, que na primavera descem pelo Estreito de Gibraltar até os Açores onde se acasalam com as lascívias, muito mais lúbricas do que as endívias, quando recebi um cartão amarelo de minha esposa e fui pra casa.

Em vinte ou mais anos o ignoto instruído sobre endívias mediterrâneas cairá na realidade e me rogará pragas que não me atingirão no além túmulo. Como é rica a língua brasileira. Como é gostosa a vingança. Pois aquele que hoje não sabe o que é endívia é da mesma espécie daquele que um dia me disse que o touro era o que tinha chifres.

Toma!

O porquê dos porquês.

08/10/2010

Sempre me assalta a dúvida dos porquês em nossa língua.

Por que há tanto porquê?

Porque o falado e o ouvido são indistinguíveis! 

Por quê?

Os cacófatos do campo.

01/10/2010

Cerca, valo.

Lá pros lados de Urubus do Sul é só campo até o fim do mundo; que é onde fica o Uruguai. Por exemplo: pra chegar até a casa da tia Abandono – que ganhara este apelido porque tinha sido abandonada quatro vezes no altar – a gente passava por oito cercas que dividiam os campos dos criadores de gado. Os estancieiros, não felizes com as cercas, faziam um valo fundo de cada lado da cerca. Diziam que era pra drenagem. Eles também diziam que era pro gado não enredar as guampas nos arames e acabar morrendo, mas se a grama das beiradas estivesse verdinha e alta o gado não via o valo e caia. Quando chovia, e o valo ficava a meia de lodo, uma vaca mais desligada se distraia e virava vaca atolada, e acabava morrendo, de qualquer forma, se ninguém fosse puxar o bicho de lá. Nas porteiras os valos eram cobertos por um mata-burro, que servia de ponte para os veículos, mas impedia a passagem do gado. Um dia perguntei pra Abandono porque era mata-burro se ali só tinha gado e ela me respondeu que burro era quem perguntava. A verdade sobre os valos eu soube mais tarde. Quando eles não existiam os espertos mudavam as cercas de lugar e assim aumentavam as suas terras. Uma empurradinha de uns dez metros pra cima de um lindeiro de cinco quilômetros tu já viu! São 5 hectares! Mudar a cerca com os valos realmente ficou mais difícil. Acharam que uma rês perdida aqui e outra ali dava menos prejuízo. Daí vem a cacofonia: “Porque tu chegas sempre atrasado à aula, ô, guri?” “Venho do Urubus do Sul, fessora, é cerca, valo, cerca, valo, que não tem fim!” Coisas do campo.

Toca gado.

Com a tia Abandono morava um mulato grandão e bem escuro. O nome dele era Dirço. Morava no galpão, que a Abandono era virgem. Um dia eu e meu irmão fomos até lá levar uns lençóis de cretone por ordem da minha mãe. Sucede que a Abandono era bamba no bordado vazado que as mulheres gostam nas bainhas dos lençóis. Chamam isto de Richelieu. Eu e o mano passamos pelo último mata-burro e logo depois havia uma cancela que impedia o gado de entrar no azevém. A vara de fora da cancela caiu no barro quando nós a abrimos e como a gente estava com as mãos ocupadas com o tecido branquinho achamos melhor deixar o pau embarrado no chão. Afinal, nós só íamos entregar o cretone e dar no pé. Com a cancela caída surgiu de baixo de um capão umas dez cabeças que eram da Abandono. Até parecia que os bichos haviam adivinhado que a entrada pro azevém estava aberta. Logo atrás veio o Dirço aos berros: “Toca gado, toca gado, toca gado.” Pra quê! Nós dois, moleques, achamos uma graça medonha naquele baita negrão correndo e dizendo que tava cagado. O gado rolou no azevém e a Abandono rolou o marmelo nas nossas pernas. Coisas de guri do campo.

Vez passada.

Um dia a mãe fez umas roscas de aipim e pediu que eu e o mano fôssemos levar pra tia Abandono. Nós, sestrosos, remanchamos o que deu. Lá descansado a mãe fez assoviar no ar uma vara de marmelo e este era o sinal de que a embromação tinha chegado ao fim. Pegamos as roscas e rumamos na direção da casa da Abandono. Entre uma sova e outra a da tia era mais macia. Lá vimos o Dirço cortando cana pra dar pro gado. Nós entregamos o presente da mãe e já íamos embora quando a Abandono nos convidou pra almoçar. O feijão dela era uma fábula. Nisso o Dirço entrou na casa, colocou umas canas descascadas sobre a mesa e largou no ar, sem ser pra ninguém em especial, a dúvida de por que os dois guaipecas haviam rido dele no outro dia. Nós, os estudados, explicamos que ele havia dito um cacófato na vez passada, quando gritara: “Toca gado, toca gado…”. O Dirço fez um “Ah!” de quem entendia, deu uma gargalhada e foi lavar as mãos pra almoçar. Quando voltou fez questão de nos servir e sentamos a mesa. Lá pelas tantas eu quis saber o que era aquilo crocante que havia no feijão, e o Dirço prontamente respondeu: “Cacófato assado”. Coisas da gente do campo.

Nós da língua!

18/03/2010

Procurando informações sobre movimentação de placas tectônicas, aquecimento global, próxima glaciação, derretimentos polares e elevação do nível do mar, caí num blog cujo posteiro (? – agora me bateu uma dúvida de como se chama o cara que escreve os posts de um blog) defendia com unhas e dentes os argumentos de Al Gore. E entre os comentários havia uma brilhante discussão, e explicação, sobre a etimologia de “maiar”, com o significado de prestar atenção, acordar, ganhar os sentidos, ter uma luz (e por aí vai), tudo alicerçado em desmaiar, significando a perda dos sentidos. (Não me perguntem como a conversa havia chegado até este ponto – e nem o link do blog… achei que era sacanagem expor o rapaz, ou burrice me expor ao rapaz!). Não resisti e comentei: Fulano! desmaiar é forma laica do clássico esmaiar (derivado do latim exmagare, significando esmagar, e posteriormente do francês esmalier). Neste contexto quem acorda de um desmaio na verdade “desesmaia” já que em desmaio “des” não é um prefixo mas uma corruptela criada pela junção da letra “d” com “es”, que é parte da palavra “esmaio”, significando aquilo que aconteceu ao esmaiado. Pior é calçar as botas ou botar as calças (explique isto a um Alien!), ou ainda vestir uma meia-calça, já que ninguém tem meia-bunda! Só comentei por vício porque tropecei por aqui procurando as mudanças que o degelo pode causar nos mapas se o nível do mar subir sete metros com “um adeus Groenlândia”. Veja as voltas que os assuntos dão…Saudações.”

Que frescura! Quanta maldade! Olha o perigo que é andar por aí sem capa e galocha.

Nunca parei para conferir a “verdade inquestionável” que eu cuspi naquele blog, mas que o nó ficou bonitinho, ah, isto ficou!

Palavrões

16/03/2010

A evolução da língua redimiu algumas expressões antes consideradas chulas, ou pelo menos suas expressivas derivações, que precisam ser esclarecidas para que tenham os seus reais valores linguísticos reconhecidos.

Cu. Minha avó materna, uma grande contribuinte no enriquecimento da língua portuguesa, tinha especiais maneiras de usar a palavra cu, de forma que em nenhum momento a palavra fosse associada a ânus ou ganhasse um colorido de baixo calão. Exemplifico: (vejam a riqueza nas sínteses e as possibilidades que se abrem para os usuários inteligentes e imaginativos) “Hoje está um dia cu!” – significa, um dia sombrio, triste, chuvoso, que mais vale ficar entocado em casa comendo bolinhos de chuva. Já “Hoje está um dia do cu!” muda totalmente a feição do dia. Um dia do cu é um dia alegre, ensolarado, que pede um passeio ao ar livre. Um mero “do” antes de cu trouxe felicidade para o dia em questão. Outras expressões, talvez já conhecidas da maioria, embora não citadas pelo Aurélio, incluem: “Vai dar um baita cu de boi!”, refere-se à possível confusão resultante de um problema que ainda não é de conhecimento geral; “Ele tirou o cu da reta!”, significando que alguém conseguiu se livrar de uma situação embaraçosa; ou, a já clássica: “Quem tem cu tem medo!”, aplicável ao silêncio compulsório que alguns indivíduos adotam para não dizerem algo que os comprometerá na certa.

Caralho e Boceta, abertamente proscritas, são duas palavras de uso grosseiro que ganharam, recentemente, verbos derivados de extremo valor retórico. Encaralhar significando enfeitar, arrumar, elevar o padrão, e desbocetar significando estragar, desarrumar, e enfeiar. “A casa estava toda desbocetada quando Maria, como uma fada, começou a volutear, de lá para cá, e a encaralhou toda.” É dito também do resultado do trabalho de um profissional: “Ernesto é um ótimo encaralhador, já Jânio, desajeitado como é, desboceteia tudo em que põe a mão”. Nota-se que em nenhum momento houve conotações de ordem sexual na aplicação dos verbos. Dizer: “Como está encaralhada a sua roupa!” é um elogio. Assim como: “Este seu chapéu está todo desbocetado!” é uma crítica direta ao mau estado do chapéu. A única ressalva que pode ser feita quanto à aplicação dos dois verbos é o porquê de encaralhar ter um sentido positivo e debocetar  um sentido negativo. Embora pareça que há aí um velado machismo é importante esclarecer que a língua evoluiu sem se preocupar com as diferenças sexuais.

Puta-Que-O-Pariu, segundo a minha mãe, é um lugar para onde vão os políticos corruptos, os padres pedófilos, os médicos sacanas, os advogados e os proscritos em geral. Deve ser um lugar rico  pois para lá também são mandados os bancos, os planos de saúde, os serviços de tele-marketing, as repartições públicas, e mais uma infinidade de outros estabelecimentos e serviços que são gerenciados ou onde trabalham indivíduos que agem e se expressam como os primeiros citados. É diferente de “Puta-que-pariu!”, que é uma exclamação de espanto. Veja o exemplo: “O Sena morreu!” – “Puta-que-pariu!”. Notou que há uma grande diferença na conotação e na entonação dadas? Observe sob um ângulo comparativo: “A tia Dagoberta ganhou na mega sena…” – “Puta-que-pariu!” – “…e fugiu pra Europa com o marido da vizinha!” – “Vá pra Puta-Que-O-Pariu!!”. No sentido de lugar a expressão  vem com o conjunto prefixal “vá pra”, e ganha a letra “o” (foneticamente “ô” em “que-o-pariu”) semelhantemente ao que acontece nas mesóclises verbais.

Mamãe acha que Puta-Que-O-Pariu também pode ter o significado de lugar incerto, como quando se pergunta por uma pessoa que não se vê há muito tempo: “Tens visto o Zé?” – “Acho que andou morrendo ou foi pra puta-que-o-pariu”. Neste caso a expressão “vá pra” muda para “foi pra”, perdendo o caráter imperativo afirmativo e sendo utilizado o pretérito perfeito, mais explicativo.

Não podemos nos esquecer que pentelho já foi palavrão até ser popularizado pelo Faustão como um moleque ou um chato. Merda também teve seus maus momentos até ser tornada chique pelo Presidente Lula referindo-se ao estado de pobreza dos assistidos pelo Bolsa Família. Bunda foi glorificada de uma forma artístico-rebolante pelas melancias, filés, morangos, melões e outras especiarias culinárias. Puta e puto foram definitivamente enterradas como palavras feias para não ferir suscetibilidades de além-mar após o acordo ortográfico da língua portuguesa. Até foda está em vias de perder o aspecto sexual graças à expressão: “É foda!” quando você se sente injuriado pelas ações de homens públicos e não pode dar uma resposta honrosa.  Ou até: “Foi foda!” em resposta a uma pergunta corriqueira como: “E então…como foi o teu pedido de aumento?”

Há dúvidas! duvidas?

31/12/2008

…reforma ortográfica… 

Graças à ABL as dúvidas permanecem como estão! Se até elas fossem modificadas seria o caos! (Portanto, parece, que as proparoxítonas permanecerão acentuadas.) 

“Por que tanto porquê?” os fiéis perguntavam atônitos…ao que o cura vociferava: “Porque assim está escrito!  ô porra…! vocês não têm fé  por quê?”

  Será inevitável a confusão e a dúvida na hora de escrever mülleriano e nem o corretor do Gates poderá nos ajudar nesta hora. (Embora, por falar no tio, vislumbrem-se cifrões em futuro próximo!) No entanto nós nos adaptaremos inevitavelmente, a despeito de quaisquer esperneios. Haverá um compreensível período de transição em que as formas velhas se imiscuirão afrontadas. Continuaremos a nos comunicar com ou sem hífen, e não fará a menor diferença a ausência de trema em caso de sequestro…

Minhas maiores dúvidas são de outra ordem…  Se é verdade que a língua está viva,  será que as palavras não se rebelarão nos traindo, repentinamente, em seu significado,  no momento mais impróprio, protestando por terem sido modificadas a sua revelia? Será que vou conseguir aquecer o leite para o café da manhã em meu novíssimo micro-ondas? Será que o velho não era um microondas que funcionava por emissão de micro ondas enquanto este novo ficará na dúvida sobre seu princípio de funcionamento, engasgado por um hífen? E se pelo motivo inverso um paraquedas se negar a abrir reclamando a falta de um hífen? Você se sentirá tranquilo durante o voo? ou será acometido por uma intranqüilidade sub-reptícia ao perceber que se trata de um vingativo vôo? Será paranóia ou paranoia? Duvida?