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Voto nulo não anula eleição, mas as eleições anulam o voto.

03/11/2016

A soma das abstenções aos nulos e brancos superou o total de votos dos vencedores nas maiores capitais do país. Os defensores do voto no menos ruim, como se fosse um dever a escolha entre o azedo e o podre, continuam a discursar contra os que optaram por discordar do sistema e mandaram para as cucuias a mentira democrática embutida na obrigatoriedade do voto. Sabemos que voto nulo não anula eleição. Mas 32,5% dos eleitores no segundo turno disseram que não concordavam com a política do engano. O recado foi dado. É necessária uma reforma. A ideia de que vivemos em uma democracia é uma mentira da oligarquia corporativista blindada pela imunidade e pelo emaranhado de acomodações legais. Tudo começa com o nosso voto e depois continua com o deboche aos esquecidos, numa grande brincadeira nacional. Então, se as regras forem essas, é nosso direito dizer que não estamos mais interessados em brincar. Isto foi dito por 10,7 milhões de eleitores no domingo passado.

Voto nulo não anula eleição, mas sem uma reforma as eleições vão acabar anulando o significado do voto.

“Liberté, Egalité, Fraternité”

02/04/2016

As palavras “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, verbalizadas dentro de um contexto histórico tenso, mergulhado em conflitos, que não atendia à vontade e aos interesses da maioria, tornou-se o lema da Revolução Francesa, que rompia com o modo de pensar da época, e expressavam o ideal a ser perseguido pela nascente República Democrática.

No entanto, como ainda hoje elas são tomadas como slogan toda vez que uma democracia balança, cada uma das palavras pede uma reflexão, para que esses conceitos não passem de uma bandeira inútil que se pretende fincar numa terra inatingível. É necessário que todos os elementos que compõem a sociedade moderna, sem distinção social, cultural, ou econômica, entendam o significado de cada uma daquelas palavras. Ou isso, ou elas nada significam.

Alguns ainda confundem liberdade com a liberdade total, sem limites, que nega o espaço alheio, embora a velha máxima que coloca a liberdade individual como um território limitado pelas liberdades daqueles com quem interagimos, seja um conceito filosófico primário e inquestionável.

Nesse quesito evoluímos muito, mas ainda há pessoas, de qualquer idade, vivendo como escravas, ou chantageadas, ou pressionadas, ou sem voz, ou sem representatividade, ou sem direitos… e aqui podemos notar que o conceito de liberdade se confunde com o de igualdade! Se realmente todos fossem iguais perante a lei, não poderíamos dizer que há pessoas que não são livres porque os seus direitos não são respeitados.

O fato de quase todos entenderem o sentido e os limites da liberdade não equivale dizer que todos entendem o sentido de igualdade!

Na verdade, a igualdade ampla não existe. Na prática as pessoas não são iguais! Duas pessoas quaisquer são diferentes em todos os aspectos em que dois seres humanos podem ser diferentes, mesmo que sejam gêmeos idênticos. Entre as populações que somam os sete bilhões existentes no planeta há abismos socioculturais e econômicos e, se entrarmos no âmbito das escolhas individuais, as diferenças podem somar sete bilhões.

Então, quando falamos de igualdade deve ser de outra coisa que estamos falando, pois todos nós somos diferentes e nunca vamos deixar de ser. Aliás, essa desigualdade é um dos fatores necessários e fundamentais no jogo combinatório que permite tanto a evolução como o desenvolvimento da espécie.

A igualdade citada no slogan diz respeito a duas palavras, que, combinadas, também são senso comum, também negado pelos mesmos que entendem a liberdade como algo sem limites, e que quase chegam a ser uma redundância do conceito de liberdade: direitos e deveres.

Dizer que todos têm diretos e deveres é como fazer eco aos que dizem que a liberdade é limitada pela liberdade do outro. As duas coisas são a mesma coisa. Se cada um respeitar o direito do outro e cumprir o seu dever, os dois serão livres. Se os dois exercerem a sua liberdade sem ultrapassar a liberdade do outro, os dois serão iguais.

Na prática a sensação de liberdade-igualdade é bastante difusa e nem sempre perceptível, pois as grandes populações necessitaram de classes gerenciais, e, ao “contrata-las”, segundo os mecanismos próprios das democracias, aceitaram a tutela dessas classes. E, no regramento do convívio de tantas pessoas tão diferentes, para que elas se sintam livres e iguais, observamos que aqueles que fazem as regras se protegem, passando a dosar a liberdade para os outros, mas mantendo limites bastante elásticos para si próprios, numa distorção do significado de democracia e da universalidade dos deveres e direitos. Logo, a sensação é de que não existe essa igualdade cantada, o que compromete também a liberdade, já que ambas são indissociáveis.

Qual são os direitos e os deveres de um Grande Homem? Qual são os direitos e os deveres de um João Ninguém? Não confundindo liberdade com o desejo de tê-la, podemos considerar que os limites da liberdade de um são exatamente os mesmos limites da liberdade do outro. Já os direitos de ambos são modificados pelos atributos agregados a cada um, mesmo não desrespeitando a liberdade do outro. O Grande Homem pode possuir um bem graças a esses atributos, enquanto o João Ninguém não pode. Mas não podemos dar a todos as mesmas posses e não podemos tirar as posses de quem já as tem, da mesma forma que não podemos respeitar a liberdade de uns desrespeitando a liberdade de outros. A uniformização, ou a tentativa de persegui-la é um processo impossível a curto e médio prazo para essa espécie, pois dentre os atributos avaliáveis para cada indivíduo precisamos levar em conta inúmeros fatores imateriais tais como merecimento, capacidade e aproveitamento… Não adianta tirar metade dos pincéis de um pintor para dá-los ao vizinho que não tem pincéis se o trabalho do vizinho é desentupir fogões. A única coisa que permite um equilíbrio razoável até esse ponto é a aceitação tácita que cada um tem de suas limitações. Os direitos que cada um requer para si costumam estar suficientemente enquadrados numa visão realística das próprias perspectivas.

Já quando falamos em deveres a percepção é diferente! Parece evidente que, em consequência das desigualdades, os deveres do maior são igualmente muito maiores. Aqui algumas correntes pensam assim: quem mais têm mais deve dar, quando não é possível dizer: quem menos tem mais deve tirar, pois o ter é também reflexo do esforço para ter e até que se prove que o ter é imerecido ninguém pode determinar uma regra que uniformiza a posse sem uniformizar  o merecimento. Mas podemos dizer assim: quem mais pode, mais deve. Quem pode muito tem obrigação de entender as necessidades do menor, tem obrigação de ensinar ou promover o ensinamento, e tem a obrigação de promover a fraternidade. Enfim chegamos ao conceito mais difícil da tríade de palavras que compõe o lema tão gritado: Liberdade, Igualdade, e Fraternidade.

Sabemos que frequentemente a fraternidade não é exatamente fraterna mesmo entre irmãos, ou entre familiares muito próximos, mesmo com todo instinto do “gene egoísta” que nos incita a defender a própria carga genética, ou ao entorno, com o qual a nossa prole tem possibilidades de coexistência. Mas, por outro lado, contrariando a animalidade latente do ser humano, observamos indivíduos abandonando sua zona de conforto e se engajando em programas do tipo Médicos Sem Fronteiras. No contexto, são contradições! Há pessoas que tentam ajudar desconhecidos do outro lado do planeta. Há populações corroídas pela fome e pelas doenças que contam com essas contradições. Percebe-se que esse tipo de fraternidade é de uma qualidade mais sutil. Ela nasce de uma bondade que não é comum a todos.

Mas quando falamos da fraternidade do slogan falamos de um outro tipo de fraternidade. Assim como a igualdade é um desdobramento, um pouco mais refinado, da liberdade. A fraternidade nasce do reconhecimento de um dos parâmetros da igualdade: o cumprimento do dever.

Podemos até decretar a partir de agora: a liberdade e os seus limites estão definidos legalmente. Da mesma forma, os direitos, embora não possam ser universalizados, o que seria uma regra utópica, serão enumerados e compreendidos, desde os primários, necessários para que a dignidade não morra, até onde for possível comungar os desejos com a realidade. Mas e os deveres? Eles não são muito bem aceitos pela maioria. A regra geral é a de que deveres são coisas que os outros precisam cumprir. Desta forma parece que enterramos as linhas gerais da aplicabilidade da fraternidade como parte de um lema comum a todos da espécie. Pois a fraternidade exige que haja a aceitação, por cada um, de seus próprios deveres, proporcionais aos atributos já repetidos: sociais, culturais e econômicos.

Aquela fraternidade amorosa ou espiritual é algo que até existe, mas se encontra vários passos a frente do nosso atual estágio evolutivo. Ela não é instintiva. Ela abafa a competição natural. Ela vai no sentido contrário do instinto de sobrevivência. O seu arremedo, ou a fraternidade do slogan, requer que todos sejamos unânimes em respeitar o princípio que diz: temos deveres, proporcionalmente à nossa capacidade, e devemos cumpri-los. Não havendo cumprimento deste princípio, em sociedade, o que vemos não é fraternidade, mas uma tolerância forçada, cheia de remendos, que se rompe frequentemente, e que pode tanto ser ignorada, quando não há choro, ou se transformar em conflito, quando as reivindicações aparecem.

Alguém dirá: mesmo sendo uma tolerância rota, ela deveria ser enfiada goela abaixo, para que tenhamos algo o mais próximo possível da fraternidade. Mas nós não funcionamos assim. Até atendemos a apelos, doe para a Campanha do Agasalho, participe do Criança Esperança, ajude os desabrigados, adote um estudante, e a lista é infinita, mas, lá no fundo permanece o sentimento de que tudo isso poderia ser mais leve se nós vivêssemos num mundo em que todos cumprem o se dever, pois essa é a cola que completa o conceito e gera a fraternidade possível. E parece simples…

Num mundo em que todos cumprem os seus deveres, os direitos passam a ser óbvios, a fraternidade torna-se palpável, e só então poderemos dizer que somos livres ou realmente iguais ou, para os parâmetros humanos, o mais próximo disso possível…  Mas não basta só o João Ninguém cumprir os seus deveres. Ou todos cooperam com o João, ou estamos vivendo uma grande mentira.

A herança do PT!

03/02/2016

Em 10/02/16 o PT completa 36 anos. Nesse período alcançou números impressionantes e foi protagonista de fatos importantes em nossa história recente: Tem a maior bancada do Congresso e conquistou quatro mandatos presidenciais… Gerou o maior rombo econômico da história… E uma decepção imensurável, para quem acreditou que essa força nova poderia redimir moralmente a nação… Criou o pensamento mágico de que é possível respirar o poder sem saber de nada… Prometeu salvar o país e se aliou aos ladrões, afogando, de forma fantástica, a nossa esperança em encontrar gestores públicos confiáveis… Enfim, jogou o P e o T na velha e azeda sopa de letrinhas da canalhice da política nacional… É uma herança e tanto!

E eu votei 5 vezes no PT! Duas para vereador, uma para prefeito e duas vezes para presidente! Duas vezes no Lula…!!! Que Deus me perdoe!

Tudo aquilo que você precisa saber sobre corrupção (ou finge que não sabe!).

07/09/2015

A corrupção, se conceituada como doença, é incurável.

Ela pode ser minimizada, mas jamais eliminada.

O melhor que se pode dizer sobre a corrupção, embora não a redima, é que ela representa um processo de autodefesa, quando utilizada pelos mais fracos, nas trocas suspeitas existentes nos contratos sociais.

A corrupção é um reflexo atávico na espécie humana.

A corrupção, logo, é anterior ao homem. Ela nasceu com o conceito informal de sociedade primordial primata, como método para obter vantagens, tanto no exercício do domínio como na busca de proteção junto ao domínio.

Não existe corrupção sem um corrupto e um corruptor.

A corrupção interessa ao corrupto, como forma de manter o domínio.

A corrupção não interessa ao corruptor, mas ele é induzido a pensar que precisa dela.

Quando uma sociedade cresce, abandona suas características nômades e se instala em um território, surge, logicamente, o Estado.

A corrução é anterior ao Estado.

Na atualidade, principalmente nos regimes com tendências não democráticas, as atribuições do Estado, coordenação e gerenciamento, costumam ser suplantadas pela ideia de que o Estado é meramente um protetor. Proteção, domínio e corrupção são conceitos que, intimamente, se entrelaçam no Estado.

Ser considerado protetor interessa ao Estado. Ser protetor permite ao Estado justificar o domínio. O Estado utiliza a corrupção existente para manter o domínio.

Quando um Estado é instalado a corrução se adapta ao tamanho do Estado.

Quanto maior o Estado maior é a corrupção.

A forma que as forças dominantes encontraram para manter a ideia de que o domínio é necessário foi diversificando, justificando, aparelhando e agigantando a ideia de um Estado protetor.

O Estado gigante e onipresente sufoca a democracia, impede a livre iniciativa e alimenta os interesses dos que possuem maior poder de barganha nas trocas corruptas.

O Estado gigante e corrupto é uma característica dos domínios socialistas, dos povos aculturados e das ditaduras de qualquer tipo.

Quanto menor o Estado, maior a expressão democrática, maior a liberdade e menor a corrupção.

Na estrutura e com os métodos atuais o Estado faz parte de uma Corporação que se contrapõe à Democracia, mas utiliza a aparente vontade da opinião pública, manipulando-a e aliciando-a, para mentir que exerce o domínio em nome do povo.

Na democracia, a diluição do domínio pela diminuição do Estado busca, em paralelo, a diluição da corrupção. A diminuição do Estado não interessa à Corporação. A Corporação se interessa pela perpetuação da corrupção em um Estado multifacetado. A Corporação é a entidade aparentemente acéfala, que utiliza os poderes da república e se alimenta com a corrupção.

Os elementos do legislativo e do executivo, no momento que são eleitos, usam o aval do voto (e acreditam que isso justifica os seus atos) e passam a trabalhar pelos interesses da Corporação que os patrocinou. A regra é: aquele que não se corrompe não consegue permanecer ou ser ouvido. A massa crítica dos que se mantêm ou são ouvidos criam leis corruptas ou deturpam a execução dos atos públicos.

O Estado gigante é essencialmente corrupto. O político eleito é a porta por onde a Corporação corrompe o Estado. O Estado onipresente sufoca a democracia com sua corrupção. A forma de minimizar a corrupção é diminuir o Estado.

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A dúvida é sobre o que chega primeiro! A rouquidão de tanto repetir a mesma coisa ou a morte por velhice, ou cansaço, ou indignação.

 

Todo poder emana do povo?

19/11/2014

Os mortais que vivem no universo de até duzentos mil reais (20 salários mensais – o que não é pouco!), têm algumas dificuldades para entender a mecânica dos universos que têm como parâmetros escalas variáveis de milhões ou bilhões de reais. O que dizer dos que vivem com menos do que isto?

Fica muito difícil entender as razões que levam deputados federais, por exemplo, a gastar 3 milhões de reais numa campanha para depois ganhar metade disso durante os quatro anos de mandato (considerando o básico declarado e sem levar em conta a elástica lista de benefícios). Uns dirão que eles não gastam 3  milhões na campanha, mas “somente” 1 e meio! Nesse caso, gastariam na campanha, tudo que vão ganhar, mas o 1 e meio, que os meios de comunicação apresentam, é a quantia declarável, contabilizável oficialmente, sem o cômputo dos ilícitos invisíveis aos olhos da justiça, embora sejam do conhecimento de qualquer contabilista primário, já que, considerando a inexistência das galinhas que põem ovos de ouro, tudo tem um custo e se foi pago o dinheiro saiu de algum lugar.

Um profissional da área de marketing político me informa que, considerando todos os caixas, arredondando, um deputado estadual custa, em média, 1 milhão, um federal  3 milhões, um senador 9 milhões, um governador 30 milhões e um presidente 300 milhões. E fica claro que o preço daquele que se elege é igual ao preço daquele que foi derrotado.

Os jornais nos dizem que uma empresa como a Friboi gastou 176 milhões e elegeu 12 deputados. Desconsiderando os derrotados, os vitoriosos custaram 15 milhões por cabeça.

Nós, aqui em nosso universo simplista, até podemos admitir que um candidato rico (e babaca) gaste 15 milhões numa campanha! Afinal, na espécie humana há loucuras para todos os cardápios e a vaidade cega pode gerar situações estúpidas como esta, mas não podemos entender (e ninguém da esfera oficial explica) os motivos que levam uma empresa de abrangência nacional a jogar fora 15 milhões para colocar um indivíduo entre os eleitos! A menos que isso se justifique por razões que só existam naqueles tais universos dos milhões e dos bilhões, que escapam totalmente à nossa compreensão.

O fato é que esses parlamentares patrocinados (ou comprados) não servem à democracia. Eles servem à empresa que os patrocinou (ou comprou). São indivíduos que já estão devidamente carimbados, como carne abatida e pendurada para vistoria, completamente comprometidos com aquela empresa. Ou é isso ou nada – é bom repetir – nada justificaria o investimento. Só se a estupidez estivesse entranhada no mundo dos negócios, o que duvido! Pois mesmo não entendendo os meandros daquele universo nós sabemos que os espertos nunca pregam um prego sem protegerem seus preciosos dedinhos com uma espessa e segura camada de estopa. Haverá o retorno! Estejam certos! E esse retorno não vai refletir o seu voto. Ah! Podem estar certos disso também!

Essas são as regras institucionalizadas num regime plutocrático a qualquer custo! Ou você achava que já estávamos numa democracia! Não seja inocente ou estúpido! Só os profundamente crentes e os militantes interessados afirmam, com certo grau de fé, que evoluímos a ponto de termos um governo que nos representa. Os demais, que boiam ignorantemente ao sabor do marketing, ou são obrigados pela necessidade a aceitarem o cabresto, nem entenderiam o significado das seis primeiras palavras do parágrafo único do artigo primeiro da constituição.

Aos amigo do PT

15/10/2014

Alguns amigos reclamaram, no pé do meu ouvido, da expressão “militância desvairada”, usada, noutro dia, em referência àquelas pessoas que ultrapassam suas atribuições no esforço para obter uma vitória política, utilizando métodos que o candidato, talvez, desconheça e até condene. Circunstancialmente, todos os que reclamaram são simpatizantes do partido dos trabalhadores.

Tentei argumentar que eu também posso ser simpatizante de um determinado grupo, embora não tenha obrigação de concordar com tudo que aquele grupo faça. Que achei interessante a entrada de Lula na história do país que, constitucionalmente, me pertence, uma vez que não havia gostado daquela mudança tucana em favor da reeleição. Que depois o meu desencanto ressuscitou com feições petistas quando a maçã apodreceu no colo de Lula e ele não sabia de nada. E por aí vai, na saudável alternância democrática de querer que, de erro em erro, algo dê certo para o país. Mas, confesso, não fui muito feliz na minha argumentação.

Tenho que dizer uma coisa sobre a militância desvairada, ou sobre aqueles que não vão às últimas consequências, mas acreditam piamente, como Rui Falcão, que tudo pode ser feito em nome de um plano maior, de país, pelo bem de todos, inclusive lesar, roubar, desviar e mentir. Não tente apresentar um ponto de vista diferente dos princípios dogmáticos que regem o pensamento dos profundamente engajados. É perda de tempo trocar ideias conflitantes quando do outro lado há somente pontos de fé. Você pode até estar aberto a colocações lógicas que o convençam de que, afinal, você estava errado e tudo pode ser cor-de-rosa nas entrelinhas de um texto jacobino, mas o outro lado nunca estará.

E é impressionante como o rosário das certezas é desfiado conta a conta.

Foi-me explicado que nunca antes, na história desse país, foi tão fácil planejar uma aquisição, uma empresa e um futuro. Tentei dizer que essas coisas são consequências da estabilidade econômica e, tanto quanto me cutuca a memória, começou quando Collor caiu (esse mesmo que agora é senador por Alagoas) e assumiu Itamar Franco, 20 a 24 anos atrás, nomeando um famigerado tucano chamado FHC para ministro da fazenda e sua equipe engendrou o Plano Real. Antes disso, quando o Sarney era o presidente, a inflação ultrapassava os 80% ao mês e o salário devia ser imediatamente consumido em artigos de primeiríssima necessidade sob o risco de, em 30 dias, ser corroído pela metade sem ter sido gasto um centavo. Não havia como planejar nada! O futuro, naquela época, se resumia a um mês, quando havia o que comprar. Lula soube aproveitar o terreno arado e as sementes plantadas, assim como teve a sorte do mercado mundial passar por um período bom das pernas durante o seu mandato.

Também me explicaram que coisas foram construídas, que pontes foram feitas, que estradas foram asfaltadas e que hospitais foram inaugurados, numa lista interminável de benfeitorias.  Tentei dizer que nos governos da ditadura todas essas coisas foram feitas, até num gigantismo exagerado, mas isso não significa que devamos dar vivas ao regime militar. Que muitas das obras daquela época foram, proporcionalmente, mais visíveis e mais úteis do que as do governo atual e que agora, inclusive, está havendo sucateamento de escolas, diminuição dos leitos hospitalares e asfaltamento parcial das estradas, porém com inaugurações integrais, conforme o calendário político. E que nós não podemos nos deixar enganar com essas realizações funcionais propagadas pelos governos. Qualquer um deles! Eles, quando fazem algo que é intrínseco à sua função, o fazem de forma lenta, cara, cheia de furos contábeis inexplicáveis, e nós não podemos esquecer de que estão fazendo apenas a obrigação, ligada ao cargo que conquistaram por desejo próprio e para a qual estão sendo pagos. Até a galinha, quando canta depois de ter posto um ovo especialmente difícil, tem mais méritos.

E por fim me elucidaram sobre os crimes que foram combatidos e sobre os culpados que foram para a cadeia, outra coisa que, nunca antes na história desse país, havia ido vista ou contada. Tentei contra argumentar que isso ocorreu por uma conjunção de fatores alheios às virtudes do governo, que, aliás, tentou negar o problema e blindar os envolvidos, que o judiciário, que não é perfeito, se mostrou razoavelmente isento; que os meios de comunicação, nos últimos anos, evoluíram da notícia de véspera lida num jornal vencido à postagem instantaneamente jogada na internet, tornando muito mais difícil esconder as ilicitudes para sempre; mas nada disso convenceu os meus amigos.

Depois me senti culpado! Que direito tenho de jogar areia na crença dos que acreditam em alguma coisa? Afinal, parece tão confortante acreditar! Embora eu não me sinta desconfortável sendo um descrente. Acho que o modelo político precisa ser continuamente aperfeiçoado. Um dia nós vamos acertar! Essa é a minha única crença na política. Ou talvez seja simplesmente esperança! Um dia, aos encontrões e tropeços, nós temos que acertar, e quando esse dia chegar, a gente continua de olho bem aberto, torcendo para que o vencedor do momento faça as coisas certas, para o nosso bem… e para o bem dele…

Ou nós acabamos com a política velha, ou a política velha acaba com o Brasil.

06/04/2014

Entre espantados e indignados, ano após ano, vemos o nosso país ser palco e plateia de escândalos financeiros bilionários e inexplicáveis aos olhos da democracia. Como pode? Como deixamos isso acontecer? Qual é a consciência que move essa gente? Para algumas dessas perguntas, como a última, é fácil encontrar uma resposta! A consciência que move essa gente é a do ladrão! Elástica! Cheia de gatilhos que a justificam! Nem um pouco interessada nas pessoas ou em suas necessidades. Essas vítimas anônimas são transformadas numa massa amorfa e despersonalizada chamada país, que tudo aceita, como a mãe de um criminoso, que não desconhece os delitos do filho, mas fecha os olhos e o afaga. E todos os dias ouvimos pelos meios de comunicação mais e mais notícias de desvios inacreditáveis que salvariam milhares.

Há 4 anos foi feito um cálculo de que, em 2009, haviam sido desviados, dos cofres públicos, “…nas várias esferas do governo, 258 milhões, 326 mil, 432 reais, e 14 centavos. Neste cômputo só está a quantia que sumiu sem deixar nenhuma dúvida razoável sobre a lisura do destino dado…”. Nós sabemos que, nos dias de hoje, se os critérios que definem “dúvida razoável” fossem revisados e atualizados essas cifras inchariam consideravelmente. Eis o fato desdobrado: o dinheiro, sendo público, deixou de ser aplicado nas ações públicas; uma das ações públicas mais carentes de verbas é a solução dos problemas na área de saúde; como, com um indivíduo hospitalizado por um mal tratável, mas que morreria sem os recursos necessários, gastava-se em média, na época, 25 mil e 200 reais, o dinheiro desviado poderia salvar a vida de 10 mil e 251 brasileiros. Matemática euclidiana primária. Mesmo sem contar o que a máquina pública perde pelo caminho, por sua morosidade e ineficiência, isso já poderia ser configurado como um massacre! Ninguém está vendo isso? Se alguém está vendo cabe repetir as outras perguntas! Como pode? Como deixamos isso acontecer? E ainda acrescentar aquela que se impõe: Nós nunca vamos parar essa sangria?

É muito difícil determinar as fronteiras entre os desfalques. Há momentos em que o passado se mistura com o futuro numa terra de ninguém, cheia de números imensos, gatunagens e impunidades recorrentes. Mensalões com sobrenomes de partidos. Vergonhosa desvalorização da Petrobrás. Programas sociais maquiando a compra de votos. Copa do mundo superfaturada. Caixas de campanha comprando candidatos. E por aí vai. Permitindo até que se afirme que é um enorme desafio encontrar uma obra pública em que não houve algum tipo ou algum grau de desvio do dinheiro público.

Nós precisamos acabar com isso!

É claro que essas coisas acontecem com o aval da democracia. Então necessitamos usar os mecanismos da democracia para mudar essa triste realidade. Necessitamos mudar as regras do jogo. O sistema político vigente é ultrapassado, cheio de vícios e não dispõe de regras que coíbam e enquadrem os malfeitores de forma eficaz. É uma fantasia acreditar que os políticos eleitos pelo sistema atual queiram mudar essas regras. A política precisa ser reformada. Precisamos eleger políticos comprometidos com essa reforma. Parodiando o slogan que se referia à saúva, poderíamos dizer: Ou nós acabamos com a política velha, ou a política velha acaba com o Brasil.