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Pongo (8 de 8)

16/08/2010

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

“Pongo! Explique melhor esta charada do Sistema que ninguém vê!”

Mas Pongo desceu da pedra, virou as costas, e caminhou para sua caverna. Depois voltou trazendo uma penca de bananas maduras. Partiu ao meio a penca e com um gesto rápido atirou a metade para o passeio onde eu estava.

“Ei!” Disse eu. “Você não pode fazer isso!”

“Posso sim!” Respondeu Pongo. “Não há nada escrito por aí dizendo que é proibido alimentar os humanos. Há? Se tivesse sido você que jogasse as bananas para mim… aí sim, você estaria em apuros. É o sistema.”

Eu provei uma banana. Estava deliciosa. Disse para Pongo: “Mas não é deste sistema de regras que você estava falando. Gracioso!”

“Mamãe também me chamava assim!” Arrematou Pongo.

“Então onde está o Sistema de que você fala?” Perguntei a Pongo.

E ele respondeu: “Em todo lugar. Eu já disse: você está enterrado nele.” Ele se acomodou melhor sobre a pedra e continuou: “Vamos admitir que a espécie de vocês, antes de ser extinta numa esquina qualquer, escape do sistema solar. Sempre será necessário coordenar as atividades da espécie. Ou agora, agarrada sobre o puzzle tectônico, ou depois, espalhada em outros corpos celestes balouçantes no nada espacial, a necessidade permanecerá.  Nós os Pongo pedimos pra mãe natureza proteção contra uma má gerência humana capaz de nos fuder bem antes do que qualquer remota possibilidade cósmica. Esse trabalho de coordenação tem sido tentado desde que um grupo de seres humanos passou a dividir o mesmo espaço e alguém teve que tomar a iniciativa para que o trabalho do grupo funcionasse como uma equipe. O regime não importa. Todos são falhos. Uns aparentam uma maior participação dos indivíduos, mas apenas escondem os interesses dos mais gananciosos. Quanto maior for o número de indivíduos mais fácil será para o ladrão se esconder. E o ladrão nunca interessa para o trabalho do grupo. Pode ser o político mais poderoso de um determinado país. Se ele for um ladrão ele é um doente mental. Os doentes mentais deficientes são encargo de vocês enquanto espécie geneticamente incompleta. Mas os doentes mentais inteligentes, principalmente os políticos psicopatas que não estão interessados no bem da coletividade, devem ter suas ações tolhidas, pois é injusto o seu sucesso. Eles adoecem a espécie, emperram a máquina que administra a espécie e atrasam o desenvolvimento da espécie. Temos que ter uma solução aplicável à civilização de vocês. Essa solução deve ser amigável, conhecida, e aceitável. Uma mãe Pongo Ponderadora.”

Pongo fez uma pausa. “Veja bem… quando falo de Sistema não quero propor uma substituição do poder ou dos poderes vigentes. Que os humanos continuem brincando de governar, pois isso lhes faz bem, fortalece o ego deles, dá um sentido teatral a seus atos, e eles ficam com a sensação de que estão determinando a história. Não estou falando da ciência, ou de todos os aspectos técnicos necessários para levar adiante os processos setoriais de uma civilização complexa como a de vocês. Estou falando dos aspectos específicos relacionados com o ato de governar.”

Pongo arqueou as sobrancelhas e mostrou os dentes e continuou: “Pense numa criança humana, vivendo numa de suas casas modernas! Não espalhe robôs pela casa. Não é um filme de ficção científica. Já sabemos, usando as suas próprias palavras de alguns dias atrás, que essa criança está conectada com o mundo via mil meios de comunicação, todos interligados. Num instante ela pode estar brincando on-line com outro filhote de vocês na Europa, e dez segundos depois pedir instruções a um serviço de babás da Austrália de como se limpa a bunda. Fala com papai que está num vôo entre Sei-lá-que-porra e É-pra-lá-que-eu-vou como se ele estivesse na sala ao lado, enquanto a mãe que trabalha na cidade vizinha programa o forno de micro-ondas de casa para esquentar a mamadeira do pimpolho. O mano mais velho entra na casa e mal toma conhecimento daquele elemento que é de uma ninhada posterior, mas enquanto cola seus temas de casa da internet faz o download de um filme pornô, de meia dúzia de músicas e do mais novo ringstone para incrementar o seu Iphone. A mãe passa num self-service e descobre que seu cartão não cobre uma compra banal porque o marido estourou o crédito ao comprar a passagem. O marido recebe pelo sistema de checkup periódico bimestral da empresa a notificação de que o seu perfil lipídico o colocou na faixa dos cardíacos em potencial e ele é intimado a se tratar ou procurar outro emprego em 60 dias. E poderíamos continuar indefinidamente emendando coisas isoladas. Que, graças a artifícios tecnológicos, não estão exatamente isoladas. E então eu pergunto. Se isto é possível utilizando um simples sistema de dados que faz associações quantitativas burras, numa velocidade que transforma a circunferência do planeta na mesma de um cu, o que impede que a classe governante, ou os atos de uma classe governante, sejam monitorados pelo mesmo método?”

Suspirei e fiquei quieto. Pongo emendou.

“Eu respondo: Vamos usar um exemplo hipotético, só um, nada muito longo ou complicado que possa dar um nó irreversível na cabeça de algum governante que por acaso se sinta envolvido paralelamente no exemplo que vou usar. Um indivíduo de um dos poderes vai enviar uma quantia qualquer, de digamos, uma bilhão e alguns milhões, para um estado pobre. Qual o motivo alegado? Preparar o terreno para instalação de uma fábrica de automóveis. O que significa exatamente preparar o terreno? Significa o trabalho combinado de drenagem, saneamento, terraplanagem, abertura de estradas, instalação de redes de água, energia e comunicação, e outras coisas do tipo. Então não tem nada lá? Não. Pessoas há? Não. Expectativas sócio-econômicas? Não, ainda não há. Um contrato, um acordo, uma promessa, um projeto, isso há? Não, isso também não. Então nós vamos aplicar essa pequena fortuna no meio do nada para fazer uma coisa que ninguém sabe realmente o que é envolvendo ninguém exatamente interessado? Essa é a idéia.” Pongo suspirou fundo e continuou: “O que se espera, num processo dessa monta, é que a transferência da verba passe pelos olhos de uma série de indivíduos desse poder. Espera-se que, esses indivíduos, todos comprometidos, uma vez que lhes é pedido que assinem a liberação daquela verba, façam uma análise cuidadosa da origem e do destino do dinheiro. Como se faz isto? Teclando alguns botões e perguntando, via sistema, o mesmo que limpa a bunda de crianças com babás australianas, o mesmo que baixa a última versão do filme Orgia-anal-número-seis, o mesmo que glosa a compra de uma dona de casa no self-servive, o mesmo que pode demitir um pai de família sedentário porque comeu presunto gordo demais, qual a lisura daquele negócio envolvendo um bilhão e merrecas, uma fábrica fantasma, e um pântano no meio do nada. Se o homem podedoro que queria envia o dinheiro esbravejar indignado pela negativa do repasse o que se faz? Explica-se que infelizmente (ou felizmente) o sistema achou prudente avaliar com mais cuidado a idéia original, pede-se um projeto mais bem feitinho, e se abre bem o olho com esse senhor.”

Pongo olhou bem para mim para ver se eu estava acompanhando e continuou: “Isto é de uma obviedade tão escancarada que só o descrever já é redundante, mas nós sabemos que não é o que acontece. Todos os elementos do governo, ou do poder, ou dos poderes, ou da corporação que administra ou controla aquele repasse bilionário de dinheiro que não é deles passam por cima do processo de checagem mais elementar e liberam a ilicitude. Pegam uma almofada grossa e pesada, enfiam no nariz do sistema, e o apertam, e o sufocam até que suas pernas tenham os últimos espasmos, e ele morre.”

Suspirei. E Pongo disse: “É claro que o sistema hoje existente é mal visto porque é recém nascido, burro, incompleto, criado pelo homem, reflete os interesses dos que o alimentam, e não tem autonomia para corrigir os erros nele contidos. Se você for consultar um médico o sistema poderá recusar o seu cartão de convênio porque o programador cochilou na hora de digitar um hífen. E assim nós poderíamos arrolar uma infinidade de buracos no sistema atual, que necessitariam ser remendados para que a inteligência seja demonstrada. Se o sistema fosse perfeito, embora não fosse o Sistema, não haveria tantas desigualdades sociais, tristes injustiças, absurdos legais nos processos de adoções, e por aí vai numa estrada longa e torta. Mas para servir de mãe macaca e ponderadora, o sistema atual poderia ser um embrião, se for usado por todo mundo. Não adianta ele ser um controlador de um trilhão de pequenas circunstâncias domésticas e ser ignorado pelo macho alfa do bando.”

E Pongo pareceu se transformar num sonhador, num visionário quando arrematou sua conversa: “Um Sistema autônomo se recicla, se atualiza, evolui, controla a eficiência das coordenadorias setoriais, dispensa as arbitragens, e governa. O Sistema seria o ditador que você citou, mas que usa uma só lei: sou uma criatura para servir.  Na natureza o Sistema já existia, era empírico, e  servia a todos… mas com o homem, com seus conceitos envolvendo a verdade, a liberdade, e a razão, terá que ser refeito. Só então o homem poderá se preocupar com o caminho…”

xxx

No dia seguinte não encontrei Pongo em seu lugar de costume. Dei voltas pela área que lhe era reservada, mas ele não estava em lugar algum. Tive um sobressalto quando reparei que a tabuleta que identificava o Pongo de Borneo não estava mais ali. Corri e perguntei ao tratador sobre o paradeiro do orangotango e ele me explicou: havia uma Pongo fêmea solitária no zôo de Montreal e o nosso orangotango fora mandado pra lá a pedido de uma ONG que estava fazendo experiências sobre procriação em cativeiro. Fiquei mudo. Segurei uma lágrima teimosa. Depois pensei: Pongo teria uma companheira de sua espécie… talvez viesse a ter filhos! Será que ele fala francês? Ou inglês? Ou melhor… será que ela fala?

Pongo (7 de 8)

13/08/2010

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

Estive ocupado fazendo algumas coisas que os Pongo não fazem: trocando bens e serviços por créditos, que seriam depois trocados por bens ou serviços, conforme as minhas necessidades, de uma forma muito semelhante ao que fazem os outros indivíduos da minha espécie. Assim fiquei três dias sem poder ir ao zoológico. Quando apareci Pongo estava amuado e não queria falar. Resolvi não pressioná-lo e comecei um monólogo, ao mesmo tempo em que vigiava o movimento dos meus semelhantes.

“Acredito…” Dizia eu. “… que compreendi sua posição nos assuntos que conversamos nos últimos dias. Além de estabelecer as regras gerais a que você chama de o primeiro livro”, onde a espécie registra o conhecimento necessário para que a ciência cresça de forma harmônica, ficou a sugestão de que seria útil estabelecer uma fé sem misticismos, a que você chama, às vezes, de “seguir o caminho”. Esse processo seria um desdobramento da própria evolução, mas independente dos mecanismos genéticos. Você relaciona essa evolução com a compreensão das leis psicológicas lógicas ligadas ao seguir o caminho de forma positiva, o “andar para a frente”. Neste quesito você defende a premissa de que a natureza dispensa a necessidade de um deus, embora não o negue como possibilidade atemporal.  Rotulou este modo de pensar como agnóstico. Estou certo?”

Pongo permaneceu aparentemente indiferente ao que eu dizia.

Eu continuei: “Você enfatizou que ninguém é dono da verdade. E, em relação ao agnosticismo, reafirmou que esta forma de pensar não descarta o altruísmo, e poderia perfeitamente terminar com as inúmeras guerras religiosas que tantos pecados já cometeram ao longo da história. Foi dito também que a ética é a lei escrita na consciência da espécie como média, e ela bastaria para que a liberdade e a razão fossem respeitadas. Mas reconhece que a aceitação desses pontos de vista é utópica em se tratando da espécie humana, devido a sua grande diversidade, complexidade de culturas, e interesses de grupos poderosos, tanto religiosos como econômicos.”

Pongo virou as costas para mim e soltou um sonoro peido.

Esperei que ele se voltasse para mim e continuei: “Agora, somos obrigados a reconhecer que a espécie necessita de uma coordenação e de um sistema de arbitragem…”

“Simples!” Disse Pongo. “Tanto quanto enfiar um foguete no rabo de um tigre e, calmamente, acendê-lo.”

“Ora! Ora!” Exclamei. “Por um momento achei que o Pongo que eu conheço havia sido substituído por um orangotango vesgo, mudo e burro.”

“Poupe-me de seus adjetivos maldosos.” Cortou Pongo. “Você ficou três dias sem me visitar e queria o quê? que eu o recepcionasse com flores e fogos?”

Fiquei surpreso com a reação de Pongo. “Meu amigo, me perdoe. Não fazia idéia de que as minhas visitas eram tão importantes para você!”

“Se enxergue!” Resmungou Pongo. “Você cutucou meu lado falante, me deu corda, obrigou minha cabeça a elaborar toda essa papagaiada, depois sumiu. Fiquei aqui com meus próprios pensamentos, quando eu poderia ter minha pacata vida de orangotango, sem me preocupar com nada além de dormir, comer e… e…”

“Defecar!” Ajudei.

“Isso!”

“Volto a pedir desculpas, Sr Pongo! Minha vida de humano me obrigou a trabalhar para também poder comer.”

Pongo ficou em silêncio por alguns instantes e depois abriu a guarda: “Vou considerar essa sua justificativa como razoável. Mas vamos fazer um acordo: se um dia não vai poder vir me avise para que eu possa pensar nas coisas que são minhas atribuições…”

“Que atribuições?” Perguntei perplexo.

“Não se esqueça: eu tenho um caminho…” Ele respondeu.

“Ah!” Exclamei eu.

Pensei sobre o caminho, segundo as definições de Pongo, e na polêmica resultante daquela simplificação ser apresentada à minha espécie.

“Ouvi o seu monólogo quando chegou. Diria que, para um humano, foi um resumo razoavelmente objetivo.” Disse Pongo, e eu de forma relutante, considerei aquilo um elogio. “Só a palavra utópica, utilizada num dado momento, me causou um desconforto. Utopia rima com fantasia. Isto deixa triste qualquer um que segue o caminho.”

 “Temos que dar um tempo ao tempo.” Argumentei. “Muitas coisas consideradas impossíveis foram posteriormente conquistadas. Eu acredito que o pensamento humano tem evoluído nas últimas décadas. Você critica a nossa tecnologia de comunicação, mas ela permite que um pensamento, que há poucos anos ficaria perdido num canto qualquer do planeta, hoje esteja quase em todos os lugares, instantaneamente. Há um ganho no tempo. Há uma disseminação mais rápida da informação. E, desta forma, os semelhantes podem se encontrar. Podem saber que há outros como eles espalhados pelo planeta.”

“É um bom argumento.” Concordou Pongo.

“Então podemos falar sobre o foguete no rabo do tigre?” Perguntei.

“Contando que você vá até lá acender, por mim não faço objeções.” Riu Pongo

“Hu! Hu! Hu!” Fiz eu imitando Pongo. E ele me olhou e balançou a cabeça como quem está pensando: “Tem bobo pra tudo!”

“Não concordo que seja tão difícil falar sobre os problemas relacionados com o governo na espécie humana. Hoje são raros os lugares no planeta em que a opinião dos cidadãos comuns é analisada como uma ofensa frontal ao poder vigente. Nesse aspecto há mais liberdade. Sei que não é unânime, mas há mais liberdade, a ponto de muitas vezes ser difícil diferenciar as críticas de um desrespeito acintoso.” Argumentei com Pongo, ao mesmo tempo que tentava diminuir a importância de sua figura de linguagem em que comparava dissertar sobre esse tema como acender um foguete enfiado no rabo de um tigre.

“Não se esqueça que governar engloba coordenar, legislar e arbitrar.” Lembrou Pongo.

“E daí?” Continuei. “São aspectos diferentes do mesmo governar. Em nosso país chamamos isto de os três poderes. Os consideramos as faces complementares de uma democracia. Um faz as leis. Um julga as leis. O outro administra a coisa pública em harmonia com os dois primeiros. E cada um limita o poder dos outros dois evitando um desequilíbrio que seja prejudicial aos cidadãos.”

“A minha avó dizia que o macho dominante era aquele que servia para dizer qual a fêmea que iria mandar nele enquanto não aparecesse um macaco mais novo e com um pau maior.” Desdenhou Pongo.

“Ah! Pongo! Quanta grosseria! Seja mais direto! O que há de errado em nosso sistema?”

“Não há um Sistema!” Respondeu Pongo! 

“Não faça jogos de palavras… seja mais direto!” Reclamei.

“Primeiro vou contar um história de macaco.” Disse Pongo pesando com calma as palavras. “Você já observou que nossos métodos são menos complicados, mais diretos, e mais definitivos. Se a natureza nos tivesse brindado com uma mente tão privilegiada quando a do Homo sapiens, isso aqui poderia estar a mesma merda, ou ainda pior. Mas, do alto de minha simplicidade, posso tripudiar em cima de vocês, que tudo sabem e nada fazem. Se enredam nas próprias pernas e criam arremedos de sistemas, quando as respostas estão nas velhas histórias de macacos.”

“Vá ao assunto!” Provoquei.

“Bem!” Começo Pongo. “É a história da minha mãe.”

“Sua mãe?” Disse eu, surpreso. “não sabia que você a conhecera…”

“Isso não vem ao caso!” Cortou Pongo quase rispidamente. “Apenas avalie a história.” Depois fez uma nova pausa para se certificar de que eu estava quieto e continuou: “Minha mãe nasceu, cresceu e viveu até o fim de sua vida no Borneo. Ela tinha algo diferente dos outros Pongo. Ela era extremamente observadora e ponderada. Teve seus machos e seus filhos. Eu fui o último. E nisso não foi nada diferente das outras fêmeas do grupo. Mas, como ela via as coisas que aconteciam a sua volta, e quando opinava sobre um problema ou um evento qualquer se mostrava sempre coerente e acertada, passou a ser considerada uma referência no grupo. Todas as questões eram tratadas como se ela não existisse, mas quando era necessário dar a palavra final iam e perguntavam pra ela. Se ela não tinha todos os elementos para julgar ela fazia perguntas, ouvia as opiniões, mesmo as mais contraditórias, e então ela emitia sua opinião. E o que ela dizia era feito. Alguns podiam ficar contrariados, mas a acatavam. Porque ela era a Ponderadora. Isto não era poder, era doação. Todos sabiam que ela não ganhava nada com aquilo. O seu prazer era servir aos outros, dando o parecer que melhor atenderia às necessidades da comunidade. E assim foi até o fim de seus dias, quando estava muito velha e doente, mas com a cabeça funcionando perfeitamente. Um dia um dos elementos do grupo chegou apavorado trazendo a notícia de que caçadores humanos estavam muito próximos. Os mais fortes se apressaram em improvisar uma forma de transportar minha mãe que não teria condições de fugir pelas árvores como os orangotangos mais jovens. Mas ela, usando sua autoridade indiscutível de Ponderadora, disse que a coletividade não dispunha daquele tempo, e, além disto, carregar uma velha inválida daria chances maiores aos humanos de nos caçarem. Todos ficaram mudos, com os braços caídos, olhando para ela em sinal de profundo respeito e tristeza. E foram embora, pois sabiam que ela tinha razão. Vieram os caçadores e a mataram porque ela era uma macaca velha e imprestável. E me prenderam! Eu fui o único que não deu ouvidos ao bom senso da Ponderadora e hoje estou aqui!” 

Fiquei assombrado e triste. Não sabia o que era mais chocante. A forma como Pongo contara a história da morte de sua mãe? A forma como fora assassinada? O fato de estar agregando aos meus sentimentos a dor do assassinato de um animal que eu não conhecera? O desconforto de saber que nós humanos definimos assassinato como a morte de um ser humano por outro ser humano, e só? A morte da Ponderadora? A tristeza de saber que a sabedoria é volátil e sucumbe facilmente à violência? Por fim disse: “Esta história é muito triste, Pongo. Não tenho como definir os meus pensamentos como humano…”

“Ora! Homo. Em primeiro lugar essa história FOI triste! Já não é.” Retrucou o orangotango. “As histórias passadas, tristes ou alegres, não podem ser atingidas, não podem ser alcançadas, estão perdidas, quase apagadas. Elas só nos servem para ilustrar o presente… e esperar que mudem o futuro, que também é um fantasma que ainda não nasceu. A morte daquela macaca foi uma circunstância dramática, mas não é o que nos interessa. O que nos interessa é o Sistema.”

“Ela era sua mãe!” Exclamei.

“E você a matou, humano de merda!” Disse Pongo com raiva.

Como fui pego de surpresa minha cara deve ter se transformado uma máscara de estupidez, e Pongo riu bastante às minhas custas. Vi que ele não estava realmente com raiva. E entendi a relação do nosso presente com o que ele dizia sobre uma história do passado. Depois de rir bastante Pongo continuou.

“Lá havia um Sistema. Minha mãe não governava. Isto era feito por indivíduos mais fortes, mais capazes, e mais dispostos a governar. Ela apenas ponderava. Pesava. Discernia. E o que ela dizia era o que nós fazíamos. Todos nós éramos beneficiados com isso. Como eu fui o único que não fez o que ela disse, me ferrei. Aquele era o Sistema. Simples, prático, e funcional.”

Um grupo de meninas, guiadas por uma freira, se aproximou barulhento do muro que nos separava do fosso. “Olha, um macaco!” “Parece um homem!” “Nós evoluímos dum troço assim?” “Não digam bobagens meninas, Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, e esse macaco foi posto no mundo como uma das maravilhas do Senhor para…” Mas a preleção da freirinha foi abruptamente interrompida pois a “maravilha do senhor” soltou um grito e bateu no peito com uma mão enquanto com a outra manipulava o pênis para que ele aumentasse de tamanho. Em seguida soltou um lindo jato de urina que em arco caía no fundo do fosso. Houve gritinhos, risadas e uma debandada geral com a freirinha arrebanhando as meninas enquanto, sobre o ombro, olhava para trás e tropeçava apressada.

“Que falta de respeito, Pongo!” Protestei. “Por que fez isso?”

“Porque não pude cagar.” Riu Pongo. “Não é toda hora que se consegue…”

“Hum!”

“Mas já que estamos no assunto vamos voltar aos seus três poderes.” Continuou Pongo como se nada houvesse acontecido. “Podemos dizer que fazem parte de um arranjo como qualquer outro. É cheio de falhas. Permite todos os tipos de roubos e injustiças. Os que fazem as leis estão comprometidos com os patrocinadores. Os que julgam as leis muitas vezes não podem ser imparciais porque os seus próprios pecados podem vir à tona. Os executores se digladiam, agora sem espadas, mas usando as próprias línguas, pelo orgulho de sentarem numa cadeira para serem aclamados como aqueles que chegaram até ali. Às vezes nem sabem o que fazer com a vitória. Estão tão envolvidos com a luta pela conquista de um cargo que acabam esquecendo que depois terão que exercer uma função específica. Se juntarmos tudo isto na mesma panela, teremos: incompetência, corrupção, acordos sujos, gerência negligente, arbitragens comprometidas, e leis duvidosas. Uma máquina de baixo rendimento que trabalha mal e só avança, muito lentamente, porque há uma constante cobrança da massa,  da mídia, dos técnicos, e assim por diante. Uma máquina muito cara, por sinal. Com muitos vazamentos. Em que a riqueza da coletividade não acontece como resultado do funcionamento dessa máquina administrativa, mas como conseqüência do trabalho individual dos indivíduos que não fazem parte da administração. E o que é que está faltando? Uma mãe, ou um elemento ponderador, ou, voltando ao nosso tema: um Sistema.” 

“Pelo que vejo…” Interrompi. “… você está propondo um quarto poder. Uma ditadura… branda, invisível, totalitária mas voltada para o bem da comunidade, algo… algo inviável… quem se submeteria à determinação de alguém, ou de um grupo ponderador?”

“Eu sei!” Desdenhou Pongo. “Vocês prezam muito a liberdade e tal e coisa. Mas não bote palavras na minha boca. Não falei em ditador, nem como um indivíduo, e nem como um grupo de indivíduos. Nem em quarto poder, nem em substituto para a máquina administrativa. Eu disse que está faltando um Sistema.”

“Mas isto não existe!” Reclamei.

“Claro que existe!” Exclamou Pongo num largo sorriso. “Você está enterrado nele até as orelhas e não o vê!”

O que significa o Sistema? Qual é o Caminho? Essa simplificação apresentada por um orangotango poderia ser uma estrada para a espécie humana trilhar? Isto é apresentado na 8ª parte de Pongo.

Pongo (6 de 8)

09/08/2010

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

“Pensei muito sobre nossa conversa no outro dia. Sou obrigado a reconhecer que no meio de suas loucuras há pontos difíceis de serem questionados. Porém não seriam de aplicação fácil para os seres humanos, com nossa grande diversidade cultural fortalecida por séculos de costumes já considerados sagrados. Os da nossa espécie prezam muito a liberdade e não abririam mão do direito de professarem a sua fé. As pessoas defenderiam o direito de serem livres !” Disse eu.

“Ninguém quis fazer uma pregação para que os outros mudassem o seu ponto de vista. Cada macaco no seu galho. Não é assim que vocês dizem? E, por falar em liberdade, os Pongo também prezam muito a liberdade… não só a da minha espécie.” Respondeu Pongo. “A diferença é que nós a compreendemos e vocês não… tanto que eu estou aqui e você aí.”

“Entendi!” Disse eu, encabulado. “Mas essa é uma realidade que eu não posso mudar.”

“Nem eu.” Respondeu Pongo de forma irônica. “Mas não se sinta constrangido com o meu estado. Lembre-se que sua espécie está fazendo tudo para nos salvar da extinção… logo haverá muitos companheiros meus, salvos por vocês, que serão trazidos para cá para poderem usufruir comigo dessa prisão…”

“Ora, Pongo! Você está sendo mordaz, e eu não posso lhe tirar a razão. Considere que, como indivíduo, eu me sinto impotente diante da realidade que você me apresenta. E a liberdade é algo muito difícil de ser estabelecida, mesmo entre os humanos…”

“O que eu vou dizer é mais batido que tampa de privada, mas vá lá…!” Disse Pongo coçando as axilas. “Todo o ser humano é livre, mas essa liberdade não é absoluta. A liberdade, de cada um, vai até o ponto em que fere a liberdade do outro.” “Ah!” Gritarão todos. “Mas isso é velho seu macaco idiota. Era isso que você ia dizer? Podia muito bem aproveitar o tempo enfiando uma banana no rabo. Essa aí é mais velha do que a minha bisavó! Tá em tudo que é gibi. Tá em livro de religião. Na constituição do Comeosquistão. No manual do clube de gamão. E nas receitas de bolo da minha tia, irmão!” E eu diria: “É? Então deve funcionar muito bem?” Aí alguns dirão: “Beeem…!” E eu, sabidão e cheio das rimas, arremataria: “Não! Não tem bem, nem Belém, meu bem.”

Gostou? Essa é de minha lavra; horrorosa mas foi o melhor que eu pude pra fazer uma graça. A pergunta direta como um chute no saco é a seguinte: Se todo mundo sabe que a liberdade de cada um vai até o ponto em que fere a liberdade do outro, por que ninguém obedece essa regra tão simples? Tão límpida? A resposta à essa pergunta é quase tão enrolada quanto a órbita do planeta.”

“Em grande parte o desrespeito pela liberdade alheia está preso às distorções nos conceitos morais ditados por grupos específicos em nome de uma instituição, uma facção, um governo, uma seita, e assim por diante, que criou um conjunto de regras. A minoria, que definiu aquelas regras, geralmente não vive segundo elas, mas tenta impô-las aos outros como se fosse vital a aceitação daquela lógica forjada que só satisfaz às necessidades do grupo menor. Ou o desrespeito pela liberdade alheia está ligado às atitudes individuais ou de grupos que vivem segundo padrões psicológicos distorcidos, doentios ou criminosos, quando comparados com o padrão da espécie.”

“Quando comparamos a exteriorização psicológica e conceitual padrão com as atitudes de um psicopata é fácil estabelecer onde e porque a liberdade foi desrespeitada, mas quando essa liberdade é negada pelas leis de um grupo, por uma tradição, por um conjunto de pensamentos ancestrais, em que, as vezes, o próprio indivíduo, que tem sua liberdade tolhida, obedece aos ditames porque isso está profundamente misturado aos conceitos de certo ou errado em sua infância, e fazem parte da vida daquela pessoa, como se fosse uma senso de justiça obrigatório e distorcido para poder fazer parte do grupo em que está inserido, o processo para avaliar a liberdade se torna bastante complexo.”

“O desrespeito pela liberdade, nos diferentes agrupamentos humanos,  envolve a razão, esse subproduto da inteligência resultante do uso da lógica relacionada à argumentação sobre qualquer assunto. A razão cria normas, regras, leis, códigos, que não são universais.”

“Dois oponentes acreditam estarem com a razão segundo seus códigos individuais mesmo que essas duas razões sejam evidentemente opostas aos olhos de um observador neutro que não foi educado segundo nenhum daqueles dois modos de pensar. E mesmo aqui cabe a pergunta: o que é um observador neutro? Qual é a lei que determina que a neutralidade de um observador o torna capaz de arbitrar sobre um determinado conflito entre dois sistemas? Quem dá a liberdade para que esse árbitro  julgue e, possivelmente, fira a liberdade de uma das partes ao terminar o seu julgamento? Quais são os critérios que definem a neutralidade? Quais sãos os critérios que definem a não validade de um determinado código utilizado por um grupo específico? Qual a diferença entre um código legal e o princípio ético? Como burlar os interesses, muitas vezes escusos, dos grupos que detêm o poder econômico ou religioso?”

“Concordo que essa é uma questão bem complicada.” Contemporizei.

Pongo continuou: “A razão existe! E aqui reside um dos maiores problemas para serem resolvidos pelos seres humanos nos capítulos finais do primeiro livro. Ninguém é dono da verdade, mas o mesmo não podemos dizer sobre a razão. Ninguém é dono da verdade. Nenhuma pessoa, nenhum governo, nenhuma religião, nenhuma tradição, nenhuma imposição, mas quem é o dono da razão? Essa resposta é muito complexa e tem muitas partes. Os seres humanos, nas questões indefinidas, tendem a se confrontarem em vários graus de argumentação ou agressão para fazerem valer o seu ponto de vista. Como qualquer um pode ser o  dono da razão eles tem o direito de exporem suas idéias pra tentarem convencer a outra parte de que sua posição é mais sólida, mas, geralmente, na empolgação do conflito resultante, desprezam a regra da liberdade e a ultrapassam. Alguém sairá ferido. Quando tomamos os confrontos simples e bem definidos entre entidades isoladas como no caso de um assassinato, um roubo, uma agressão, a maioria das leis, embora sejam desdobradas de uma forma tão prolixa que às vezes a mesma regra que serve para acusar alguém pode ser usada para absolver outra pessoa, é capaz de resolver a pendência e estabelecer a razão. No caso da mutilação sexual das meninas na Somália, um costume ancestral de um povo, a razão pode ser evidente tomando-se como critérios o fato de uma parte indefesa ser agredida, e a falta de lógica no procedimento cultural. Mas qual o fórum a ser  utilizado para julgar uma questão dessas? Vamos fazer uma revolução internacional? Serão discutidas as questões culturais, educacionais, médicas, e governamentais, para fazer valer uma razão que nos parece óbvia. Mas nós vamos agredir o costume de um povo, e, por mais paradoxal que pareça, o costume das meninas que acham que aquele procedimento é doloroso, mas normal, pois lhes garante um casamento promissor no futuro. Pergunte a uma menina somali de 15 anos, que não teve seu clitóris extirpado aos 5 anos, se ela não se sente segregada?  Poderíamos criar regras gerais tais como: a razão deve sempre ser amparada no conceito de ética para uma espécie e não para um grupo; a razão deve ser sempre amparada na ética a favor da parte mais indefesa; a razão deve ser amparada sempre na ética que defende a parte lesada. Então a ética é importante, pois ela é quem ampara a razão em caso de conflito. E o que é ética? Ética é a consciência da espécie. As leis não. As leis são um apanhado de normas que são utilizadas por um grupo para estabelecer critérios de julgamento na hora de determinar a razão. Às vezes um conjunto de leis representa tão bem a espécie como um todo que quase se confunde com a ética, mas não é a ética. Na grande maioria das vezes as leis são setoriais, nacionalistas, grupais, institucionais, religiosas, sectárias, e assim por diante. Na maioria das vezes as leis têm brechas, buracos, desvios, ou armadilhas, que permitem que a razão seja erroneamente determinada conforme os interesses do grupo que as redigiu. A lei é considerada cega, mas ela sempre permanece com um olho entreaberto para poder favorecer quem a patrocina. A ética não. A ética realmente é cega. Salomônica. Imparcial. Defende o menor e o mais fraco. Defende uma minoria injustiçada. A ética é a lei da humanidade. Se nesse momento fôssemos visitados por uma raça alienígena avançada que pudesse esmiuçar os nossos pensamentos e quisesse saber: Afinal, qual é a lei nesse planeta? Todos os livros jurídicos seriam desprezados. Só permaneceria aquele livro que não está escrito. A ética. A ética é um livro que pode ser lido diretamente na consciência da espécie humana.”

“Gostei!” Disse eu.

“Grande merda você ter gostado!” Arrematou Pongo.

“A minha opinião não é importante para você?” Perguntei. “Estou sendo sincero.”

“Grande merda a sua opinião ser importante para um Pongo!” Continuou Pongo.

“É verdade.” Suspirei.

“O pior é você ter que concordar comigo que a única verdade é que é tudo uma grande merda!” E desta vez foi Pongo quem suspirou.

“Hum! Hum!”

“Hu! Hu! Hu!”

Para que serve o governo? O poder serve a quem? Onde está o Sistema que deveria determinar o melhor caminho? A apreciação de um orangotango sobre estas questões pode ser avaliada na 7ª parte de Pongo.

Pongo (5 de 8)

06/08/2010

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

Pongo disse assim que me viu: “Onde nós estávamos? Ah, me lembrei. Eu ia lhe dizer quem é o dono da verdade!”

 “Exatamente!” Concordei.

“Você sabe…” Continuou ele. “… que corremos o sério risco de  pisar no calo de alguém e sermos amaldiçoados, ou quem sabe até apedrejados!”

“Não corremos esse risco… nossa conversa é privada; não há como os outros saberem!” Disse eu.

“Não trouxe o gravador?”

“Não.”

“Trouxe sim!”

“Já disse que não! ora bolas”

“Trouxe o que está entre as suas orelhas… conheço bem vocês humanos… qualquer dia você resolve por no papel a nossa conversa e adeus privacidade, o anonimato já era, isso aqui vira uma zorra. São capazes de me mandarem pro Borneo…”

 “Não seja melodramático, Pongo! É impressionante como você usa de subterfúgios para encompridar uma conversa e fugir da objetividade.” 

“Está bem!” Concordou ele, e rindo começou seu jogo favorito: cruzar o significado das palavras: “Vou dizer quem é o dono da verdade: ninguém é dono da verdade! Ou seria melhor dizer: a verdade não existe como algo que possa ser definido por alguém. Ou de outra forma: a verdade, existindo ou não, não pode ser equacionada por ninguém. Logo: ninguém é dono dela! Tentar se apropriar de algo que não pode ser conceituado, ou tentar tomar para si o poder decorrente de um conhecimento que não existe é um crime. É uma tentativa de iludir, de ludibriar, de mistificar um falso saber, é uma maldade perpetrada contra a centelha de fé alheia, principalmente dos mais simples, dos mais crédulos, dos mais inocentes, e dos mais desprotegidos. Tomar para si um poder que não existe, e colocando armadilhas mágicas no caminho, é como matar um filhote indefeso, que está aprendendo a andar por esse caminho. Aqueles que têm a consciência de que a verdade não pode ser conceituada deviam tentar proteger os menos dotados de entendimento. Deviam permitir que essas pessoas procurassem a verdade, mas não podem dizer: essa é a verdade.”

 “Percebo que você está falando especificamente da verdade preconizada pelas religiões humanas!” Afirmei mas querendo que ele tomasse como uma pergunta.

 “Os humanos são muito imaginativos e fantasiosos. Bastou que um raio caísse e incendiasse uma floresta para que aquele evento fosse atribuído à ação de um ser superior que mora lá, depois do rio, depois da montanha, depois do mar, depois do fim do planeta, e assim por diante. Aquele que dominou o fogo caído do céu, ou o produziu pelo atrito, passou a ser o guardião do fogo, o representante do ser superior aqui na terra. Quando o fogo se popularizou foram utilizados outros e outros fenômenos para servirem de inspiração e mistificação. Com o passar dos milênios, quando as forças naturais ganharam explicações, e as mágicas aparentes se esgotaram, restou uma cultura de crédulos, um deus a cada dia mais abstrato, e os donos da verdade. Mas, afinal, de qual verdade estamos falando? Estamos falando da verdade, que, como todas as coisas, é discutível, mas não pode ser demonstrada. Da verdade tácita, secreta, silenciosa, oculta. Da verdade esotérica. Da verdade que não é detectável pelos meios sensoriais ou experimentais. Da verdade que depende da afirmação de um ponto-de-fé. Mas que é uma deturpação da fé. Os pontos de fé que permitem o domínio, a pressão pelo medo, a culpa forjada, e a prisão em regras dogmáticas.”

 “Você está negando a existência de uma fé verdadeira entre seres humanos?” Perguntei eu.

“Dizer que há uma fé verdadeira é um contra-senso.” Respondeu Pongo. “A fé é uma descoberta pessoal. Eu tenho a minha. E ela responde a todas as minhas questões. E se alguém me seguir procurando se encontrar nas respostas que minha fé me fornece estará irremediavelmente perdido, pois a minha fé só responde às minhas perguntas e às de mais ninguém. Como eu não sou o dono da verdade eu não posso dizer que a minha fé é a verdadeira. Ela serve pra mim. Dizer que a fé de alguém é a verdadeira é o mesmo que dizer que a fé de todos os outros indivíduos é falsa. O que precisa ser verdadeiro não é a fé, mas a procura, o entendimento, e a escolha de um caminho. Dizer: Eu tenho fé! é um direito de qualquer um. Embora saibamos que quando um ser humano diz que tem fé ele, na verdade, está se referindo à crença, sem objeções, na existência de um ser superior, criador de todas as coisa, onipresente e onisciente.  As religiões, a grosso modo, procuram ensinar aos seus crentes que é necessário ser uma pessoa do bem para que o deus daquela religião fique feliz com os atos daquele crente e ele venha a ser merecedor de uma prazerosa vida após a morte, como uma espécie de mérito adquirido por ter feito o bem. Nós sabemos que há inúmeras distorções e interpretações possíveis sobre esse modo de pensar. Mas, levando em conta a diversidade de personalidades existente na espécie humana, não podemos dizer que esses artifícios estão errados. A meu ver, de uma forma torta, eles chegam a um resultado parcial satisfatório enquanto ficamos a espera de que um dia os humanos entendam o que realmente interessa. As demonstrações coletivas de fé existem como somatória das múltiplas manifestações individuais de fé, sob indução de um apelo coletivo, por contigüidade, e por emotividades direcionadas segundo uma sistemática tornada culturalmente comum dentro de uma determinada doutrina.”

“Você está reafirmando que a fé humana é equivocada.” Reclamei eu.

“É um equívoco cultural. Um dia os seres humanos passarão a entender que é preciso ter fé no caminho e não num ser misterioso. É necessário olhar para a frente e perguntar: o que eu posso fazer para que o universo evolua? Se você ficar acreditando que tudo já está predestinado pela vontade de um ente superior e nós só temos que procurar andar razoavelmente na linha, para não cairmos num caldeirão fervente, não aprendeu nada. E mesmo a fé humana, quando ocorre em conseqüência de uma conclusão mística solitária, porém produtiva, é algo raro, e a sanidade daquele indivíduo, aos olhos dos demais humanos, é posta sob suspeita.  A fé que os humanos chamam de fé além de cega olha para o outro lado. Deveriam dizer: “eu tenho fé porque fui educado numa cultura que se baseia na fé.” A grande maioria dos humanos deveria dizer “eu acredito, mas eu realmente não tenho fé”! Acreditar, no máximo, é ter fé por empréstimo, mas não é fé. Ter fé é como amar. Quem ama sente, e seu sentimento permite que ocorram ações positivas decorrentes do ato de amar. Amar é a conseqüência de um conjunto de fatores endócrinos e neurológicos que colocam o indivíduo num estado alterado de percepção. Quem ama vê o seu amor como algo único e palpável. Quem não ama olha para quem está amando e até o compreende, mas é incapaz de sentir o sentimento do outro. Para quem não ama o amor não tem substância embora o amor dos outros possa ser conceitualmente aceitável. O conjunto de fatores que determina a fé se assemelha com o conjunto de fatores que determina o amor. Até mesmo os que dizem que têm fé, mas apenas acreditam, conceitualmente aceitam a fé dos outros como sua, mas neles o processo inexiste. Da mesma forma que não é possível você dizer “eu estou amando porque estou junto dessa pessoa que está amando,” é impossível dizer e crer na afirmativa eu tenho fé porque estou junto dessa pessoa que tem fé.” A seguinte mágica tornou-se comum na espécie humana: onde aparecer alguém com fé, a inexplicável, a individual, a que existe para aquele indivíduo em conseqüência de um insight não mensurável, um conhecimento puro de qual é o caminho, surgirá um grupo de crentes, e entre eles um grupo de espertos, e entre os espertos alguém que perceberá que ali há uma possibilidade lucrativa, e esses espertos tomarão para si a propriedade de uma verdade, que nem a pessoa com a fé apregoa, se realmente for uma fé real: desprendida, sem pretensões, e insana… como o amor. O amor é louco. A fé é louca. Ambos são transcendentais. São experiência únicas e exclusivas quando verdadeiras. Não há verdade nelas. Não há verdade no amor ou na fé. Quem ama ou quem tem fé não está tentando dizer este é o amor verdadeiro, ou esta é a fé verdadeira.” Quem ama ou tem fé tem sua realidade alterada. Estas pessoas não estão aqui. Elas vivem num mundo de loucura e isso lhes basta. Elas só querem amar ou elas só querem viver a sua fé. O amor ou a fé quando surgem em mentes normais são loucuras positivas e produtivas. A fé humana, quando ocorre em mentes doentes, se transforma em manifestações da esquizofrenia. Quando o indivíduo é dotado de uma mente sã, mais cedo ou mais tarde ele vai ver que há um caminho, e então ele começara a andar por esse caminho. E isso é o que basta. Tentar ensinar aos outros o caminho é quase uma grande perda de tempo. Poderá tentar mostrar, mas ninguém vai ver. Mas os espertos surgirão dizendo que estão vendo e logo montarão uma barraca a espera do lucro.”

“Nos seus argumentos você quase afirma que as religiões são um mal necessário!” Disse eu.

“E são.” Respondeu Pongo. “O fato é que os mercadores se apresentam como proprietários da única e verdadeira fé. Dizer: Eu sou o dono da verdade!” quando não se pode dizer o que é isto, do qual se é dono, deveria ser considerado um crime contra a humanidade. É uma tentativa de criar uma aura de poder para si. É dizer: “Eu tenho algo que só eu sei o que é, e esse saber me coloca acima das pessoas comuns.” Nesse ponto, se você for ateu, não diga nada. Você não acredita em nada mesmo! Apenas siga a lógica do seu não-acreditar, pois se você não foi informado fique sabendo que é impossível provar a inexistência de seja lá o que for. Se alguém afirma que deus não existe por que perde tempo negando algo que não existe? Seja mais produtivo. Vá estudar. Vá ensinar. Vá experimentar. Vá filosofar. Vá pescar! No ângulo oposto do ringue nós temos os teístas. Se você acredita em um deus todo poderoso que está em algum lugar, ou em todos os lugares, e que fiscaliza e pune os homens quando eles pecam, ou os ama incondicionalmente, ou condicionalmente, conforme o manual adotado, não cometa o pecado de tomar para si a propriedade dessa verdade. Não é necessário ensinar aos outros que eles precisam de uma criatura cósmica indefinível, que cozinhará a consciência deles se certas regras não forem obedecidas. Não assuste as crianças com a história do bicho-papão. Não ensine aos crédulos que há um ser celestial todo bondade que tem um sócio todo maldade que mexe eternamente um caldeirão fervente a espera dos pecadores. Não crie paradoxos morais ensinando que a definição de pecado é circunstancial: “não mate, a menos que a guerra seja santa, não roube, a menos que seja para dar para a igreja, e não fornique, a menos que seja para gerar mais fiéis“…”

“Mas isso não verdade!” Reclamei

Pongo pareceu surpreso e disse: “Mas foi isto que os cruzados fizeram por ordem de um dono da verdade que se auto-justificava como sendo inspirado por uma pomba do conhecimento! Atravessaram a Europa, mataram homens, mulheres e crianças pelo fio da espada, cantando não matarás”, só por que o deus único daquelas pessoas tinha outro nome. Pilharam a terra delas cantando “não roubarás” e transformaram a cidade do dono da verdade deles numa potência econômica até os dias de hoje. E pelo caminho fornicaram com todas as mulheres do próximo cantando “não cobiçarás a mulher do próximo, e deixaram para trás um fértil rio de esperma. E do outro lado, em nome do mesmo deus único, que eles chamam por outro nome, os do outro bando fizeram as mesmas barbaridades justificáveis pela santidade da guerra. Todas em nome de Deus. Se eu fosse um teísta não conseguiria encontrar nenhum pecado maior.”

Pongo fez uma pausa, mas, como eu não retruquei, ele continuou: “Ensine aos outros que eles precisam ser bons, altruístas, caridosos, gentis, ou qualquer outro nome que se use para definir uma pessoa como sendo do bem, simplesmente por que isso lhes fará bem. É lógico fazer o bem. É lógico ser um bom exemplo para os próprios filhos. É lógico ser participativo e cooperativo em sua comunidade porque ali estão as pessoas com quem você convive e divide o pedaço do planeta que está usando. É lógico ser alguém que constrói assim como não é lógico ser alguém que destrói. É lógico ser alguém que sente prazer em salvar uma vida assim como não é lógico ser uma pessoa que sente prazer em matar alguém. Não é necessário o policiamento de nenhum deus para fazer o óbvio. Se você quiser ser bom para ser merecedor do bem que os seus companheiros, em retribuição, farão a você um dia, de uma forma bem egoísta e interesseira, mesmo sendo essa uma forma desleal de ser bom, seja bom assim mesmo. Isso é bom para os outros. Talvez não seja bom para a sua consciência, mas será bom para a somatória das ações da humanidade como espécie. Todos estarão seguindo o caminho. A existência de um deus correlacionada com a necessidade de fazer o bem é injustificável sob qualquer análise. Você necessita que exista uma criatura superior que tudo vê e tudo sabe para que você faça o bem? Você só fará o bem mediante a promessa de uma premiação posterior? Se não existir um deus você se sentirá liberado para vomitar todo o seu lado animal que foi mantido oprimido e enganado?” 

Pongo suspirou e deu continuidade a seu discurso: “Assim como provar a inexistência de deus é uma impossibilidade, provar a sua existência também é.  Mas, se ainda assim partirmos do princípio de que existe um deus, que faça parte desta verdade impossível de ser definida pelos seres humanos, isso não fará nenhuma diferença para as obrigações éticas e de consciência que vocês têm para com os seus semelhantes. Vamos imaginar uma cena: este deus conceitual chega um dia e diz: “Vejo que vocês são gente boa. Eu sou o deus que criou esta porra toda que está por aí. Façam bom proveito e ensinem aos outros que ainda não nasceram que o caminho é exatamente este, seja lá o que signifique este caminho para vocês!” Alguém poderá gritar: “Mas, Senhor! E nós, os pastores, os donos e protetores da verdade, o que nós faremos agora, o que será de nossas ovelhas?” E esse criador hipotético, passando casualmente por aqui em sua longuíssima viagem, seguindo seus insondáveis desígnios, absolutamente incompreensíveis para as fofinhas e ignorantes criaturas humanóides a sua volta, poderá dizer qualquer coisa mais ou menos assim aos donos da verdade: “Misturem-se com os outros. Não percam tempo tentando entender a verdade. Só eu posso entendê-la. E, principalmente, não se apropriem dela. Na melhor das hipóteses isto é impossível ou inútil, e, na pior, prejudicial aos mais simples. Ah! larguem isto se pastores, pois não há ovelhas… que idéia!” Nos dicionários a isto se  chama agnosticismo. Viva o bem. Pois esse é o caminho e a única fé que interessa para qualquer espécie. Não tente dar ao bem uma justificativa metafísica, pois isso é absolutamente desnecessário, e absolutamente impossível. Já, simplesmente fazer o bem, é absolutamente possível e prático. Comece ontem. Nunca esquecendo que essa não é nenhuma verdade… e nem uma sugestão. É apenas uma constatação lógica. Se você crê em algo continue fiel a sua crença…  mas faça o bem, e deixe que cada um procure a sua verdade.”

 “Bastante ácida a sua opinião sobre as religiões!” Comentei

“Sou um macaco, não tenho religião, nunca tivemos um profeta, a natureza nos veste e alimenta, e nunca questionei a existência de um ser superior que nos tenha criado com um propósito específico. E não sou ácido. Só observo. Se eu disse alguma inverdade peço mil perdões. Não tive a menor intenção de ser ofensivo. E além do mais, se houvesse uma nova inquisição, com aqueles juízes compreensivos e imparciais, eu, tecnicamente, nem poderia ser julgado por algo que tivesse dito, pois eu não falo. Em tese eu sou um orangotango, esqueceu?”

“O que não deixa de ser uma mentira…” Disse. “… e eu poderia testemunhar que você disse barbaridades sobre a fé, as religiões, e sobre Deus.”

“Ah!” Sorriu Pongo. “Apenas por que eu vejo o avesso das coisas você me denunciaria? Já lhe passou pela cabeça que eu não negue nada disso, mas apenas veja o filme numa direção contrária? Já parou para pensar que se Deus não existe nós precisamos chegar até ele? “Mas como?” o Sr Homo dirá. “Como chegar a algo que não existe segundo sua própria demonstração, ô Pongo doidão?” Evoluindo! Responderia o orangotango. Iniciando e continuando uma transformação! Diriam em coro todos os Pongo. Cada vez que um ato é executado de forma positiva dentro do caminho, mais nós nos tornamos diferentes de um animal, mais nós nos afastamos do homem imperfeito, mais nós nos aproximamos da perfeição. Vocês foram educados a pensarem sobre vocês mesmos como criaturas moldadas do barro. Pois vocês são criaturas nascidas do barro. Nascidas das gorduras e das proteínas, das organelas e das simbioses, do DNA e das recombinações, da evolução e da procura pela complexidade, ao sabor da aleatoriedade que a natureza oferece, mas não há ninguém moldando vocês. Vocês já pararam para pensar que são vocês que podem estar moldando algo? A cada dia, aqui, logo ali, do lado de lá da galáxia, e em outra, e assim por diante, em um números estonteantes de possibilidades, seres inteligentes estão moldando do próprio barro de que são feitos, a lógica do caminho que anda para a frente? E depois, no final, num distante e hipotético encontro das partes, quem sabe teremos um deus? O início é o fim. O fim é o início. Esta coletividade psíquica resultante teria dimensões, localizações, e propósitos em nada diferentes das de qualquer ser celestial que a imaginação de vocês pode fantasiar. Nós continuaríamos sem poder explicar esse ser. Tanto quanto agora. Pois nós estamos presos no tempo, mas essa entidade absorveria o tempo e o usaria em qualquer direção, ao ponto de estar nascendo, sob nossa ótica, mas deixando em nós a idéia de que somos parte do processo. Isso, sem dúvida abriria as portas para uma grande dúvida. Quem é o criador? Quem é o indutor?”

 “Isto é uma loucura!” Arrematei.

“Loucura é o que dirá o inquisidor quando você me denunciar dizendo que ouviu tudo isso da boca de um macaco… chego a ouvir o crepitar da fogueira…” Riu Pongo.

Fiquei quieto por um minuto olhando para ele: “Deus estaria nascendo?”

“Hu! Hu! Hu!”

Qual é o limite da liberdade? Quem é o dono da razão? Para que servem as leis? E o que é ética? O ponto de vista de um orangotando sobre estas questões pode ser visto na 6ª parte de Pongo.

Pongo (4 de 8)

04/08/2010

(Se você quer saber como começou esta história cliqueaqui e vá para o 1º capítulo.)

Pongo catava obsessivamente um inseto que teimava em se esconder entre os pelos de seu peito. De vez em quando resmungava e se irritava com a própria inabilidade. Quando percebeu que eu havia chegado disse sem me olhar e sem abandonar a perseguição ao inseto: “O que vai ser hoje? Jogar bananas pra cima? Falar da verdade? Ou trair os amigos?”

 Eu fiquei em silêncio durante algum tempo e depois perguntei: “Você percebeu que eu tinha um gravador, não é?”

 “Só quando você o desligou!” E depois emendou: “Por isso comecei a falar bem alto. Pensei que você queria gravar a nossa conversa para amplificá-la depois… talvez estivesse ficando surdo…” E mostrou todos os dentes, em sua característica risada símia. Depois disse: “Ops!” Pongo pegou o inseto. Botou-o na boca, mastigou-o bem e o engoliu. “A minha mordida é muito maior do que a dele, mas ele é mais saboroso do que eu!” E pareceu feliz com sua vitória de Pongo.

 “Estamos bem?” Perguntei.

 “Eu estou sempre bem… você é que está com o orgulho ferido e a consciência amassada, mas nada que sangre ou mate… logo estará bom.” Diagnosticou Pongo.

 Depois disto ficamos sentados um longo tempo, cada um em seu lado do fosso, sem dizer uma palavra. Eu procurando uma continuação e Pongo procurando outros insetos saborosos.

 Por fim resolvi recolher os cacos de minha dignidade humana e falei: “Realmente, os seres humanos acreditam que  algumas bananas não caem!”

 “Maravilha”. Disse Pongo.

 “Mas custo a acreditar que um orangotango saiba a verdade sobre as bananas que não caem!” Comentei.

 “Mas isso não existe!” Disse Pongo valorizando uma indignação fingida.

 “A verdade?” Perguntei.

 “Não! Sr Homo! Bananas que não caem!” Respondeu Pongo. “Para a minha espécie e de tooodas as outras que eu conheço…” E fez com os braços um gesto abrangente indicando os demais moradores do zôo. “… com exceção, é claro, da espécie de vocês, tudo que sobe desce, sem explicações metafísicas ou mágicas. Essa mania humana de personificar a natureza, que ao acaso nos alimenta ou nos ferra, é que complica o significado da verdade para vocês.”

 “São ponto de fé!” Retruquei.

 “E o que realmente significa fé pra vocês?” Inquiriu Pongo.

 “Eu simplificaria fé como uma crença em algo sem dispor de uma demonstração palpável.” Respondi.

“Ah! Por exemplo vocês têm fé na existência do átomo!” Continuou. “Não podem apalpar um átomo mas acreditam piamente que ele está ali porque uma dúzia de físicos disseram que é assim que é. É isso?”

 “Não.” Reclamei. “O átomo é um modelo. Nós não o vemos, mas sabemos que ele pode ser demonstrado indiretamente em um sem número de experimentos, desde a constatação fotográfica de suas partículas até os efeitos bélicos mais destrutivos.”

 Pongo complementou a sua moda: “Então o átomo está no primeiro livro. E já nem é átomo, pois é feito de partículas, mas isto não vem ao caso. É uma convenção teórica que explica uma série de eventos. Não pode ser realmente visto, mas não há discussões sobre sua existência. Acredito que a fé também não se aplica à eletricidade. Não a vemos mas vemos o seu efeito. Uma lâmpada acende. Um idiota enfia o dedo na tomada e leva um puta choque. E por aí vai. Logo a eletricidade está no primeiro livro. Junto com todas as outras teorias que desenham a beira da ciência de vocês. Algumas são tão impalpáveis, usando seus termos, que se resumem a elucubrações matemáticas que ainda não foram refutadas ou melhoradas ou comprovadas. É isso?”

 “É!” Respondi. E tentando uma resposta menos refutável emendei: “Uma definição melhorada de fé, segundo o foco da nossa conversa, está mais voltada para a crença no místico, no espiritual, numa divindade, sem que esta crença necessite de um prova concreta.”

 “É, eu sei. Tenho acompanhado. Mas a cada dia acho mais impressionante!” Exclamou Pongo.

 “Explique melhor!” Intimei.

 “A evolução se desenrola por 4 bilhões de anos, sempre partindo da premissa que ela tenha iniciado aqui, e chega à uma espécie que conseguiu desenvolver uma civilização com um pé no espaço. Essa mesma civilização é a prova de que a evolução existe e anda para a frente. Então os indivíduos dessa espécie articulam um  complexo e misterioso conceito de fé mística, e passam a viver presos à esperança de um pagamento num pós-vida, se suas ações forem voltadas para o bem. Mas conceituam esse bem de acordo com seus interesses pessoais e circunstanciais, muitas vezes burros e mesquinhos. Esquecem totalmente da evolução como um processo que aponta numa direção. Quando estão com as portas abertas para o salto fundamental para o próximo estágio, surpreendentemente, não abrem os olhos. Passam a mistificar o processo e o chamam de fé. Param no meio do caminho demonstrando que não entenderam porra alguma. Cagam no arremate. É de ficar triste. E vocês eram a nossa esperança…”

 “O que há de errado com a fé?” Perguntei.

 “Que eu veja… nada!” Disse Pongo.

“Então o seu comentário não é compreensível!” Devolvi.

 “Claro que não é!” Sorriu Pongo. “Estamos falando de coisas diferentes. Ou melhor: estamos falando do uso diferente que cada um está dando para o mesmo conceito de fé. Você fala de uma fé religiosa baseada em verdades que algumas pessoas definiram como únicas. Eu falo na fé necessária para que o entendimento cumpra o seu propósito.”

Achei que Pongo estava fazendo mais um de seus jogos com  palavras, mas resolvi provocá-lo para ver como ele se saía: “São realmente coisas diferentes! E seria bom você definir melhor esse seu uso para o conceito de fé.”

“Ah!” Exclamou Pongo. “Isto é simples. Eu vejo as coisas assim: se uma espécie chegou até aqui, não importando a possibilidade de que o acaso a aniquile amanhã, é uma obrigação, dessa espécie, fazer o bom uso do entendimento conquistado. A lógica aponta para um maior grau de complexidade evolutiva, em parte por ação da mãe natureza, e em parte como resultado do conhecimento adquirido. Qual é o propósito? Sei lá. Estamos agradando alguém? Sei lá. Será que um dia, num futuro muito distante, a somatória desses atos bons nos levará a concluir que afinal havia uma explicação, e  que esta verdade sempre esteve escancarada a nossa frente mas nós não a víamos? Sei lá. Não vou ficar aqui queimando os meus miolos tentando justificar aquilo que é inequacionável por absoluta falta de dados. As únicas coisas que eu sei é que o caminho é para a frente, e que o meu instinto me manda andar. E isso me basta!”

 “Pelo visto o seu posicionamento teológico é bem compacto!” Comentei. 

“Não há nada de teológico no meu posicionamento! Quando eu uso o termo deus, ou a expressão o meu deus, estou apenas usando as palavras dentro de um contexto. Não peço nada e não reclamo de nada. Não o nego e nem o aponto. Sou absolutamente incapaz disto.” Defendeu-se, Pongo. “Eu só falei da fé. Quem mistura fé com teologia é a espécie de vocês.”

“Mas seu posicionamento também não é uma verdade incontestável.” Disse eu.

 “Eu não disse nenhuma verdade. E nada é incontestável, Sr Homo. Mas ninguém pode dizer que o meu ponto de vista não leva a uma linha de ação lógica.” E levantou a cabeça batendo com o indicador na testa.

 “Ok! Sr Pongo.” E o desafiei: “Quem sabe agora teremos um contraponto sobre a fé humana…”

 “A fé humana…” Grunhiu Pongo. “Fé é fé. A fé não é de ninguém. Se a fé é dos humanos já deixa de ser algo confiável só pelo fato de ser dos humanos. A fé dos humanos é uma interpretação. Vocês apenas a interpretam de um jeito que a natureza acha estranha.”

 “Como, estranha?” Perguntei.

 “Veja bem!” Continuou. “Logo a espécie mais desenvolvida cientificamente, a que maior obrigação teria de entender a sua fé nos compromissos morais com a natureza, é a que mais inventa fantasias para mistificar a própria relação com o processo universal. E esse processo é de uma clareza absurdamente simples e dispensa mistificações. Resume-se em: anda-se para a frente. Vamos construir. Vamos salvar. Vamos amar. Vamos dar. Se você negativar essas afirmativas teremos: destruir, matar, odiar, roubar. Isso é andar para trás. Isso não é lógico. O absurdo é que em nome da própria fé a espécie humana inventa artifícios, que a leva para trás, contra a corrente, e os chama de verdades. A natureza só pode achar, no mínimo, estranha, essa atitude.”

 Ficamos quietos por um longo período. Pongo se deitou e virou de costas para mim. “Ei!” Eu disse. “Não me diga que vai dormir! Pensei que você ia começar a falar sobre a verdade.”

 “Estou cansado e não sei do que você está falando.” Disse Pongo sem se virar.

 “Fingido!” Reclamei.

“Ah! Está bem! Amanhã eu lhe conto quem é o dono da verdade.” Roncou.

 Esperei mais um instante e vi que ele havia dado a conversa por terminada. “Até amanhã, então!”

 “Hu! Hu! Hu!”

Afinal, as religiões dizem verdades ou não? O que acontecerá no dia em que o deus hipotético visitar a terra? Deus criou todas as coisas ou está nascendo? Esses temas controversos são apresentados pelo orangotango na 5ª parte de Pongo.

Pongo (3 de 8)

30/07/2010

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

Encontrei o Pongo pygmaeus de Borneo, agora simplesmente Pongo, o meu amigo orangotango vesgo, morador do zoológico municipal, deitado em sua sombra preferida sobre a pedra ao lado do fosso. Comia distraidamente uma banana. Quando me viu deu um salto e se apressou em dizer, como quem se justifica veementemente: “Juro que essa não é a nossa banana.” E deu sua risada símia de quem achou muita graça da própria piada.

“Engraçadinho!” Disse eu, enquanto ligava um gravador escondido  entre os meus apetrechos de desenho, pois eu sentia a necessidade de registrar aquela situação surreal. “Espero que hoje você tenha afinado suas explicações pois está me devendo algumas respostas.”

“Prometo não decepcioná-lo!” Gritou Pongo.

“Por que está gritando?” Perguntei.

“Ah! você está me ouvindo bem?” Perguntou Pongo, ainda em voz alta.

“Perfeitamente! Não entendo por que está gritando!” Respondi.

Pongo sorriu e falou em seu tom normal: “É que eu não lhe vejo desde ontem, e, como vocês humanos envelhecem muito rápido, quis ter certeza de que seus ouvidos ainda conseguem me ouvir perfeitamente.”

“Você é um mau contador de piadas!” Arrematei, preocupado com a possibilidade de Pongo ter percebido o gravador, e, ao mesmo tempo, me sentindo um pouco culpado por estar traindo a boa fé do meu inusitado filósofo de zôo.

Pongo, depois de uma longa e silenciosa pausa, como quem pondera sobre uma preleção que vai iniciar, sentou em sua pedra preferida e disse: “Vamos então falar sobre a verdade! E que a mãe natureza perdoe os nossos pecados…”

“Como assim?” Quis saber.

“Bem!” Disse Pongo. “Para começar a nossa conversa já não é uma coisa muito natural… não me diga que você já tinha visto, em algum lugar, um orangotango conversando com alguém de sua espécie?”

“Devo concordar que deve ser algo muito improvável!” Considerei.

Pongo parecia ter optado por uma explicação completa. E como se eu fosse uma criança começou a me explicar a necessidade de algumas convenções primárias. Ele desconsiderou o fato de que  era um orangotango falando para um ser humano. A idéia que transparecia era de que ele, que há 14 milhões de anos tivera um ancestral comum com o Homo sapiens, nos devia aquela aula. Começou, como quem divaga, olhando para um ponto acima de mim. “Evidentemente algumas coisas, no princípio, necessitavam ser determinadas. Pelo menos pra que houvesse uma troca construtiva de informações. Uma convenção inicial foi necessária para as coisas básicas. Os primeiros registros tentariam estabelecer o que era consenso. As explicações mais esmiuçadas viriam depois. Vamos, aleatoriamente, dizer que vocês começaram com as cores. Qualquer uma. Digamos, o vermelho. O vermelho é vermelho. Vamos pular aquilo que vocês chamam de notas de rodapé, que falam dos comprimentos de onda do espectro eletromagnético, e da absorção de freqüência por um objeto qualquer. Teríamos que afirmar algo aparentemente contraditório, como por exemplo,  que uma coisa é vermelha porque não absorve o vermelho, e o texto logo descambaria para uma salada científica. Vamos omitir, como regra, essas demonstrações e explicações escritas em letras miúdas. Vocês tinham que ser mais pragmáticos e diretos. Vou tomar você como o coordenador nessas reuniões nos primórdios da sua civilização. Você reuniria o pessoal de sua espécie na praça e gritaria, mostrando, ao mesmo tempo, um lindo morango maduro: “Pessoal! Qual é a cor desse morango?” E todos responderiam em uníssono: “Vermelho!”. Pronto! Uma conclusão a que todos haviam chegado sem discussão. Poderíamos ouvir alguns sussurros periféricos como: “Não sei não! Pra mim ainda não está suficientemente maduro… deve estar travento… eu diria que está verde!” Ou então: “Eca! Aquilo lá já passou do ponto, deve estar azedo…!” Mostrando que as subjetividades são possíveis e fazem parte de qualquer contexto em que seres humanos tentam chegar a um acordo. Vocês, neste caso específico, devem ter corrido da praça a tapa esses indivíduos, porque eles estavam apenas atrapalhando a sua demonstração do que seria uma conclusão unânime.  Para fazer um livro das convenções básicas houve muitas conclusões a que se chegou pela tentativa e erro, algumas após uma longa experimentação, e, no caso de vocês, até depois de cruentas discussões, porque os pontos de vista não eram tão incontestáveis assim, mas esse capítulo é longo e preencheria toda a história da ciência humana. A verdade é que, com o passar dos anos, há poucas coisas realmente óbvias que ainda não estão em todos os livros, e portanto ainda impedindo uma conversa construtiva entre as partes antagônicas e ditas inteligentes. Um exemplo clássico é a diferença entre a demonstrável história arqueológica de bilhões de anos e a negação sistemática dos criacionistas. Esses últimos não admitem que um esqueleto de um velociraptor, datado como falecido há 65 milhões de anos, em conseqüência da queda de um meteoro, ou por uma indigestão, tenha mais do que 10 mil anos. É a mesma questão do morango que talvez não seja tão maduro, ou talvez já esteja podre. Algumas coisas não são tão evidentes para todas as pessoas e ninguém é obrigado a aceitar qualquer declaração como definitiva. Não é suficiente despejar sobre elas um contêiner de provas se elas não estiverem abertas para estudarem estas provas de uma forma imparcial e não passional.”

“Vamos dar mais alguns exemplos de coisas óbvias.” Continuou Pongo. “Não coma cocô! Não durma dentro da boca de um leão! Pular de um penhasco… não seria um ato inteligente sem os recursos adequados! pois as observações não indicam que as asas são geradas espontaneamente. Claro que todos os indivíduos estavam livres para fazer qualquer experimentação que comprovasse se essas regras, ditas de forma tão despretensiosa, eram realmente confiáveis, ou não. É assim que nasceu e se desenvolveu a ciência. Alguém deve ter sugerido que antes de pular de um penhasco o proto-cientista comesse merda. Este passo, embora indigesto e nojento, teria menor chance de extinguir a espécie de vocês já nas primeiras experiências. Mas foi, é, e sempre será necessário, tentar, comparar, discordar, discutir, criar modelos, teorizar, concluir, e estabelecer as regras. Qualquer coisa diferente disso transformaria essa bagunça que é o viver com os semelhantes (tão dessemelhantes) num caos. Aos poucos vocês foram evoluindo nos acordos. As leis físicas deviam ser comuns. Cair é para baixo. Subir é para cima, e assim por diante. Conforme o manual foi ficando mais complexo entraram as leis da cinemática, da termodinâmica, alguém falou em entropia, em física quântica, relatividade, teoria das cordas, quarks, e por aí vai. Você joga xadrez?” Por um momento a pergunta não pareceu ser dirigida a mim e eu demorei a encaixá-la no contexto. Pongo aproveitou a deixa para se divertir às minhas custas: “Alô! Alô! Planeta Terra! Há vida aí? Preciso de alguém inteligente que de preferência saiba jogar xadrez?” 

“Ah! Sim! Estava atento no que você estava dizendo e a pergunta me pegou de surpresa. Sei sim jogar xadrez!” Respondi.

“Se o meu papo está lhe dando soninho podemos deixar isso pra lá…” Disse Pongo.

“De forma alguma! Continue! Já lhe disse. Você deu uma guinada muito brusca e eu não percebi. Perdoe-me se pareceu desatenção.” Contemporizei pois sabia que isso deixava Pongo nitidamente envaidecido.

“Eu dizia…” Continuou ele. “… que regras comuns a todos permitem uma comunicação sem questionamentos. Mais ou menos como as regras de xadrez. Você pode sentar, nesse exato momento, com um japonês que nunca viu mais gordo em sua vida, na frente de um tabuleiro de xadrez, sem que vocês saibam dizer nenhuma palavra na língua um do outro, ou numa língua qualquer de conhecimento comum, para jogar uma partida de xadrez. E essa partida pode ser jogada de forma absolutamente correta e sem desavenças. Simplesmente por que as regras são planetárias. E ponto. Quando o manual dessas coisas inquestionáveis estiver pronto, e infelizmente ainda não está, vocês já podem dar o próximo passo.” 

Como parecia que Pongo tinha apenas feito uma pausa, e não havia ainda terminado a sua surpreendente preleção, fiquei quieto, a espera. Logo depois ele continuou: “Geralmente eu não enveredo para esses assuntos, mas como você me perguntou qual era a verdade, e eu, em princípio, não gosto de deixar ninguém que faça uma pergunta sincera, sem resposta, vou abrir uma exceção.” E me olhou profundamente com seu olhar vesgo. Como eu não emitisse nenhum som ele continuou: “Depois que as coisa básicas estiverem determinadas é necessário que vocês estabeleçam os termos do segundo e fundamental código que permitirá o convívio entre os seres humanos. E isso, ao mesmo tempo que é de uma simplicidade translúcida, é de uma dificuldade incomensurável, e esse paradoxo só existe por estarmos falando de seres humanos. Com formigas ou abelhas esse ponto não precisaria nem ser discutido. Entre animais mais complexos talvez haja necessidade de um urro ou de um rugido, com certa ênfase. Mas os seres humanos têm um espinho profundamente cravado para ser retirado antes de estabelecerem as regras fundamentais que falam de todas as outras coisas que não estão no primeiro livro. E repito, como quando comecei a falar disso: Isso não é a verdade! Não me ponha o rótulo de dono da verdade no meu rabo, isto é pior do que me chamar de gorila.”

“Já concordamos sobre esse ponto.” Aquiesci.

“Mas…” Pongo coçou o queixo. “Pensando bem acho que não é uma boa hora para falarmos sobre esse assunto, afinal, mal nos conhecemos… quem sabe terminamos isso noutro dia?”

“Isso eu já estava prevendo!” Arrematei. “Na última hora você tira o corpo fora e a conversa fica incompleta… da mesma forma que pulou a história da banana…”

“Ah!” Pongo deu um tapa na própria testa e exclamou: “A banana! Quase ia me esquecendo dela.”

“É!” Disse eu. “E a banana, seu espertinho?”

 “Se não caiu Deus comeu!” Concluiu Pongo.

“Ah! Pongo! Se era pra dar uma resposta desse tipo você bem que poderia ter ficado calado. Isso não tem nada a ver com a questão!” Reclamei.

 “Como não?” Continuou o orangotango. “Se a criança nascer bonitinha, fofinha, e, saudável, vocês costumam dizer: Graças a Deus!” Quando a criança nasce com uma deformação qualquer, ou sérias limitações como aquele cadeirante que cruzou por aqui, vocês dizem: Por que Deus permitiu que isso acontecesse?” Você chegou a aventar a possibilidade de que não havia justiça naquele fato. A justiça pressupõe alguém que julgue. E vocês fazem uso desse pressuposto para tudo. Isto vale pra chuva, pro raio, pro vento, pros acidentes, pros crimes, e para qualquer outra razão que você possa imaginar, inclusive por ganhar, ou não ganhar, a mega-sena. Deus quis, ou Deus não quis. Vocês botam em xeque o senso de justiça da entidade que vocês adotaram como o criador de vocês como se ele fosse responsável por todas as bananas que foram atiradas para o alto e não caíram. Vocês não são responsáveis por nada, nem as leis da física, nem a lógica, e nem o acaso. Tudo que deu certo é por que um deus ajudou e tudo que deu errado é por que um deus não deu uma mãozinha. E, que isto fique bem claro, estou falando do deus de vocês, pois o meu, embora goste muito de bananas, deixa que elas  caiam quando eu as atiro pra cima.”

 “Hum! hum!” Disse eu, e optei por ficar calado.

xxx

Quando cheguei em casa fui avidamente conferir o gravador. Mas ele estava desligado! Desligado! Conectei o aparelho ao computador e verifiquei que havia um único e longo arquivo de uns quarenta minutos. Nele se ouvia a cacofonia própria do trânsito com vozes humanas ocasionais dizendo coisas triviais. Quase no fim ouvi a minha própria voz: “Boa tarde.” Eu estava entrando no zôo e cumprimentava o guarda. Logo depois a voz de Pongo dizia: “Juro que essa não é a nossa banana.” Em seguida eu disse: “Engraçadinho!” E o aparelho ficou mudo. E eu fiquei mudo por muito mais tempo, ouvindo na minha cabeça a voz de Pongo: “Hu! hu! hu!”

O que é a fé? Qual é o significado de acreditar em algo? Qual é a necessidade da mistificação para se agir de forma positiva? Sobre esses assuntos o orangotango dá o seu palpite na 4ª parte de Pongo.

Pongo (2 de 8)

28/07/2010

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui e vá para o 1º capítulo.)

Um dia levei um pequeno cavalete de pintura pra fazer aquarelas de Pongo. Uma idiossincrasia a mais não faria diferença. Nenhum de nós estava muito falante e a tarde transcorria morna. Um funcionário, que dirigia o veículo elétrico em que eram carregadas as rações, às vezes estacionava atrás de mim e fazia comentários curtos: “O anterior estava melhor!” Ou: “Isso aí parece mais um sagüi!” Ou ainda: “Se ele dá uma olhada nisto aí, te mata!” Ou um raríssimo: “Agora melhorou.” Eu não respondia e armava as feições que desestimulariam qualquer crítico de arte, porém sem muito sucesso.

Num dado momento outro veículo elétrico zumbiu pelo passeio e observei que era um rapaz aparentando uns quinze anos que comandava uma cadeira complexa com o movimento de apenas dois ou três dedos. Um tetraplégico. As pernas curtas e mal formadas se acomodavam mortas à frente do assento. A cabeça estava apoiada num suporte à direita. Lembrava Stephen Hawking. Um ser humano com muitos problemas físicos, mas, aparentemente, de uma família rica para dispor daquele aparato tecnológico. Quantos outros semelhantes a ele viviam sem terem as mesmas opções? O cadeirante passou os olhos rapidamente pelos meus desenhos, leu as informações da tabuleta que apresentava o orangotango de Borneo, olhou demoradamente para Pongo, e depois foi embora. 

“Isso não é justo!” Exclamei.

“Bah!” Disse Pongo. 

“Bah, o quê?” Retruquei. “Você acha isso justo?” 

Pongo permaneceu deitado sem me olhar e disse: “Posso fazer uma pergunta antes de falarmos do que é ou deixa de ser justo?”

“Faça.” Respondi.

“Se eu jogar uma banana para cima o que vai acontecer?” Perguntou Pongo.

“Pra cima do quê?” Quis saber. Pois não via relação da pergunta que ele fazia com a passagem do deficiente físico e a questão levantada sobre uma hipotética justiça divina, sobrenatural, ou da natureza, que permitia todo aquele conjunto de limitações para um ser humano.

Pongo sentou, me olhou por uns instantes, coçou a testa e arrematou: “Esse é um dos problemas da espécie de vocês. Sempre desconfiados. Acham que todo mundo vai agir com vocês da mesma forma que vocês agem com os outros. Mas vou desenhar bem devagar a pergunta.” E, teatralizando com gestos, Pongo continuou: “Se você, Homo, estiver no meio do nada, pegar uma banana e jogar essa banana pra cima, para o alto, com toda a sua força, e não existir nada físico num raio de, digamos, mil quilômetros nem para os lados e nem para cima… ah! e nem um animal voador ou saltador ultra-rápido que goste de bananas… o que vai acontecer com a banana? Hein? Hein?”

“Vai cair! Ora bolas.” Respondi rindo das macaquices de Pongo. 

“Não me diga…! Por quêêê?” Perguntou ele, com os braços esticados e as mãos espalmadas pra frente, se esforçando pra fazer uma mímica de assombrado.

“Está bem!” Disse eu. “Vou fingir que caio na sua esparrela só pra ver até onde vai esse seu silogismo de zoológico… porque a lei da gravidade fará com que a atração do planeta sobre a banana traga a banana de volta.”

“Bem…! na verdade a banana também atrai o planeta, mas vamos considerar esse dado como desprezível, para não desvirtuar a nossa conversa.” E fez o seu sorriso com todos os dentes, nitidamente querendo dizer: “Um a zero pra mim! “Mas…” Continuou rapidamente antes que eu replicasse. “Eu vou lhe dizer que, pela lógica humana, há uma outra opção…!”

Pensei por um breve instante na possibilidade de uma pegadinha, de um jogo de palavras escondidas, mas refutei qualquer especulação nesse sentido e fui categórico: “Não, Pongo! Nessa você não me pega. Pela lógica humana, como você enfatiza, só há uma alternativa. A lei da gravidade fará a banana cair e ponto final.”

“Não quer reconsiderar?” Perguntou Pongo. “Eu me sentiria constrangido em ter que demonstrar que você nega os seus próprios princípios, talvez por um breve momento de esquecimento, ou quem sabe um ato falho? Aliás, o ato falho é uma das invenções psicológicas da sua espécie de que eu mais gosto. O cara escorrega na casca de banana que acabou de comer… só vocês mesmos!”

“Tá legal, senhor Pongo, vá direto ao assunto. Qual é a resposta?” Perguntei, já curioso para saber aonde o raciocínio do orangotango iria nos levar.

 “Vou responder… você se lembra que no outro dia você me perguntou se eu sabia qual era a verdade?” Perguntou o orangotango, repentinamente emendando dois assuntos. Eu me lembrava. Ele ironizara a pretensão humana de se julgar uma peça chave dentro de um universo infinito. Sou obrigado a reconhecer que o fato dele estar coberto de razão me deixara mais irritado do que as ironias em si. Num dado momento eu perguntara se ele, o sábio Pongo de Borneo, afinal, tinha as respostas… se ele sabia a verdade… mas nossa conversa foi interrompida pela chegada do tratador. 

“Claro que me lembro!” Respondi. 

Pongo coçou o cocuruto, estalou a língua e disse: “Longe de mim a ambição de ser o expositor da verdade. Só um idiota acha que pode defini-la. É muita pretensão! Qualquer ser humano, um papa ou um popular, morrerá com a ilusão de que suas regras são o livro definitivo. Se alguém tropeçou em algo que acredita ser a verdade então vá vivê-la. Mas não arraste ninguém. Será mais honesto…”

“Ei. Ei!” Interrompi. “Conheço o seu jogo, amiguinho! Entra num longo discurso pensando que me enrola. Primeiro vamos resolver o problema da banana…” 

Pongo mostrou os dentes “Por quê? Está com fome?” Como eu apenas torci o nariz e deixei claro que não estava a fim de participar da piada ele continuou: “Não se preocupe com a banana, ela está num lugar seguro. Nós a jogamos com bastante força. No devido tempo ela vai cair. Esqueceu? Há uma lei da física que a puxa inapelavelmente para baixo, ou pelo menos foi o que eu entendi de sua explicação. Ou então ela não vai cair… e aí sim! vamos ter que nos preocupar com a banana. Mas, enquanto ela não cai podemos falar um pouco sobre a verdade.”

“Você acabou de dizer, meu amigo Pongo, que não tem a menor pretensão de ser um expositor da verdade! Está se contradizendo, cara?”

“Mas nada impede que façamos especulações sobre ela, meu amigo Homo.” Pongo se levantou, esfregou as mãos na barriga e exclamou: “Ops! A natureza não perdoa… eu… bem, eu tenho que fazer minhas necessidades fisiológicas… viu como estou ficando fino? Amanhã continuamos. Afinal, não teremos nada pra fazer! Você continua seus desenhos enquanto eu cato meus piolhos.” Depois tentando fazer uma imitação da minha voz Pongo complementou: “Quem sabe conversa vai, conversa vem, acabamos descobrindo o que pode acontecer com a banana, além de cair, é claro. Está bom para você… cara?”

Depois de um instante de silêncio dei uma boa gargalhada pela imitação que Pongo fizera do meu jeito de falar. 

“Hu! Hu! Hu!” Fez Pongo.

Vou tentar gravar uma conversa com o orangotango. Qual é o manual das coisas inquestionáveis? E a banana vai ou não vai cair? Estas respostas serão dadas na 3ª parte de Pongo.