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(34)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 97 a 101 de 101)

16/02/2011

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097

Descobrimos Portbou, o mar, as montanhas, o espanhol e o francês. A fronteira com a França, saindo da esquina de casa, ficava apenas a dois quilômetros ao norte, por uma estrada sinuosa na encosta dos Pirineus. Barcelona estava a 140 quilômetros ao sul.

Na pele de Diego Fernandez mandei o meu novo endereço para Aníbal e depois de algum tempo começaram a chegar algumas peças estranhas. Um par de tênis cujo solado de borracha deveria ser derretido. Um conjunto de bilros para serem quebrados. Uma linda estátua de argila, representando um casal num abraço sensual, que Sofia relutou em quebrar para recuperar as pedras. E assim por diante.

098

No fim do 6º mês em que estávamos e Portbou, quando já nos comunicávamos fluentemente com nossa vizinhança e tínhamos um círculo de amigos locais, Sofia, com 32 anos, descobriu que estava grávida. Ficamos muito felizes, pois parecia que aquele evento não faria parte de nossa vida.

Socorro fez toda a cidade saber que Dom Pierre Cervera seria bisavô.

099

E o tempo passou. Nós éramos moradores de Portbou há 19 anos. Conhecíamos a Europa. Acabamos sendo escritores bilíngües. Nosso filho Piero estava namorando uma francesinha ruiva e de olhos verdes de 17 anos. O nome dela coincidentemente era Sophie. Nós quatro, num dia ensolarado, resolvemos caminhar sob as copas das árvores que criavam um ambiente de frescor e sombra na Rambla de Catalunha, a duas quadras de onde morávamos. A extremidade leste da alameda dava para o Mediterrâneo e, como aquela ponta recebia todo o sol do fim da manhã, olhando pra lá as nossa retinas acomodadas à sombra só percebiam os vultos envoltos em luz.

De uma forma mágica eu e Sofia ficamos observando um homem magro e alto que se aproximava vindo daquela luminosidade. No início ele era apenas um risco com contornos indefinidos, mas conforme caminhava em nossa direção ganhava contornos e seu andar ou algo nele nos atraia.

Era Pierre. Nós não nos mexemos. Esperamos onde estávamos. Sorrindo. Piero e Sophie perceberam que algo mágico nos ligava aquele homem, mas ficaram quietos, abraçados, observando a aproximação dele.

Pierre olhou para Sofia e para os dois jovens, mas se aproximou de mim e nos abraçamos demoradamente sem dizer nenhuma palavra. Depois ele abraçou Sofia que chorava e sorria. Eu estava com 60 anos e Sofia com 51. Ambos grisalhos. Pierre era a mesma pessoa que nós conhecíamos. Mas, embora tivesse a pele clara, era de um tom normal para um humano. Ele tinha cílios, sobrancelhas e um cabelo bem curto. Vestia-se elegantemente, mas sem afetação. Por fim disse: “Meus amigos. Enfim aprendi o significado da saudade. Mas não se preocupem! Já registrei.”

100

“Não vim pra ficar. Serei obrigado a fazer uma viajem mais longa, mas queria dar um abraço em vocês e saber se estão confortáveis… e esses jovens?”

“Pierre, este cara é Piero, nosso filho, e aquela menina linda é Sophie, a namorada dele.”

Piero, a moda dos jovens, cumprimentou Pierre e deu seu recado. “Não sei quem você é, mas sei que vocês três já devem ter aprontado. Tanto que o meu nome é a tradução do seu… e, por acaso ou não, é o mesmo do meu bisavô.”

“É verdade!” Concordou Pierre. “E sua namorada tem o mesmo nome de uma jovem que eu conheci, também muito bonita…” Dizendo isto colocou a mão na cabeça de Sophie e fez um carinho em sua nuca. “Espero que vocês sejam felizes… e saibam o que estão fazendo!”

E voltando para mim completou: “Meu tempo é muito curto… vejam só! Nunca pensei que um dia teria que dizer isso! Realmente vim pra me despedir. Foi um prazer Piero… prazer Sophie…” Depois deu um beijo no rosto de Sofia, que ainda tinha os olhos úmidos, e segurou com força a mão dela enquanto dizia: “Mirian, vou roubar um pouco o seu marido.”

101

Eu e Pierre saímos caminhando lentamente em direção à boca de sol da alameda, ambos com as mãos às costas.

“Você guardou o meu álbum?” Ele perguntou.

Eu descolei de meu cinto a pequena elipse transparente e a colei em seu peito, num gesto que passaria por uma batida amigável. Disse: “Está aí dentro!”

“Ah! o cinto que salvou a minha vida. Obrigado por tê-lo guardado pra mim.”

“Pierre, voltaremos a nos ver?” Perguntei.

“Não! Você sabe que os nossos tempos são diferentes.” Disse Pierre e eu sabia que ele estava triste com isso. Repentinamente ele parou, me olhou, sorriu e completou: “Mas eu tenho três notícias que podem ser boas, dependendo, é claro, da forma como você vai interpretá-las.”

“Não! Pierre! Não me venha com seus joguinhos. Vá direto ao assunto.”

“Então que assim seja: a primeira é que Sophie, a namorada de seu filho, é uma vêe-humana! possivelmente de segunda geração.” Eu fiquei estático processando aquela informação e a associando com as histórias contadas há quase 20 anos. “A segunda:” Continuou Pierre não me dando tempo para um questionamento mais aprofundado. “É que ela está grávida.”

“Isso quer dizer…” Comecei eu.

“Isto quer dizer que seu neto será um vêe-humano, vovô Michel!”

Eu permaneci sem palavras e Pierre perguntou: “Você não vai querer saber qual é a terceira?”

“Isso! A terceira…” Eu estava tonto.

“A terceira – um dia nós falamos sobre isto – é que seu neto pode ser aquele que vai dar o passo para o próximo salto evolutivo… seguindo o caminho! lembra?”

Nós nos abraçamos e nos olhamos nos olhos.

Pierre sumiu na luz e eu fiquei ali.

FIM

(33)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 93 a 96 de 101)

14/02/2011

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093

Trocamos o carro numa loja de usados. Pagamos a diferença em dinheiro e fomos até a Igreja de Santa Tereza. Sofia ficou no carro com os documentos, a chave e uma pequena parte dos diamantes. Eu entrei na Igreja e fui caminhando lentamente pela nave lateral tentando encontrar um homem alto, magro e de cavanhaque ruivo. Um padre muito velho se aproximou de mim: “Sr Diego?”

“Sim!”

“Queira me acompanhar até a sacristia. O Sr Aníbal o espera.”

094

Na sacristia nos abraçamos.

“Um dia algo assim ia acontecer.” Disse ele. “Pierre, naquela festa faz-de-conta, já previra isso. Tanto que encomendou os documentos de vocês. Diga-me o que aconteceu com Pierre?” E eu contei a forma como Pierre fora agredido e em seguida desmascarado ao serem feitos os exames.

Depois fiz o pedido que havia planejado: “Ainda vou precisar de um favor seu. Guardar um saco de pedras para poder enviá-las aos poucos para um endereço que ainda não sei qual é.”

“Entendo!”

“Aníbal! Diga como posso pagá-lo?”

Aníbal sorriu e me contou outra das pequenas histórias de Pierre: “Na verdade eu continuo trabalhando por que gosto do que faço. E ainda por que preciso ter algum ganho para explicar o que gasto… algo que aconselho você a aprender a fazer… ele já deixou esta função regiamente paga desde a festa de aniversário, meu amigo!”

“Filho da mãe!”

“Um grande filho da mãe!” Completou Aníbal.

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Aníbal ainda recomendou: “Quando for desovar essas pedras alterne as cidades e faça isto em quantidades muito pequenas. Elas possivelmente não são deste planeta; são perfeitas, mas uma grande quantidade delas certamente chamaria a atenção. Não é inteligente ser ganancioso. A riqueza não vale nada quando está em sua mão toda de uma vez só. Ela é mais útil quando vem aos poucos, mas você sabe que pode contar com ela.”

Entreguei o saco de diamantes para Aníbal. Nós nos abraçamos e eu lhe disse: “Cuide bem da gráfica.”

“Pode deixar!”

096

As coordenadas nos levaram a uma pequena cidade chamada Portbou na fronteira da Espanha com a França, na ponta leste dos Pirineus, às margens do Mediterrâneo, na pontinha nordeste da Catalunha. O endereço era de um pequeno e antigo prédio de apartamentos na esquina da Avenida França com a Rua Alcáide Benjamin Cervera, por coincidência ou não o sobrenome de Mirian.

A chave abria a porta do apartamento número 3 e no seu interior Socorro, uma sorridente senhora de meia idade nos recebeu falando num forte sotaque de Portugal.

Sabia que éramos Diego e Mirian. Sabia até o que não sabíamos: que éramos escritores e fotógrafos brasileiros, filhos de espanhóis, que estavam voltando para a Europa em busca de nossas raízes e que ela, além de governanta, era nossa professora de espanhol e francês.

Quando tentamos saber a forma de pagá-la ela nos informou que recebia o seu substancial salário, religiosamente, de um dos funcionários de Dom Pierre Cervera, avô de Mirian, e que, portanto não tínhamos nada com que nos preocupar. Devíamos descansar e conhecer a cidade, porque quando começassem as aulas ela pretendia nos fazer passar por maus pedaços. E dizia isto sempre sorrindo.

Eu e Sofia nos olhamos. E foi Sofia quem disse: “Vovô Dom Pierre Cervera! Sempre aprontando das suas.”

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(32)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 89 a 92 de 101)

10/02/2011

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089

“Sofia!”

“Michel, como está Pierre?

“Bem! Ele está bem, acredite. Você foi ao banco?”

“Acabo de chegar de lá, estou arrumando as coisas como você pediu.”

“Leve para a garagem, não esqueça o álbum de Pierre, estou chegando em 20 a 30 minutos e estaremos saindo imediatamente.”

“É tão sério assim?”

“Calculo que teremos o governo na nossa cola quase nesse tempo. Espero que tenhamos uma folga para cairmos fora daqui.”

“Pra onde?”

“Vamos descobrir em 2 horas.”

090

Duas horas depois eu e Sofia estávamos estacionados na estrada que costeava a praia, nas proximidades do lugar onde um dia levara Pierre. Não tínhamos mais casa para morar, nem trabalho, ou referência sociais de qualquer espécie que não nos levassem diretamente para uma sala de interrogatórios do governo.

Sofia sabia que eu estava com o cinto de Pierre e que ele entrara no cinto fugindo pra um outro lugar impossível de se imaginar. Eu entrara rapidamente em casa e pegara o envelope que um dia Aníbal me dera. Nele havia documentos falsos pra mim e pra Sofia. No caminho Sofia ficou sabendo deste presente-segredo que Pierre encomendara possivelmente sob os nossos narizes enquanto estávamos ocupados com a festa de aniversário.

Nós não tínhamos a menor idéia de qual seria o nosso futuro a partir dali.

“Duas horas e trinta e sete minutos.” Disse Sofia.

“Vou abrir.” Disse eu.

091

Sofia fez uma cara de nojo quando aparentemente eu enfiava a mão dentro de minha barriga. O primeiro objeto que tirei era uma pequena caixa de madeira. Nela encontramos uma chave com o número 3 gravado. Na parte interna da tampa da caixa estava escrito 42º25’38,00”N-03º09’31,20”L. “Coordenadas.” Concluiu Sofia. “No hemisfério norte, 3 graus a leste de Greenwich… na Europa, possivelmente França ou Espanha pela latitude. Depois achamos a localização exata.”

O segundo objeto à primeira vista parecia um saco de pano comum contendo uma grande quantidade de pequenas pedras. Quando o abrimos levamos um choque. Tudo indicava que se tratava de uma grande fortuna em diamantes. Havia no saco um pedaço de papel com uma lista de endereços em Barcelona, em Madrid, em Paris, em Milão, em Roma, em Mônaco, em Berna e outras cidades da Europa. No topo estava escrito: “onde trocar”. Em baixo havia uma observação: “Aníbal sabe como fazê-los sair aos poucos do país. Espero que seja uma aventura agradável. É o máximo que posso lhes proporcionar. Se estão lendo esse bilhete é por que os acontecimentos recentes justificam as minhas preocupações antecipadas. Vocês moram no meu coração. Voltamos a nos ver qualquer dia.”

092

Eu e Sofia nos olhamos. Nossos novos documentos diziam que eu era Diego Fernàndez e que minha esposa se chamava Mirian Cervera. Deduzimos que na festa Pierre devia ter também contratado Aníbal para fazer aquele negócio no outro lado do mundo, já que ele não tinha a liberdade necessária para negociar pedras preciosas. Possivelmente Pierre fizera seus contatos pela internet, inclusive comprando uma casa para nós. De alguma forma ele sabia que mais cedo ou mais tarde aquela situação poderia gerar um risco capaz de desestruturar completamente nossas vidas e que nós teríamos que recomeçar tudo em outro lugar.

Precisávamos entrar em contato com Aníbal.

De um cybercoffe mandei o seguinte e-mail. “Quero agradecer os donativos que o senhor enviou. Os nossos antigos coroinhas sempre foram os mais fiéis. Gostaríamos de poder abençoá-lo pessoalmente. Assinado Padre Diego Fernàndez. Hoje ainda estaremos na cidade. Deus fique convosco.” Sofia me olhava sem poder acreditar. “Toda conversa jogada fora pode um dia virar um assunto.” Disse eu.

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(31)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 85 a 88 de 101)

07/02/2011

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085

Depois de um silêncio constrangedor Douglas se levantou dando por encerrada a conversa. Ele entendera que o que eu acabara de dizer era a mais pura verdade, e estava visivelmente confuso sobre as conseqüências de seu contato com o governo e de qual deveria ser sua conduta. Não havia nenhuma palavra de conforto que ele pudesse dar. Então perguntei: “Doutor, permita que eu veja meu amigo. Não vou criar caso… só quero estar com ele por uns instantes, mesmo sabendo que o senhor pode achar estranha… a nossa amizade…”

“É claro!” Disse o médico. “Venha comigo!”

086

Havia um guarda na porta do quarto em que Pierre se encontrava. Uma enfermeira e um médico avaliavam os instrumentos que monitoravam os sinais vitais do paciente imóvel sobre a cama. O Dr. Douglas entrou comigo depois colocou a mão sobre o meu ombro e saiu. Pierre estava sem suas roupas humanas e sua natureza alienígena ficava totalmente exposta agora que haviam retirado os pelos falsos com que Sofia o maquiara. Eu não podia acreditar que Pierre se encontrava naquele estado. O outro médico saiu do quarto e eu fiquei sozinho com a enfermeira. Eu passei a mão sobre a cabeça de Pierre e disse em voz baixa: “O que foram fazer com você? meu amigo!” Por um breve momento tive a impressão de que Pierre havia piscado com o olho direito. Mas seu corpo permanecia estático, não tão estático como naquela oportunidade em que se fizera de morto para assustar Adolf. Agora havia o leve movimento de respiração. Senti uma grande alegria com as possibilidades que esses sinais me davam. Abri a boca e imediatamente a fechei. Havia a enfermeira. Então disse com uma voz embargada: “Enfermeira! Poderia me deixar a sós com meu amigo por uns instantes para que eu possa me despedir e rezar?”

Ela me olhou com uma expressão de quem não pode abandonar o posto, mas ao mesmo tempo compreendia o meu pedido. Disse: “Seja breve, tenho minhas…”, porém não completou a frase e saiu me deixando a sós com Pierre.

Então aconteceu tudo muito rápido.

087

Pierre rapidamente manuseou o cinto e tirou de lá uma pequena esfera metálica que colocou sobre a cama. Apertou um botão na esfera, retirou os fios que o ligavam à aparelhagem. Num salto se levantou da cama e só então falou: “Amigo Michel, me dê um abraço!” E nos abraçamos com força. “Eu sabia que qualquer hora você iria aparecer, mas guarde suas orações por enquanto!”

“Cara! Você está inteiro, preciso avisar Sofia…”

“Depois! Não temos tempo. Preste atenção no que vou dizer. Acordei na ressonância mais então já era tarde. Mantive a pose de morto que era mais útil. Este aparelhinho aqui na cama cria um campo de distorção elétrica a nossa volta por uns quatro minutos. É o tempo que temos. Eles não vão notar que estou desconectado. Quando sair deixe a bolinha aqui. Você sabe como funciona meu cinto. Vou tirá-lo e colocar em você.” E enquanto dizia fazia o que estava dizendo. “Depois eu vou abri-lo o máximo possível para que eu possa entrar nele. Você fecha e sai daqui o mais rápido que puder. Entendeu?”

 “Vou carregar você… no cinto?”

“Exatamente!”

“Levo você até em casa, e depois?”

“Não tem em casa e nem depois.”

088

Devo ter feito uma cara muito estranha, pois Pierre sorriu.

“Eu entro no cinto e não saiu mais.”

“Como, Pierre? Como você vai fazer… viver…”

“Lembra? ele é um cinto dimensional. Há, tente entender… uma porta dos fundos. Eu saio por lá em algum lugar numa disposição espacial paralela. Não faça perguntas. Só aceite. Quando eu for embora você não vai notar. Eu levarei todo o conteúdo dele com exceção do que eu pretendo deixar pra vocês. Preciso de 2 horas. Depois você abre o cinto e verá nele um punhado de pedras que valem muito do seu dinheiro. Muito mesmo. Haverá uma caixa com uma chave de uma casa. As coordenadas da casa estarão escritas na caixa. Dê um beijo em Sofia. Se tudo der certo nós nos veremos no futuro.”

Eu vi Pierre entrar num espaço impossível que ficava na minha cintura. Sumiram seus pés, as pernas e o corpo e ficou a cabeça dele e um par de mãos apoiadas na borda de um nada que se aprofundava de forma surrealista em minha barriga sem ser exatamente isto que estava acontecendo.

Eu disse, entre assombrado e triste: “Até qualquer dia, meu amigo!”

Pierre ajustou um aparelho plástico ao nariz e à boca e sua voz saiu como de dentro de um tubo: “Até qualquer dia, amigo Michel! Ah… não esqueça o meu álbum de fotografias”. E Pierre sumiu mergulhando em minha barriga. Eu fechei o cinto aproximando as duas metades da elipse.

Haviam se passado um pouco mais de um minuto. Em dez segundos eu saia do quarto, passei pelo guarda e andei pelo corredor em direção ao estacionamento. Quando faziam quatro minutos que Pierre havia acionado a pequena esfera sobre a cama, o alarme de todos os monitores desconectados soaram ao mesmo tempo. Eu estava dirigindo o meu carro para fora do estacionamento e ligando para Sofia.

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(30)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 81 a 84 de 101)

04/02/2011

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081

Eu não ficara realmente sentado. Ou sentara em todas as cadeiras da sala. E quando a porta de abriu eu estava muito próximo dela. Um médico novo, de jaleco branco onde no bolso se lia Dr. Douglas, perguntou: “Sr Michel?”

“Sim!”

“Pode me acompanhar, por favor?” E segurou a porta para que eu pudesse passar. Logo depois daquela porta havia outra com os dizeres: “Radio imagem – não ultrapasse.” Mas o médico não se dirigiu pra lá. Entrou num pequeno consultório onde mal cabiam duas cadeiras e uma mesa minúscula. Ele ocupou uma das cadeiras e disse: “Sente-se! Precisamos conversar!”

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O semblante do médico não transmitia qualquer idéia do estado de saúde de Pierre. Mas, naquela altura, o que eu podia esperar? Depois de terem radiografado e fotografado todas as fatias de Pierre a face do médico poderia demonstrar pasmo, desconcerto, curiosidade, estarrecimento, ou qualquer outra coisa que traduzisse o fato de ter feito a descoberta de sua vida, menos preocupação pela saúde ou pela vida de um ser humano. Enfim quebrei o silêncio: “Doutor! Como está o Pierre?”

“Pierre?… sim! Ele está bem… é o que acreditamos… vou resumir a situação para o senhor… o senhor é primo, correto?”

“Exatamente!” E fiquei surpreso com a minha convicção ao dar aquela resposta, pois não conseguia ver ou sentir o meu amigo como um alienígena. Então me dei conta que aos olhos e ouvidos do médico eu estava me apresentando como um mentiroso, ou um alienado, ou até, quem sabe, um parente real de Pierre! Um outro alienígena! Um indivíduo a ser examinado com muito cuidado! Resolvi rapidamente mudar a estratégia. “Na verdade, Dr. Douglas, acho que precisamos ter uma conversa franca sobre a natureza do seu paciente e meu… primo!”

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“Mas, antes, acredite, quero que o senhor entenda que eu tenho uma grande amizade por Pierre e necessito saber quais são as condições de saúde dele…” E fazendo um esforço para não ser agressivo, completei: “… se isto é algo que está dentro da sua… ou da nossa… capacidade de dar uma resposta.”

“Compreendo o que o senhor quer dizer…! Bem! Pierre está vivo, monitorado, da forma que nossos aparelhos podem monitorar os sinais vitais de um indivíduo, digamos, diferente dos nossos pacientes comuns. Ele respira e há sinais elétricos que demonstram o funcionamento de um sistema cardiovascular, no entanto, ele parece não apresentar uma resposta neurológica adequada…”

Senti uma grande tristeza. “O senhor está me dizendo que Pierre está em coma.”

“Até onde podemos avaliar, sim!”

Eu fiquei em silêncio e suspirei. O médico deve ter percebido que minha preocupação era genuína, embora incompreensível em seu julgamento imediato e continuou: “O senhor já deve ter sabido das circunstâncias do… acidente! Eu vi tudo. Ele foi atropelado, ou antes, agredido propositadamente, por dois indivíduos numa moto. Eu vinha logo atrás. O seu amigo foi jogado pra frente e depois bateu a cabeça contra um poste. Foram dois traumas simultâneos. Houve um deslocamento abrupto na altura onde fica a nossa coluna cervical. Chamamos isto de comoção cerebral. O cérebro dentro da caixa do crânio se movimenta pela inércia pra frente e pra trás em direções opostas às do arcabouço ósseo e há um… desligamento, geralmente temporário… estamos agora num momento de expectativa. Se não houve lesões teremos uma resposta em breve. Eu diria que estamos com muitas esperanças! Seria uma lástima…”

“Compreendo o que o doutor quer dizer com seria uma lástima…”

084

“Não entenda mal meu posicionamento, Sr Michel, coloque-se no meu lugar. Como o senhor reagiria frente ao fato de ter em suas mãos um alienígena?”

“Desculpe-me doutor. Sei que o senhor também não pode compreender as razões pelas quais eu possa ter respeito e amizade por esse… alien. Então estamos numa situação de empate. Conceitualmente um pode compreender o outro, mas cada um de nós defenderá suas razões individualmente válidas e opostas.”

O Dr. Douglas pensou por algum tempo e depois disse: “Eu prometo que vamos respeitar a individualidade e a integridade do… de Pierre! Está bem para o senhor?”

“O senhor não pode prometer isso e sabe que estou dizendo a verdade… não haveria um outro modo? Mantendo sigilo… o senhor pode continuar em contato com… sua descoberta, e aprender tudo que tiver vontade. O que lhe peço é que Pierre não seja privado da liberdade… se o meu amigo cair nas mãos do governo vão transformá-lo numa cobaia, num animal que sofrerá o inferno em vida… e nem o senhor poderá ter acesso a ele.”

“Sr Michel, só no setor de radiologia uma meia dúzia de pessoas já sabe do fato, e… o governo já sabe também.”

Afundei na cadeira e percebi que o melhor para o meu amigo seria permanecer desacordado, talvez em coma, numa vida vegetativa permanente… ou morrer.

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(29)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 77 a 80 de 101)

01/02/2011

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077

“Como? Sumiu?” Disse ao telefone enquanto me preparava apressado para voltar pra casa.

“Sumiu!” Dizia Sofia desconsolada. “Caiu e sumiu!”

“Dona Sofia! Dona Sofia!” Ida chamava da porta da frente de sua casa. “Eu vi quando um carro parou e prestou socorro ao Sr Pierre.”

“Espere! Parece que Ida viu alguma coisa.” Gritou Sofia. “Como é que a Sra. sabe que a pessoa que parou foi pra socorrê-lo? A Sra. conheceu a pessoa?” Perguntou Sofia ao mesmo tempo preocupada e revoltada com a situação, pois sabia que os que haviam atacado Pierre estavam de acordo com Adolf.

“Eu conheço o homem. Ele é um dos médicos do Pronto Atendimento, ele…”

Sofia não prestou atenção no resto. Furou meus tímpanos enquanto gritava: “Pronto Atendimento. Ele foi levado pra lá. Vá direto…”

078

O Pronto Atendimento Regional ficava na cidade mais próxima há uns 15 minutos pela estrada principal. Era um formigueiro com cem guichês e mil lugares para se enfiar um alien inconsciente. Eu estava perdido. Fazia perguntas sintéticas: “Paciente muito branco, magro, alto, desmaiado, trazido por médico que trabalha aqui.”

No quarto ou quinto balcão houve um eco: “Sei. É o albino que o Dr. Douglas levou para a ressonância. Tenho o nome aqui: Le Vêe, Pierre?”

“Sim. Sim. Ressonância?”

“O Dr Douglas assistiu quando esse senhor foi atacado. Ele teve uma contusão muito forte na cabeça. Foram feitas radiografias e agora está sendo feito um exame mais detalhado.”

“Onde é o setor em que são feitas as ressonâncias?”

“De qualquer forma o senhor não pode entrar lá… é familiar do paciente?”

“Como um irmão… somos primos! Preciso falar com o médico.”

“Tenha calma…”

“Vou ter calma… toda a calma do mundo… mas agora me diga: onde-posso-falar-com-o-médico? Por favor!”

A atendente suspirou e mediu os potenciais transtornos que eu poderia causar e disse: “Tome! Esta carteira de identidade estava com ele. Venha comigo!”

079

“Fique nessa sala. O seu primo está sendo atendido e o médico que está lá com ele é muito competente. Vou informar que há um familiar do Sr Pierre aqui. OK?”

“Fico imensamente agradecido!”

“Como é o seu nome?”

“Michel.”

E a funcionária falou por um interfone com alguém. Eu sentei impotente e sem saber qual o estado de saúde de meu amigo. Estaria Pierre correndo risco de vida? Telefonei para Sofia e a pus a par da situação até aquele momento. Estando Pierre bem ou mal, todos os segredos dele estavam sendo desvendados em uma máquina de ressonância magnética. Nada poderia ser feito para evitar aquela série de eventos. E a nossa medicina não poderia fazer nada para ajudar Pierre se o caso fosse realmente grave.

080

O tempo pode ser uma constante, mas a percepção de sua passagem é totalmente relativa. Passaram-se 30 ou 40 minutos enquanto eu esperei na pequena sala. Sofia ligou duas vezes, aflita, e a minha resposta foi a mesma: estávamos em compasso de espera. Na segunda vez, instintivamente, disse para Sofia: “Querida. Vá ao banco e rape a conta.” Sofia quis uma razão, mas eu emendei: “E prepare uma bagagem leve do tipo tudo-do-qual-não-podemos-ficar-sem, incluindo o computador de Pierre. Use sua percepção…”

“Você acha que estamos enrolados?”

“Não sei!” Completei. “Pense nisso como uma alternativa… uma saída de emergência! Qualquer mudança eu ligo. Um beijo!”

“Tome cuidado.” Disse Sofia e desligou.

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(28)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 73 a 76 de 101)

28/01/2011

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073

“Michel!” Disse Pierre tentando uma aproximação.

“Fale monstro alienígena estuprador de mulheres.”

“Eu não concordo com esses métodos, Michel, mas numa espécie tão diversificada como a nossa é claro que houve diretrizes seguidas por alguns grupos que nem sempre comungaram dos mesmos princípios éticos.”

“Acredito que devam existir entre vocês aqueles que se sentam na mesma mesa dos Visxuns para saborearem uma boa e tenra carne humana…”

“Nããão!” Quase gritou Pierre. “Você está sendo muito injusto comigo, principalmente quando sabe, como indivíduo, que não pode representar a própria espécie. E não desconhece que existem todos os tipos de aberrações e maldades entre os humanos. Se aquilo aconteceu, agora já não acontece mais porque nós dispomos de um Conselho de Ética eficaz. Mas não é possível voltar atrás e mudar as ações dos indivíduos que julgaram a espécie de vocês como inferior e passível de ser submetida a experimentos científicos. Como vocês fazem com os primatas inferiores. E o argumento que permaneceu como Ressalva de Defesa no Conselho é de que só o tempo poderá dizer se esses experimentos foram nocivos para a sua espécie. Portanto, eles estão sob observação. Veja o caso dos pipilis! se fossem mantidos presos no interior das naves sem oportunidade de acasalar com os társios a realidade hoje seria outra, o processo evolutivo outro, os humanos seriam outros, ou talvez não existissem.”

“OK! Pierre.” Enfim suspirei. “Mas você concorda que nossa vulnerabilidade aos caprichos de outras espécies nos deixa uma sensação de impotência difícil de engolir?”

“É claro, amigo Michel. Compreendo perfeitamente. Mas quem sabe esse seja realmente o caminho?”

“Que caminho?” Quis saber.

“Sei lá! Ontem uma cuspida indiferente de um ancestral comum, depois um macaquinho foge do dono e reacende uma possibilidade evolutiva, agora uma abdução cria uma ponte entre duas espécies, e amanhã o seu neto dá um salto evolutivo para fora da matéria…”

“E esse é o fim do caminho?” Indaguei.

“Há quem diga, há um milhão de anos, que é o único!”

074

Um dia, na gráfica, Anibal me deu um envelope. Eu o abri rapidamente e me surpreendi com o que vi lá dentro. “Por que isto, Anibal? Você acha que podemos vir a precisar disto?”

“Estou só entregando uma encomenda feita por Pierre. Não me envolva nisso.” E fazendo uma continência foi cuidar de seus afazeres. Eu guardei o envelope e resolvi não contar nada pra Sofia.

Com exceção desse pequeno mistério o verão de 2004 foi tranqüilo. O nosso pequeno alemão caçador de aliens aparentava ter se desinteressado pelo assunto. Pierre ganhou maior mobilidade e foi apresentado a outras pessoas. Ele ia às compras comigo ou com Sofia. Ele visitou o meu local de trabalho e se surpreendeu com o primitivismo do funcionamento de uma gráfica. Teceu comentários extremamente críticos sobre o uso que nós fazíamos do papel, das árvores, da natureza, e enfim de nosso futuro como espécie no planeta. Visitamos vários pontos “turísticos” que ele necessitava registrar para seus estudos de antropologia. Assim estivemos em hospitais, plantações de cenouras, igrejas, mercados-públicos, aeroportos, rodoviárias, universidades e cemitérios. O itinerário contou inclusive com num show de striptease, visitas a abrigos de idosos e a moradores de ruas que vivem sob pontes e viadutos, e assistimos a várias apresentações da orquestra sinfônica.

Para Pierre não fazia diferença entre uma missa, um doente em estado terminal ou uma striper nua. Tudo era avaliado com um academicismo atento e analítico. “Impressionante!” Era a sua expressão preferida após cada evento. Ao fim do Bolero de Maurice Ravel ele disse: “Realmente impressionante!”

075

Era um dia normal e eu estava no trabalho. Sofia, após o banho, fora ao closet anexo ao quarto. Caía uma morna chuva de verão. Pela pequena janela do closet ela observou que Adolf confabulava na calçada com dois jovens em uma moto. Sofia ouviu Pierre dizer do interior da casa: “Sofia! Eu vou até a frente da casa para sentir a chuva!” Era um simples aviso para justificar o que ia fazer. Havia um acordo com Pierre de que qualquer mudança de rumo deveria ser comunicado. E sentir a chuva não era exatamente uma mudança. Pierre já fizera aquilo inúmeras vezes. Mas Sofia achou prudente dizer: “Vá! Mas tome cuidado!” Depois, recapitulando, ela própria achou estranho ter dito aquilo. Parecia que um sexto sentido estava lhe antecipando algo.

Pela janela ela observou Pierre caminhar calmamente pelo gramado da frente da casa e ir até a calçada para ver o movimento e sentir a chuva no rosto. Percebeu que Adolf entrou em casa e os jovens da moto foram embora para a direita. Sofia havia vestido um roupão e voltou a olhar pela janela. Foi quando viu a moto reaparecer, vinda da esquerda, e concluiu que os motoqueiros haviam feito a volta na quadra. Pierre estava na calçada, próximo ao poste, de costas para a direção de onde vinha a moto, que subiu na calçada e se aproximou velozmente de Pierre pelas costas. O motoqueiro que estava na garupa ergueu o pé direito e quando passou por Pierre o atingiu com violência no meio das costas com o pé erguido. Pierre, pego de surpresa e desequilibrado, foi jogado contra o poste e bateu com força a cabeça contra a estrutura de concreto. Como um boneco de pano se chocou contra o poste e caiu no chão.

Sofia soltou um grito. Apertou o roupão contra o corpo. Pegou o celular e saiu correndo descalça, tentando discar para mim enquanto corria para o lugar em que Pierre caíra sem sentidos.

076

Sofia chegou até a calçada, mas Pierre não estava mais ali.

(Continua aqui!)