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O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (22 de 22))

21/10/2010

Capítulo 22 de 22 (5 anos depois)

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Será que existe realmente um fim ou apenas as coisas se renovam com outra cor.

Alvin se recusou a tirar um longo retiro como Dom Marco havia sugerido. Optou por se entregar ao trabalho como sacerdote para se sentir cumpridor do seu dever. Helena voltou para o trabalho especial junto a Dom Marco, fosse ele qual fosse. Da mesma forma nunca mais foram vistos aqueles personagens saídos de um conto policial: Breno, Accioli e Roque. Marco lhe disse que Lúcio morrera de uma overdose de cocaína após ter concluído que todo o seu plano havia ruído como um castelo de areia. Alvin sabia que na lógica de Marco omitir não era exatamente mentir. A notícia deveria estar incompleta, mas traduzia uma verdade circunstancialmente perfeita. Eloá desaparecera no dia em que Lúcio colocara as cartas na mesa e Alvin nunca mais a viu. Alvin sabia que ela ocasionalmente se insinuava em seus sonhos, mas criara mecanismos para considerar aquilo um evento normal e a cada dia se sentia mais forte como padre e em sua fé. A casa estava novamente organizada, agora por uma senhora chamada Rebeca que lembrava Jenô.

Alvin entrou pela porta principal da igreja depois de se despedir de um jovem casal e caminhava pelo corredor central em direção ao altar. Ouviu atrás de si o som dos saltos de um andar feminino contra o piso da igreja. Ficou parado e sentiu que o andar da mulher havia diminuído o ritmo, mas ainda se aproximava. Não se voltou. Ele não precisava se voltar para saber quem era. Avaliou os seus sentimentos. O ritmo de seu coração. Os sons em suas têmporas. E considerou que o resultado era bom. Não sabia qual seria sua reação quando se voltasse e encarasse Eloá, mas os cinco anos que haviam passado lhe permitiram que estudasse as próprias reações, cicatrizasse suas feridas, e esperasse por aquele momento, que um dia poderia vir. Estava preparado para o verde de seus olhos, para a sensualidade de sua boca, para a moldura de seus cabelos, e para o contorno de seu corpo. Mas descobriu que não estava preparado para o som de sua voz: “Alvin.” E mesmo o tempo tendo parado ele se voltou para vê-la.

Na sua frente não estava a Eloá que ele conhecera. Em tudo era ela e estava mais bela. Era uma mulher feita. Mais alta e com o corpo maduro. Elegante e bem vestida. Com os olhos mais tristes, contrastando com seu sorriso de anjo. E ela falou novamente: “Senti saudades. Só passei para deixar um presente. A existência desse objeto e o ato de me desfazer dele é uma síntese do que eu aprendi na vida. A capacidade de amar, que aprendi com Alvin. E a capacidade de sobreviver, que aprendi com Lúcio. Não tenha medo desse presente, ele é a prova de que eu nunca faria algo contra você.” E Eloá se aproximou e lhe deu um leve e demorado beijo. Alvin se lembrou de quando acariciara a  barriga dela e ainda pensava que ela esperava um filho dele. Depois ela lhe entregou uma pequena caixa achatada, deu meia volta e foi embora. Alvin viu Eloá partindo e se deu conta de que não dissera nenhuma palavra. Não conseguiu dimensionar o tempo em que ficou ali parado no meio da igreja. Tentou saborear o beijo e o achou conhecido. Tentou ouvir a memória da voz dela e soou como um eco de cinco anos atrás. Percebeu que tinha uma caixa na mão e a abriu. Encontrou em seu interior um DVD em que estava escrito: “Tudo não passa de um jogo entre Deus e o Diabo!”

***

“Não acredito! xeque perpétuo!” “Então tablas!” “Tablas, realmente tablas…” “Eu lhe disse que não aceitaria ser derrotado por você.” “Inacreditável… um empate por xeque perpétuo!”

“Vou guardar as peças!” “Sim, sim… mas, deixe os reis de fora.” “Evidente! nós sempre ficamos de fora!… fazendo piada, agora?” “Claro! Esta é uma das minhas criações preferidas.”

FIM

O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (21 de 22))

18/10/2010

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 21 de 22 (17 de janeiro)

Causar medo é ainda é o processo mais persuasivo.

Breno disse para Accioli. “São vinte apartamentos. Eu começo daqui e você de lá. Se a porta for aberta por uma cara conhecida desconversamos e matamos a xarada. Se for desconhecida estamos interessados num cinegrafista chamado Guim. Vamos lá.”

No oitavo apartamento uma senhora exalando todos os cigarros do mundo disse: “Essa foto é do Guimba, que mora com uma bicha, a Borboleta, no andar de baixo, no… 303. Eles trabalham com filmagens, todas sacanas. Não sei se contratam padres, mas vá saber. Quanto levo?” Breno colocou uma nota de cinquenta na mão da velha e agradeceu. Chamou Accioli. E foram para o 303.

No apartamento um sujeito efeminado abriu a porta e os dois logo o identificaram como um dos protagonistas do filme em que aparecia Eloá. “Estamos vendendo Bíblias para angariar fundos para o lar dos velhinhos!” Disse Breno.

“Hi! querido! viajem perdida! O dinheiro é curto e em Bíblia, aqui, seria muito mal empregado. Volte outro dia quando estiver pelado.”

“Quem é?” Gritou alguém do interior do apartamento.

“Nada, Guigui! Dois urubus que bateram na posta errada.”

Breno ligou para Marco. “Temos os dois. Um é o Guimba, possivelmente o ativo, e o outro é o Borboleta, fazem filmes pornográficos e o apartamento é o 303. Pode começar a conversa com Lúcio para ver se a nossa ação por aqui é procedente.”

***

Marco chegou perto de Lúcio e disse: “Tenho uma notícia para você que talvez não seja muito boa.” Lúcio permaneceu estático engolindo uma saliva ausente. “Parei de rezar por você.” Marco acomodou melhor os seus setenta anos na cadeira desconfortável, alongando a pausa, e continuou: “Mas as coisas não estão totalmente perdidas. Nós agora vamos brincar de um jogo de adivinhações. Se as respostas que você der às minhas perguntas forem verdadeiras, você ganha pontos e nada acontece. Se você me contar mentiras, ou tentar me enrolar, o nosso amigo Roque, que não é muito falante, conhece métodos bastante persuasivos. Vamos começar?”

Lúcio permaneceu mudo por um instante e depois reuniu toda a arrogância e coragem que conseguiu encontrar acima de seus fundilhos e vociferou com uma voz rouca que não reconheceu como sua: “Saiba que se algo acontecer comigo eu tenho um esquema montado que vai botar toda aquela merda no mundo. Vocês vão se arrepender pelo resto de suas vidas por terem encostado um dedo em mim.”

“Exatamente!” Disse Marco com um grande sorriso. “Vejo que você compreendeu perfeitamente as regras do jogo. Então vou perguntar: onde você esconde o backup do seu trabalho nojento?”

Lúcio deu uma risada quase histérica e rosnou: “O vovô não pensa que vai conseguir arrancar essa informação de mim, pensa?”

“Sem dor, não! Mas a dor abre a sua memória e uma mente treinada pode ler os pensamentos aproveitando a brecha.” Disse Marco e saiu da sala.

Roque se aproximou de Lúcio e colocou o dedo mínimo esquerdo do prisioneiro dentro de uma pequena guilhotina circular. Fez aquilo com uma rapidez e uma falta de emoção tão inusitada que Lúcio só se deu conta do fato quando sentiu uma dor terrível e viu seu dedo ser cortado na altura da segunda articulação. O horror e a dor permaneciam quando Roque encostou ao coto um instrumento elétrico e cauterizou o sangramento. Lúcio voltou a uivar ao ser eletrocutado. Em seguida a ferida foi coberta com um curativo em forma de dedo de luva. Todo o processo durara talvez 12 a 15 segundos. Fora inacreditavelmente torturado por aquele padre que não dizia nenhuma palavra. Roque se afastou e deixou o aterrorizado Lúcio com sua dor.

No instante seguinte Marco voltou e se sentou na frente de Lúcio. Colocou a mão direita sobre a têmpora e ficou um longo tempo parado como se concentrasse em algo que queria escapar de seus pensamentos. Depois começou a dizer palavras soltas, olhando para o chão: “Guimba”… “313?” E Lúcio não sabia se tinha mais medo do cortador de dedos ou daquele velho. Mas não ouve tempo para se recompor, pois o bispo voltou à carga. “Vamos recomeçar o nosso jogo. A imagem se foi e talvez precisemos de mais dor para abrir sua memória. Então vou perguntar novamente: onde você esconde o backup?”

“Isto é loucura!” Uivou Lúcio. “Isto não existe. Vá se fuder. Podem me matar que estou pouco…”

Marco voltou a se retirar da sala e Roque se aproximou de Lúcio com sua pequena máquina de tortura fazendo um clec-clec que prometia mais dores. “Nãããão!” Urrou Lúcio. “Parem. Por favor! parem com isto.” Mas seu grito de dor foi o de um animal quando Roque cortou o anular esquerdo, o cauterizou com o instrumento elétrico e colocou o curativo.

Marco voltou com sua encenação de adivinho e prontamente disse: “Não era 313 e sim 303! E Borboleta? quem é Borboleta? Um apelido certamente.”

“Eu digo!” Chorava Lúcio.

“Quem é Borboleta?

“Não! Eu digo onde está o backup!” Soluçou Lúcio.

“Mas isso eu já sei!” Disse Marco. “O backup está no apartamento 303, onde moram Guimba e Borboleta, o que eu quero saber agora é quem é esse Borboleta e o porquê desse apelido tão exótico.”

“Esse velho é louco.” Pensou Lúcio e ficou ofegante, chorando, com a baba e a coriza lhe sufocando a respiração. Enquanto Marco se levantava para sair da sala e dizia: “Roque, acho que ele precisa perder mais um dedo para me dizer quem é esse Borboleta.”

“Eu digo, eu digo, pelo amor de Deus, eu digo.” Chorava Lúcio quase não sendo possível entender suas palavras. “É a bicha do Guimba. Só isso. Os dois são bichas mas o Borboleta traveca. Eu juro que é só isso.”

“E esse backup está guardado onde?”

“Num Pen-Drive. Numa dúzia… doze cópias em DVD.”

“E qual outro lugar?”

“Nenhum! Ó meu Deus, eu juro pelo que há de mais sagrado. Não há mais nada!” Babava Lúcio.

“Não acredito nos seus juramentos pelo que há de mais sagrado. Quem sabe o Roque corta os dois dedos menores do lado direito para ficar parelho.”

“Nããão! Pelo amor de Deus. Eu tinha no Laptop, mas vocês apagaram. Eu tinha no envelope que mostrei pra velha que cuidava do padre e depois você pegaram. Hoje eu tinha as fotos no envelope que entreguei pro padre. Um dos DVD eu entreguei também, isso, isso, já entreguei pra vocês… os outros estão com o Guimba. Não tenho mais nada. É tudo. Pelo amor… de Deus… eu não quero mais sentir essa dor.” E Lúcio se entregou a um pranto profuso e desesperado.

Marco, de repente, perguntou: “Por falar no amor de Deus, quais eram as suas pretensões salariais?”

“Como?” Perguntou Lúcio, confuso, chorando, sentindo dores que se projetavam infinitamente em sua imaginação.

“Você, hoje pela manhã, me mandou um recado expondo as sua capacidade e habilidade para se credenciar como um embaixador do inferno na Igreja. Não há vagas em aberto neste setor. Mas seria interessante saber de suas pretensões salariais, já que sempre é possível fazer um arranjo. Quem sabe, se a proposta for boa, eu não consiga uma vaga para você como embaixador da Igreja no inferno. Você não se importaria com essa pequena inversão se a grana for boa? Não é verdade?” E Lúcio teve certeza de que suas chances de sair vivo dali eram absolutamente nulas.

***

Marco passou as informações para Breno. Ele e seu companheiro voltaram ao apartamento 303. Desta vez usavam blusões pretos, meias sobre a cabeça, e pistolas com silenciador. Ao abrir a porta Borboleta foi empurrado para trás e caiu sobre uma mesa de centro. O cheiro de maconha no apartamento era forte e Guimba apareceu nu, vindo de outro aposento e com um riso idiota de quem não sabe se está viajando ou vivendo a cena.

Breno encostou a pistola na cabeça de Guimba e disse: “Lúcio nos mandou buscar o pen-drive e as cópias.”

Guimba se sentiu contrariado, porque não conseguia encontrar um argumento que fosse contrário à ordem recebida. “Lúcio? O gigolô de Eloá? O pen-drive deve estar por aqui. Os DVD eu não sei onde estão.”

Borboleta, um pouco mais lúcido disse: “Os DVD estão na gaveta de cima!” Accioli foi até lá e encontrou 11 cópias enquanto o Pen-Drive era alcançado por Guimba. Accioli tirou um pequeno notebook da cintura e conferiu rapidamente o conteúdo do Pendrive e dos discos. Depois instalou um dispositivo elétrico no computador presente no apartamento e torrou a sua memória.

Accioli rispidamente cutucou a barriga de Borboleta com a arma e perguntou: “Onde está o outro DVD? Falta um! Vamos lá, vamos lá…”

Borboleta, apavorado e excitado, disse: “O outro o Lulu pegou…”

Breno apontou sua arma para o meio das pernas de Guimba e disse para Borboleta: “Boneca, você tem dois segundos para lembrar se há algum outro registro igual a esse por aí. Seja rápida ou as bolas do seu namorado vão pro espaço.”

Borboleta gritou imediatamente: “Tem. Guimba tem um pen-drive escondido que ele gravou para descascar uma olhando a putinha do Lulu. E só o que tem.”

“Você não devia… cara! Eu nem sei onde está!” Resmungou Guimba. Mas Breno enterrou o cano da arma nos órgãos sexuais de Guimba e ele rapidamente se lembrou do lugar onde escondia o pen-drive.  Accioli conferiu o conteúdo e disse para os dois: “Lúcio já está ferrado! Se vocês abrirem a boca vão fazer companhia pra ele.” E foram embora. A operação não durara 4 minutos e o resultado foi passado para Marco que atendeu ao telefone na frente de Lúcio. O bispo fez um sinal com a cabeça para Roque e quando ele passou a se locomover pela sala Lúcio começou a acompanhar os seus movimentos com evidente terror. 

Marco, sentado na frente de Lúcio, disse: “Embora nós dois saibamos que você seja um caso sem solução, agora só tenho boas notícias para você. Primeiro não vamos mais cortar seus dedos. Segundo, como a cocaína é uma de suas drogas preferidas e é um bom anestésico, você vai receber um tratamento ministrado pelo Dr. Roque que vai deixá-lo numa boa. Terceiro: acho que o resultado do tratamento vai levá-lo a obter o tão almejado cargo vitalício… de embaixador. E quarto: Eu vou voltar a rezar por você.”

Lúcio ainda balbuciou enquanto Roque instalava uma solução endovenosa para ministrar a cocaína diluída: “Como é que fica a consciência de vocês?”

“Você conhece isto?” Fingiu surpresa, Dom Marco. “Vou lhe responder! Eu me penitencio muito quando chego a ferir alguém que tenha consciência… mas você não tem consciência, senhor embaixador.  De qualquer forma agradeço a sua preocupação com a minha. ”

***

“É o fim! não resta mais nada para você fazer! suas peças foram dizimadas.” “Eu ainda não perdi.” “Ah! que coisa deprimente! derrube o seu rei.” “Só aceito a derrota se você me der xeque-mate.” “Que assim seja!”

Tudo indica que isto foi o fim. Ou será que não era o fim? Algo foi esquecido? E este jogo? Este jogo que aparece no final de cada capítulo! Quem ganhou? Ou quem ganhará? Que jogo é este? Continua no último capítulo.

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O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (20 de 22))

15/10/2010

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Capítulo 20 de 22 (16 de janeiro)

Quando os inimigos são conhecidos a guerra fica mais fácil!

Eloá e Lúcio desapareceram. A casa estava vazia. Helena preparava uma macarronada para alimentar três homens grandes. Alvin permanecia quieto e só participava quando Breno ou Accioli lhe faziam alguma pergunta. Eles ouviam a gravação da conversa entre Alvin e Lúcio. “Ele gosta de se exibir!” Dizia Breno. “E forneceu poucas pistas. Os caras que aparecem na filmagem vestidos de padre são gays, talvez um casal, e é possível que um deles seja esse Guim, o que tem um equipamento de filmagem profissional. Temos fotos ampliadas do rosto dos dois. Se há um lugar onde ele pode ter deixado a cópia é na casa destes caras, pois para terem participado desses filmes devem ser da mesma laia e terem algum tipo de vínculo.”

“Se Lúcio tivesse uma cópia não necessitaria ir até aquele condomínio. E Eloá? Não poderia ser outra ponte?” Perguntou Accioli.

“Não creio. Eloá também era chantageada. A verdade é que vamos ter que levar Lúcio para um passeio e perguntar essas coisas diretamente pra ele…”

“E vocês esperam alguma cooperação?” Perguntou Alvin.

“Com um pouco de persuasão as pessoas dizem muitas coisas.” Concluiu Accioli. “Ou isso, ou cedemos… o que não é admissível!”

“Teremos mais dois convidados para o almoço.” Disse Helena. E logo depois chegaram Marco e outro homem muito alto que foi apresentado como Roque, o motorista.

Todos almoçaram em silêncio. Marco disse para todos: “Esse Lúcio é louco, e um louco inteligente, o que o torna muito mais perigoso.” E depois se dirigiu para Accioli. “Você já tem o perfil de Lúcio,  sabe os lugares que ele frequenta e onde ele costuma estar em determinadas horas. Cole nele quando for localizado e ligue para nós. Estaremos no carro que você nos arranjou, eu, Breno e Roque. Quando nós estivermos com o Lúcio bem guardado, você e o Breno, com o mapa do condomínio e as novas pistas, vão tentar localizar o tal Guim do capeta. Nós vamos esperar suas informações para começarmos a etapa psicológica. Helena revire a outra casa em busca de qualquer pista que possa nos dar o paradeiro de Eloá. Hoje isso termina.”

“E eu?” Perguntou Alvin.

Marco o encarou muito sério: “Reze muito pelas nossas almas. Nós não vamos ter tempo pra fazer penitência.”

***

No fim da tarde Lúcio fechou mais um lucrativo negócio, em que um carro usado e encalhado há meses na loja acabara de ser vendido. Para felicidade do dono da revendedora que agradecia aos céus a hora em que aquele vendedor viera trabalhar com ele. Outro comprador em potencial circulava entre os carros usados, mas não havia nenhum com placa de vendido, que era a senha, portanto Lúcio se desinteressou pelo cliente, embora acha-se uma grande coincidência o fato de ele estar usando um colarinho de padre. O estranho se aproximou dele e disse: “O que o amigo teria para mim?”

Lúcio, que já estava saindo para tratar do grande negócio de sua vida, não pode se esquivar e deu continuidade a conversa: “Procura alguma marca em especial, um ano…?”

Accioli foi direto ao que interessava: “Na verdade eu procuro fotos. E tenho uma boa proposta que acho que vai lhe interessar.”

Lúcio se sentiu acuado e retrucou: “Não lhe conheço, e não sei do que o senhor está falando…”

“Sabe sim. Eu represento diretamente o bispo Dom Marco. E ele é a pessoa que pode atender suas… exigências.” Continuou Accioli.

“Continuo sem saber… padre…”

“… Accioli. Estou substituindo o padre Alvin nesta tratativa. Nós dois concordamos que ele se encontra perturbado por motivos passionais. Soubemos qual é o teor do negócio que o senhor quer propor à Igreja e, neste mundo que vivemos, por incrível que pareça, uma pessoa com suas… habilidades, pode nos ser muito útil.”

Lúcio continuou a olhar para Accioli com olhar de desconfiança: “Isto é uma piada?”

Accioli colocou a mão na testa, e fez uma cara de quem se deu conta de que estava cometendo uma grande gafe: “Senhor, mil perdões, devo o ter confundido… não é o Sr. Lúcio?”

“Sou! Mas…”

“Então não há erro nem piada.” Afirmou Accioli. “O senhor não gostaria de ter uma resposta sobre sua proposta?”

“Sim, mas…” Não era assim que Lúcio planejara. Ele queria continuar aquele assunto com Alvin. Na velha casa paroquial. Dando as cartas. E não falando com um estranho, confiante, que tratava a sua chantagem como uma proposta de emprego. Aquilo estava no tempo errado. Prematuro. Embora ele soubesse que mais cedo ou mais tarde teria que entrar em contato com os peixes graúdos.”

“Então vamos até o carro para que o senhor possa falar diretamente com o bispo, e assim terminar com suas incertezas.” Disse Accioli com a mão no ombro de Lúcio, conversando amigavelmente com ele, enquanto o guiava para um carro preto estacionado obliquamente sobre a calçada. A porta de trás do carro foi aberta e Lúcio foi empurrado. O carro o engoliu e em dois segundos ele estava sentado entre dois padres enquanto outros dois ocupavam o banco da frente.

“Que merda é esta?” Falou Lúcio não conseguindo esconder o pânico que se instalava nele.

Um velhinho magro, sentado na frente ao lado do motorista, virou para trás e sorrindo lhe disse: “Fique frio! E só um lance de pó.”

***

O “escritório” encomendado por Marco ficava no porão de uma velha igreja que estava em reformas. Roque amarrou Lúcio a uma cadeira enquanto Accioli e Breno voltaram a sair de carro.

Lúcio, com os olhos arregalados perguntou para Marco: “O que viemos fazer aqui?”

Marco o olhou demoradamente e disse. “Você vai esperar. Roque vai olhar para você, pois ele é ótimo para descobrir qual é o ponto mais doloroso do corpo de uma pessoa… mas não se preocupe, pois nada vai acontecer com você… pelo menos enquanto eu estiver fazendo a minha parte.”

“E o que você vai fazer?” Quase gritou Lúcio.

“Eu vou rezar por você!”

***

“Não gostei disto.”Ah! quando as coisas não lhe são favoráveis você não gosta.” “Não gostei dos seus métodos.” “Meus métodos? aprendi com você durante esse jogo… na verdade esses são os seus métodos! você esta encurralado, esta é a verdade.” “Ainda tenho os meus trunfos e você sabe disto!” “Ah! isto não é pôquer! é xadrez! seus cavalos se foram, suas torres estão inutilizadas, há igualdade em material, mas as minhas peças estão muito mais ativas, o seu roque é uma peneira, o seu jogo é uma vergonha.” “Você logo verá que não é um blefe!”

Mas que loucura é esta? Deve ser uma simulação! Deve ser uma jogada psicológica para dobrar o inimigo! Será que os “soldados da Igreja” resolveram fazer justiça com as próprias mãos?  Continua no próximo capítulo.

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O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (19 de 22))

12/10/2010

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Capítulo 19 de 22 (16 de janeiro)

O confronto sempre é um momento de paz. O que pode acontecer a mais? A morte? Também é um momento de paz…

Alvin entrou em casa e encontrou a mesa posta. Helena se mostrava solícita e respeitosa e Alvin pensou quem seria aquela mulher. Mais um soldado do exército pessoal de Marco? Lúcio não lhe deu tempo para terminar o café. Entrando pela porta de serviço, coisa que nunca fizera nos meses em que morara na casa ao lado, foi direto ao assunto, desconsiderando a presença de Helena: “Temos negócios a tratar, padre Alvin.”

Alvin olhou demoradamente para Lúcio; com uma faca cortava uma fatia do pão; assustou-se com a facilidade com que o pensamento de enterrar a faca naquele homem lhe veio à cabeça sem sentir que fazia algo errado. “Os negócios… podem esperar. Vamos conversar no escritório assim que eu terminar de tomar café.” Disse Alvin, sem gestos, com a faca na mão, sem desviar os olhos do rosto de Lúcio. O outro vacilou por um breve instante, saiu da casa, e, sem dizer uma palavra, foi se sentar no banco que ficava ao lado da porta que ligava a secretaria com a frente da igreja. “Qual surpresa você pode ter para mim, demônio?” Pensou Alvin. E continuou a sua refeição.

***

Alvin, contrariando a ordem de Marco, antes de entrar no escritório olhou demoradamente para a casa onde deveria estar Eloá, mas não a viu. Ligou o gravador sob a mesa, mas não viu o microfone. Abriu a porta da rua e sem dizer uma palavra deixou que Lúcio entrasse e foi se sentar em sua cadeira. Lúcio estava irritado por ter esperado pelo momento determinado pelo padre. Queria dominar todos os lances, mas parecia que Alvin perdera a capacidade de ser surpreendido. Lúcio viu um homem muito quieto e de olhar frio, e isto era algo que ele não gostava. Estava acostumado a ter as pessoas com medo para poder dominá-las. Atirou sobre a mesa um envelope que certamente conteria cópias das fotos que Alvin já vira. “Já conheço o lixo que há aí dentro.” Disse Alvin.

“Também a fotos de Eloá?” Emendou Lúcio. E sentiu uma ponta de prazer porque mesmo não sabendo se o padre tivera acesso às fotos que mantinham Eloá como sua refém, a simples menção delas cravava um espinho na fleuma fingida de Alvin. Se ele vira sabia do que se tratava. Se não vira, a curiosidade, misturada ao ciúme, nesta hora estaria roendo um buraco em sua armadura. Mas Alvin apoiou as mãos nos braços da cadeira, como quem descansa, mas também como quem prepara um bote, e disse: “Diga os termos do seu negócio.”

“Ora, padre. Não deixe um artista frustrado!” Lúcio sorria. “Avalie as coisas por outro ângulo. Isto é arte! E toda arte tem um preço, é claro! Mas desse detalhe vamos tratar depois… o que me interessa agora é saber a opinião dos meus protagonistas, dos que vivenciaram essa experiência única, sem a qual suas vidas permaneceriam aquela chatice piegas de rezar, dormir, rezar, dormir… convenhamos… o barato daquela noite mudou a sua vida… a paixão por Eloá deu um colorido todo especial aos seus hormônios castrados…”

Alvin estava a ponto de saltar sobre Lúcio para estrangulá-lo, mas percebia que o outro, além do crime e de seus objetivos, sentia a necessidade mórbida de saber quais as sensações que seu plano havia desencadeado em suas vítimas. Ele queria o reconhecimento de seu intelecto torto. E optou por deixá-lo falar, fazer perguntas que o induzissem a revelar algo de útil para as intenções de Marco. Procurou demonstrar asco além da medida que já sentia e comentou: “Eu não acredito que você teve a coragem de drogar Eloá para fazer aquelas fotos…!”

“Ah! Ficou interessado! Sim, e com ela foi mais fácil porque ela queria experimentar! Os dois gays são gente fina, de confiança, e colaboraram com todo o prazer que os cruzamentos permitiram. Eles estavam de cara, mas Eloazinha estava chapadona. Um doce. Viu as fotos! não?” Perguntou Lúcio.

“S-sim!” Respondeu Alvin e fixou os olhos nos de Lúcio para não olhar para o envelope que estava sobre a mesa.

“Delícia!” Continuou Lúcio. “O filme completo é uma obra prima e no Youtube faria o maior sucesso, mas no momento aquilo serve para um propósito maior.”

“E por que não fui filmado também?” Alvin perguntou se pondo de pé.

“O equipamento era do Guim… eu naquele momento… eu só tinha uma máquina fotográfica furreca. Foi o que deu. E chega de papo.” Lúcio dera uma escorregada e perdera momentaneamente a autoconfiança, mas Alvin não queria que o outro percebesse que o deslize havia sido registrado.

Alvim fez a volta na mesa e agarrou Lúcio pelo pescoço, que, surpreendido, ficou sem ação: “Apenas me responda, animal, como você consegue se sentir em paz vendendo o próprio filho?” Mas Lúcio, naquele momento, estava impossibilitado de responder. Grunhiu. Levou as mãos ao pescoço enquanto enrugava o rosto num esgar. Alvin percebeu que sua vontade era dar por terminado aquele assunto, mas a razão aos poucos voltou à sua mente e ele soltou o pescoço do outro.

Lúcio tossiu, inspirou fundo, e disse: “É bom que o padre saiba que se alguma coisa me acontecer… todas as pessoas desse planeta de merda… terão a oportunidade de assistir as aventuras sexuais de Eloá e Alvin.”

“Imagino!” Quase gritou Alvin. “E o que você fez com a criança, seu filho da puta.”

“Que feio!” Lúcio ria. “Não se preocupe. Ele está melhor do que qualquer um de nós e ainda rendeu um bom troco pro táta.”

“Demônio!” Rosnou Alvin. “Vá direto ao assunto… o que você quer de mim?”

“De você? Nada! Você é um pé-rapado. Você é até mais duro do que eu, pobre padre Alvin. Eu quero de seus patrões. Da Igreja Católica Apostólica e o caralho.”

“O que a Igreja pode dar pra você…?” Perguntou Alvin.

“Money, dinero, faz-me-rir, grana, em troca de nada. Eu não dou nada. Sem as fotos, sem os pen-drivers, sem a retirada da espada de sobre a cabeça dos santos senhores rezadores. Eu passo a receber a quantia em prestações vitalícias, módicas, mas não tanto. Meu silêncio e minhas não-ações por um cargo de assessor bem remunerado. Isso! Passo a ser um funcionário especial da Igreja. Veja a poesia! Nunca a Igreja terá em seu quadro um especialista tão qualificado quanto eu. Um verdadeiro embaixador do inferno. Como você mesmo diz: um demônio. Aliás, poderia mudar o meu nome de Lúcio para Lúcifer. Seria o cúmulo da ironia nesse contexto de piadas.”

“Você é louco!”

“Talvez! Mas não sou estúpido! Meu plano está arquitetado a um nível que vocês não imaginam. O meu negócio é o pó. Envolve muito capital de giro e isto vocês têm de sobra… É arriscado? Concordo. Posso até morrer. Mas vocês se fodem. A propósito as batinas que meus protagonistas usam na filmagem com Eloá são verdadeiras. O altar é verdadeiro. A montagem ficou estupenda com suas fotos. Dom Marco sorrindo no final, então, é algo sublime.” E Alvin ficou paralisado, pois não sabia desses detalhes. “Tome, leve esse DVD para avaliação de nosso querido bispo. É uma cópia atualizada. Volto à noite para saber a resposta.” E Lúcio saiu deixando Alvin estático no meio de seu escritório.

***

Quando Lúcio saiu, Helena entrou com uma xícara de chá. “Tome padre… vai precisar. Breno logo virá. Também é bom que o senhor saiba que Eloá saiu da casa levando as coisas dela. Acho que ela não volta!” Mas aquela notícia pareceu preocupar Alvin de uma forma muito distante. O céu iria desabar sobre sua cabeça.

***

“Eu diria que a partida está acabada! é só uma questão de tempo!” “Não conte vantagem antes da hora!” “Derrube o seu rei, seria mais digno! e não ofenderia a minha inteligência.” “Logo você vem me falar de dignidade! de inteligência!” “Duvida da minha inteligência?” “Não duvido é de sua maldade.” “Maldade? quem escolheu Alvin?”

Marco, desde o início, tinha razão. Era uma chantagem. Lúcio buscava uma fonte de renda para ampliar o seu negócio de drogas. Continua no próximo capítulo.

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O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (18 de 22))

08/10/2010

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Capítulo 18 de 22 (15 de janeiro)

O contra-ataque deixa brechas na defesa, mas dizem que a melhor defesa é o ataque!

Alvin acordou desorientado. Aos poucos todo o peso do mundo voltou a cair sobre sua memória. Quando se levantou viu que Breno já estava acordado e de pé a seu lado. Dormira em algum anexo da catedral. “Como está padre Alvin?”

“Achando que a loucura é uma bênção, padre Breno.” Respondeu Alvin.

“Não me chame de padre. Sou um funcionário da diocese, um policial… de uma equipe especial. A batina é um disfarce. Assim como aquela barba e a tarefa de fotógrafo. Às vezes minha função me obriga a ações que não ficariam bem nas mãos de um padre. Eu e Accioli somos dois dos braços longos de Marco.” Disse Breno. “Nós vamos precisar agir juntos para terminarmos de forma correta esta confusão. Sua cabeça está fria?”

“Fria?”

“Sabe perfeitamente do que estou falando. Fria, falsa, dissimulada, capaz de engolir sapos, mentir, de levar esta tratativa com Lúcio até o fim sem arrancar as tripas dele ao primeiro deboche, que certamente será a tônica da conversa de vocês.” Esclareceu Breno.

“Sou capaz!” Respondeu Alvin sem muita convicção.

“Saiba que Accioli seguiu Lúcio na tarde de ontem. Ele entrou num conjunto de blocos de apartamentos. Desses populares que se transformaram em labirintos. Não foi possível achar o lugar exato em que Lúcio guarda o backup das fotos, mas limitou bastante o perímetro para uma busca futura. O fato é que nós temos duas etapas a cumprir. Primeiro saber o que Lúcio quer, e esta é a sua parte. Depois vamos levar as informações que obtivermos ao conhecimento do chefe para que ele estabeleça qual vai ser o nosso modo de agir.”

“Por que nós simplesmente não acionamos a polícia, prendemos este cara, e terminamos com esta história?” Perguntou Alvin.

“Nesses casos o backup sempre tem uma dupla finalidade. A primeira é não guardar todos os ovos na mesma cesta, e a segunda, se ele for ameaçado realmente pela polícia, ou fisicamente, deixar o guardião do backup encarregado de jogar toda a merda no ventilador, na internet, na mídia, nestes meios sedentos por um escândalo. Não podemos arriscar.”

“Compreendo!” Disse Alvin, aparentemente ganhando lucidez conforme Breno fazia sua explanação simples e direta se uma vida e de um mundo que Alvin não sabia que existia.

“E Eloá?” Perguntou Alvin.

“Eloá pode ser considerada uma vítima, mas ela poderia, em vários momentos ter procurado apoio em pessoas confiáveis e interessadas nela, como em você, por exemplo, mas não o fez. Não é possível saber até que ponto sua formação torta a induziu a compactuar com o que estava sendo armado. Veja o caso do próprio filho! Nós, mesmo sendo homens, ou padres, e não envolvidos diretamente com a maternidade,  ficamos chocados com a tranquilidade com que ela representou aquele teatro de doença, morte e enterro, quando sabia que o filho estava sendo presumivelmente vendido. Isto não é uma reação mentalmente normal, há traços nítidos de psicopatia nas atitudes de Eloá, embora não seja uma usuária de drogas pesadas, como aventou Lúcio. Esta menina é digna de pena. Ela é uma das filhas de nossa sociedade sem ética e sem valores. Dignidade e humanidade não fazer parte de seu vocabulário. O que podemos fazer? O que você pode fazer? De homem para homem eu compreendo de que forma você foi fisgado pela beleza da garota. Ela é lindíssima. Sensual. Mas a palavra dela não é uma moeda estável. É um caso psiquiátrico, e… sinceramente não vejo uma solução. Tenho duas filhas quase da idade dela e fico entristecido com o que acontece com Eloá. Mas esse é o fato, Alvin. Desista. Organize a sua vida. Tome tudo isto como lições duríssimas. Largue a batina se a sua consciência mandar. Dê uma olhada no mundo com os seus novos olhos. Metabolize este pesadelo recente e o transforme em sua armadura pessoal. Você é um homem bom, sincero, honesto e capaz. Não desperdice os seus talentos numa terra infrutífera.”

“Você faz um sermão como um padre.” Conseguiu brincar Alvin.

“Mas não queira estar na minha pele, amigo! Vamos lá que Marco está nos esperando.”

***

Na sala de Marco, ele e outro homem, que deveria ser  Accioli, e que Alvin agora sabia ser do staff paramilitar da diocese, examinavam alguns mapas sobre a mesa. Accioli fazia círculos sobre o mapa e dizia: “Aqui ele entrou por um corredor no terceiro andar e não o vi mais. Não percebeu que estava sendo seguido. A área onde está o equipamento se resume a estes dois andares… 20 apartamentos pequenos, talvez alguns se comuniquem entre si…”

“Já é um começo.” Disse Marco. “E o escritório provisório?”

Accioli olhou para Alvin e nitidamente sonegou informações. “Mobiliado.”

“Veículo?” Insistiu Marco.

“Um Megani preto com os vidros escuros.”

“Produto?” Quis saber Marco.

“De qualidade e suficiente. Acessórios instalados.” Alvin ouvia aquela conversa cifrada e por instantes duvidou se estava na cúria diocesana ou num QG de um serviço de espionagem qualquer.

Marco mudou imediatamente o rumo da conversa e se dirigiu para Alvin: “Alvin, volte para casa! Helena o espera com um lauto quebra-jejum. Não se esqueça que sua pressão subiu e necessitou ser medicado. Fica entre nós o fato de que a pressão foi exercida por nós, e de que você, na verdade, foi dopado. Espero que Breno tenha sido mais útil do que eu ao lhe dar as instruções de como agir. Breno vai ficar lá por perto e em contato com Helena para quaisquer imprevistos. Não bote os pés pelas mãos. Há um gravador sob a mesa. Acione-o. Há também um microfone sob a mesa para que possamos monitorá-lo. Quem tem dois ouvidos tem um. Não olhe para a casa onde está Eloá. Hoje ela não existe, embora você tenha todas as perguntas do mundo para fazer pra ela, estas perguntas só poderão ser feitas amanhã. Hoje você é um soldado. Há uma guerra. Um filho do diabo quer nos preparar um golpe. Vamos descobrir o que é. Vamos à luta!” E se levantou dando por encerrada a preleção.

***

“Viu? não o envenenei com o chá.” “Realmente, e foi um dos melhores que já tomei.” “Quais são os ingredientes? será sua próxima pergunta…” “Adivinhou!” “Bem… espere! as peças não estavam nesta posição!” “Eu estava lá com você… não está insinuando de que eu esteja roubando, afinal esta é uma invenção sua!” “Mas como?” “Ora as peças seguiram seus impulsos conforme o livre arbítrio.” “Isto não faz parte do jogo! vamos voltar os lances.” “De forma alguma… o livre arbítrio ainda é uma prerrogativa de nossos joguetes.” “Maldição!”

Marco não é apenas um bispo. Demonstrou que pode agir como um general quando necessário. Será que realmente tudo foi previsto? O Padre Alvin conseguirá fazer a sua parte? Continua no próximo capítulo.

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O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (17 de 22))

06/10/2010

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 17 de 22 (ainda janeiro)

A verdade se esconde num emaranhado de mentiras. 

“Isto significa que Dom Marco sabe quais são os planos de Lúcio?” Perguntou Alvin.

“Não totalmente! Vou precisar de uma ajuda sua no fechamento da questão, mas pra isso necessitamos levar esta nossa conversa até o fim.” E Marco tirou um envelope pardo da gaveta e entregou a Alvin. “Dê uma olhada nisso!”

Alvin pegou o envelope e retirou lá de dentro várias fotos feitas numa impressora jato de tinta comum, que o deixaram paralisado. Passou uma por uma, lentamente, não acreditando no que estava vendo. Marco o olhava de forma clínica e pesarosa. Alvin dizia palavras que em qualquer outro contexto não teriam nexo, mas Marco percebeu que elas se referiam às alucinações que Alvin tivera no dia em que fora drogado. “O anjo… a espada de fogo… ele estava lá… ele estava lá… eram flashes! Meu Deus! Como ela permitiu? Como se prestou? Sou um estúpido! Maldito estúpido!” e jogou longe as fotos que provavam que ele e Eloá haviam vivenciado uma tórrida noite de sexo. Alvin enterrou o rosto nas mãos e de lá emitiu um gemido rouco e abafado de um animal mortalmente ferido. Marco colocou a mão gentilmente sobre a cabeça do padre Alvin.

“Isto que você viu…” disse Marco, “… prova que houve um minucioso estudo prévio de sua índole, de seus costumes, de sua vulnerabilidade, e uma arquitetura criminosa em que estas fotos ainda não foram usadas. Podemos dizer que estamos dando um passo à frente. Lúcio ainda pretende usá-las, mas nós não conseguimos chegar ao ponto de entender qual a relação delas com o seu comércio de drogas. Estas fotos estavam sob o colchão do quarto deles. Havia um laptop na casa. Todas estas fotos estavam lá e foram apagadas. Também apagamos filmes com Eloá com os quais Lúcio a chantageava… creia em mim… você não gostaria de vê-los, possivelmente também foram feitos com ela drogada, como você. Você deve saber que antes de serem apagados fizemos uma cópia dos arquivos para fim de… registro, até que todos os nós sejam desatados.”

“Tenho que ir até lá!” Alvin ficou de pé, tonto, desorientado, e caminhou em direção à porta. “Quero olhar nos olhos deles!” Abriu a porta e se confrontou com Breno.

Marco ordenou: “Traga o paciente pra dentro que a cirurgia ainda não acabou.” Alvin se viu arrastado por Breno que o obrigou a voltar para a sala e sentar. Ele parecia ter perdido todas as suas forças.

“Preciso avisar Helena.” Disse Alvin.

“Helena já foi avisada no dia em que foi pra lá. Hoje você vai dormir fora de casa. Se alguém perguntar, Helena vai mentir que você teve uma alteração de pressão e necessitou ser medicado. Mais um pecado em sua conta, embora a explicação seja na verdade uma meia mentira.” Arrematou Marco. “E você, Breno, espere lá fora que a conversa ainda é longa…” Breno serviu água para o bispo e para Alvin e se retirou.

“Desse jeito você não está em condições de me ajudar!” Começou Marco. “Preciso de você orientado, e descansado, nem que seja depois de uma porrada química. Além do mais as dores maiores ainda não foram sentidas…”

“Ainda há mais coisas que eu preciso saber, Dom Marco?” Perguntou Alvin.

“Muitas!” Respondeu Marco

***

Lúcio atirou-se no sofá e encarou Eloá. “Eles mexeram aqui enquanto estávamos envolvidos no bota-fora do júnior.”

“Como você pode ser tão nojento quando fala de nosso filho?” Perguntou Eloá, irritada e andando sem saber o que fazer dentro daquela casa.

Lúcio voltou à carga. “Era! Agora ele está com outras pessoas. Já conversamos sobre isso. Vai ser melhor pra ele. Vida bandida não é saudável pra crianças recém nascidas. Lembra? E o nosso problema imediato agora é outro. O pessoal do padre levou o envelope e apagou os meus arquivos. Está na hora de fazer uma nova cópia para ter a documentação adequada na hora da negociação.”

Eloá ficou quieta. Olhando para a rua. Já era metade da tarde. “Eu vou com você.”

“Você fica aqui. Esperta!” Lúcio lhe deu um beijo na nuca e Eloá se encolheu não escondendo o asco. “Apagaram também as suas fotos, e, se estou certo, estão babando em cima de uma cópia delas a essa hora. Vou no mocó e já recupero o perdido. Se eles voltarem você faz o gênero mãe desesperada e joga o jogo.” E saiu.

***

Helena ligou para Accioli: “Ele está saindo! Ela ficou em casa.” E depois para Marco. “Accioli foi avisado da saída de Lúcio.”

***

Dom Marco atendeu ao telefone e disse: “Obrigado.” Em seguida abriu uma gaveta e tirou de lá uma garrafa de Cointreau. Serviu um cálice e o bebeu em um só gole. “Você não pode! Vai tomar remédio!” Disse para Alvin e guardou a garrafa. “Talvez lhe pareça que eu seja um velho padre insensível que resolveu lhe picotar a alma, mas acredite, embora minha única meta seja dar um fim nesta merda indefinida em que estamos envolvidos com o Sr Lúcio, eu tenho uma profunda simpatia pelo seu estado e gostaria que você não tivesse de passar por isto. Vamos voltar à história. Visitei Jenô. Ela deve ter visto essas fotos. Certamente elas foram mostradas por Lúcio. Isto explica sua fuga desembestada. Deve ter sido ameaçada, ou foi embora com medo de alguma ameaça de escândalo envolvendo você. Breno virou de pernas para o ar o serviço social em busca de uma Brenda depois que Helena telefonou para lá e não a encontrou. Brenda se volatizou, desapareceu, e possivelmente era um nome falso com credenciais falsas. Os exames a que você se submeteu, para descartar a possibilidade de AIDS ou outra doença sexualmente transmissível, incluíam um estudo do seu perfil genético. Este perfil foi comparado com o do recém nascido, colhido quando ele ainda estava no berçário…”

“A criança não chegou a ir para o berçário…”

“Não! Eu quis mesmo dizer berçário, e já chego lá… e não há a mínima possibilidade genética de você ser o pai. E não me interrompa! A criança nasceu sadia, nos nove meses como esperado, entre as 38 e 40 semanas, ou a termo, como os médicos costumam dizer. Os exames durante a gravidez foram realmente feitos, mas a incubadora, a pneumonia, os relatórios de Brenda com todos aqueles detalhes convincentes fizeram parte de um engodo para que você acreditasse numa prematuridade inexistente.”

“Mas… mas nós enterramos uma criança, nós…!”

“Exatamente! Nós enterramos uma criança morta. Mas o filho de Eloá e de Lúcio… veja bem, não o filho de Eloá e de Alvin – esse não existe – o filho que aqueles dois geraram foi adotado ou vendido, e eu peço a Deus para que encontre um lugar digno onde possa se transformar num ser humano. Esse foi um negócio entre Lúcio e Brenda. Eloá foi a parideira sem opções ou, até podemos dizer: sem fazer muito esforço para mudar a situação.”

“Nós choramos, nós velamos…”

“Chega! Mude o disco. Fique indignado, furioso, colérico, e até surpreso se você acha que ainda pode ser surpreendido por essa gente, mas pelo amor de Deus não tenha pena de si próprio.” Completou Marco. “Neste instante tenho alguém na cola de Lúcio, pois não é provável que todas as fotos sejam estas do envelope e as que estavam no laptop com os filmes. Ele deve ter um lugar onde esconde um backup. Estamos tentando desarmá-lo. Se isto não for possível hoje, certamente em breve ele o procurará com uma mostra de seu trabalho fotográfico e vai expor suas condições. Nessa hora você deverá ser uma pedra de gelo. Fingir que esqueceu tudo o que passou. Ser o maior mentiroso sobre a face deste planeta. E saber, afinal, qual é a jogada desse filho da puta, que Deus me perdoe, e me dizer o que ele quer para que eu possa agir.”

***

Naquela noite deram um medicamento para Alvin e ele dormiu num quarto da diocese, como um anestesiado acossado por fantasmas loucos. Marco por via das dúvidas deixou Breno de guarda.

***

“Aceita um tempo, enquanto ele dorme?” “Concordo.” “Proponho um chá.” “Se você provar primeiro!” “Certamente.” “E não se esqueça que eu sei perfeitamente a posição de minhas peças.” “Não duvido disto e nem me passou pela cabeça lográ-lo desta forma.” “Sei, sei!”

 O Padre Alvin foi drogado. Foi vítima de uma simulação que gerou em sua consciência a idéia de que era um pedófilo. Foi fotografado. Sofreu à distância enquanto Eloá gerava uma criança que ele pensava ser o seu filho. Sofreu com a morte da criança. Teve sua alma adulterada, traída, e despedaçada. Ele quer matar Lúcio. Ele quer… ele não sabe o que quer em relação à Eloá. Poderia matá-la também? E agora Marco lhe diz que o jogo não acabou. Que haverá uma provável chantagem. Como pode Alvin participar calmamente dos planos de Marco quando está prestes a explodir? Continua no próximo capítulo.

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O avesso da pedofilia (ou um Jogo com Padre Alvin (16 de 22))

03/10/2010

(Se você quer saber como começou esta história clique aqui para ir para o 1º capítulo.)

Capítulo 16 de 22 (ainda janeiro)

Como é possível que véus tão finos escondam tantas histórias?

Dois dias depois a notícia caiu sobre a cabeça de Alvin como uma bomba. Talvez a coisa mais triste desde o dia em que encontrou sua mãe agonizante. O menino morrera. O seu filho morrera. Aos olhos de Alvin Eloá estava em estado de choque com o rosto virado para a parede. Ela não olhou nem para ele e nem para Lúcio. Não o deixaram ver o pequeno corpo, num pequeno caixão lacrado pelo risco de contaminação. Não o deixaram chorar a sua dor. Não o deixaram tocar com carinho no rosto de Eloá. O pequeno sem nome, que recebera o rótulo de filho de Eloá e Lúcio e se transformara num frio atestado de óbito, teve um velório rápido na capela do hospital e um enterro formal logo a seguir. Alvin voltou para casa onde uma Helena triste o aguardava com um chá insípido que pretendia fazê-lo descansar. Como se aquilo fosse possível. Como se algum dia pudesse se livrar daquele cansaço e daquela dor.

Eloá e Lúcio se recolheram na casa ao lado. Alvin, sem o filho que Eloá esperava, sentia que qualquer acordo que havia feito com Lúcio não fazia mais sentido. A permanência dele ali não se justificava mais. E, infelizmente, nem a dela. “Hoje não! Mas amanhã vamos ter uma conversa definitiva!” Pensou Alvin.

***

Mas, mal a tarde iniciou, Dom Marco telefonou para Alvin e disse: “Venha cá, padre Alvin. Temos muito que conversar.” Alvin chegou a pensar em dizer: “Não, bispo, hoje não! Hoje estou morrendo! Deixe para outro dia, quando eu já tiver juntado meus ossos.” Mas o senso de obediência em Alvin estava entranhado em sua carne e ele foi ao encontro de Marco.

***

Marco mostrou uma indiferença sóbria frente ao sofrimento do padre. Alvin permanecia estático e mudo e não demonstrava a sua dor, suficientemente dedutível  dos fatos pelos quais passara nos últimos dias. E a função de Marco era agravar as feridas. Certamente Alvin sairia dali sangrando um pouco mais, mas vivo e alerta. Depois que Marco terminasse de lhe arrancar alguns pedaços Alvin estaria paradoxalmente mais completo.

Os dois se sentaram na sala de Marco e o bispo foi direto ao assunto, mas de uma maneira preocupada, como um amigo, ou como um pai: “Sei como você deve estar se sentindo, e você vai ter que ser ainda mais forte para entender as coisas que vou lhe dizer.” Aquele tom amigável não combinava com Marco e isto deixou Alvin absolutamente atento.

“Você sabe…” Continuou Marco, fazendo pausas mais demoradas entre as frases para que Alvin assimilasse cada informação: “… que eu botei meus cães de caça na cola dos pombinhos que fizeram ninho ao lado de sua casa… Agora você vai saber o resultado… Eloá é uma adolescente criada na rua e com a educação que a rua dá… seu senso de consciência, altruísmo, fidelidade, pudor, e essas coisas que valorizamos, é distorcido… ela não é uma pessoa má… talvez possamos dizer que ela seja uma criminosa passiva… isso, uma criminosa por omissão, uma cúmplice, que se acomodou a uma situação criada por uma chantagem… descobrimos qual é o teor dessa chantagem, e vou lhe dizer em breve; tinha que ser forte para mantê-la tão amarrada e fiel ao seu parceiro, Lúcio… esse sim! é um elemento perigoso… seu mundo é o das drogas, qualquer uma…”

Alvin tentou articular alguma coisa em sinal de protesto, mas Marco ergueu a mão e as palavras dele entraram num desvio: “Não posso acreditar que essas coisas estivessem se desenvolvendo na minha cara, Dom Marco, eu…”

“Cale a boca e só escute!” Cortou Marco em seu estilo. “Depois de ouvir tudo você pode até chorar, gritar, ou vomitar, mas agora só abra os seus ouvidos e essa cabeça enfeitiçada pelos lindos olhos de Eloá e preste atenção!”

Alvin suspirou e ficou quieto. Marco bateu com força a mão espalmada sobre a mesa de uma forma que assustou Alvin e continuou: “O cara é um traficante. Bota um aviso de vendido num dos carros da loja em que trabalha e esconde qualquer coisa que foi encomendada nesse carro. O dono da loja não sabe… pensamos em preparar um flagrante e deixá-lo cozinhar um pouco, enjaulado… mas, cá entre nós, na jaula o sistema só iria lhe ensinar o que ele ainda não sabe e o transformaria num criminoso mais completo. Logo ele sairia de lá mais perigoso… claro que com um pouco de sorte Lúcio poderia ser apagado na prisão… E não me olhe com essa cara de bassê! Pois eu ainda não lhe disse por que não preparamos uma armadilha para o Sr. Lúcio!”

“Um traficante?” Murmurou Alvin. “Na minha igreja!”

“Na sua igreja, na minha Igreja, na nossa Santa Igreja Católica.” Marco fez uma pausa e se levantou. “Durante a função hospital, doença da criança, e tudo mais, um… um padre esteve na casa em que eles estão e procurou por drogas que comprometessem o lugar… Nada! Confesso que isso me deixou surpreso! Por que tanto trabalho? Qual é a manobra que esta gente pretende contra você ou contra nós? Até aquele momento ainda estava faltando uma peça nesse quebra cabeça!”

“Estava? Não falta mais?”

“Exatamente!”

***

“Xeque!” “Não cante vantagem. O seu bispo necessita de um tempo para estar na posição certa.” “É uma questão de tempo?” “Tempo temos todo! eles é que não tem! e não se esqueça de que posso aprontar surpresas inesperadas com minha formação muito bem posicionada nesse tabuleiro.”

Como reagirá o Padre Alvin depois de saber que Lúcio é um traficante? Alvin se sentirá justificado num possível ataque contra Lúcio? Esta é toda a verdade que Marco tem para contar a Alvin? Continua no próximo capítulo.

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