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Especulações sobre a nossa natureza divina (ou o Nascimento de Deus)

25/09/2011

Qual seria, atualmente, o interesse desta civilização avançada em nos contatar?  … O avanço e a aplicação de seus conhecimentos, para nós, seriam distinguíveis de um ato mágico? Ou de um ato divino?

Atualmente a teoria que prevalece sobre a origem do universo é a do “Big Bang”, proposta pelo belga Georges Lemaître, em 1927. Como toda teoria ela permanecerá como explicação enquanto não for refutada. No momento ela tem sobrevivido aos críticos com poucos arranhões com base nas observações científicas possíveis. Segundo ela o universo teria se originado há aproximadamente 13,7 bilhões de anos a partir de uma região extremamente quente e densa. Nesta região não existiam partículas elementares (tais como os quarks) e tampouco as interações fundamentais estabelecidas pela física moderna. A convenção é de que a duração desse momento foi de 1 tempo de Planck, o que equivale à uma absurda fração de segundo com 43 zeros depois da vírgula, ou o menor volume e o menor intervalo de tempo possível para o universo. Considerando o conteúdo teórico de algo tão pequeno e por um tempo tão fugaz, ao mesmo tempo capaz de originar a miríade de galáxias hoje existentes, pode-se tentar imaginar o quão denso e quente teria sido este mingau original, e que, afinal, ele só poderia mesmo explodir!

Após a formação das partículas originais – dos primeiros segundos até os 3 primeiros minutos – a interação das forças físicas na expansão vertiginosa do plasma de quarks permitiu, agrupando-os em trios, a formação dos primeiros prótons e neutros, e a criação dos núcleos dos átomos de hidrogênio, hélio e lítio.

O hidrogênio é o combustível fundamental de uma estrela e representa 75% dos elementos existentes no universo. Os demais elementos, com mais de 3 prótons em seus núcleos, tiveram que esperar a primeira geração de estrelas gigantes e a morte delas, cerca de 300 a 500 milhões de anos, pois foram gerados em suas entranhas, por fissão nuclear, quando elas entraram em colapso e explodiram. Desta forma, há 13,2 bilhões de anos surgiram no cenário universal os elementos que permitiriam a formação de planetas sólidos e o substrato para a vida. Entre eles o oxigênio, o carbono e o nitrogênio. O oxigênio é o sócio do hidrogênio na formação da água. Logo, a água, diluente e veículo indispensável para a vida como a conhecemos, só foi possível a partir deste momento. Mas o tempo entre a possibilidade de dois átomos de hidrogênio combinarem com um átomo de oxigênio para formarem a primeira molécula de água e o aparecimento real de água em estado líquido numa poça ignota sobre um planeta rochoso precisou esperar pelo menos mais 2 bilhões de anos. Pois foi necessário o nascimento de uma segunda geração de estrelas, e que entre elas existissem algumas com dimensões semelhantes às do nosso Sol para que não explodissem antes de darem uma chance à vida, e que entre essas estrelas algumas carregassem em suas órbitas planetas sólidos, não tão próximos da estrela para não serem quentes demais e nem tão distantes para não serem frios demais, e ainda não tão pequenos para que pudessem reter uma atmosfera e nem tão grandes para que a atmosfera não se transformasse numa prensa jupteriana.

Aparentemente são muitos os fatores necessários, mas num universo com bilhões de galáxias cada qual com bilhões de estrelas o próprio acaso conjura a favor de uma possibilidade positiva. Tanto que estamos aqui! É evidente que nesta análise especulativa não estamos considerando todas as variáveis que fogem dos parâmetros humanos e que poderiam ter sido aproveitadas pela vida em formatos que nem somos capazes de imaginar. Mas, de forma simplificada, para seguir o presente raciocínio, vamos considerar que a vida como nós a conhecemos é a alternativa mais prática, ou econômica, ou barata, ou mais lógica, pois, pelo menos em nosso planeta, o número de espécies passa dos 8 milhões, e neste número estamos ignorando as incontáveis milhões de espécies que já foram extintas nos 4,7 bilhões de anos de existência do planeta. Logo, este modelo que tem se mostrado bastante pródigo, mesmo que não seja o único, pode ter se apresentado de forma semelhante em outras partes, e outros tempos, no universo.

Sabemos que para o nosso modelo não basta a água em estado líquido num planeta sólido em cuja crosta estejam presentes os demais elementos químicos. Vamos considerar também os outros dois sócios do hidrogênio. O nitrogênio, com que forma a amônia (NH₃) e o carbono com que forma o metano (CH₄). Outra sociedade básica é a do carbono com o oxigênio (CO₂), ou gás carbônico. A água, a amônia, o metano e o gás carbônico são os mosqueteiros da luta pela vida. Eu daria à água o papel de Dartanhan. Quando estudantes guardávamos o som “CHON” para memorizar os 4 elementos básicos. Com eles são construídas quase a totalidade das moléculas que comandam, suportam, e alimentam o metabolismo do seres vivos, incluído as quatro bases nitrogenadas do DNA. Outros são necessários em pequenas porções, mas indispensáveis para que as reações químicas sejam possíveis, como o fósforo, o potássio, o sódio, o enxôfre, o cálcio e o cloro, e ainda outros em menores quantidades como o ferro, o flúor, o iodo, o cobre, o zinco, e o manganês. Todos disponíveis no substrato planetário em que a vida quer se intrometer.

Tudo estando disponível, nas quantias certas, no ambiente favorável, recebendo os solavancos e os desafios que estimulam a evolução, vacúolos primitivos criados pelas forças físicas inevitáveis da tensão superficial e submersos no barro úmido oferecerão em seus interiores microcosmos acolhedores e necessários para que organelas primitivas se insinuem com suas moléculas replicantes. Estas estruturas um dia isoladas e em outro momento recombinadas, simulando defesas e mecanismos de sobrevivência, mimetizando proto-virus, agarrados a um esboço de RNA como a uma tábua de salvação num mar inóspito, evoluirão para bactérias, que um dia, por inclusão, passarão a mitocôndrias simbióticas de um ser unicelular, que salvarão o seu tesouro de comando num núcleo, criando apêndices e espaços digestivos, crescendo e descobrindo soluções para os problemas, num lento roteiro darwiniano rumo aos seres pluricelulares, causando arrepios e náuseas aos criacionistas.

Aqui cabe um comentário: o fato é que com a aquiescência ou não dos que exigem o determinismo divino é muito mais miraculoso a utilização deste complexo, moroso e gradativo processo de transformação para chegar a algo superior do que a utilização simplista de uma varinha mágica que dogmatiza, mas não explica por que as coisas são como são.

Dizíamos que seriam necessários outros 2 bilhões de anos para que estas condições especiais surgissem em algum lugar. Logo, há 11,2 bilhões de anos atrás. Também sabemos que nos padrões que conhecemos seriam necessários mais 3,7 bilhões de anos para que num planeta como o nosso a vida evolua e desenvolva uma civilização capaz de se surpreender com suas origens e destinos possíveis e faça especulações sobre o seu papel no universo. Com isto, é possível que há 7,5 bilhões de anos já existisse no universo uma civilização semelhante à nossa.

As correntes pessimistas afirmam que as civilizações tendem para a extinção num curto espaço de tempo de alguns milhares de anos por fatores múltiplos, como epidemias, guerras, mudanças climáticas bruscas como glaciações ou aquecimentos, catástrofes cósmicas, e becos evolutivos. Uma variada gama de possibilidades apocalípticas mesclada com pandemias letais.

Mas sem uma extinção total por obra de um fenômeno cataclísmico qualquer este palco que montamos para que a vida tentasse uma evolução continuada desde os primórdios do universo criaria uma possibilidade bastante interessante. A evidente disparidade temporal entre a hipotética civilização primordial e a nossa é a mais marcante. Se considerarmos que a nossa civilização tem cerca de 10 mil anos, poderíamos dizer que o abismo temporal entre as duas espécies seria hoje o equivalente ao de 750 mil civilizações. Um tempo razoável. Qual seriam as diferenças mentais entre essas duas civilizações?

Qual seria, atualmente, o interesse desta civilização avançada em nos contatar? Qual seria o nível de entendimento ou de conversação? Em que nível evolutivo esta espécie estaria? Nós conseguiríamos compreendê-los? Ou percebê-los? Eles teriam forma? Estariam presos a uma base orgânica como nós? Quais seria o seu domínio sobre as forças da natureza? Será que esta espécie ainda conservaria a individualidade de seus elementos? Ou seria um ser coletivo? O avanço e a aplicação de seus conhecimentos, para nós, seriam distinguíveis de um ato mágico? Ou de um ato divino?

Seguindo esta mesma ótica nada impede que já tenhamos entrado em contato com tal ser ou seres, ou outros em estágio intermediário, em nosso passado remoto, o que explicaria a profusão de mitos sobre divindades que nos criam, alimentam, acalentam, ensinam, limitam, julgam e depois somem. Assim seria possível imaginar esses seres e a sua atual atitude de afastamento, como quem observa à distância, mas não se imiscuindo dos negócios terrenos, tampouco se interessando com os problemas individuais, mas quem sabe monitorando o avanço da nossa espécie como um todo, na expectativa de que um dia possamos nos somar a eles em imagem e semelhança.

Podemos continuar nossa viagem especulando sobre a nossa relação com esses possíveis primos que estariam vivendo num estágio evolutivo tão superior que talvez não sejamos capazes de identificá-los ou imaginá-los.

O nosso sol está em atividade há 5 bilhões de anos e tudo indica que ainda permanecerá na seqüência principal por mais 5 bilhões de anos. Digamos que no tempo restante, não acontecendo nenhuma catástrofe que nos apague da face do universo, o sol ainda possa aquecer adequadamente a vida no planeta Terra por mais uns 2,5 bilhões de anos antes de se tornar instável. Logo, se tivermos sorte e formos inteligentes para nos mantermos vivos, e cooperantes, a nossa infante civilização pode evoluir física ou espiritualmente por mais 2,5 bilhões de anos neste planeta. Ou mais provavelmente espalhada por uma fatia significativa da galáxia, obedecendo ao princípio de que não é inteligente guardar todos os ovos na mesma cesta. Em 2,5 bilhões de anos os nossos hipotéticos primos que vínhamos analisando desde o início desta especulação poderiam, considerando toda uma vida feliz e fecunda para esta espécie, contar com 10 bilhões de anos de evolução. Ou 4 vezes mais tempo do que nós. Em comparação com a brutal diferença atual de 750 mil vezes observamos uma redução drástica e significativa na proporção, mesmo considerando que algumas das possibilidades evolutivas se ofereçam numa proporção geométrica. Logo, no futuro, é possível uma proximidade muito maior. O que abre a promessa de um entendimento mútuo. Quiçá uma cooperação!

Aparentemente, num futuro próximo, vamos continuar aqui nos arrastando no processo de tentar a partir de alguma criação tecnológica a não permanência em um só planeta passível de destruição. Podemos também tentar melhorar nossa relação com a natureza, seja lá o que ela signifique ou o que significa esta relação melhorada, afinal temos bastante tempo paras isso, quem sabe mais 2,5 bilhões de anos na velha Terra, ou espalhados por aí. Pode ser que a depuração genética ainda nos permita saltos em direção a algo melhor. Pode ser que aquilo que alguns rotulam como alma e que insufla nossas carnes como uma mola ambivalente dividida entre o bem e o mal tenha um porto numa dimensão insuspeita. Pode ser que o método de ir e vir, reencarnando, numa intencionalidade purificadora, seja a sistemática para levar ao porto uma nova carga de experiência evolutiva. Ou talvez, tristemente, a chama se apague para cada indivíduo e o que conta, afinal, é a espécie como um todo e o seu produto final. Poderíamos até criar figuras de linguagem, demonstrações gráfica, e religiões modernas que afirmem que deus está nascendo e que nós fazemos parte desse processo. Quem sabe um dia haja um encontro com outros que já há alguns bilhões de anos estão nesse processo. Mais uma teoria passível de erro como todas as outras.

Ou não!

Os sonhos do bobo da corte!

04/09/2011

Há momentos em que releio o que escrevi com enfoque político, e percebo o quanto posso ser inocente, ou simplório, ou idiota. Não em descrever um determinado momento ou expor o desejo de que algo mude na consciência de alguns políticos. Mas sim em imaginar que isso seja possível.  Nesse quesito, antes de qualquer coisa, é necessário estar convicto de que a classe política é um exato reflexo da fatia da humanidade que ela representa. A humanidade mostra sinais extemporâneos de que quer o bem, mas naufraga na podridão quando lhe são retirados os suportes tecnológicos que a maquia; a borra política, mesmo maquiada e culta, acaba desenhando no fundo da xícara o que vai na alma de seus representados. Que lástima!

Esta utópica anarquia surreal que vejo em sonhos não é possível com seres humanos. De forma alguma agora, e quase certamente nem em milhares de anos.  É necessária uma mudança absoluta na mente das pessoas. Tão absoluta que nós não estaremos mais aqui nem como espécie para vê-la. Que lástima!

Há quem afirme que o ser humano chegou a um beco evolutivo. Num exercício comparativo poderíamos pegar um homem de trinta mil anos atrás, que tivesse conhecido o último Neanderthal, instruí-lo sobre os macetes da civilização, dar um banho de loja nele, e sentá-lo na praça de alimentação de um shopping que ele não seria notado pelo homem moderno. Num caminho inverso poderíamos apagar a luz, desligar os satélites de comunicação, esvaziar os supermercados e sabotar uma meia dúzia de serviços para que o homem moderno perca todo o seu verniz civilizatório e regrida à barbárie. Não há mais necessidade de evoluir. Enquanto alguém ganhar dinheiro produzindo conforto e alguém tiver fundos em seu cartão de créditos a civilização estará salva. E a civilização é a máquina que permite que haja avanços e melhorias em termos de conhecimento e tecnologia. Mas a evolução natural da espécie humana; esta já morreu. Que triste!

Quem sabe só estejamos aqui para servirmos de incubadores para o próximo passo? Isso é o que se vislumbra quando se observa a possibilidade de que o homem venha a manipular geneticamente o seu futuro. Então poderá nascer algo melhor! Quem sabe!

Mas enquanto isso não acontece alguém deve manter acesa a chama do bobo da corte. Alguém deve bancar o idiota para lembrar aos candidatos a rei de que eles também são uns sacos de estopa cheios de bosta e que um dia vão apodrecer e feder como toda a massa plebéia. Não que a maioria deles se toque! Vamos ser realistas! A psicopatia política não prevê melhorias desse nível.

(26)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 67 a 69 de 101)

22/01/2011

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E Pierre nos contou que pelos nossos conceitos ele seria definido como um ser humanóide, com membros mais esguios, um pescoço fino e uma cabeça em forma de pêra, com pouco queixo, praticamente sem orelhas ou nariz, e com grandes olhos negros, inclusive as escleróticas.

Disse também que suas mãos menores e seus cinco dedos bem alongados foram os detalhes mais difíceis de camuflar no traje experimental. Tinha pés muito semelhantes aos nossos com cinco artelhos. Os machos possuíam um pênis diminuto e dois testículos e as fêmeas órgãos sexuais internos semelhantes aos das mulheres, incluindo dois seios na parte frontal do tórax.

Acrescentou que a anatomia interna das duas espécies tinha evidentes diferenças, mas que a simetria e a funcionalidade dos órgãos equivalentes eram basicamente as mesmas.

Naquele momento interrompi: “Pierre, como você explica o fato de nossas espécies, originadas de pontos diferentes na galáxia, e com um abismo histórico de um bilhão de anos, terem tantos pontos anatômicos em comum?”

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“Isto também intrigou os nossos cientistas quando estivemos por aqui há alguns milhares de anos, e há uma teoria bem plausível que explica nossas similitudes. Antigamente, há 58 milhões de anos, os Vêes viveram um período de expansão exploratória e há registros precisos de que visitaram o braço de Orion, e possivelmente o seu planeta no Paleoceno, uns 5 milhões de anos após o fim do Cretáceo, se estabelecendo por aqui durante muitos anos. O fato é que naquela época, assim como hoje vocês costumam ter animais de estimação, os de nossa espécie tinham o hábito de levarem em suas viagens mascotes de uma espécie ancestral chamada pipili, que havia chegado a um beco evolutivo, mas com os quais dividíamos a maior parte de nosso passado genético. Os pipili eram pequenos símios de olhos grandes e cauda longa. Na Terra se aproximaram dos társios, muito semelhantes em suas formas, e houve acasalamento entre as duas espécies. Algo que nos parecia impossível, mas que provava que tanto os társios como os pipili tinham uma história ancestral comum, impossível de ser determinada com precisão. Aparentemente os pipili que foram absorvidos pela população animal do planeta foram extintos com o passar dos anos mas do cruzamento com os társios surgiram novas recombinações genéticas, e aquela espécie, que em nosso planeta havia esgotado suas possibilidades abriu aqui uma nova porta, que está na raiz do aparecimento dos primatas ancestrais de vocês.”

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“Deixa ver se entendi!” Eu disse, após um momento de reflexão. “Vocês descendem de um pipili…” Pierre concordou. “… assim como nós e a macacada toda descendemos do társio ou do filho de um társio com um pipili.” Pierre aquiesceu com um meneio simples. “Então somos aparentados de alguma forma e isto explicaria as semelhanças anatômicas entre as nossas duas espécies.” Outro meneio afirmativo. “E tudo que veio antes? É outra linha evolutiva? Como você explica esta estupenda coincidência envolvendo dois macaquinhos, de extremos opostos da galáxia, que acabaram procriado como se cromossomos fosse legos vendidos em qualquer esquina e com encaixes padronizados?”

(Continua aqui!)

(13)Pierre, meu alienígena de estimação (partes 34 a 35 de 101)

14/12/2010

(Para saber como começou clique aqui!)

034

Num dos passeios, que ocasionalmente fazíamos, ficamos algum tempo estacionados perto de uma escola infantil naquela hora em que as mães aflitas buscam os filhos e querem voltar para casa às pressas porque o almoço ainda não está pronto. As crianças, por outro lado, ainda têm uma última palavra com algum coleguinha, ou um fim de uma brincadeira que nunca termina, ou ouvir uma recomendação de uma professora preocupada, ou dar um soco em outra criança por uma provocação iniciada na hora do recreio.

“O que realmente é ensinado para elas nesses estabelecimentos?” Quis saber Pierre.

Respondi: “O básico. Ler, escrever, calcular, conhecer alguns fatos primários da história e das ciências, localizar-se no espaço e se relacionar umas com as outras.”

“E quanto tempo leva esse processo?” Continuou Pierre.

“Uns três anos.”

Pierre se voltou para mim com sua expressão de espanto.

“Mas é muito tempo para quem vive tão pouco!”

“É por que nós somos muito primitivos.” Eu o imitei.

Ele pareceu não perceber e continuou: “É. Eu sei. Mas mesmo isso não é uma justificativa… Quanto tempo vocês levam para formar um especialista em uma área qualquer?”

“Uns dezoito anos… acredito.”

Pierre ficou mudo por um instante e depois exclamou: “Inacreditável!” E depois expôs seu raciocínio. “Como o processo se inicia aos 7 anos, um ser humano completa seus estudos aos 25, e fica pronto para trabalhar nas pesquisas de ponta aos 30, digamos! Depois ele deixa de trabalhar em média aos 70 ou 75 anos, dependendo de sua saúde. E nesses 45 anos ele dorme 15 anos. Ficam 30. Por dia ele gasta mais 8 horas se vestindo e se despindo, comendo e defecando, bebendo e urinando, descansando, se deslocando pra lá e pra cá, assistindo TV e jogando conversa fora… são mais 15 anos. Sobram 15. Ele não trabalha sábados a tarde e domingos, e em alguns dias em que vocês comemoram coisas relativas à sua cultura, e ainda têm aquilo que chamam de férias de 30 dias porque estão cansados, e esses dias somam… arredondando, em média, 110 dias por ano, ou 4,5 anos dos 15 que sobraram. Então o homem é capaz de produzir para a sua civilização durante dez anos e meio durante toda sua vida…! Inacreditável!”

“Tanto desperdício?” Arrisquei.

“Nããão! O paradoxo de ter chegado até aqui com tanta ineficiência!”

035

“Pierre!” Perguntei enquanto voltávamos para casa. “Pelo que entendi, embora nossos métodos sejam altamente pouco producentes nós estamos evoluindo de uma forma mais rápida do que vocês?”

Ele me olhou surpreso e respondeu: “Não foi isso que eu disse! Nem hoje e nem no outro dia.”

Contrariado resmunguei: “Então explique ao macaco!”

“O que eu disse é que vocês estão atingindo níveis de conhecimento numa velocidade mais rápida do que os Vêes!”

“Vêes?” Exclamei.

“Desculpe-me não ter esclarecido. Nossa espécie se auto-denomina Vêe, assim como você se chama de humano, ou Homo sapiens!”

“Interessante! Foram necessários 14… 15 meses para saber o nome da espécie do alienígena que mora na minha casa. Com quem você mora ultimamente? Com um Vêe! Ah, legal, lembranças pro Vêe!”

“Já disse, desculpe-me… não achei relevante!”

“OK! Deixa pra lá! Volte para o papo entre produtividade e evolução que não ficou muito claro!”

“O que eu dizia é que os humanos estão compreendendo rapidamente a mecânica do universo embora seu tempo útil seja tão curto.”

“E isso é bom!”

Pierre enrugou o rosto numa expressão que eu ainda não tinha notado: “Não exatamente!”

“Adoro quando você me faz cair da escada!”

Ele elevou os canos da boca num sorriso, mas eu fui brusco: “Não é uma piada, é irritação!” E o sorriso dele murchou.

“Afinal! Senhor Pierre Le Vêe, aprender rápido é ou não é algo bom no contexto da moral cósmica?”

“É claro que aprender numa velocidade superior é bom para uma espécie em particular, mas se essa espécie não estiver evoluindo na mesma medida isso pode não ser bom para as demais espécies inteligentes do setor.”

“Evoluir significando melhorar a índole…?” Arrisquei.

“Exatamente! Nós já conversamos sobre isso sob uma ótica um pouco diferente. Um padrão ético equilibrado evoluindo junto com um conhecimento superior tornaria os possíveis contatos futuros mais harmônicos.”

Estacionei o carro na garagem e soltei: “Soluções!”

“A mais drástica seria encurtar o tempo de vida da espécie de vocês assim permitindo que as trocas gênicas tenham tempo para encontrar uma saída menos traumática…” Como eu torci o nariz  ele rapidamente arrematou: “… ou talvez isto seja muuuito traumático… a outra seria encurtar o intervalo de mil anos entre as visitas para reavaliação dos progressos de vocês para, digamos, uns duzentos anos.”

(Para saber como continua clique aqui!)

Megan Fox

11/12/2010

Para quem curte desenho digital vai este link.  É para curtir o processo mas nada impede que se dê uma olhada na Megan também. Arte de Stephanie Valentin.