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Um ano de vida!

16/02/2010

Não é só a Páscoa e o Carnaval que são datas móveis. O meu aniversário autodeterminou-se como móvel por contigência dos eventos a ele relacionados. Faço aniversário na Terça Feira de Carnaval. Nesta estou fazendo um aninho de vida e aceito todas as parabenizações dos blogueiros e viajantes de passagem. Na Terça do ano passado, que caiu em 25 de fevereiro, fui revascularizado com gentis safenas cedidas por minha perna direita e me foi dado o direito de continuar por aqui ainda mais uns tempos. O comentários geral é que tenho chutado mais em todos os sentidos figurativos graças à esta doação de um dos membros inferiores. Mas não é verdade. Sempre fui mais azedo, mas só quando vomitam em mim as essências da política, as justificativas para a ignorância, a falta de ética profissional, e as mentiras contadas para muitos – e que muitos acreditam serem verdades incontestáveis – num desrespeito pelo aculturamento inocente dos manipulados pela ganância vil.

Quero bolo com velinha…!

O Debate das Pulgas (2ª parte)

10/05/2009

O lento retorno…

Um dos três, que eram como gêmeos (que depois me disseram se chamar Joaquim!), olhou para aquele meu olho esquerdo, aberto, que observava atento, registrando o desenrolar dos fatos. (O olho acompanhante dos movimentos e atos, sem entrar no mérito se verdades ou  interpretações antropomórficas daquela esfera aconceitual) Então, este, a que me referi, sorriu e disse: “Por que não fecha este olho e dorme?” Respondi (ou pensei e de alguma forma me fiz compreender porque minhas cordas vocais estavam impedidas pelo tubo): “Por que quero ver o processo! afinal, é uma oportunidade única! Estou presente e consciente e ao mesmo tempo sabedor de que morri. E isto se opõe ao meu conceito de continuidade.” A resposta veio pronta: “Então reconceitue ou se convença de que não chegou a sua hora! Vamos! Feche o olho! Facilite o meu trabalho”.

Devo ter piscado! O box era o 23! Um entubado sente muita sede e não há um método estabelecido para comunicar este desespero básico! A anestesia é uma das maiores invenções (depois do velcro e do papel higiênico)! Quando ela acaba o mundo é um dos piores lugares para se viver. Há uma certa dificuldade inicial para contar os tubos,  de diâmetros variados,  que de alguma forma foram introduzidos em seu corpo.  Você se surpreende com a imaginação dos técnicos nesta área! Tente contar os buracos novos. Os abertos e os suturados. Tente dormir! De 30 em 30 segundos você será acordado por alguém lhe injetando algo ou conferindo um sinal vital. Não vão entender sua necessidade aflita por duas gotas de água pingadas em sua boca ao lado do tubo! Esqueça! Feche os olhos como Joaquim pediu. Facilite o trabalho deles. Sempre chega o momento mágico. Ou você finalmente é desligado, ou sobrevive. O tubo é tirado e trocado por um sugador voraz que lhe introduzem pela traquéia até terem certeza que sua alma foi sugada. Como prêmio lhe pingam quatro gotas de água em sua língua. As amarras nas pernas serão mantidas. O destorturar deve ser gradativo para que você não pense que as coisas podem ser transformadas em algo fácil como num passe de mágica. O tempo é um remédio espetacular. Correção: o tempo ganha do velcro e do papel higiênico. Só perde para a anestesia.

De olhos fechados aproveite para “reconceituar”. Fique atento para o diálogo que as pulgas travam, acaloradas, atrás de suas orelhas.

Eu tenho um amigo!

31/03/2009

 

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Eu tenho um filho de 23 anos. Era minha pretensão ensinar muitas coisas para ele. Imaginem minha frustração quando me vi aprendendo com ele aquilo que era a minha fala no script. Isto não é justo! Mas minha vingança já está planejada nos mínimos detalhes. Ele vai ter o filho que merece! E eu, seja lá onde estiver, estarei rindo.

 

Quem mais poderia me ensinar que tudo tem um lado bom na vida, “se até o papel higiênico usado tem um lado bom”.

 Quem mais poderia superar o professor de xadrez e ainda tripudiar do mestre. Sei que é necessário conviver com os monstros que se cria, mas um pouco de respeito seria pelo menos diplomático – vou ensinar a meu neto: ao vencer o professor é fundamental humilhá-lo para que ele nunca esqueça de que foi um ótimo mestre!

 

Outra característica desta criatura com a qual tenho o prazer de conviver é o seu constante prazer de discordar. Não a discórdia vazia. Mas a capacidade de conseguir contrapor-se ao próprio ponto de vista, pelo puro prazer de encontrar no diálogo os argumentos que seriam do outro. Pelo prazer de ver as várias faces de uma mesma questão. Pela visão constantemente em mutação de todo ponto filosófico em questão.

 

Ele tem algumas máximas: Gosto de: “O sábio pode ficar indignado, mas nunca se surpreende”. Mas como todo ser humano ele tem um defeito (ou quem sabe não seja um defeito, mas uma defesa que o tempo e a idade vão burilar até chegar a algo como “A razão estava lá, mas meus olhos estavam momentaneamente indignados e não perceberam a razão”.) Eu falo de sua constante afirmativa: “Eu sempre tenho razão!”. O mesmo sábio que nunca se surpreende é o mesmo que sabe que nada sabe. Esta é a única razão que sempre se deve ter!

 

A maturidade e as descobertas crescentes que se expressam na convivência e nos diálogos entre pai e filho não podem ser avaliadas por métodos mensuráveis. Mas eu me atreveria a propor um instrumento de medida. Eu sou muito bom! Meu filho é muito melhor. E meu neto vai dar um nó no dono da razão!

O Debate das Pulgas!

29/03/2009

                                                          

 

Eu não acredito! Você pode até acreditar! Mas eu estava lá e os elementos matemáticos desenhavam-se paradoxalmente nítidos e indeterminados para se chegar a uma conclusão definitiva. Dirão: “você não tem fé!” É. Tenho fé que talvez esta seja uma ponderação exata.

 

Eu estava fora! Fora! Do lado de fora daquilo que o conceito humano convencionou estar aqui! Alguns dirão: “você só apagou! É o mesmo que Juan fazia com Castañeda! Uma viagem! Uma peiotada hospitalar”. Até isto é possível!

 

Eu estava de peito aberto. Literalmente! Enquanto mãos hábeis revascularizavam um coração hipotérmico e uma máquina incógnita movimentava meu sangue para que a isquemia não se generalizasse.

 

Eu estava nu. Deitado no chão. Foi imediato como um bater de palmas. Eu estava aberto, mas toda a equipe empenhada em me trazer de volta se fora. Dois focos de luz iluminavam a cena. As luzes estavam direcionadas sobre um coração pálido e agonizante que sabia ser o meu, mas todo o restante deste ambiente insólito estava mergulhado na mais absoluta escuridão. Eu me via. E era nauseante. A cena não tinha a realidade de um sonho. Era mais real do que a lembrança imediata de ter teclado a lembrança imediata de ter teclado. Mas o eu que eu via deitado mantinha o olho esquerdo aberto. Bem aberto. Vendo. Não acreditando. Mas registrando para uma posterior análise!

 

Eu não estava só! Três indivíduos circulavam nas sombras a minha volta. Todos eram altos, magros, de pele clara, tinham cabelos cheios e grisalhos, e vestiam batas de cor crua. Os três eram extremamente parecidos, como gêmeos, e falavam entre si em tons baixos usando palavras que eu não conseguia compreender. Aparentavam apenas observar a cena da qual eu era o protagonista nu. Meu olho esquerdo aberto. Meu peito aberto.

 

Eu fumava. E fumava bem há 9 anos atrás. Perto de uns seiscentos centímetros por dia. Um dia, do alto da gruta de uma das mães de um dos filhos de um dos criadores olhei para baixo e vi cerca de cinco mil pessoas olhando na minha direção. É óbvio que elas não olhavam para mim! Todas aquelas pessoas estavam lá movidas por seu desejo de acreditar na essência espiritual personificada pela estátua aos pés da qual eu estava. Aquelas pessoas só tinham olhos para sua fé, para seus pedidos, para seus agradecimentos. Naquele momento aquelas cinco mil pessoas tinham um só pensamento.

 

Eu tinha um pensamento: abandonar o cigarro! Rapidamente pensei: “A santa que me perdoe. Não comungo da fé que vejo expressa na face destas pessoas. Vou parecer um vampiro da energia alheia. Mas se estes bilhões de neurônios, nestes cinco mil cérebros que estão voltados para cá, têm a força de pelo menos acender uma lâmpada, usem esta energia para mandar à merda o meu vício de fumar”.

 

Eu não fumei mais! Física? Filosofia? Poder da mente? A fé dos outros usada em meu benefício? Uma comunhão ímpar? Positivismo? Pragmatismo? Algo a ser catalogado para uma posterior análise!

 

Eu estava mariscando. Eram sete horas da manhã. Para quem não sabe: mariscar é arrancar um molusco bivalve de uma profundidade média de 40 centímetros a beira do mar. Uma atividade que requer um bom esforço braçal e cardíaco movimentando areia molhada. Uma hora depois fui chamado a Porto Alegre, pois minha mãe havia sido hospitalizada. Ao chegar a Porto Alegre minha movimentação e respiração se tornaram abruptamente difíceis e um quadro de angina foi se caracterizando. E por caminhos errados fui cair e enfartar no único lugar certo num raio de 2 mil quilômetros.

 

Eu já contei esta história em “Qual é a tua?” mas o enfoque agora é outro. O ciclo se fechou. Lá estava eu, nu, de peito aperto, deitado no chão, com os três incógnitos personagens ao meu lado. Meu olho esquerdo aberto.

 

Eu tinha um pensamento: se eu fechar este olho o momento mágico vai chegar. Volto para casa num pacote. Deixo na mão todos que de alguma forma dependem de mim. E tudo aquilo? E tudo aquilo que falta fazer? Se eu fechar o olho e acordar num imenso gramado de perus gordos estarei no céu de Kurt Vonnegut. Se acordar sentindo todas as dores que a morfina não apaga os caras tiveram sucesso? Fechei os olhos e acordei querendo ser um feliz e gordo peru, mas sem dores.

 

Apenas junte tudo.

 

Eu tenho duas pulgas atrás da orelha. Elas debatem acaloradamente. Uma argumenta sobre a convergência aleatória de probabilidades com resultados aqui positivos e ali negativos. Afinal em milhões de possibilidades não há quem ganhe a mega-sena a beira da bancarrota? Se dermos uma Remington a um macaco e alguns bilhões de anos ele não poderia produzir uma bíblia de dar inveja a Gutenberg? A outra pulga desdenha este pragmatismo que nega a imaterialidade. Ela só diz: “Apenas junte tudo”!

 

Eu vou ficar na minha. Recolhendo dados. Mas confesso que a conversa está ficando boa!