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Como são as coisas no Santinho (12 de 12)

15/05/2014

12 – Um milagre do Santinho

  (Para saber como começa essa história clique aqui!)

Depois de passado todo o sufoco vivido durante o sequestro de Dódi, Fino e Luciana resolveram reunir na casa deles as pessoas que de alguma forma ajudaram naquele momento de desespero da família. Era uma janta informal para agradecer e rir. E lá estavam, além do casal, o menino e o Coisa Torta, Zuzu, Biduzão, Romeno, Bela, Fettuccini e Antunes. Barraca não foi alegando estar muito triste depois que a Zulma resolvera voltar para o Acre onde tinha laços familiares. Mas Tito apareceu, como convidado de Fino, que pediu ao padre que fizesse uma benção especial, já que nunca era demais reforçar a proteção apelando para as divindades na defesa contra o banditismo que rondava o Santinho.

Antunes até que quis saber algumas coisinhas referentes ao sequestro, mas Fino colocou na mão dele uma garrafa de cerveja e pediu que ele deixasse aquilo para um dia em que os dois estivessem conversando longe dali.

Fettuccini num dado momento em que a conversa rolava por conta dos dotes culinários de Luciana disse que Virapau se revelara um excepcional cozinheiro, tanto que fora morar na casa do Chefia e agora era o responsável pelos seus quilos extras.

E por falar em quitutes houve comentários sobre uma fofoca que andava rolando na comunidade envolvendo o Biduzão e uma funcionária da Doçura. Ele não negou e isso fez com que as conversas fossem transformadas em perguntas sobre para quando eram os doces com a moça da Doçura.

Zuzu ouvia tudo aquilo e se sentia satisfeita com a decisão de vir morar no Santinho já há 14 anos. Estava ficando uma bicha de meia idade, mas não cogitava a ideia de abandonar o celibato.

E, com o costuma acontecer nesses encontros, há uma hora em que o zum-zum do falatório deixa uma brecha silenciosa. Foi numa dessas brechas que Romeno começou a fazer a revelação.

― Eu e a Bela temos uma coisa pra dizer! ― Todos se voltaram para saber qual seria a novidade. E ele achou por bem aproveitar bem aquele momento para não deixar nenhuma dúvida sobre o que pretendiam dizer.

― E já adianto: quem vier com malicia ou lançar dúvidas sobre a honestidade do nosso relacionamento pode começar a afiar a espada por que vai ter guerra. ― Disse Romeno com a cara séria.

Isso só aprofundou o silêncio e aguçou a curiosidade de todos.

― Estamos grávidos! ― Sintetizou Bela.

Houve um espantoso conjunto de expressões faciais mudas, mas ninguém disse uma palavra.

― Eu andava virgem já há quase um ano antes de conhecer Romeno e ele não é bem aquilo que o povo daqui especula sobre ele.

Mais bocas e olhos se abriram conforme Bela falava.

― E tem mais uma coisa! ― Acrescentou Romeno ― Pra consumo externo eu continuo sendo o secretário de Zuzu que todo mundo acha que é uma travestida… Isso é bom pro figurino e pros negócios.

― Quero ser a madrinha! ― Gritou Zuzu, lacrimejante.

E isso foi o que faltava para que o grupo de desdobrasse em abraços e exclamações de felicitações.

Quando a notícia havia sido assimilada e o jantar entrava na sobremesa Fino perguntou no pé do ouvido do padre Tito:

― E agora, padre? Como é que nós vamos explicar a história pra esse povo da comunidade?

O padre Tito deu uma gostosa gargalhada e respondeu:

― Essa é fácil! É só dizer que foi mais um milagre do Santinho!

FIM

Como são as coisas no Santinho (11 de 12)

08/05/2014

11 – Num acerto de conta sempre pode sobrar um troco…

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Quando o Coisa Torta voltou com o Barraca já faltava pouco para meia noite. Os dois bandidos estavam amarrados um de costas para o outro e o Fino terminava com uma lata de sardinha.

― Agora que eu fui me dar conta como estava com fome! ― Exclamou.

― O que está pegando? ― Perguntou o Barraca, emburrado, não gostando nenhum um pouco do desdobramento daquele episódio com um aposento do seu estabelecimento sendo utilizado como cativeiro do filho do Fino.

― Parece que essas duas criaturas do além têm uma revelação a fazer. ― Respondeu o Fino enquanto o Coisa Torta entortava a sua pior careta para cima dos prisioneiros. Suzuki voltou a se mijar e Critério, sem levantar os olhos, achou que se contasse a verdade poderia amaciar o seu lado.

― O critério era o seguinte, seu Barraca: nóis segurava o coisinha do seu Fino pra descolá uma grana…

― E o que o meu bar tem a ver com isso? Caralho!

― E que a dona nos aprotegeria, tá ligado? Ansim nóis se vingava e ela também, tá ligado?

― Que dona? Que dona?

― A Dona Zulma, a pernuda das pegada, tá ligado?

O Barraca desabou numa cadeira com os braços caídos entre as pernas, estourando o botão do paletó. Pareceu que iria dizer alguma coisa. Abriu a boca umas três vezes, mas só soltou todo o ar dos pulmões como um peixe no seco. O Coisa Torta alcançou um copo d’água e ele bebeu tudo num gole só. Depois perguntou para o Fino, quase num choro:

― Será que eu mereço?

― Tá com o coração forte, Barraca? ― Perguntou o Fino.

― Acho…!

O Fino incentivou Critério cutucando a barriga dele com o dedo enquanto o Coisa Torta girava as duas cadeiras com os prisioneiros para que Critério ficasse bem de frente para o Barraca.

― Como era mesmo a explicação sobre quem é o proprietário do estabelecimento? Repete pra nós!

― Quando nós dissemo que num ficava bem usa o bar do seu Barraca ela disse que num fazia mal causo que ela ia sê a dona disso tudo dispois duns acerto…

― Isso! Bom menino! Agora repete pra nós aquele lance do encomendamento…

― Era uns trampo pra dispois…! ― Gemeo Critério com olhar de súplica

― Eu sei! Mas, dadas as circunstâncias atuais, acho que o Sr Barraca merece ser sabedor desse trampo! Não é mesmo?

O gogó de Critério subiu algumas vezes e por fim ele disse, definhando, num tom bem baixo:

― Nóis dizemo pra ela que nóis tinha um grande respeito pelo senhor, mas ela ofereceu um troco grosso pra nóis apagá o senhor… mas isso era pra mais dispois…

Barraca ficou paralisado e sem piscar. Sentado com as mãos gordas apoiadas nos joelhos. Olhando pra cara ranhenta do Critério. E muito lentamente foi se dando conta das dimensões do problema que ele tinha nas mãos. Conseguiu dizer:

― Mas a puta…! ― Mas o Fino interrompeu o seu desabafo chamando-o à razão.

― Espero que o amigo saiba que é necessário esfriar bem esse prato antes de comê-lo.

O Barraca se ergueu devagar e colocou a mão no ombro do Fino antes de dizer:

― Eu sempre assopro bem o mingau. Pode deixar! ― E saiu.

Quando Fino e Coisa Torta ficaram sozinhos com a dupla de bandidos o Fino pediu que o cunhado desamarrasse os dois da cadeira, mas mantivesse as amarras das mãos. Fez uma careta por causa do cheiro de urina e disse.

― A noite está tão bonita que até merece um passeio!

― Prainducá?

― E adianta…?

 ***

Barraca chegou ao Bar Feliz perto das duas horas da madrugada, muito depois do horário de costume. E veio só! Celino não entendeu quando o patrão passou por ele sem dizer uma palavra. Mas logo depois um dos funcionários do bar foi ao posto de Celino e disse:

― O Barraca mandou te chamar!

― Mas e a portaria…?

― Vai que eu cuido!

E Celino foi apressado para o escritório enquanto remoía: “Mas o que estava acontecendo? Chegou atrasado, sem a Dona Zulma, nem me cumprimentou e agora me chama lá pro escritório! Tem fedor aí…! Ah! Isso tem!”

― Entra e fecha a porta! ― Disse o Barraca envolto na fumaça dum charuto.

Celino entrou e ficou a espera, remexendo na memória para saber se encontrava alguma coisa errada que tivesse feito e pudesse justificar as atitudes do patrão. O Barraca rosnou, fungou, olhou uma meia dúzia de vezes para cara do outro enquanto penteava os cabelos da nuca com a mão e por fim aumentou ainda mais a estranheza das circunstâncias  oferecendo um charuto para o Celino que o aceitou e ficou sem saber o que fazia com aquilo apagado.

― Tá acontecendo um problema…! ― Começou o Barraca.

Celino achou por bem ficar quieto até saber a natureza do problema.

― Acho que a patroa vai precisar fazer um passeio…! ― Continuou o Barraca, tateando para achar o tom certo na conversa. ― É isso! Um passeio pra… pra ver a mãe, coitadinha! Até podemos dizer que ela já tá meio morta, essas coisas…! E eu queria que você fosse o meu homem de confiança pra desenrolar esse negócio!

― E onde mora a mãe da Dona Zulma? ― Perguntou Celino.

― Sabe aquela curva grande no fim da Comendador Pitangueira?

― Sei!

― Tem um enorme paredão cinza do lado direito…!

― É o muro dos fundos do cemitério! ― Correspondeu Celino.

― É isso aí! ― Disse o Barraca.

― E o que mais? ― Quis saber Celino.

― Não tem mais!

― É ali? ― Arregalou os olhos, Celino, entre surpreso e assustado.

― É.

― Lá mesmo? No cemitério? ― Sussurrou Celino, querendo uma confirmação.

― Positivo!

Celino se remexeu inquieto sem saber onde enfiar as mãos e amassou o charuto no bolso. Depois de escolher e pesar muito as palavras continuou no jogo do Barraca.

― E essa visita vai ser demorada?

― Muito!

― E será que vai ter quarto vago pra ela?

― Sempre tem!

Como Celino ficasse em silêncio tentando assimilar as implicações da ordem que estava recebendo do patrão, o Barraca emendou:

― Indo agora, você pega ela em casa e faz a visita antes de amanhecer…!

― Certo! ― Aceitou Celino já indo até a porta. Mas parou, pensou um pouco e perguntou:

― O patrão já se despediu da patroa?

― Já.

― Então não tem mais volta?

O Barraca mascando o charuto já apagado determinou entristecido:

― Vá fazer o seu trabalho, rapaz, e respeite a minha viuvez!

Celino engoliu a saliva limpando a garganta, deu uma tossidinha criando coragem e soltou:

― Então o patrão não vai se importar se, antes da visita pra mãe, eu tirar uma casquinha com a Dona Zulma.

O Barraca deu um salto, derrubando a cadeira, com as bochechas em fogo, e gritou:

―Qual é a tua? Ô Celino! Tá me tirando pra corno?

 

Continua em…

https://romacof.com/2014/05/15/como-sao-as-coisas-no-santinho-12-de-12/

 

 

 

 

 

Como são as coisas no Santinho (10 de 12)

23/04/2014

10 – Quando a dor é mais doída…

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Era uma sexta feira. No dia seguinte Dódi completaria 10 anos. Ele foi à aula como todos os dias da semana. E como já era praticamente um homenzinho ele dispensava solenemente a companhia da mãe ou do pai tanto na ida como na volta. Dódi não estava nem um pouco a fim de pagar mico de filhinho mimado na frente dos colegas. Pegava a sua bike e comia o morro. Mas Luciana o esperava pontualmente ao meio dia na porta da casa para dar um beijo na cria e perguntar como havia sido a manhã na escola. Só que naquele dia Dódi não voltou.

“Um pequeno atraso! Coisa comum! Não vá agora dar uma de mãe superprotetora, Dona Luciana! Mas já passou meia hora! Não! Quase quarenta minutos! Ai, meu Deus! Cadê o meu Dódi?” Esse era o nó na cabeça de Luciana quando percebeu que o filho não aparecia e o tempo criava um buraco em seu coração.

Ela já ia entrar em busca do Fino quando uma bicicleta dobrou a esquina. “Parece que é ele! Mas não é a bike dele! Não! Não é ele!” Só que o moleque passou por ela em disparada e jogou contra o seu peito um papel amarrotado.  Luciana levou um susto e depois pegou o papel e leu uma mensagem montada com letras recortadas de todos os tamanhos:

Tamo-cum-teumoLeki-fino

SEm-fatia-vaLE-200-miLHAx

Custou a entender o que estava escrito e conforme o significado daquilo foi caindo em seu espírito sentiu as pernas bambas, mas conseguiu entrar em casa e entregar o papel para o marido.

Fino primeiro notou a palidez de Luciana e suas feições transtornadas, mas não deu importância ao pedaço de papel até que a esposa quase sem voz conseguiu dizer:

― Oh, meu Deus! O que é isso?

Fino leu a mensagem e os dois, lentamente, sentaram. Depois ele abraçou Luciana e só então ela conseguiu chorar.

Coisa Torta surgiu na sala, vindo do interior da casa, pressentindo que alguma coisa muita errada estava acontecendo com a sua família.

O resto do dia foi tumultuado. Fino precisou do Biduzão, que aconselhou a participação do Antunes. Zuzu viu o entra e sai e contou pro Romeno. Do Romeno pra Bela foi um pulo. E no fim da tarde até o Fettuccini e o Barraca faziam parte do time de solidários. Mas não houve novos contatos.

Antunes achava que os sequestradores iriam usar o mesmo artifício do bilhete montado pra marcar a hora e o local do recebimento do dinheiro. Bela e Zuzu tentavam consolar uma Luciana aflita e trêmula. O Barraca zanzava de um lado pro outro sem saber se ficava triste ou curioso. O gringo precisou ser contido pra não montar uma equipe de atiradores com a intenção de revirar o mundo a procura do menino. Coisa Torta, quieto, permaneceu contra a parede, mas sem tirar os olhos do Fino. E Fino e Biduzão confabulavam pelos cantos.

― Se tivessem pedido muito e o bilhete tivesse menos erros eu ficaria mais tranquilo! ― Dizia o Fino.

― Acha que isso voga, Fino?

― Quem pede pouco e escreve mal daquele jeito é gente fraca. A ralé perde a cabeça por muito pouco…

De vez em quando Fino levava a mão ao coração e Biduzão percebeu:

― Tá sentindo alguma coisa? Liturgo.

― Não! Está tudo bem!

Numa dessa tocadas no peito, quando já era passado das 9 da noite, Fino pediu licença e saiu da sala. Enfiou a mão do bolso e tirou um celular que vibrava. Havia uma mensagem.

“BAR FELIZ FUNDOS – HH+M? – TB – DD”

Quando Fino voltou disse pro Coisa Torta de forma que todos ouvissem:

― Me leva ao plantão pra dar uma verificada na pressão?

― Deixa que eu levo você. ― Se prontificou o Barraca.

― Não! Agradeço! Mas você pode ser mais útil aqui, pra dar uma força pro Antunes, se surgir alguma novidade.

― Ah! Isso é! ― Concordou o Barraca.

― Está tudo bem com você, querido? ― Angustiou-se Luciana.

― Acho que não tomei o meu remédio hoje…! É isso!

Luciana, quando olhou para o marido, enrugou a testa e dilatou as narinas, mas aos presentes, envolvidos com a expectativa da situação, aquilo não passou de uma repreensão preocupada.

Já no carro, Fino tirou duas pistolas de sob o banco do motorista e telegrafou pro Coisa Torta:

― Está tudo bem com o Dódi. Ele está nos fundos do Bar Feliz. Tem dois homens e uma mulher na parada. Se precisar, usa isso, mas atira só nas pernas…!

Depois, quase num lamento, acrescentou uma recomendação desnecessária:

― Mas primeiro vê bem pra ter certeza que não é o nosso neguinho!

O Bar Feliz ficava na ladeira oeste a umas dez quadras da casa do Fino. O terreno em que fora construído aquela boate permitia acesso também pela rua dos fundos, que era usada para descarregar bebidas e como rota de fuga de amantes eventualmente perseguidos por esposas ciumentas.

Havia um muro alto e um portão amplo que estava fechado. Mas uma parte desse portão tinha o formato de uma pequena porta comum e era por ali que os fugitivos se esgueiravam.  Ela estava aberta e foi por ali que Fino e Coisa Torta entraram.

O lugar estava quase às escuras, iluminado só pela luz pública de um poste do outro lado da rua. Havia uma desorganizada pilha de caixas e algumas camas desmontadas e encostadas à parede. Os dois estavam imóveis ouvindo apenas o som abafado da música tocada na boate na outra extremidade do terreno. Nesse momento uma porta foi aberta em um sujeito magro, de cabelo espigado e vestindo bermudas, saiu apressado para urinar.

Fino e Coisa Torta estavam a dois metros dele, mas como o outro havia saído de uma peça iluminada não tivera tempo para acomodar as pupilas à escuridão. Por via das dúvidas o Coisa Torta deu dois passos e martelou com um soco o topo da cabeça do mijador noturno, que desabou de cara sobre a poça da própria urina e ali ficou.

“Se for um deles, é menos um.” Pensou o Fino.

A porta tinha ficado entreaberta e pela fresta Fino pode ver outro indivíduo, de costas, sentado num banquinho e colando letras em um pedaço de papel sobre uma pequena mesa.

Eles entraram devagar, mas a porta ringiu. O outro homem achando que era o companheiro que retornava falou.

― Busca outra ceva pra nóis quisto aqui tá um bafo!

Fino imediatamente reconheceu aquela voz e falou bem baixinho:

― Mas que saudade, Critério!

Critério deu um salto, derrubando a mesa e espalhando as letras recortadas, mas só o que fez foi se aproximar da mão do Coisa Torta e em seguida desabar no chão.

Fino viu que a bicicleta de Dódi estava atirada a um canto e havia outra porta no fundo da pequena peça. A abriu muito lentamente. Estava escuro lá dentro, mas deu para perceber o branco de dois olhos conhecidos e os dentes do enorme sorriso de Dódi.

― Onde está a mulher? ― Perguntou Fino, mais mexendo os lábios do que realmente emitindo os sons.

Dódi encolheu os ombros e respondeu imitando o pai:

― Faz tempo que ela foi embora. Só ouvi a voz dela, mas acho que sei quem é…!

Os três se abraçaram emocionados e depois das revelações necessárias voltaram a dar atenção para os sequestradores.

O Coisa arrastou para dentro da peça o primeiro que ele havia nocauteado e eles puderam confirmar aquilo que já adivinhavam. Era a dupla Critério e Suzuki. O letrista iletrado e o mijão chapado.

Fino conversou com Dódi.

― Você sabe quem são esses caras?

― Não faço a menor ideia!

― E a mulher? Você realmente não viu a cara dela… só ouviu a voz! Correto?

― É isso aí ― respondeu Dódi compenetrado.

― Então… ― Continuou o Fino. ― Presta bem atenção. Você não vai precisar mentir muito… no máximo omitir uma coisinha ou outra. Você foi sequestrado por dois homens. Você não conhece os caras e não conseguiria identificá-los. Você não viu essa mulher! Portanto, pra todos os efeitos, ela não existe! Você não sabe pra onde foi que eles lhe levaram! Faz de conta que foi assim como o pai está dizendo. Num descuido deles, agora, há pouquinho, você pegou a bicicleta e fugiu. Saiu a esmo sem saber por onde realmente andava até que viu ruas conhecidas e, por acaso, deu de cara com o dindo. O pai, parece, tinha ido procurar um médico… Será que o papai está bem? Que sorte ter encontrado o dindo! Oh, mãezinha! Como pensei em você! Hã? Acompanhou?

― E se a polícia me pressionar? ― Perguntou Dódi.

― Aí você passa a bola pra mim…

― Legal! ― Fechou Dódi.

E Fino arrematou para o Coisa Torta,:

― E você, que acabou de encontrou o Dódi, leva o moleque pra casa por que lá está todo mundo preocupado com ele. Eu, você não tem certeza, parece que vou ser observado ou fazer um soro…! E, quando ninguém estiver ligado na sua, desvia o Barraca pra cá que nós temos que ter uma conversa…

― Grumpfff! ― Concordou o Coisa Torta e saiu abraçado com o afilhado.

 (Continua….)

Como são as coisas no Santinho (09 de 12)

14/04/2014

09 – Uma troca de confissões.

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O padre Tito costumava, todas as manhãs, dar duas voltas na praça em frente a igreja do Senhor Menino. Ele era um homem velho e franzino e andava com as mãos às costas olhando para as árvores e apreciando os pássaros. No sentido contrário vinha o corpulento pastor Feliciano, já irritado com alguma coisa e de mal com a vida. Quis o destino que Romeno, enquanto ia para Unidos, atravessasse a praça e cruzasse a calçada bem no meio do caminho deles.

― Dominus vobiscum. ― Acenou Romeno, brincando com o latim e saudando o padre, que respondeu sorrindo.

― E Ele esteja contigo, meu filho! ― E distraído com o gingado de Romeno, já do outro lado da rua, não viu que Feliciano crescia em sua direção, transbordando de ódio.

Feliciano o agarrou e o sacudiu pelos ombros enquanto salivava:

― Como pode dizer que o Senhor está com aquela coisa? Seu desmiolado!

Mas logo atrás de Feliciano vinha o Fettuccini acompanhado de Reinaldo.

O gringo gritou:

― Alto lá! Pode parar!

Feliciano voltou o rosto em direção à voz e viu o outro com um dedo repreendedor erguido. Fettuccini tinha uma estatura média. Estava longe de ser imponente. Era bem mais baixo do que o pastor, porém logo ali estava Reinaldo, dois passos atrás do gringo, com a cara de mau piorada pelo nariz torto desde o sequestro do Chefia. Isso fez com que Feliciano reconsiderasse.

― Desculpem-me! Acho que perdi a cabeça…!

― Eu não acho… Eu garanto que você vai perder a cabeça literalmente se não tirar as mãos do padre! ― Afirmou Fettuccini erguendo a voz.

Feliciano percebeu que ainda segurava os ombros do padre. Imediatamente os soltou como se eles estivessem dando choque. Olhou mais uma vez para o dono da Separados emoldurado pelo corpanzil do capanga e resolveu, de cabeça baixa, se mandar dali.

― Ele o machucou? Padre! ― Fettuccini estava realmente preocupado.

― Não! Não! Foi só uma discussão boba… ― Sorria Tito.

― Quer que o Reinaldo dê um amasso nele?

― Nããão! Que é isso? O Feliciano é um homem bom. Ele só esquenta a cabeça por nada. Daqui a pouco ele reza e fica bom!

― Eu vi que ele se alterou depois que o senhor falou com o secretário da Dona Zuzu… Acho que ele não simpatiza com os gays. ― Disse o gringo dando o seu parecer sobre a posição do pastor.

― São achismos individuais… ― Contemporizou Tito. ― Na nossa profissão é muito comum essa confusão.  Achar que os pontos de vista individuais são verdades absolutas, quando, na verdade, são só… achismos individuais…

O gringo riu e estendeu as duas mãos para segurar a do padre.

― Padre Tito! Só o conhecia de vista, mas é um prazer conhecê-lo pessoalmente. Sou Luiggi Fettuccini, da Separados…

― Sei quem você é. O prazer é meu.

― Eu andava mesmo precisando ter uma conversa com um padre!

― Entendo! Porque não sentamos um pouco naquele banco? ― Disse Tito apontando para um banco da praça. ― A menos que negócios urgentes o estejam esperando…

Fettuccini deu uma tossida e Reinaldo foi se postar a uns vinte metros, atento ao mundo e desligado do Chefia.

Os dois se sentaram e ficaram olhando por muito tempo para o movimento da rua e para uma pomba que ciscava no meio fio. Quando Tito entendeu que aquele silêncio fazia parte da dificuldade que o outro sentia para falar sobre o seu assunto, fosse ele qual fosse, baixou o tom de voz e resolveu dar uma pequena ajuda.

― Às vezes o início de uma conversa parece uma porta estreita demais, pela qual nós não vamos conseguir passar!

― Bota estreita nisso! ― Bufou Fettuccini.

Depois se encheu de coragem e emendou:

― É que eu vivo enrolado nuns desvios…

― Percebo!

― E… ― E voltou a ficar calado. Forçando o padre Tito a uma nova cutucada.

― E você prejudica outras pessoas nesses desvios, meu filho?

― Como…?  Não! Acho que não! É uma coisa só minha!

― Hum!

― Fico pensando se é pecado! Essas coisas…

Padre Tito se sentiu confuso, pois achava que o gringo estava se referindo às suas atividades paralelas, mas percebeu que o assunto era mais íntimo e talvez delicado. Achou que poderia apresentar algumas definições próprias que alargassem limites sem derrubar os pilares da Santa Madre Igreja.

― Sabe! Eu penso assim: Se alguma coisa faz mal a você sem fazer mal a outras pessoas pode ser que você esteja vendo a coisa como pecado não por que realmente seja, mas por que você foi educado a pensar assim…

― É! Talvez seja exatamente por aí… Mas me sinto desconfortável! Sabe? Remoendo, remoendo… ― E, depois de olhar para o Reinaldo posicionado a uma distância estratégica, baixou mais o volume da voz e disse: ― É que eu gosto de uma pessoa…!

― E essa pessoa gosta de você?

― Até pode ser! Não sei!

― Ela tem laços afetivos com outra pessoa?

― Que eu saiba, não! Nããão! Não tem mesmo! Posso garantir.

― Ela sabe que você gosta dela?

― Não! E nem pode saber…

― Então você pretende que ela não saiba que você gosta dela? ― Perguntou Tito tentando entender o nó que havia na cabeça do outro.

― É isso!

― Um amor platônico, então.

― O que é isso? ― Perguntou Fettuccini achando estranha aquela colocação.

― É uma forma de gostar sem um relacionamento íntimo. Gostar à distância. Idealizar um amor considerado impossível, e por aí vai… ― Respondeu Tito.

― Entendi… Bonito! Então deve ser isso… Pois é impossível!

― E por que você acha que um amor impossível é um pecado? ― Quis saber Tito.

― Ufa! O senhor faz perguntar difíceis, padre!

― Você ficaria mais tranquilo se eu considerasse a nossa conversa como um segredo de confissão?

― É! Pode ser… ― Suspirou Fettuccini.

― Mas quero deixar claro que você não é obrigado a dizer qualquer coisa pra mim. Pra todos os efeitos nós só estamos tendo aquela conversa informal que você queria ter com um padre… Lembra?

― Tá certo! Eu vou falar… ― Fettuccini olhou nos olhos do padre Tito e desabafou: ― É que eu gosto – daquele jeito que é impossível e coisa e tal – da Dona Zuzu.

― Entendo! ― Disse Tito mantendo sua fleuma e imparcialidade jurada.

― Entende? ― Fettuccini parecia radiante e ao mesmo tempo desiludido por seu segredo ter sido assimilado de forma tão simples e rápida pelo outro.

― Vou lhe contar uma coisa… ― E agora foi a vez de Tito baixar a voz. ― Quando eu tinha a sua idade – portanto já era padre e casado com a minha escolha – fui gostar de uma moça. Ponha-se na minha situação! Imagine o trabalho que eu tive para equacionar isso na minha consciência! Naquela época eu também pensei que era pecado! Eu havia sido educado para pensar dessa forma. Hoje eu vejo da seguinte forma: seria pecado se eu largasse a minha vocação, que hoje eu sinto como a coisa mais importante da minha vida, ou se eu estragasse a vida daquela moça com os impulsos de um homem equivocado. Afinal, não passava disso! Era um impulso normal de um homem, é claro! Mas também uma entre tantas paixões. Essas coisas que deixam as pessoas cegas e burras. Não que sejam más! Mas que acabam destruindo vidas quando são mal entendidas ou mal direcionadas.

― Porra…! Quero dizer… Mas que coisa, padre…! ― E o gringo emendou ainda dimensionando a sua dor. ― Embora haja aí duas diferenças importantes.

― Quais? ― Sorria Tito para a seriedade do outro.

― Em primeiro lugar o senhor gostou de uma mulher! E depois o senhor tinha e tem a sua vocação sacerdotal! No meu caso é muito diferente! Eu gosto de uma bicha, sou dono de uma escola de samba e todo mundo fica esperando pra saber quando vou dar o grande golpe.

― Tanto quanto eu saiba a Dona Zuzu é uma pessoa íntegra e trabalhadora. A moça de quem eu gostei era uma professora competente que acabou casando e hoje tem dois filhos. Você movimenta um empreendimento que dá trabalho pra várias famílias e eu tento dar consolo espiritual pra essas famílias. Estamos empatados!

― O padre só pode estar brincando comigo? Está esquecendo que ele é um gay? Que eu sou considerado um bandido? ― Gemeu Fettuccini.

― Esqueça essa coisa de gay! É um ser humano maravilhoso e perfeitamente digno de ser objeto do amor de outras pessoas. Nesse caso as opções sexuais só atrapalham por que nós vivemos segundo as definições de nossa civilização. Mas, independentemente, pelo que entendi, seu afeto é platônico!  E depois você é a coisa mais parecida com um bandido frustrado que eu já vi…

― Como…?

― Pelo que ouvi de sua história houve uma grande mudança na forma como o Sr Fettuccini leva a vida e é considerado pelos moradores do Santinho. Você não é um bandido que finge ser um homem bom. Você é um homem bom que pensa que é um bandido. Você faz um esforço enorme pra ser considerado um bandido, mas o Santinho, hoje, não poderia viver sem o trabalho que você desempenha na comunidade.

― O senhor acha isso? ― Perguntou Fettuccini se sentindo quase redimido.

― Com certeza! ― Respondeu Tito.

Fettuccini ficou em silêncio avaliando o que ouvira do padre enquanto Tito fazia um exame de consciência e pedia perdão a Deus por eventuais deslizes cometidos contra os conceitos de sua Igreja.

― E a minha penitência? ― Perguntou Fettuccini, repentinamente.

― E você ainda quer mais…? ― Devolveu Titto.

E acrescentou ao se levantar.  ― E não podemos esquecer de agradecer a Deus por ter colocado o pastor em nosso caminho! Se não fosse a chegada tempestuosa dele nós não teríamos essa conversa.

E os dois riram antes de se despedir.

 (Continua…)

Como são as coisas no Santinho (08 de 12)

04/04/2014

08 – Salada de interesses.

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Quando Bela apareceu no Santinho houve as mais variadas reações por parte dos moradores. No barracão da Unidos procuravam tratá-la normalmente, mas começando pelas costureiras que tinham trabalho permanente ali, e terminando pelo pessoal de fora que circulava na Unidos como professores de dança e artesanatos, Bela, embora fosse uma menina linda, nitidamente do bem, era rotulada por muitos como mais uma das aberrações do universo gay de Zuzu. Para as línguas discriminantes pouco importava se viviam do trabalho que lhes era oferecido na Unidos do Santinho, ou se Zuzu e seu pessoal mais íntimo davam mostras permanentes de que seus esforços só haviam trazido coisas boas para o bairro. Os cochichos do preconceito faziam circular histórias escabrosas sobre o caso entre Bela e Romeno. Todos já tinham certeza absoluta, de longa data, que Romeno não era homem. E agora, com currículo de ex-puta, aparecia essa Bela dando atestado de sapata! Além das maledicências também havia o ciúmes, como o de Cida, que resistira a todas as investidas de Romeno, mas agora misturava críticas explícitas ao suposto homossexualismo dos dois com seus sonhos secretos de sucumbir a uma picante aventura. Alguns homens dividiam expressões como: “Que desperdício!” ou “Que pecado!”. O pastor Feliciano cuspia quando os dois passavam e balbuciava uma reza raivosa pedindo o castigo eterno para aquela pouca vergonha. O padre Tito, um homem velho que substituíra Guido nas funções de pároco, surpreendentemente tratava o casalzinho com simpatia e trocava com eles saudações amáveis. Alguns diziam que isso só acontecia porque Tito já não percebia muito bem a diferença entre os sexos, o que poderia ser considerado uma bênção, considerando os precedentes paroquiais!

Para Fino, Luciana, Coisa Torta, Biduzão e Zuzu, Bela era a namorada de Romeno e ponto final.

Mas entre as pessoas que transitavam pela Unidos havia uma que alimentava um sentimento de cobiça pela beleza de Bela.

Zulma, ocasional participante dos desfiles da Unidos, antes Zulmira e funcionária da vida no Bar Feliz, alçada à posição de senhora Barraca, tinha sérias pretensões a ser reconhecida no futuro como a cafetina do Santinho. Ela previa para breve um encontro do seu marido com o Criador graças à combinação da idade dele com a barriga volumosa e a vida desregrada. Pelo menos esse era o foco de suas preces.

Quando ela percebeu a quantidade de homens que espichavam os olhos quando Bela passava, o seu instinto empresarial, imediatamente, soube que aquela menina tinha que fazer parte do seu time.  E, conhecendo as pontas do novelo que envolvia sua pretendida, traçou um plano.

***

Numa de suas passadas pelo atelier viu que Cida estava longe das outras dobrando uma pilha de camisetas e se aproximou.

― E daí? Amiga!

Cida deu uma olhada curta e esboçando um beiço cortou rente.

― Não sou tua amiga!

― Mas pode vir a ser depois da minha proposta!

Cida olhou um pouco mais demoradamente pra outra enquanto avaliava que tipo de proposta podia vir dali. E depois, partidária da opinião de que sempre é bom averiguar a existência de alguma vantagem, soltou:

― Desembucha!

Zulma, sempre sexy, sorridente e confiante, foi direto ao assunto.

― Andei notando que tu tá de ovo virado desde que começou esse chamego entre as duas machorrinhas.

― E o quê tu tem a ver com isso?

― Não tenho nada contra o teu paladar…! Se tu tens uma queda por esfregação, faça bom proveito! O que eu tenho a ver é que eu quero a outra pro meu elenco e tu a romenita… Uma ajuda a outra e nós duas ganhamos. Pegou? ― Chegou bem perto do ouvido da Cida e quase assoprou no ouvido dela:― Não diz nada agora. Pensa um pouco. ― E virando as costas saiu rebolando os encantos do Barraca em direção à rua.

Cida parou com o trabalho e ficou matutando. Ultimamente andava arrependida de ter recusado as insinuações da coisa chamada Romeno, com toda a malícia agregada àquela ligação proibida. Considerava que pequenos acordos com o diabo não chegavam a configurar um grande pecado. E depois sorriu antegozando as possibilidades…

***

Enquanto Cida piscava pra Romeno e soltava beijinhos no ar, Zulma, pacientemente, se aproximava sedutora de Bela, se transformando numa amiga íntima e querida, querendo saber das preferências, problemas e temores da outra, fazendo agrados, e ficando mais simpática aos olhos de todos que de alguma forma se relacionavam com a garota.

Quando achou que Bela já estava com a guarda totalmente baixa e macia o suficiente para receber o golpe mandou pra Cida o primeiro torpedo codificado: “Dá o tempo.”

Cida respondeu: “Quarta perto das 3.”

Ao lado do atelier havia um depósito de peças de tecido. Perto das 3 da tarde Zuzu costuma ir ao banco e a mulherada estava a mil nas máquinas. Cida foi até o escritório e cantou melosa pro Romeno:

― Me dá uma mãozinha com uma peça meio pesada que a Tereza pediu pra mim?

E Romeno prestativo respondeu:

― É pra já, minha morena! ― E foi atrás da Cida em direção ao depósito, brincando de sombra e imitando o caminhar dela.

Cida mandou um torpedo: “10 min.”

Zulma tomava um suco com Bela na calçada do Bar Feliz quando recebeu o torpedo. Bateu a mão na testa como se lembrasse de algo e disse:

― Quase me esqueci. Tenho que ir lá no barracão pegar uns panos. Quer ir comigo?

― Mas é claro! ― Respondeu Bela, sorrindo e iluminando a rua.

― E tu ias perder a chance de dar uma bicada no teu grude?

― Não ia mesmo! ― Concordou Bela e as suas deram uma boa risada.

Obediente à sincronia combinada, Zulma chegou ao barracão de braços dados com Bela, e vendo que Romeno não estava no escritório, disse:

― Ah! Ele deve estar por aí! Vamos até o depósito e me ajuda com os tecidos… Talvez ele até esteja lá! ― E foram as duas em direção ao depósito com a Zulma atrasando de forma discreta o passo e deixando a frente para a alegre e apaixonada Bela.

No depósito, com a porta sutilmente fechada por Cida, era desdobrada a outra ponta do roteiro. Cida fingia não aguentar com o peso de um rolo de pano e repentinamente se sentiu tonta e parecia que iria cair. Romeno a socorreu a envolvendo num abraço de apoio. Quando ela percebeu que Romeno estava com os dois braços ocupados, segurando-a para que não caísse, o envolveu pelo pescoço e o pressionou contra a parede enquanto o sufocava com um beijo.

Nessa hora Bela abriu a porta e viu.

“Perfeito!” Vibrava Zulma um passo atrás dela.

Cida, tensa e excitada, e Romeno, alheio ao que estava realmente acontecendo, permaneceram enrolados naquele beijo seco e confuso, mas que fotografou muito bem para as intenções de Zulma.

Sem dizer uma palavra Bela fechou silenciosamente a porta e Zulma viu em seu olhar que ela havia se transformado no animal mais perigo que existe: uma mulher traída.

Bela saiu rapidamente dali com Zulma quase correndo no seu encalço. Na calçada ela parou e olhou para os olhos profundamente tristes e cheios de lágrimas de sua melhor e mais nova amiga. Só então ela chorou convulsivamente e foi se aninhar como uma criança no abraço da outra.

***

Refeito do primeiro susto Romeno afastou gentilmente os braços de Cida.

― Relaxa mulher! Você sempre roeu a corda quando eu cutucava você. Agora eu estou noutra e Bela é uma menina muito legal pra que aprontem com ela.

― Mas tu tá na minha que eu sei. ― Miava Cida.

― Mas agora é um estar diferente… Talvez você não entenda, mas sou um cara quadrado… Um amor de cada vez! Essas coisas!

― Uma cara quadrada, tu quer dizer, minha linda!― Chorava Cida.

Romeno sorriu, mas seu sorriso era triste, e acrescentou:

― É! Aos olhos do povo eu sou uma marreca travestida de homem que todos devem descriminar, mas que você quer experimentar…! Não deixa de ser irônico. De qualquer forma vamos botar um ponto final nessa história. Vamos continuar amigos e viver em paz. Uma história entre Romeno e Cida, agora, é uma impossibilidade…! Nós nos beliscamos, flertamos, e é só! Está bem?― E saiu do depósito se sentindo desconfortável. Cida ficou com os todos os panos da Unidos para enxugar as lágrimas de seu orgulho ferido.

***

No fim da tarde Zuzu combinava um trabalho com Tereza.

― Zuzu! Estou começando a ficar preocupado com a Bela.― Disse Romeno entrando no escritório.― Ela não apareceu, não atende o celular e as meninas que moram com ela não sabem me dizer onde ela pode estar.

― Mas ela esteve aqui hoje a tarde… ― Anunciou Tereza.― Eu a vi de relance com Zulma. Elas estavam correndo… Não entendi aquilo e até achei estranho, mas que era ela, sem dúvida que era.

― Que horas foi isso, Tereza? ― Quis saber Romeno.

― Logo depois das 3!

Romeno sentiu que aquilo podia ser um sinal de que um mal entendido descomunal e difícil de desfazer havia desabado sobre ele. Sentou ou se deixou cair em uma cadeira. Uma ideia resvalou em sua mente, mas não conseguiu reunir as peças dado o mal estar que sentia.

― Ai! Romeno! Você ficou pálido! Está tudo bem?― Se preocupou Zuzu.

― Sim… Acho que sim! Você tem certeza da hora, Tereza?

― Absoluta! Logo depois dessa hora precisei da Cida e ela estava metida no estoque fazendo lá não sei o quê.

― Ela foi buscar um tecido que você pediu pra ela…!― Teimou Romeno tentando entender o encadeamento das coisas que haviam acontecido durante a tarde.

― Eu não pedi nada! ― Exclamou Tereza. ― Se ela disse isso foi uma desculpa pra vadiar.

― É isso…! ― Disse Romeno, aparentemente concordando. No entanto ele juntava os pedaços daquela percepção fragmentada e sem sentido que há poucos se insinuara em sua mente. Ele sendo atraído para o depósito por Cida sob o pretexto de que precisava de ajuda em algo que Tereza pedira. A notícia de que Bela e Zulma tinha estado lá aproximadamente na mesma hora e que ambas haviam saído correndo. A marcação de Zulma para cima de Bela nos últimos dias. Aquilo não cheirava bem!

― Romeno!― Zuzu estava preocupada.― Vou buscar uma água. Espere aqui!

― Não! Obrigado amiga! Vou ver se a encontro. ― E saiu.

Bastou alguns contatos pra Romeno ficar sabendo que Bela estava na casa de Zulma. Preferiu não contatá-la. Sabia que se ela assistira à cena do depósito nenhuma palavra a convenceriam do contrário. A essa altura ele já estava convicto de uma armação da Cida e da Zulma. Apenas não conseguia entender os motivos que justificariam toda aquela encenação. Separar os dois? Isso era óbvio! Mas por quê? A quem eles faziam mal? Ou então, a quem a separação deles faria bem? À Cida? E qual a vantagem da Zulma?

Na manhã seguinte quando Romeno entrou no escritório Zuzu e Fino jogavam conversa fora.  Zuzu olhou para o seu parceiro na administração da Unidos e perguntou:

― E daí? Criatura! Estou numa aflição pra saber da Bela.

― Na Zulma. ― Telegrafou Romeno, nitidamente abalado e deixando os outros dois com um movimento mudo dos lábios onde podia se entender “Zuuulma?”.

Romeno, como se tivesse ouvido a pergunta, ecoou: ― É isso aí! Na casa da Zulma! Mas tem uma explicação…

― Então explica!

Romeno fechou a porta e desabafou, um pouco triste, um pouco indignado, relatando a sequência de acontecimentos da véspera que tinham culminado com a ida de Bela para a casa da outra, não omitindo o beijo com a Cida e suas dúvidas sobre as razões ocultas daquilo tudo.

― Mas que cobra! Vou chamar a Cida agora mesmo. ― Exaltou-se Zuzu já partindo em direção à porta quando Fino a conteve.

― Espere um pouco! Vamos pensar! Não costumo me meter em assuntos afetivos; eles geralmente são muito complexos e a gente nunca sabe de todas as pontas. Mas me parece que nesse aí há muitos dedos de maldade…! Se a coisa é como estou imaginando seria melhor pressionar a Cida na presença da Bela. Assim nós resolvemos em definitivo esse mistério e descobrimos quem é a cobra maior.  Zuzu, você acha que consegue convencer Bela a vir até aqui pra conversar com você?

― Acredito que sim!

― Argumente que Romeno não vai estar presente, vai sair ou coisa assim!

― Pode deixar comigo.

― Então nós vamos agir da seguinte forma: ― E Fino passou a descrever como pretendia fazer uma limonada com aquele limão.

Tereza entrou no atelier e foi até a máquina da Cida.

― Dona Zuzu quer te ver lá no escritório.

― O quê ela quer?

― Vou saber!

Cida teve um pressentimento de que aquele lance com o Romeno estava dando merda. Enquanto ia beiçuda e de passo duro em direção ao escritório pensava: “Saco! Como pudera ser tão idiota a ponto de cair na lábia da Zulma! Agora a outra tinha levado a Bela pro harém do Barraca e a boba ficara com o troco ruim! Mas eu sou mais eu…! Dou uma chorada e desdobro a bicha! ”

Quando chegou a porta estava aberta e Zuzu estava a espera.

― Senta que eu já volto! ― Disse Zuzu e saiu fechando a porta. Cida sentou e em seguida a porta voltou a abrir e entraram Fino e Coisa Torta. Cida se levantou assustada e perguntando:

― Mas que porra…?

― Olha os modos menina! ― Repreendeu Fino e disse para o Coisa Torta.

― Fica do lado de fora. Ninguém entra e ninguém sai. Vou ter um papo rápido com a Cida que não deve ser interrompido. ― Disse o Fino desabotoando o casaco e sentando na cadeira de Zuzu.

― Qual é? Não vou ficar contigo aqui dentro meu chapa! Nem que… ― Tentou Cida, mas a cara do Coisa Torta desestimulou a reação dela que voltou a murchar na cadeira.

Quando o Coisa saiu, Cida e o Fino ficaram se olhando por um longo momento. Os dois avaliando os possíveis desdobramentos do que podia acontecer. Cida, nervosa e engolindo a saliva, resolveu abrir a conversa:

― Não saquei esse troço do Coisa na porta!

― É costume! Não liga…! Ou, pelo menos, acho que você não deve dar muita importância para o meu cunhado enquanto o nosso bate-papo for ameno e um estiver ajudando o outro.

― Co-como assim?

― Vou ser direto com você! Nós temos uma história envolvendo você, Romeno, Bela e Zulma. Já temos a versão dos outros três, só falta a sua.

― Que história? Não sei de história! ― Cida se contorceu com um desejo imenso de cair fora dali.

― Ah! Menina! Porque você não facilita as coisas? Não acredito na versão de que você pediu pra Zulma trazer Bela até o depósito pra assistir o seu showzinho…

― Cooomo? ― Perguntou Cida, atônita.

― Isso mesmo que você ouviu! Zuzu e Romeno conhecem você há muito mais tempo e melhor do que a outra. Eles preferem acreditar em você e não nela. Mas a Zulma nos passou a ideia de que essa jogada foi bolada por você, então…

― Mas não mesmo! Não foi assim que aconteceu!

― Por enquanto, sem a sua versão, só temos a história dela…! ― Argumentou o Fino.

― Aquela piranha! Eu sabia que essa porra ia melecar! Quando ela veio toda charmosa pra cima de mim… Ah! Mas eu sou uma estúpida…

― Você está dizendo que foi ela que…? ― Foi induzindo o Fino.

― A vaca queria a Bela pro time deles! É isso que ela queria. Ela usou a minha queda pela bibinha e eu… Puta que o pariu, negra burra… ― E deu um soco na própria testa enquanto rosnava indignada.

Fino viu que Cida, revoltada, manteria o resto do que tinha pra dizer enrolado num conflito mental. Então ele resolveu dar uma mãozinha pra desatar os nós:

― Ela chegou a dizer se o Barraca tinha alguma participação nisso?

― Não…! Não me lembro…! Acho que não…! Durante todo o tempo me pareceu ser ideia só dela! Sei lá! Agora já não sei de mais nada.

Fino aguardou um instante e fez a pergunta mais perigosa:

― E o Romeno? Foi ele que agarrou você?

― Aquela? ― Cida chegou a esboçar um sorriso torto e completou: ― Até gostaria… Pra ver como é que é! Sabe? Outra merda que passou pela minha cabeça…! Deixa pra lá…!

― Hum!

― Tô na rua? ― Perguntou Cida. Pegando o próprio Fino no contrapé.

― Essa pergunta você tem que fazer pra Dona Zuzu.

― Mais alguma pergunta?

― Não!

― Posso ir?

Fino fez que sim com a cabeça e Cida se levantou como se tivesse uma mola no traseiro. Abriu a porta e deu de cara com o Coisa. O guarda improvisado olhou pro Fino que piscou e ele deixou a Cida sair. A negrinha correu como o vento em direção ao atelier.

Quando a Cida saiu, Zuzu voltou para o escritório e abriu a porta do lavabo. Bela veio pra sala e Fino perguntou:

― Foi o suficiente pra você?

― Impressionante! ― Disse a garota.

― O que você quer que eu faça com a Cida? ― Perguntou Zuzu.

― Com a Cida? Pelo que sei ela é uma boa costureira e vocês precisam uma da outra. Além do mais ela não trabalha pra mim…! As atitudes dela não vão mais me atingir. Errei em não atender as ligações de Romeno… Preciso vê-lo!

― Ele está na sala dos computadores.

― Vou até lá… Obrigada… ― Bela, olhando nos olhos dos três, completou: ― Vocês moram aqui… ― E deu um tapinha no peito ao sair.

― Depois que ela foi ao encontro de Romeno, Fino se ergueu, abotoou o casaco e disse:

― Gostei dessa menina!

― Grunf! ― Concordou o Coisa.

― E a Zulma? ― Perguntou Zuzu.

― Já deu pra ver que a Sra Barraca merece todo o nosso cuidado. Podemos até agradecer a oportunidade que nos deu de conhecê-la tão profundamente. Recomendo manter distância sem deixar de observá-la…

 (Continua…)

Como são as coisas no Santinho (07 de 12)

29/03/2014

07 – A Vingança de Madá!

(Para saber como começa essa história clique aqui!)

Lá pelas dezenove horas terminava o turno de Madalena de Jesus na  confeitaria Doçura que ficava na parte mais baixa do Santinho, já quase no Pinheiro. E era sábado. Um sábado especial. Na cabeça de Madalena era o dia da transformação e da vingança. Não queria ver aquele balcão pelas próximas trinta e seis horas. Férias de fim de semana. Jogou o avental com raiva na bolsa e resmungou um “Fui” pra colega de canga, que a olhou maliciosamente e cantarolou:

― Cuidado com os flashes! ― Essa era Leia, a pequena serpente.

Jantou um grande sanduíche de pão com mortadela e bebeu uma garrafa de suco de laranja. Tomou um banho demorado e se jogou nua sobre a cama. Barriga para cima, braços e pernas abertas, olhos bem abertos, redesenhando os nós do forro barato, a mente repassando os próximos passos, à espera da meia noite. O momento de ir à caça.

Chegou a cochilar, mas um pouco depois das onze uma mola automática a fez saltar da cama. “Hora de se vestir.” Madalena odiava o nome. Na padaria a tratavam de Madá. Mas naquela noite em especial era seria batizada de Má.

Má borrifou o seu melhor perfume, pintou as unhas de um vermelho intenso, caprichou na maquilagem, usou um batom igualmente vermelho, colocou a peruca loira comprada para a ocasião, entrou em uma calcinha vermelha quase inexistente, atirou pra cima um micro vestido vermelho que como uma pluma deslizou pelos seus braços até se ajustar ao corpo. Por fim calçou um par de sapatos vermelhos com os quais treinara a noite, durante uma semana inteira, para ter certeza que não cairia daqueles andaimes. Deu algumas voltas em frente ao espelho. Observou que os seios escapavam o necessário, e sempre uns centímetros antes da vulgaridade. Notou que as nádegas eram agradáveis e firmes. Sorriu. E considerou que o produto era bom.

Nada de relógio e bijus naquela noite. Levaria uma pequena bolsa vermelha com uma longa alça ao ombro. Dentro um lenço, o dinheiro suficiente para ir e vir de táxi, uma identidade que não era a sua, o batom para eventuais retoques, um espelhinho redondo, e um objeto metálico de uns 15 centímetros de comprimento. O objeto tinha um botão numa das faces. Quando esse botão era pressionado uma lâmina afiada era projetada de dentro do cabo transformando o objeto em uma arma mortal.

Desceu até o limite do Santinho onde a Padre Nunes se enfia no Pinheiro. Na calçada ficou atenta para o aparecimento de um táxi. Mas em dez segundos um carro cinza encostou ao meio fio e um grisalho galante baixou o vidro:

 ―A moça quer carona?

Aquilo fugia um pouco do plano, mas economizaria o dinheiro sempre contado. Debruçou-se na janela.

― Vou umas quinze quadras ou um pouco mais nesta mesma avenida… Agradeceria.

― Então entra!

A viajem foi lenta. O motorista não se decidia se mantinha os olhos no trânsito ou nas pernas de Má.

― Encontro?

― Isso!

― Então ocupada?

― Isso!

― Pena! ― Sorriu maliciosamente o motorista.

― É!

Durante o papo Má tirou o batom da bolsa e fingiu que o usava.

― É aqui! … é aqui que eu fico! Muito obrigada, tio!

O grisalho estacionou o carro e agarrou com força a coxa esquerda de Má.

― Um beijinho seria um bom pagamento!

Má guardou o batom na bolsa, e, mantendo a atenção dele em seu lindo sorriso, tirou de lá a lâmina retrátil. Click-Ssipt. A lâmina já estava encostada no pescoço do descuidado.

― Não me custa pintar este vestido um pouco mais de vermelho!… Tio!

O homem retirou a mão da perna de Má e se encolheu contra a porta da esquerda.

― Mal agradecida.

―Sou! ― E saiu do carro.

Enquanto guardava sua arma na bolsa Má ouviu os pneus do carro cantarem em disparada. Economizara o dinheiro do táxi.

Na porta da boate Noite de Amor, naqueles dias a top do Pinheiro, o leão-de-chácara avaliou a loira que se aproximava ondulante. Parecia conhecida, mas não conseguiu acessá-la em seu limitado banco de dados. “Cheira a problema, mas é boa!” sussurrou o seu instinto. Armou a estampa profissional, pernas um pouco afastadas para obter um bom polígono de sustentação, cara séria e alheia às tentações da vida, com as mãos juntas em frente ao saco, como jogador na barreira.

A loira chegou a 20 centímetros do seu nariz. O perfume inundou os sentidos do homem e uma gota de suor lhe correu pela nuca desconfortavelmente. A loira se afastou um metro e sorrindo deu duas voltas com os braços abertos, como uma bailarina, com seu pequenino vestidinho vermelho esvoaçando de forma sensual. E ela falou:

― Que tal? Acha que eu consigo manter uns dez meninos lá dentro consumindo um pouco mais do que eles queriam?

― Tá legal! Vai! Entra logo! ― Enquanto Má rebolava para dentro da boate o homem da porta respirou aliviado e com o indicador afastou o colarinho na parte de trás do pescoço para que aquela gota incômoda pudesse descer um pouco mais e se misturasse com as do suor nas costas.

No interior da boate, Má, já incorporada pelo espírito vingador que a levara até ali, farejava em todas as direções em busca de sua vítima. Era ali que ele vinha. Era ali que ele enrolava as garotinhas idiotas. Era ali que ele iria morrer.

Enquanto ela caçava, as antenas hormonais de vários machos captaram a sua entrada, o contorno de seu corpo, seus movimentos, as voltas que ela dava, seu olhar, seu rosto, suas pernas…

A penumbra, o som alto, as luzes coloridas piscando intermitentemente, a fumaça de muitos cigarros e a dança fracionada pelo efeito estroboscópico dificultavam a procura de Má. Talvez ele estivesse sentado com alguém numa das mesas periféricas, na escuridão total, ou não tivesse chegado, ou não viesse naquela noite. Esse último pensamento deixou Má especialmente frustrada. O plano e a ansiedade pela antecipação não a haviam preparado para esse pequeno, mas importante, detalhe. Considerou que deveria ocupar uma mesa, beber um refrigerante, ter um ponto fixo de observação, e esperar. Afinal, não poderia sair tudo errado. Era fundamental que o animal viesse para ser abatido.

― Acompanhada? ― Alguém se aproximava.

―Sim. ― Com esse diálogo curto ela ia rechaçando os eventuais interessados. Não queria ninguém perturbando a sua campana.

Num dado momento o garçom colocou na sua frente um cálice comprido com um coquetel enfeitado por uma cereja.

― Eu não pedi isso! ― Disse ela ao garçom.

― E uma cortesia daquele senhor! ― E apontou para um mulato sentado duas mesas depois.

O garçom foi embora e Má pensou: “Pulei o táxi e ganhei uma bebida de graça! Estou no lucro.” Bebericou avaliando o teor alcoólico. Era bom. Enquanto se distraiu colocando a cereja na boca o mulato veio e sentou na sua frente dizendo:

― A cereja foi a fruta mais vermelha que consegui combinar com você!

Má sorriu e respondeu:

―Obrigada! ― Enquanto avaliava o interlocutor: “Um moreno bonito e forte. Um sorriso afável. Uma voz agradável com uma boa dicção. Um cheiro sensual e uma cantada colorida.”

― Espero que a bebida não tenha lhe parecido forte demais.

― Na medida… que eu estava precisando! ― Sentia-se mais leve do que pretendia estar, mas amenizou.

Houve um silêncio de ponderações ocultas. De repente o outro disse:

― Paulo… o meu nome!

― Ah!… Má! ― Correspondeu Madalena.

Paulo riu e explicou:

― Espero que seja um apelido! Não me sentiria confortável sabendo que este é o seu nome!

Má também riu e balançou a cabeça:

― É apelido do apelido!

― Fica melhor…― Paulo sorria. ― Quer beber mais alguma coisa?

― Água! Tenho que me manter sóbria esta noite!

― Você vai dirigir?

― Não!… Só que hoje não é dia de beber… ― Estava perdendo o foco e isso a irritou. Suas feições ficaram carregadas e se iniciou um silêncio desagradável. Então Paulo a alvejou.

― Eu conheço você!

A afirmativa a pegou totalmente de surpresa. “Esse homem me conhece? Como? De onde? Em que circunstâncias?” Má ficou totalmente sóbria. Ela estava ali para matar alguém e aquele homem dizia que a conhecia, embora ela pudesse jurar que isso não era verdade. Aquilo atrapalhava e muito a sua saída já planejada.  Olhou sem fôlego para o homem que se dizia Paulo querendo uma explicação. Enquanto Paulo emendava:

― E eu posso ajudar você!

Má quis se levantar para sair dali e se esconder em algum buraco onde não existissem meios de comunicação de qualquer espécie, mas Paulo a segurou pelo punho, suavemente, e a fez sentar:

― Sou seu parceiro! Mas só posso ajudar se você confiar em mim!

Um longo minuto se passou enquanto Má procurava no tampo da mesa a resposta para o enredo confuso e cheio de vergonha em que sua vida se tornara.

― O que você sabe? ― Conseguiu enfim perguntar.

Um velho de aparência elegante e sacana passou pela mesa e deu um tapinha amigável no ombro de Paulo:

― Salve! Biduzão!

Paulo fez um sinal para o garçom que imediatamente estava a seu lado:

― Água… para os dois!

― É pra já, Biduzão!

― Biduzão? ― Perguntou Má, readquirindo a voz.

― É apelido do apelido! ― Plagiou o mulato bem apessoado, conseguindo arrancar um sorriso fraco de Má, que já se sentia Madá, e que estava sentada numa boate com um cara que se chamava Paulo, que todos tratavam por Biduzão, enquanto seu plano de matar um infeliz se escoava pelo ralo, e uma gorda maltratava o palco cantando funks com letras de duplo sentido:

Eu conheço um padeiro, 

o nome dele é Beludo.

Quando eu quero comê cuca

eu compro a cuca do Beludo.

Tem cuca Beludo?

Tem cuca Beludo?

Vem que tem, vem que tem, vem que tem!

Vem que tem, vem que tem, vem que tem!

Biduzão bebeu a água que o garçom trouxe e disse pra Madá:

― Vamos simplificar! Eu demorei um pouco para reconhecer você… até perceber que a diferença básica estava na peruca. Não precisa ficar com vergonha de mim… você não é a primeira que bebe e cai no conto do namorado apaixonado que quer tirar umas fotos íntimas para guardar de recordação. A internet está cheia desse lixo. O que me preocupa nesse momento são os sinais que você emite.

― Qual são os sinais? Sr…Biduzão! ― Perguntou Madá indecisa entre a raiva e a curiosidade.

― Não sei ao certo! Mas posso deduzir. Você sistematicamente recusou todas as tentativas de abordagem. Aparentemente está à espera de alguém. Sua postura não é relaxada de quem espera com prazer. Você está muito tensa. Quem a observa vê em você uma águia pronta para mergulhar sobre uma presa. Quando percebi quem você era juntei os prováveis motivos para suas atitudes. Não me surpreenderia com um fim rápido para o calhorda que tirou proveito de sua boa fé…

― Muito imaginativo de sua parte…― Disse Madá, desconcertada.

Num movimento rápido Biduzão tirou a bolsa de Madá e a abriu. Três segundos bastam para um especialista fazer um diagnóstico. Devolveu a bolsa antes que ela tivesse tempo de articular um protesto.

― Parece que não estou imaginando coisas. ― Disse Biduzão.

― Intrometido! Você não tinha esse direito! O que pretende fazer? Me entregar pra polícia? ― Reclamou Madá, indignada.

Biduzão sorriu enquanto pesava a forma de dizer o que tinha em mente.

― Eu disse pra você que seria o seu parceiro nessa empreitada, mas você precisava confiar em mim…

― Não tenho saída! ― Lamentou Madá.

―Tem sim! Você levanta, vai embora, esquece a merda que ia fazer, eu faço de conta que nunca vi você, e o carinha das fotos continua livre como um pássaro.

― Que interesse você pode ter nisso? ― Perguntou Madá.

― Você não é a única vítima. E essa é a nossa sorte! ― Explicou Biduzão. ― Se algo acontecer com esse cara há tantas interessadas na saúde dele, que as suspeitas dificilmente poderiam ser direcionadas. Ele está na minha alça há algum tempo, por encomenda, mas eu não o conheço pessoalmente. Sabemos que é o mesmo porque o idiota deixou inúmeras pistas nas fotos que jogou na internet. Seria cômodo deixar você fazer sua tentativa… mas só você iria se ferrar, e isso não seria justo. Você é inexperiente, passional, mal equipada, o lugar é público, as saídas são poucas, muitas coisas poderiam sair erradas. Eu tenho uma proposta melhor!

―Faça! ― Disse Madá, já ficando interessada.

― Você me aponta o cara! Só isso! Nós saímos e pronto. Um pessoal que trata desses assuntos resolve o problema depois. E está tudo acabado.

― Tem uma condição! ― Propôs Madá.

Biduzão já estava se divertindo com aquela negociação enquanto ouvia os gritos dos espectadores às suas costas ovacionavam a gorda do funk para que voltasse ao palco.

Suêmi Senta-o-Pau

Suêmi Senta-o-Pau

― Qual condição?

― Eu tinha um plano…― Suspirou Madá. ― Ao lado do banheiro, nos fundos, tem um depósito de bebidas. Eu ia levar o cara pra lá fingindo querer um amasso. Eu ia abrir uma segunda boca no pescoço dele, bem grande, na altura do gogó. O sangue não seria notado no vestido vermelho e com essa iluminação. Eu sairia pela porta da frente, como entrei. Talvez fosse um plano arriscado, cheio de furos, mas meu ódio por esse infeliz é tanto que eu estava cega. A minha vida virou um inferno! Agora você me tira da jogada, bota profissionais no negócio, e me atiça a imaginação com possibilidades de requinte…

― Estou ficando curioso!

― Não quero que ele morra! Eu só quero as bolas dele! ― Concluiu Madá.

Paulo olhou por um bom tempo o rosto jovem e bonito à sua frente. Com trato e sem toda aquela mágoa que lhe corroia a alma poderia perfeitamente fazer o papel de um anjo em qualquer peça de teatro infantil. Que idade teria? Dezoito? Dezenove? Ele estava surpreso com o pedido e ao mesmo tempo o achava justo. Fino não teria problemas para convencer o Coisa Torta desta pequena mudança nos planos. Só teriam que usar máscaras. Má teria as bolas do cara.

― Negócio fechado! ― Disse Biduzão. E apertaram as mãos.

Como se apenas isso faltasse para que a vingança de Madá se concretizasse ela viu na porta da boate surgir a caça. Elegante, cheio de charme, sorridente, andar de felino. Um macho com os dias contados.

― Fique atento. Na saída vou beijar o cara!

― Certo. Vamos embora.

Levantados Má percebeu que Biduzão, além de bonito, era um mulato uns quarenta centímetros mais alto do que ela, e naquele momento sentiu vontade de beber café com leite.

Quando Má caminhou em direção à vítima, como mágica esvoaçante, sorridente, só sexo, em “slow motion”, uma pequena lâmpada no cérebro do infeliz fez uma pálida tentativa de reconhecimento, mas antes disso ele foi afogado por um beijo com a boca, com os braços, com as mãos, com as pernas, que lhe sugou a memória, e assim como ela veio ela foi em direção à porta, vermelha, loiríssima, só curvas, só sangue, e ele sem ar, sem pensar, congelado, marcado, sem saber.

***

― Leia! Você que experimentar comigo estes bolinhos de carne que eu acabei de fritar? ― Perguntou Madá já de volta à lida na Doçura.

― Hummm! ― Saboreou Leia― Gostoso! Tem ovo?!

― Só os coquinhos do meu ex! ― Respondeu Madá.

― Aaah, Madá! Sempre nojenta e debochada!

 

 ***

Fino, quando viu o cunhado entrar na sala, colocou o jornal de lado e perguntou para o Coisa Torta.

— Agradeceu pro Juca do açougue os cocos de carneiro?

— Grumpf!

 

(Continua….)

Como são as coisas no Santinho (06 de 12)

18/03/2014

06 – Tratamento VIP para as autoridades.

(Para saber como começa essa história clique aqui!)

Depois que o Barraca promoveu a Zulma a esposa com comes e bebes e papel em cartório, o Bar Feliz ganhou status de estabelecimento de família. Na prática tudo continuava como era antes, mas, graças a uma maquiagem simpática na parte pública da casa, de tarde alguns casais faziam lanches nas mesas da calçada, e alguns até levavam seus filhos para uma laranjada no bar do tio Barraca. Depois que a noite fechava e as mariposas abriam suas asas a freguesia mudava e a entrada era barrada por um armário de um metro e noventa, o Juscelino. O Barraca, em seu costume de abreviar os nomes, deu ao porteiro o nome de Celino. Só entrava quem o Celino deixava ou conhecia muito bem. “Dimenor” nem pensar!

Já era meia noite e o Barraca estacionou o carro no meio fio, fez a volta pela frente abotoando o casaco e abriu a porta da direita para que a Zulma pudesse descer estilosa e com ares de primeira dama. Depois que ela entrou no bar, enquanto o Barraca, que era dois palmos mais baixo que o porteiro, passava pela porta, Celino segredou no ouvido dele.

― O senador já chegou! Tá numa beca! Uma finura!

― Estou sabendo. ― Disse o Barraca. ― Mas não estou entendendo é essa admiração toda!

― É que eu apreceio o ômi! ― Explicou Celino.

― Celino! ― Ralhou o Barraca. ― Tu tá muito fresco pro meu gosto!

― Não, patrão! É no sentido público! Tá ligado? ― Se defendeu Celino.

― Hum! Vá lá! Mas não quero saber de tietagem aqui na minha zona! ― Avisou Barraca, com a cara amarrada.

― To sabendo! Pode deixar.

O Barraca andou mais dois passos, mas parou, pensou um pouco e voltou até a porta para dizer mais alguma coisa pro Celino.

―Tem outra… Chega mais!

―Pode dizer, patrão! ― Disse Celino, empertigado como um poste.

― Chega mais! Ô orelhão! Não quero falar alto!

― Ah! Foro íntimo! ―E Celino inclinou a cabeça enquanto o Barraca ficava na ponta dos pés. ― Sou todo ouvido.

O Barraca passou os dedos na testa enquanto torcia a boca e franzia o nariz. ― Ando com um calor aqui na testa… Meio que coça…! Sabe?

― Nossa! ― Exclamou Celino, com os olhos muito abertos, perfeitamente ciente do significado daquela revelação.

― Não comenta! Não comenta! Só escuta…― Pediu o Barraca com o indicador direito batendo no próprio ouvido.

― Hum! Hum!

― Minha fonte diz que a Zu… a patroa… tá sendo assediada por um cara!

― Hummm!

― E eu sei quem é o cara! ― Revelou o Barraca tocando de leve com o dedo sob o olho direito pra indicar que estava esperto e vendo.

―Hum? ― Celino enrugou a testa nitidamente curioso.

― O senador…― Revelou o Barraca.

Por-ra! ― Assoprou Celino, silabicamente, sem sonorizar a palavra.

― Então… ― Continuou o Barraca, falando claro e macio para que o assunto flutuasse até o fundo da alma do porteiro. ― Então o meu broder Celino vai pedir para o senhor Fino emprestar pra nós o Coisa Torta. Só por uma noite! Pra que vocês façam uma parceria…

― Serviço profissional?

― É!

― O patrão quer um trabalho de catigoria? ― Perguntou compenetrado Celino.

― É!

― Quer que nóis amasse o cara aqui no estabelecimento?

― Nããão! Lentitude! ― Quase gritou o Barraca. E depois voltou ao tom sibilante. ― Não mistura as coisas.

Celino coçou a têmpora e fez uma careta de guri mijado.

― Aqui no público nós tratamos a excelência com todo o respeito que o cargo merece. Afinal, nós vivemos numa democracia e somos civilizados… depois, no privado,  é outra conversa.

― Ah! Meio no longe… ― Entendeu Celino.

― Exatamente!

―É pra matá a excelência? ― Quis saber Celino, em busca de uma melhor definição para os seus limites.

O Barraca cruzou as mãos nas costas, balançou a cabeça, pensou um pouco e respondeu:

― Hummm. Não!… Repercute de forma negativa nos serviços de assistência que as escolas tão fazendo… Tem muita gente que gosta do cara.

― Quebrar, bem quebradinho! Pode? ― Insistiu Celino.

―Pode. Mas sem muita marca pra perícia.

―O Coisa Torta vai gostá! Ele não apreceia político! ― Sorriu Celino.

 (Continua…)