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Coisas que todo sexagenário deveria saber!

23/01/2013

 

  1. Ler obituários não faz bem pra saúde!
  2. Se você quer ter o prazer de chegar aos oitenta pare de usar tudo que lhe dá prazer.
  3. Álcool, sal, açúcar, farinha de trigo, nata, manteiga, e carne vermelha podem matar!
  4. É obrigatório ter um cardiologista!
  5. Melhor seria ter dois cardiologistas, um urologista, um ortopedista, um geriatra…!
  6. Aprenda a mijar deitado! Um dia vão lhe dar um papagaio e exigir isso de você.
  7. Um velho careca ou grisalho é mais sexy do que um velho de cabelo pintado.
  8. Um velho de cabelo pintado é tão ridículo quanto um velho de peruca.
  9. Políticos são indivíduos que precisam muito de você de 4 em 4 anos.
  10. Quem aos 60 acredita no Papai Noel e no Coelho da Páscoa deve continuar votando.
  11. Sexagenário não é uma palavra derivada de sexo!
  12. Se alguém lhe perguntar “qual posição sexual o vovô prefere?” você já acabou!
  13. Aposentadoria é um salário doente e em fase terminal. Geralmente você acaba antes!
  14. Aos 60 é impossível ficar mais inteligente. Então procure ficar mais sábio!
  15. E é impossível explicar seja o que for para quem não quer saber. É melhor ficar calado!

Ovos fritos com bacon no café.

31/01/2012

Mãos às costas, lá ia o velhinho, pela praia deserta, às seis da manhã. Estava irritado com alguma coisa que Juvenal dissera na noite anterior. (Ou talvez  com o fato de não conseguir lembrar o que Juvenal dissera.)

Encurvado pela cifose ele tinha, a cada passo, a intermitente visão da unha torta do dedão direito. Divagava sobre a hipotética arquitetura divina, tentando traçar um paralelo entre a dimensão maçambiquiana e a própria existência, e dava furtivas olhadas para que o caminho imediato não lhe provocasse tropeços. Então, vinda do nada, caminhando no sentido contrário, surgiu a diminuta figura de uma outra criatura madrugadora.  A visão curta não lhe permitia uma definição precisa, mas tudo indicava que se tratava de uma mulher.

Resquícios hormonais caíram na circulação escorrendo de recipientes esquecidos e fizeram com que abandonasse os moluscos e o dedão e prestasse mais atenção no horizonte. Com sorte seria jovem, pelo menos mais jovem do que ele (o que não seria tão improvável assim). E também bonita e vistosa, segundo os seus já elásticos e engavetados critérios de estética e sensualidade. Isso até lhe abriu o apetite e passou a pensar em comer duas torradas com leite quando voltasse pra casa, e não apenas uma como era de hábito.

A silhueta inicialmente indistinta crescia com passadas largas enquanto inversamente encolhia a circunferência abdominal do velhinho. Ficou uns quinze ou vinte centímetros mais alto sem perceber o protesto das vértebras que queriam dolorosamente se render ao apelo gravitacional.

Era jovem. Era bela. Estava cada vez mais perto. Era do número que ele lembrava ser o seu. Estava de tênis e boné. Ele ajustou os óculos para se certificar que não estava nua, mas usava um minúsculo conjunto de paninhos displicentemente jogados sobre os limites entre o pudor e imaginação.

E então, repentinamente, quando ela estava apenas a uns três ou quatro metros dele, como se ele fosse um marco pré-estabelecido, ela deu meia volta e retornou pelo caminho que viera. O velhinho sentiu a boca seca. Alguma coisa palpitou arritmicamente no peito, mas ele estava mais preocupado em não piscar. Pois naquele instante o universo, como num passe de mágica, ficara imóvel entre duas batidas do coração.

Não fora simplesmente uma meia volta. Mas uma meia volta eterna. Para ser recuperada infinitas vezes ou enquanto sua memória sobrevivesse. Em “ssslllooowww motion”. Como num suave movimento de balé ou num volteio de pião invisivelmente equilibrado no nada o pé direito dela havia parado no fim de um passo qualquer e o esquerdo não o imitara. Ao invés disso ele recuara, levado por uma perna esguia que girava para fora e para a esquerda ao mesmo tempo em que as coxas, o umbigo, os seios, os ombros e o pescoço, como uma onda, se adaptavam aos novos comandos. No rodopio a ponta do pé direito imprimiu uma pequena cova na areia, o braço esquerdo, equilibrando o movimento do corpo, deslizou para trás num arco perfeito, o direito se ergueu e na ponta dele surgiu uma mão delicada que acenou para o velhinho, a jovem iluminou o rosto com um sorriso, e os lábios dela se uniram e soltaram no ar um beijinho mudo que calou o mar.

O cabelo em rabo de cavalo, saindo por trás do boné, imitando um ponteiro de relógio que anda ao contrário, desenhou uma linha fictícia no ar. E o corpo todo, refeito do brusco intervalo, voltou a ondular em sua essência, de volta ao espaço-tempo normal, se afastando dele.

O velhinho custou a se mover. Piscou avidamente para recuperar a umidade das escleróticas. Nos poucos segundos em que ficou paralisado viu o dorso e o par glúteo se afastarem dele. Tentou retomar a caminhada num ritmo mais acelerado para prolongar aquele momento, mas os ciáticos protestaram de forma veemente. Respirou fundo preparando o espírito para se conformar com a lembrança do encontro e disse três vezes, admirado e sôfrego: “Mazá! Mazá! Mazá!” Depois, enquanto assistia às nádegas, e todo o resto, saltarem graciosamente sobre um pequeno córrego, pensava que Juvenal dificilmente acreditaria naquilo.

E por falar em Juvenal, repentinamente, se lembrou o que lhe irritara tanto na noite anterior. O amigo desaconselhara caminhadas matinais e com ares doutorais dissera que é nessas horas que os velhos mais morrem de enfarto. O velhinho sorriu e de peito erguido voltou para casa. Sentia-se um vencedor. Comeria ovos fritos com bacon no café.

É bom lembrar!

08/12/2010
  1. Quando pequeno acostume-se com as fraldas, pois você vai voltar a usá-las.
  2. Não tenha vergonha de chorar, pois na vida você terá que lavar a alma muitas vezes.
  3. Aprenda cedo a agradecer. Chegará um momento em que esta será a sua única moeda.
  4. Seja sincero ao sorrir. Todos gostam de um sorriso sincero enrugado e sem dentes.
  5. Estude sempre. Isto cria um mundo que existe mesmo sem a existência dos sentidos.
  6. Um dia você vai perceber que amar não é a coisa mais importante, mas a única que vale a pena.
  7. A medida da vida não é o tempo que se viveu, mas o tempo que ainda se tem pra viver.
  8. A vida é o resultado das escolhas feitas. E também o resultado das escolhas que não foram feitas.
  9. Não reze. Apenas escute. Você não tem nada a dizer que um ente superior já não saiba.
  10. Não se preocupe com o que escreverem em sua lápide. Você nunca vai ler.

O Momento do Pecado.

17/11/2010

Era uma vez um velho padre, mas muito, muito velho. Ele também era um homem casto, mas muito, muito casto. Vendo a idade da morte cada vez mais próxima este senhor pensou: “Passei a vida toda ouvindo os pecados dos outros, trocando-os por penitências, e os perdoando. Mas como será o pecado? Qual será a sensação de quem peca?” Movido por esta curiosidade pediu a seu anjo da guarda que lhe fosse concedida a permissão para experimentar esta sensação antes de morrer. O anjo comunicou o seu pedido à chefia. Depois de algum tempo disse ao padre que a permissão lhe fora dada e valia apenas para um pecado. O padre, antes de escolher o pecado, ponderou demoradamente sobre uma constatação que fizera. Dos pecados que as pessoas contavam e recontavam incontáveis vezes, sem dúvida, sobressaía a fornicação, que aparentava ser irresistível, tendo mais força do que o medo do castigo eterno. Escolheu, assim, fornicar. O anjo lhe perguntou se ele tinha certeza. E explicou que algumas coisas combinavam mais com as pessoas mais jovens e que achava que o momento não seria muito adequado para aquele pecado em especial. Mas o padre, decidido, respondeu que já havia escolhido. O anjo, então, disse: “Sendo assim…!” E foi embora.

Seguindo orientações do motor de busca Google em resposta à pergunta “como cometer o pecado da fornicação” o padre se preparou para a única experiência sexual de sua vida. Escolheu o melhor antro, a profissional mais conceituada em seu meio, com o melhor currículo, e, conforme fora orientado, pediu o serviço completo. A partir daí a prostituta desempenhou da melhor forma a sua função com a finalidade de agradar aquele cliente muito especial. O velho padre considerou as posições ridículas e cansativas. Avaliou o prazer como efêmero e discutível. Não compreendeu a atração que aquilo exercia sobre os fiéis que se confessavam com ele. Só não dormiu no ato por causa das dores. E foi embora decepcionado.

Moral: até pra pecar há o momento certo.

No fim a história é assim…!

11/05/2010

“A comida hoje estava uma merda! Não é, Shiiiu?” E Shiiiu, invariavelmente, balança a cabeça numa concordância frenética seguida de um “gãã”, ou ri, ou chora, ou peida, ou tudo junto, e rimos da vida, ou do que resta dela.                                   

Esta história é verídica! Não em sua linearidade. Pois ela aconteceu em três lugares diferentes e alguns nomes eu troquei porque há personagens ainda vivos. Mas cada pedaço dela, cada episódio, cada drama ou comédia, são instantes verdadeiros da vida de alguém. Nada foi inventado por mais surrealista que pareça. É possível rir, ou chorar. É possível se enxergar aqui e ali. E o pior é que ela continua acontecendo… e talvez venha a acontecer com  você!

Olá! Meu nome é João. Sou um aposentado e moro num asilo. Asilo é um depósito de velhinhos aposentados. É diferente de exílio, que é o lugar para onde mandam os governantes que foram substituídos por inimigos. Exílio é no exterior. Assim como as embaixadas, que é o lugar para onde mandam os governantes que foram substituídos por amigos. O primeiro é um exilado que vive às custas do que ele conseguiu “exilar” enquanto era governante. O segundo é um embaixador, que é uma função remunerada por nós, em que se deve sentir muito pouca dor, como já diz o próprio nome: em baixa dor. (O trocadilho é infame mas irresistível!) Eu não sou um exilado e sim um asilado, e o nome da minha remuneração é aposentadoria. No começo eu recebia 4 salários. Hoje já recebo 2, e, se Deus quiser, vou morrer antes de chegar a 1 salário, que é o custo dos remédios que eu tomo.

Quando eu ganhava 4 salários diziam que eu contribuía para a renda familiar. Depois deixei de ser lucrativo e vim pra cá. Aqui circulam uns 40 aposentados. Uns são “apossentados” em sofás, outros “apossentados” em cadeiras de rodas. E há os “apodeitados” da ala dos “mangueirinhas”, que é como chamamos os alimentados por sonda naso-gástrica e que mijam por uma sonda enfiada na uretra. Naquela ala a rotatividade é bem maior. São aposentados em fim de carreira. Lá embaixo uma mangueira sai de sob os lençóis e se projeta para dentro de uma garrafa debaixo da cama transformando o ato de urinar num contínuo e misterioso gotejar de um líquido amarelo e fedido. Lá em cima a ponta de uma mangueira sai pela narina do cara enquanto a outra se aloja no estômago. Uma atendente conecta um seringão com comida liquidificada na ponta que sai pela narina, injeta o conteúdo e o sujeito fica alimentado; ou hidratado; ou tem seu estômago lavado e aspirado.  Uma facilidade. Estou aqui há 8 anos e quando ouço o zunido do liquidificador na cozinha um reflexo condicionado produz ácido no meu estômago e sinto fome. Mas, se Deus quiser, vou morrer antes de ser promovido a um mangueirinha.

Um dia eu caminhava. E no que me pareceu ser o dia seguinte eu haviam sido instalado numa cadeira de rodas, usando fraldas, com uma branquelinha vesga me obrigando a tomar água por um canudinho. A água teimava em escorrer pelo canto direito da boca e deduzi que alguma coisa de muito torta havia acontecido no interior da minha cabeça. “Que dia é hoje?” Perguntei com uma língua de chumbo. “Faz diferença?” Ela, morbidamente, me devolveu a pergunta. E estava certa. Não fazia. Apareceu a Valquíria, uma mulata forte capaz de segurar sozinha um mangueirinha no colo enquanto dava banho nele. “O que aconteceu comigo?” Perguntei. “Derramo!” Cuspiu Valquíria, numa síntese de delicadeza e conhecimento técnico.

Derramo no cu dela. Eu sentia que minhas mãos e boca voltavam gradativamente para o meu domínio. Dali para os esfíncteres foi um pulo. Mas as pernas não estavam colaborando integralmente. Cai várias vezes na porta do banheiro tentando chegar até o vaso. Até que me amarraram à cadeira com panos. Era para o meu bem, disseram. Eu havia sofrido uma isquemia. Um entupimento. Uma coisa da qual se pode recuperar com força de vontade e fisioterapia. E, se Deus fosse pai, eu ainda iria me livrar da humilhação de ter que cagar e mijar numa fralda podendo perfeitamente fazer isto orgulhosamente sentado na privada. Um dia eu disse para a vesguinha do canudo: “Me dá a porra do copo que eu seguro!” Ela me deu. Eu, vitoriosamente, segurei o copo e bebi toda a água em três poderosos goles sem perder uma gota sequer. A vesga pegou o copo da minha mão, fungou, riscou o meu nome da lista do canudo e foi embora. Aquilo só significou pra ela uma escala a menos na função de aguadeira. A puta havia transformado a minha suada conquista num risco na planilha. Se Deus quiser… ah! deixa isso pra lá.

Eu tenho um amigo cadeirante. Ele é o Shiiiu! Claro que esse não é o nome dele, mas quando ele começa a gritar as atendentes colocam o dedo indicador verticalmente na frente da boca e fazem “shiiiu” e assim ficou sendo o apelido dele. Além de gritar quando surta, ele faz também “gãã”, balança as mãos, baba, peida, ri ou chora sem uma causa aparente, e balança a cabeça no sentido afirmativo. Essa sua última característica é muito útil num monólogo com Shiiiu. Ele concorda com tudo o que eu digo. E quando eu faço perguntas para as quais eu quero que a resposta seja sim ele é o interlocutor ideal. “A comida hoje estava uma merda! Não é, Shiiiu?” E Shiiiu, invariavelmente, balança a cabeça numa concordância frenética seguida de um “gãã”, ou ri, ou chora, ou peida, ou tudo junto, e rimos da vida ou do que resta dela.

Um dia transferiram o Shiiiu pro meu quarto porque concluíram que ele surtava menos quando estava comigo. Não consegui me decidir se aquilo era bom. Tiraram dali um negro não muito velho, que ainda andava, roncava muito, mas não peidava. O terceiro morador do quarto era o Berto, um velho sacana que passava a mão na bunda das atendentes.

No asilo havia também senhoras, que eram poucas e ficavam num quarto grande numa outra parte da casa. Meninos e meninas não podiam dormir juntos. Mas nós nos encontrávamos no refeitório, ou quando nos punham pra quarar em dias ensolarados, ou nas horas das visitas, ou ainda quando um dos asilados aniversariava. Nesses dias nos entupiam de bolo com guaraná, e nos dias seguintes o consumo de fraldas triplicava.

Berto gostava de ser o centro das atenções quando havia festinhas. Ele contava piadas e mentiras com duplo sentido. Eu e Shiiiu, estacionados num canto, bebericávamos nosso guaraná enquanto Berto fazia o seu teatro. Eu bebia segurando bravamente o meu copo e o Shiiiu chupava no canudo da vesguinha, babando mais do que bebia. No dia em que a dos Anjos fez 90 Berto lhe disse: “Então a senhora conheceu o Senador Adolfo!” Dos Anjos, translúcida, apoiada em seu andador e educadíssima, respondeu que não estava lembrada desse senador em especial. “Mas como?” Espantava-se Berto. “Todos de sua época conheciam o Senador Adolfo Dias! Foi memorável o histórico discurso que o Senador Adolfo deu ali na esquina da Ambu-Sertório!” Mas dos Anjos permaneceu convicta de que não conhecera aquele senhor e as outras pessoas em volta de Berto sacudiam a cabeça concordando com a aniversariante. Eu ficava abismado com a pureza daquelas criaturas incapazes de captarem o sentido libidinoso dos trocadilhos de Berto. Ali também percebi que Shiiiu não era tão alienado quanto parecia, pois naquela hora riu tanto, e  peidou tanto, que acabou se cagando. Impestou a sala e a vesguinha do canudo teve que guiar rapidamente sua cadeira pra longe, onde pudesse ser higienizado.

Na semana seguinte aconteceu algo com o Berto. Ele estava imóvel, com o olhar vidrado e a boca torta. Respirava, mas não respondia ao ser chamado. Veio o Dr. Noés. Um hondurenho. Entre o momento em que ele entrava no quarto e a saída não se passavam mais de quinze segundos. Vinte seria um recorde. Nesse tempo ele encostava o estetoscópio no peito do paciente durante duas e meia a três batidas do coração e dizia algo que soava assim: “Trankilo! Puede suspender toda la medicacion, no es?” E a Valquíria ou outra perguntava aflita: “Até o Zé?” Que era a gíria local para o diazepan. “No, el Zé puede incluso cambiar a dos, no mas que tres, no es?” E a atendente suspirava aliviada pois todos os asilados recebiam um diazepan meia hora antes da novela das nove. E o Dr. Noés já em seus segundos finais da visita era questionado pela atendente impertinente: “E o que eu boto na ficha?” E ele da porta batia duas vezes com o dedo indicador na própria testa, e do corredor vinha o eco de sua voz: “Uma obliteracion o un rompimento de una vena acá, no es?” E já havia ido embora o sábio Dr. Noés após diagnosticar mais um “derramo”, no es?

Antes do almoço chamaram um padre para, por via das dúvidas, tentar limpar a barra do Berto com o Criador, já que tudo indicava que o caso era grave. Veio um Frei Capuchinho acompanhado de uma freirinha novinha em folha. Ele começou a murmurar os dizeres de um livrinho e desenhar crucifixos no ar, e de vez enquanto elevava mais a voz, talvez para que Deus o ouvisse ou para exortar o paciente a fazer algum gesto que indicasse o arrependimento de seus pecados. Nós, Eu, o Shiiiu, a Valquíria e dois outros asilados curiosos que entraram no quarto atraídos pelo movimento, aguardávamos, respeitosamente, que terminasse a extrema unção ou seja lá o nome que os padres dão atualmente para esse ritual. O Berto, até então mudo e imóvel como uma estátua, fez um gesto com a mão para que o Capuchinho e a freirinha se aproximassem. Essa, cheia de amor no coração, sorriu e disse: “Basta um gesto para que Deus o compreenda e o aceite em seu reino, meu irmão!” Mas Berto, demonstrando impaciência, quis que os dois chegassem bem perto, mais e mais perto, até que os ouvidos do Frei e da Freira estavam quase dentro da boca do Berto. Então ele disse em alto e bom tom: “Vocês dois são uns bundões!” E voltou a ficar mudo e estático, como todos nós, aliás. Até que o Shiiiu teve uma crise de riso e peidos e todos foram embora, menos eu, o Shiiiu e o moribundo.

Na hora do almoço rodei a cadeira e fui pro refeitório. Shiiiu sempre almoçava no quarto porque ele enfiava as mãos dentro dos pratos dos outros. Quando voltei Shiiiu estava quieto. Ainda ostentava um grande babeiro pintado com as colheradas que haviam sido desviadas do alvo, e um longo fio de baba amarelo-cenoura escorria do canto de sua boca. Então notei que o Berto não estava mais em sua cama. “Aonde está o Berto?” Perguntei pro Shiiiu. Ele continuou a me olhar com os olhos muito aberto. Custei a me dar conta que não adiantava fazer esse tipo de pergunta pra ele. “Levaram pro hospital?” Perguntei. Shiiiu estático; pergunta errada. “Morreu?” E Shiiiu balançou a cabeça afirmativamente, mas de uma forma triste, lenta, e depois fez algo surpreendente. Encostou a palma da mão direita sobre a palma da esquerda e as esfregou em um único movimento rápido de fricção, afastando as mãos uma da outra, o que produziu um chiado. E Shiiiu emitiu um som semelhante a “zupt”. O único diferente de “gãã” que algum dia ouvi meu amigo fazer. Ficamos muito tempo olhando um pro outro. Dois seres humanos esquecidos entre o fim da vida e a chegada da morte.

Alguns dias depois da morte de Berto esperei que a Valquíria aparecesse e argumentei com ela que era um contra-senso o meu gasto com fraldas uma vez que controlava perfeitamente a bexiga e o intestino. Eu só precisava ser colocado na privada, já que o asilo não dispunha de uma estrutura adequada para os cadeirantes junto aos vasos sanitários. Eu pensava perfeitamente, me comunicava melhor do que as pessoas que trabalhava no asilo, e não era justo ser privado do direito de fazer minhas necessidades e de me limpar como os seres humanos capazes de desempenhar essas funções básicas o faziam. Ela ponderou entre seus neurônios e disse: “Mas dá trabalho!” E eu, de forma idiota, em vez de seduzi-la, em vez de explicar que limpar a minha bunda dava mais trabalho do que um colinho da cadeira para o vaso e do vaso para a cadeira, perdi a cabeça, a chamei de imbecil e disse que eu iria trancar as minhas saídas até que a bexiga explodisse e a barriga se transformasse num gigantesco depósito de merda. Ela disse: “Duvide-o-dó!” Virou as costas e foi embora.

Eu já estava arrependido antes de terminar de proferir minha ameaça. Mas como voltar atrás? Ficar vários dias sem evacuar é relativamente fácil embora um dia tenha que se pagar com as conseqüências. Mas ficar sem urinar é algo dificílimo. Logo percebi que a capacidade de minha bexiga não era proporcional à minha coragem e nem à minha estupidez. Em um dia não consegui mais sair da cama e nem me alimentar ou tomar água. No dia seguinte comecei a apresentar suadores e calafrios e logo veio a febre. A dor começava a ser insuportável ao mesmo tempo em que eu constatava, horrorizado, que mesmo a tentativa de urinar, capitulando vergonhosamente, tornara-se impossível pois a distensão da parede da bexiga era tal que não deixava espaço para que voluntariamente eu pudesse contraí-la. Por fim a Valquíria apareceu e percebi que ela estava preocupada com as possíveis conseqüências de nossa quebra de braço. “Vou sondar!” Disse ela para a vesga do canudo que quase teve um orgasmo e saiu correndo em busca de uma sonda.

Naquela hora a tortura da sonda seria um alivio comparado com o que eu estava sentindo. A Valquíria abriu as minhas fraldas e aconteceu uma série de eventos que só depois pude reunir de forma lógica. Ela se deparou com uma estupenda ereção. A tesão do mijo. O esforço reflexo da vascularização do pênis tornando-o rijo para fechar a comunicação da uretra com a bexiga na altura da próstata. A Valquíria em sua ignorância gritou: “Velho tarado!” Eu rindo e febril me senti um Rambo armado com uma bazuca apontada para a cara do meu inimigo. As imagens de um geiser de Yellowstone prestes a explodir e outra de um chafariz bruscamente religado me vieram à mente. Um jato poderoso de mijo curtido por mais de 24 horas foi lançado com a força de uma mangueira do corpo de bombeiros na boca, nos olhos, e no cabelo chapado da minha algoz. Ela gritou e fugiu descabelada. O quarto foi lavado pelo meu alívio.  Tonto ouvi as risadas alucinadas e felizes de Shiiiu, que batia palmas e dava tapas na própria testa aos gritos de “Gãã, gãã, gãã, gãã.” Eu joguei as pernas pra fora da cama, mas elas não me obedeceram e eu cai em “slow motion” no chão…

Repentinamente lúcido me arrastei em direção ao banheiro disposto a lutar até a última hora pelo direito de mijar e cagar como um ser humano. Eu, João, aposentado, asilado, sequelado e escorregando no chão mijado, me sentia um herói.

Milagres da farmacologia moderna!

08/05/2010

No fim do mês passado completei 60 anos. Houve todos os tipos de piadas sobre agora ser um sex…agenário; que enquanto sessenta ainda se levanta, depois setenta, tenta, e nada. E assim por diante. Os meus parentes e amigos fizeram questão de deixar bem vívida a idéia de que agora o tempo deve ser contado não no sentido do que passou mas do que ainda falta, e outras gentilezas do tipo. E como a maioria dos amigos de uma pessoa são de sua faixa etária, ou aproximados, vai aqui a minha contribuição, como médico, para os 60 anos, ou mais, de todos eles. Trata-se de um pequeno pacote de medicamentos composto por 4 drágeas numeradas de 1 a 4.

Quando você não se lembrar mais para que serve aquele apêndice existente entre suas pernas, que teima em se esconder sob a prega de sua barriga, e que ocasionalmente você vê em espelhos ou fotos, tome a drágea número 1. Ela se chama MELEMBRINA. Fará você recordar quase instantaneamente da função daquele órgão. Se você for do tipo emotivo lágrimas de saudade poderão transbordar de seus olhos. Não fique envergonhado. As estatísticas afirmam que isto é extremamente comum embora seja negado pela maioria. Neste momento é bom estar acompanhado por uma parceira sexual, do sexo de sua preferência.

Engula então a drágea número 2, chamada LEVANTOL. E não se assuste! Pois modificações na micro rede vascular interna daquele órgão, antes esquecido, farão com que ele cresça, intumesça, como uma fênix renascendo das cinzas, ou como um gato dado como morto ressuscitando de sob as lenhas do fogão, numa imagem menos mitológica e mais gaudéria.

Chega então o momento de ingerir a drágea número 3. PAUDUREX. Um milagre da moderna indústria farmacêutica. Capaz de manter o órgão renascido por cerca de 40 minutos em atividade febril ou enquanto durarem as coronárias de um usuário possesso. Não é aconselhável que portadores de stents, marcapassos, ou pontes de safena ultrapassem os 10 minutos recomendados para estes casos nos capítulos 47 a 52 do 3º volume da bula do pacote.

E, finalmente, quando o usuário percebe que tem que – note que não é quando percebe que vai, mas quando percebe que tem que – chegar ao clímax ou se esvairá desidratado e estorricado, deve engolir a drágea número 4, a ACABIM, a mágica das mágicas, a explosão sensória final que tudo justifica, até a manobra suicida de ter tomado o pacote inteiro. Há relatos de sobreviventes que descrevem visões que ultrapassam a nossa dimensão. Obviamente, estes medicamentos devem ser usados sob rigorosa orientação médica.