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Gilmar e Eike

04/05/2017

É difícil entender as leis. Eiki Batista, antes o empresário mais rico do país, estava preso por conta da Lava-Jato. Não tente compreender o crime do cara, enquadrado financeiramente e com um volume que justificou o bloqueio de um bilhão e meio de reais, seja lá o que isso signifique. Pois Gilmar Mendes mandou transferir o Eiki para a sua mansão de 20 milhões. Gilmar Mendes é ministro do Supremo Tribunal Federal e casado com a doutora Guiomar Feitosa de Albuquerque Lima Mendes; ele Gil e ela Guio, nas intimidades simplificadas do lar. Guiomar é advogada e trabalha com Sérgio Bermudes, um dos mais conceituados e requisitados advogados do país. O escritório de Sérgio Bermudes cuida de alguns interesses de Eiki Batista, o do habeas corpus concedido por Gilmar. Há quem justifique toda essas coincidentes voltas, que não foram suficientes para o impedimento do ministro na soltura do preso, com sutilezas entre objetos de áreas penais e áreas cíveis, dois bichos de espécies alienígenas, como se dois arquivos com assuntos diferentes impedissem que as duas pessoas que os seguram se conhecessem, embora trabalhem juntas, ou durmam juntas. A verdade é que um juiz experiente pode, quase sem querer, tropeçar em incisos de artigos que descrevam caputs com brechas que, data vênia, transmutariam conhecimentos mútuos passados em caludas futuras. Há furos que são muito a propósito!
Nessas horas me vem à mente aquela piada velha do advogado ateu que, no leito de morte, lia sofregamente a bíblia! A freirinha perguntou pra o médico: “Que bonito! Ele se converteu?” E o médico respondeu: “Que nada! Ele está é procurando um furo na lei!”

Fachin, o sorteado.

05/02/2017

Digitei Fachin no Google, para saber quem é esse novo personagem que, seguindo o script da desconcertante história nacional, usará sua rebuscada retórica pra justificar o injustificável. E vejam que surpresa o algoritmo googleano me aprontou com suas sugestões… STF eu sabia! Relator da Lava-Jato é a notícia da hora. Mas MST? Como assim? “Amigo do Lula” e petista?

Mudei para Edson Fachin! (O Google só podia estar falando de outro Fachin!) Mas deu a mesma coisa. O personagem não era tão novo assim!!! Era tão velho quanto a minha inocência…

(Na sequência alguns comentário…)

 Brasil das coincidências. (Carlos Souza)

As pessoas acham idiotice acreditar na teoria da conspiração… Mas, ironicamente, não se sentem idiotas acreditando na teoria da mera coincidência. (Jaime Maggi Fernandes)

Ambas (a da Conspiração e a da Mera Coincidência) são extremos. A teoria é de que os extremos apenas tentam ser definitivos, mas não conseguiriam obter a permanência necessária. Afinal, nada poderia explicar a eterna coincidência e nem a eterna conspiração. Ambas exigiriam uma idiotia universal e permanente e nem todo mundo seria completamente idiota, pelo menos não durante o tempo todo… Ou, pensando bem, talvez a Grande Corporação (minha teoria preferida!) apenas esteja esperneando em seu processo sucessório… Essa sim, a gigante translúcida e inodora, continua trocando de mão, pois não podemos esquecer que numa corrida de revesamento o bastão é o único objeto que corre a corrida toda. (Romacof)

Achas pouco plausível a idiotia ser (quase) universal e permanente? (Arthur Golgo Lucas)

É a fé, Arthur! É a fé! (Romacof)

O fato já era sabido  quando Fachin foi nomeado ao STF. Um escândalo, na época, exatamente pela questão ética, pois não apenas defendeu interesses objetivos do PT como subiu no palanque, nas eleições, em defesa da Dilma. E o “sorteio” na segunda turma não é exatamente aleatório… O sistema calcula o número de processos que cada ministro tem sob sua responsabilidade e ganha quem tiver menos. Quem tinha menos processos e foi para a segunda turma? Não foi casualidade.(Elisa Gomes)

O boiadeiro já havia dito a João de Santo Cristo!

05/11/2014

José Dirceu, julgado e condenado a 8 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal como mentor do Mensalão, foi solto, após 11 meses, para cumprir o resto da pena em sua  humilde residência. Embalada por penas amenas e todos os desvios atenuantes que a lei oferece, a soltura do Zé dá o tempero da pizza que só não foi servida antes das eleições para que o fato não fosse usado eleitoralmente.  Proféticas as palavras do boiadeiro a João de Santo Cristo em Faroeste Caboclo: “Estou indo pra Brasília. Nesse país, lugar melhor não há.”

Espero que a justiça e a complacência popular pensem da mesma forma a meu respeito se um dia eu estiver no lugar do Zé.

Como são as coisas no Santinho! (02 de 12)

18/01/2014

Capítulo 02 – O que é justo é justo!

(Para saber como começa essa história clique aqui!)

Noutro caso fui um protagonista indireto, ou, pelo menos, o indutor da história.

Num certo período da minha vida fiz plantões num posto de saúde do Santinho. Eu tinha um FIAT 147, o Carrocha, que era velho, mas era o meu cavalo. Sem ele seria difícil a locomoção da minha casa ao bairro e naqueles altos e baixos. Um dia inventei de trocar de carro e fiz um negócio casado envolvendo o dono de um GOL e um picareta do Santinho que queria ficar com o Carrocha. O picareta levou o FIAT para dar uma ajeitadinha e disse que me pagaria no dia seguinte. Mas no quarto dia eu ainda não tinha visto a cor do dinheiro, e tampouco a do comprador ou a do velho FIAT. Dessa forma, me sentindo logrado, sem ter o dinheiro para completar a compra do GOL, tendo que subir a pé o Santinho, cheguei atrasado, cansado e irritado ao posto de atendimento médico.

Quis o acaso que meu primeiro paciente fosse o Dódi, queimando de febre em consequência de uma amigdalite aguda. Depois da consulta pedi desculpas pelo atraso à Luciana, a mãe do garoto, e sucintamente relatei o fato de ter ficado a pé por ter sido enganado por um negociante de carros usados.

Três dias depois, num fim de tarde, com a clientela atendida e o posto praticamente deserto, a recepcionista, distraída, teve um sobressalto quando duas figuras praticamente se materializaram no outro lado do balcão.

― A moça trabalha aqui? ― Perguntou Fino, educadamente.

― Tr-trabalho. ― Gaguejou Ritinha, quase deixando cair os óculos de míope.

Fino, vendo que a menina havia ficado assustada com a silenciosa chegada deles, procurou ser o mais gentil possível. Fez um gesto com a mão apresentando o Coisa-Torta.

― Não se assuste com meu cunhado! Ele é feio, mas é gente boa!

― Ãh, ãh!

― Muito prazer! Meu nome é Liturgo, mas pode me chamar de Fino! É como sou conhecido aqui no Santinho.

― Sim. Sei. ― Tentava se recompor, Ritinha.

― Coisa-Torta! ― Fino franziu a testa para o cunhado como se o repreendendo pela carranca que não se aplicava naquela hora e lugar. ― Sorria e diga um olá pra senhorita!

― Grunf! ― Disse o Coisa. E Fino, vendo o resultado da tentativa do cunhado em sorrir, achou que a cara natural dele era mais bonita.

― Ele não fala muito; ele é meio-irmão da minha Lu… Luciana.

― Sei. Conheço.

― Tem um doutor que trabalha aqui. Usa óculos… tem barba.

― Sei. Sei.

― Ele está?

― Não! Ele atendeu às consultas da tarde, mas já foi… Ele tinha que pegar o ônibus… Ele está sem carro… ― Tentou explicar Ritinha.

― Exatamente por isso… por causa do carro, digo, é que estamos aqui. O doutor tratou do meu menino. A Lu o trouxe outro dia. Um neguinho que é a coisa mais amada! Ele tem uma pinta aqui na bochecha.

― Hum. Hum. Estou lembrada!

― Viemos agradecer.

― Ah! O menino ficou bom? ― Exclamou Ritinha, finalmente aliviada.

― Está que é um demoniozinho! ― E o sorriso do Fino era de um pai realmente feliz por saber que o filho havia recuperado totalmente a capacidade de ser endiabrado.

― Nós gostamos de saber quando o paciente se recuperou…

― Queremos também agradecer porque o doutor foi muito respeitoso com a minha Lu. ― E o Fino se debruçou sobre o balcão e baixou o volume da voz, como para contar um segredo. ― Não sei se me faço entender…

― Ah…! Sim. ― Sussurrou Ritinha, sem saber por que sussurrava e se realmente entendia.

Fino fez uma pausa mais prolongada enquanto avaliava a recepcionista e por fim resolveu revelar o motivo da sua vinda.

― Nós ficamos sabendo que o doutor vendeu o carro para um picareta daqui do Santinho e esse comerciante ficou em débito para com o nosso doutor. ― E como Ritinha permanecesse muda Fino resolveu perguntar:― Acompanhando?

― Não sei…!Claro! Acho que sim! ― Disse Ritinha, confusa.

― Não? Sim? Sei? Não sei?… A senhorita sabe do que eu estou falando?

― Cl-claro! ― Confirmou Rita.

― Então nós – eu e o Coisa-Torta – tomamos a liberdade de fazer uma visita para o indivíduo citado.

― Prainducá! ― Grunhiu o Coisa.

― Oh! Viu? O Coisa-Torta no fundo tem a alma de um educador.

― Sim! ― Ritinha abriu mais os olhos e eles ficaram enormes por trás das lentes grossas.

― Esse envelope tem a quantia que aquele senhor ficou devendo. Peço à moça o favor de entregar isso para o doutor com os cumprimentos do Fino e do Coisa-Torta.

― Mas…

― Diz que é pela saúde do menino. E diz pra ele que amigo do Fino é irmão do Fino.

― Digo.

― E diz também que é como um irmão do Coisa-Torta, que, nunca esquecendo, é o dindo… E Deus me livre acontecer algum mal pro meu menino!

― Grunf! ― Confirmou o Coisa.

― Vocês… Não aconteceu nada com o homem? ― E Ritinha já estava arrependida por ter feito aquele tipo de pergunta para a qual não queria saber a resposta.

― Que homem? ― Perguntou Fino, aparentando estar genuinamente surpreso.

― O pica…! O cara da dívida!

― Não sei de cara nem de homem, moça. Viemos aqui só para agradecer pela recuperação do meu neguinho. Foi um prazer conhecê-la! Passar bem! Transmita saudações ao doutor. ― E com uma vênia deu meia volta e foi embora.

― Transmito. ― Disse Ritinha, segurando um envelope pardo e ajeitando os óculos.

― Grunf! ― Disse o Coisa-Torta, com as mãos às costas, já lá da porta.

(Continua…)

Como são as coisas no Santinho! (01 de 12)

14/01/2014

Capítulo 01 – Nem tudo o que é teu é meu! 

Poucos o conhecem por Liturgo! Lu, Luciana, sua amada esposa, sabe o nome de batismo do marido, mas no chamego o trata de Tutu. Talvez só Paulo, o Biduzão, o chame pelo nome, mas Biduzão é doutor advogado, gente culta; nem ficava bem descascando apelidos nas tratativas profissionais. Todos os outros o chamam de Fino, até o Chefia e pra todos os efeitos esse é o seu nome de guerra. Na lida da vida Liturgo é o Fino; sempre foi. O apelido decorre de sua estatura e porte físico. Fino é todo fino, do rosto às extremidades. Lu já é uma morenaça, bem um palmo e meio mais alta do que o marido quando ao rés do chão. De salto alto ela se perde nas alturas! Mas isso não deixa Fino complexado, pois ele sabe que aquela mulher o adora e o respeito entre os dois é antológico no Santinho. Além do mais, Fino se garante como homem em todos os sentidos e ninguém desconhece o fato de que não seria bom para a saúde fazer qualquer malícia com a diferença de estatura entre eles ou com a fidelidade de Lu. Ele tem orgulho dela e de ostentá-la como uma estupenda conquista que personifica a capacidade dele como macho e líder. Lu lhe deu um filho, o Dódi, que foi batizado como Dorival. Dódi é um crioulinho magro de nove anos.

Naquele mundo de verdades cambiáveis e condutas discutíveis, Fino tem um eterno e diplomático jogo de braço com o Chefia, o Luigi Fettuccine, o capo da Separados da Unidos do Santinho; uma outra novela envolvendo métodos com os quais nem sempre Fino ou Biduzão concordam. Mas aí teria que entrar na história de Zuzu, numa salada pitoresca e picante, que vou contar mais tarde para não me desviar do assunto.

Fino é um cara branco, com um bigode bem recortado, que veste roupas de executivo, muito raramente dispensando o paletó e a gravata. Ele está sempre acompanhado de uma sombra, o Coisa Torta, um meio irmão de Lu e padrinho de Dódi. Embora Lu seja negra o Coisa Torta é quase branco. É alto e muito forte, tem um corpo quadrado e a cara assimétrica é que lhe deu o apelido. Ele compensa em força o que Fino compensa em inteligência e não se vê um sem o outro. Quando surge um trabalho que se enquadra na especialidade deles não se diz que aquele é um serviço para o Fino ou para o Coisa Torta. Sempre se diz: “Essa é uma tarefa para o Fino e o Coisa Torta.” Como se fosse um nome só. Para consumo popular nunca se soube qual era o nome verdadeiro do Coisa. Ele surgiu mais tarde na família, um pouco antes do nascimento do Dódi. A fidelidade bovina do Coisa, somada à bondade com a Lu e o menino, fizeram com que Liturgo adotasse aquele meio cunhado. Coisa Torta pouco fala, mas tem o hábito de grunhir quando respira com a boca fechada. Esse costume o torna duas vezes mais assustador; o que é muito útil naquilo que eles fazem.

Na escola de Liturgo a primeira coisa que se aprende é que o que é dos outros só pode ser teu se o outro for do mal. Tirar de panaca é o mesmo que roubar de criança. Não tem perdão. O fato de se usar os mesmos métodos do bandido sem consciência se justifica porque nesse mundo de baixo deve se falar a mesma língua, só que com discernimento, além de classe e honra. O que deve prevalecer é a justiça! Por mais paradoxal que isso possa parecer para quem não é do ramo. Se quer ver o Fino puto é só fazer uma injustiça! Ele até dá um tempo para o cara se mandar, mas não apareça mais na frente dele!

***

Dois moradores do Santinho – Critério e Suzuki – estavam encostados a um muro perto do supermercado, na vagabundagem da adolescência desvirtuada. Os dois faziam alguns trabalhos sujos para o Chefia, mas o japa, Suzuki, era dado à chapação, e naquele dia não se podia dizer que ele estava do lado de cá. Critério, na campana, fazia o seu papel de aprendiz de delinquente e estava atento ao movimento do entra e sai dos clientes do supermercado.

― Tá vendo o carro da pinta? ― Falou Critério, usando a mão para esconder o movimento da boca. Suzuki desceu dum limão e teve alguma dificuldade ao se desvencilhar de dois pequenos micos roxos que teimavam em subir por suas canelas magras. Levou alguns segundos para entender o que era um carro e que o papo era com ele.

― Tôôô! ― E depois ele realmente viu um carro esvoaçante e multicolorido que pulsava e resfolegava quase na boca de um dragão.

― Baita carrão! ― Avaliou Critério.

― Baita. ― Babou Suzuki.

― A mina da pinta é a maior vacilona! ― Continuou Critério, fazendo o seu diagnóstico da situação.

― !? ― A aparente guinada no assunto acordou o japa um pouquinho mais enquanto um pedaço de seu cérebro lutava para tentar conectar um “baita carrão” com “mina vacilona”.

― Quando encosta nem chaveia. ― Explicou Critério.

― É? ― Perguntou o companheiro quase chegando lá.

― Sóóó. ― Espichou Critério, numa afirmativa sintética de sua constatação.

― Beleza! ― Disse Suzuki, usando uma fórmula reflexa que certamente agradaria o seu interlocutor sobre qualquer assunto, fosse ele qual fosse.

― Ligou dois e dois? ― Perguntou Critério, aparentemente não se dando conta do lastimável estado do companheiro.

― Quase…! Ajuda! ― Suzuki, tentando manter toda a atenção na transcendental explicação que viria, torceu as mãos e cerrou os olhos para as coisas que dançavam a sua volta.

― O critério é o seguinte: nóis fica na espreita… Vacilou!… Nóis acha! Sacou? ― Traçou Critério, o estrategista.

― Saquei! ― Disse Suzuki, eufórico, mais com a sua capacidade de compreensão do que com os ganhos decorrentes do possível roubo.

― E achado não é roubado!

― Beleza! ― Suzuki começava a ver as possibilidades.

― Dispois nóis vende por dois pau.

― Iiisso! ― Agora Suzuki já conseguia enxergar a cara de Critério através de uma nuvem amarela e sorridente.

― E defendemo o pó das criança!

― Criança? Quem tem criança? Não me mistura o troço! ― Gemeu Suzuki.

― As criança semo nóóóis! Anta travada!

― Belezura! Belezura! ― Quase gritou o japa, agora realmente sacando o plano de Critério.

― Então vamo nessa!

― Peraí…! ― Suzuki agarrou o braço do companheiro enquanto segurava a própria testa com a outra mão.

― Pensando? ­

― Tô! Tá saindo… Dói… Peraí…!

― Pensa logo. ― Impacientou-se Critério.

― E o comprador? ― Perguntou Suzuki num lampejo de pertinência.

― Já tenho!

― Jááá? ― Surpreendeu-se o outro. ― Mas que rápido! Quem?

― O critério é vendê pra pinta do carro.

― Como assim? Tu acha qu’ele vai querê?

― Claaaro! Qual o trouxa que vai deixar de comprar um carrão desses por dois pau? Maior negocião!

― Beleeeza!! ― Exclamou Suzuki já quase de cara. ― Maaano! Ma como tu é esperto! Podia inté sê político.

― Podia! O critério é esse… Mais dispois…

Estratégia feita os dois entraram no carro, Critério puxou dois fios de sob a barra de direção, fez uma ligação direta e em vinte segundos estavam a uma quadra dali.

***

Mas como tudo que acontece no Santinho, um lugar em que a polícia é meramente decorativa, antes do fim da tarde o acontecido já estava nos ouvidos do Fino, que apurou todas as pontas da operação e mandou chamar os dois ladrões de carro.

Fino, tirando o casaco e o pendurando cuidadosamente nas costas da cadeira que iria ocupar, afável e pacientemente  introduziu o assunto, enquanto Coisa Torta grunhia algo de pé as suas costas.

― Fiquei sabendo que os dois autônomos andaram fazendo uma transação lucrativa!

― Nós achamo um carro de banda e pegamo emprestado inté o dono dá as cara. Sacou? ― Resumiu Critério com um olho nas gentilezas de Fino e o outro na carranca do Coisa Torta.

― Bonito! ― Sorriu o Fino.

― O critério é o seguinte: nós racha pra não ficá com cara de roubo só nosso! ― Contemporizou Critério, enquanto Suzuki, mudo, fazia frenéticos meneios afirmativos a seu lado.

― Mas que visão a sua, Critério…! Bem se vê que é um homem de negócio! ― Continuou Fino, dando corda para os pequenos bandidos.

― Nós do ramo sintendemo, né doutor? ― Critério empinou o peito, já mais confiante.

Fino rodou a cadeira, ficou de frente para o Coisa Torta e disse:

― Anota aí que preciso cobrar da professora de português mais empenho no ensino da nossa língua aqui no Santinho. Só de pensar que vou envelhecer tendo que ouvir essa lastimável demonstração de ignorância linguística me deixa nauseado.

― Ghruuunf! ― Rosnou o Coisa Torta, enquanto Critério e Suzuki, sentados em cadeiras de pernas curtas, num plano um pouco mais baixo, enfiavam as mãos entre os joelhos e se olhavam inseguros.

― Vocês sabem de quem é o carro? ― Perguntou Fino.

― Duma pinta aí…! Qui nós vai contatá pra cobrá! ― Respondeu Critério.

― Pois eu sei de quem é o carro e já o contatei! ― Disse o Fino.

― Mior intão! Se o doutor tá na parada a coisa já fica oficial… facilita pra ambas as duas parte e dispois nóis racha!

― O carro pertence a um homem honesto e trabalhador, que nunca fez mal a ninguém.

― Mas é um cagão casado com uma tapada…!!

Fino suspirou e continuou ainda mantendo o seu estilo.

― Vou dizer pra vocês o que vai acontecer. Não me interrompam e prestem bem atenção pra não ficar cansativo. O dono do carro está atrás daquela porta. Eu vou chamar o cara. Vocês vão devolver o que é dele e vão pedir desculpas. Depois, muito rapidamente, vão desaparecer daqui do Santinho e vão rezar todos os dias pra nunca mais aparecerem por aqui nem por descuido, ou o Coisa Torta vai achar vocês e, pelo menos, capar vocês. Ficou alguma dúvida?

― Mas… ― Critério arregalou os olhos. Suzuki estava pálido.

― Aqui no Santinho gente boa está imune, entenderam? Vocês quebraram a regra mais básica dessa comunidade. Se a coisa não for assim isso aqui vira um banditismo só. E fim de papo.

A um sinal de Fino, Coisa Torta abriu a porta e entrou o dono do carro acompanhado por Fettuccine e Biduzão. Critério chegou a ter uma pequena esperança quando viu o chefe, mas logo a descartou. Ele não passava de um peixinho muito pequenininho e os tubarões estavam todos mancomunados.

O Coisa Torta foi designado como acompanhante do dono do carro até que o produto do roubo fosse devolvido. Fettuccine, com as mãos nos bolsos, encolheu os ombros e torceu a boca para Critério e Suzuki como quem diz: “Não posso fazer nada! Você fizeram merda e se lambuzaram!”

Foi Biduzão quem falou.

― O Chefia descolou uma grana pra que vocês possam rapar daqui sem que a polícia seja acionada. Vocês vão permanecer monitorados. Tenham um bom comportamento no lugar que escolherem pra viver. Fazemos isso em consideração à juventude de vocês, pra que tenham uma nova chance e, por favor, não nos façam ficar arrependidos disso…! Vocês sabem muito bem que não temos o costume de apagar arquivos, sistematicamente…! Espero que compreendam!

E os dois saíram mudos, acompanhados pelo Coisa e pelo outro homem, na incerteza se aquele papo não era todo para consumo externo e se eles viriam a luz do próximo dia…!

Enquanto isso Fettuccine esfregava as mãos e dizia:

― Tutto va bene se finisce bene. Que tal um vinho na minha casa pra comemorar a solução do problema?

― Agradeço, mas vou dispensar! ― Sorriu o Fino colocando o casaco. ― Luciana está me esperando pra uma janta muito especial e a patroa fica uma fera se eu não apareço… Vocês conhecem bem a minha Lu!

(Continua…)

Embargos infringentes!

13/09/2013

Embargos infringentes! Quando nós, que moramos no lado de cá, bem abaixo do Olimpo, movendo a máquina e sustentando o mundo, pensamos que já ouvimos tudo que é jargão jurídico, surgem outros e outros, como coelhos paridos de uma cartola mágica e inesgotável! É claro que aquilo que vira rotina perde a capacidade de surpreender, mas não a de indignar! Principalmente quando sabemos que esses mirabolantes desvios ferem o sentimento democrático e a ética, essa prima esquecida da justiça, fazendo honras mais às letras num pedaço de papel. E isso parte do Supremo Tribunal Federal! Acima do qual não há a quem recorrer. Depois de nove anos de julgamento? Depois de apreciar provas aos quilos? Vocês, nobres e letrados doutores da lei, vão julgar novamente o que já julgaram? E no caso de um condenado, redivivo graças às manobras de protelação, receber novamente quatro votos pela absolvição, cabe um novo embargo infringente? E novo julgamento? Ad eternum? E ainda se ofendem quando alguém enfia o dedo nessa ferida escancarada que fede à chicana?

Eu gostaria de cometer uma boa dúzia de crimes. Todos em nome da moralidade e do bom senso, mas todos – não queiram entender – absolutamente ilegais. Já pesquisei! Nenhum deles é hediondo, mas cinco não prescreveriam e um seria inafiançável! Estou apenas esperando o voto do Celso de Mello. Havendo um precedente posso me deitar na jurisprudência. Dispenso advogado. Faço a minha própria defesa. Quero ser julgado pelo Supremo. Se eu for condenado; e vou ser; tenho convicção disso; assim como tenho convicção de que os argumentos que já preparei para justificar cada um dos meus crimes podem, com folga, obter quatro votos pela absolvição; vou encher a boca exigindo um embargo infringente. E depois do rejulgamento, mesmo sendo reacusado, não serei preso! A aposentadoria ou a prescrição vão atropelar esse novelo jurídico de araque. E eu vou rir da cara desses juízes! Desses infringentes!

A realidade prescreveu.

19/08/2012

Prescrever, no jargão jurídico, significa ficar sem efeito por ter decorrido um certo prazo legal, perder-se por prescrição, ou cair em desuso. Procrastinar significa deixar para depois; o mesmo que empurrar com a barriga. Os fatos, observados por nós na vida política, são tratados desta forma. São procrastinados até prescreverem. Um dia caem no esquecimento ou, de forma mais trágica, no não-conhecimento.

Eu conversava com uma roda de jovens com a idade média de 21 anos. Todos adultos produtivos, alguns pais ou mães, todos motoristas, eleitores e pagadores de impostos. Num determinado momento alguém comentou sobre a veemência de um dos advogados defendendo um homem público que teria sido injustamente acusado por algo que não havia acontecido, a meia vida de distância no passado, num dos governos que haviam transitado por aqui. Fiz as contas. Quando veio a público o episódio do mensalão, um termo tratado com ironia e desconhecimento pela maioria dos presentes, o jovem comentarista teria uns 12 anos. Não demonstrava, agora, ser um alienado, mas na época o foco do seu interesse certamente era outro. No seu julgamento, e de todos os de sua geração, essa aberração política pode ter acontecido numa outra encarnação, em outra dimensão, ou talvez tenha sido uma obra ficcional de gosto duvidoso, totalmente dissociada das coisas que significam algo para ele.

Quando tentei argumentar sobre o quanto a corrupção pode ser nociva, destituindo a necessária confiança no poder público, e de que forma aqueles homens haviam roubado de todos nós, outro jovem me matou: “Qual é, tio!? Nós nem sabemos se isso realmente aconteceu! É possível que o golpe esteja exatamente na tentativa de nos fazer acreditar que os caras são culpados! Sacou?”

Nós estamos destinados a viver eternamente na fantasia de que a coisa tem conserto? Pensando bem, acho que a realidade prescreveu.