Archive for the ‘Medicamentos’ category

Afinal! O remédio é falso ou verdadeiro?

07/03/2013

Sou médico! E há dias em que fico revoltado com a ausência nos noticiários de um escândalo em particular! Todos nós já estamos fartos de mensalões, cachoeiras e roselis, pra ficar nos recentes que têm nomes e sobrenomes e dão orgasmos na mídia.  Quando digo que sinto falta de um escândalo me refiro ao dia em que as manchetes vomitarão, revoltadas, babando adjetivos indignados, a realidade dos medicamentos falsos, inexistentes, que sob o aval do governo, são derramados sobre o povo doente e necessitado, com rótulos de coisas verdadeiras, quando se percebe, se desconfia ou se sabe, que não passam de engodos bem embalados, para que os sem recursos para uma averiguação adequada se mediquem, acreditem que estão tratando suas doenças, na esperança de que aquele produto vá suavizar sua dor e amenizar sua patologia.

Há momentos em que sinto a falta dos recursos financeiros e tecnológicos (de que o governo dispõe) para fazer a análise correta de certas drogas que vejo meus pacientes crédulos, pacíficos, e embalados pela quimera da economia financeira, usarem na vã esperança de que um dia alcançarão a cura ou o equilíbrio dos seus males.

Gostaria de saber o que realmente há dentro de muitos genéricos e a quase maioria dos similares que circulam livremente nas farmácias, com a liberação oficial e a maquiagem que a propaganda e a arte gráfica permitem.

Duvido que haja alguém nesse país que não tenha pensado, num dia qualquer: “Será que isso que eu estou tomando é um remédio de verdade?”  “Porque aquele outro que custa mais caro funcionou e esse não?” “Como a minha pressão e a minha diabete só se normalizam quando eu compro aquele medicamento que sai o dobro do preço?” Não só duvido como desafio qualquer um, que realmente necessita usar medicamentos de uso específico, contínuos e vitais, a contradizer a minha dúvida.

Já afirmei, em algum lugar neste blog, que a Anvisa, trabalhando em tempo integral e proporcionalmente à sua capacidade, levaria cerca de 80 anos para fazer todos os testes de dosagens e bioequivalência em todos os medicamentos que circulam neste país. Já que credibilidade não é um artigo vitalício isso é uma porta escancarada para a fraude. Sem dúvida uma deixa para aquela piada de mau gosto: “Eu faço de conta de que lhe prescrevo um remédio de verdade e você faz de conta que fica bom!”

Mas voltando ao início da conversa. Vamos trocar de escândalo?

Como fazer um despacho com duas velas e uma garrafa de cerveja!

25/03/2012

 

O orangotango é meio lento pra certas coisas. Deixa ver se entendi! O advogado, que também é parlamentar, argumenta pela incapacidade contábil do Estado e vota contra o aumento dos professores na Câmara, e, em sua banca, onde enfileira clientes professores, argumenta pela capacidade contábil do Estado e entra na justiça contra o Governo. Deu na Zero. É isso? Não é?  Minha vó sempre disse que acender uma vela pra Deus e outra pro Diabo pode não ser uma coisa muita limpa, mas garante nas duas pontas. Além do mais, quem vai saber?  Eles não se conversam mesmo! Estão de mau há milênios! Isso me lembra a história do cara que vendia Cloranfenicol. Chegava numa cidadezinha. Dava um jeito de entrar num casamento pomposo. Contaminava a maionese com uma Salmonela amiga. Esperava o andaço escorrer e aparecia como o salvador da pátria. Os exames do Lacem demoram uma missa de bispo.  Até lá o esperto vendia o estoque e pegava a estrada. Quando o resultado chegava o povo, já curado, dizia: “Não é que ele tinha razão?”

Parece outra coisa, mas se você olhar bem vai ver que é apenas o outro lado da mesma minhoca: a novela da cerveja na copa. Equacionando: O povo bebia, misturava o porre com as paixões clubistas e o amor pela mãe do juiz, perdia o tino e partia pro pau. Como da violência resultante ocorriam tragédias estúpidas se achou por bem proibir a venda de bebidas alcoólicas nos estádios. Embora se saiba que isso não é levado à risca, e se argumente que é impossível evitar que um indivíduo encha a cara no boteco da esquina antes do jogo, as ocorrências despencaram (vide estatísticas dos órgãos de policiamento). Sempre lembrando que por mais bêbado que alguém esteja ao entrar no estádio não há como manter o mesmo teor alcoólico pulando, gritando, suando e urinado por duas ou três horas.  

Então vem a copa e a soberania do país vai pro pinico. Em nome do lucro, a Fifa, educadamente, faz com que nós os eleitores paguemos regiamente um bando de parlamentares para discutirem se a lei vai ou não tirar férias durante o evento esportivo. E que venham os porres, e as mortes, e o luto. Mas que as empresas produtoras de cerveja alcancem suas metas de venda. E que os engravatados recebam a sua parte (pois não sejamos inocentes de acreditar que ninguém está levando uma comissãozinha nessa história!). Orangotango sofre até com os ecos das coxias: “Nós evangélicos  não entendemos “lhufas” desse negócio florestal, mas se vocês ruralistas votarem com a nossa bancada na questão da “ceva” nós estamos com vocês, nem que seja pra melar.” (Mas onde foi mesmo que minha vó escondeu as velas?)

A proibição das anfetaminas.

06/10/2011

A polêmica da hora está por conta da proibição das anfetaminas. Para quem não sabe as anfetaminas são drogas usadas para emagrecer (femproporex, mazindol e anfepramona, também conhecida como dietilpropiona), mas como um dos seus efeitos colaterais é tirar o sono muitos usam essa droga para ficarem ligados. Na estrada os motoristas as conhecem pelo apelido de arrebite ou rebite. A ANVISA proibiu. O Conselho Federal de Medicina pretende entrar na justiça pra derrubar a decisão da ANVISA. Num pacote paralelo aumentaram a restrição comercial à Sibutramina, um antidepressivo utilizado como inibidor do apetite, que já não é usado, por conta dos possíveis riscos para a saúde cardiovascular do usuário na América do Norte, em quase toda Europa, na Austrália, na Argentina, no Uruguai e no Paraguai.

A pergunta é: adianta proibir ou restringir? Recentemente houve uma normatização pela ANVISA no uso dos antibióticos que incluía a venda mediante receita em duas vias. Isto ocorreu em 28 de novembro do ano passado e as farmácias tinham 180 dias para se adaptarem às novas regras; ou seja: até o fim de maio passado. Mas continuo a ver todos os dias pacientes se automedicando com anti-infecciosos comprados e usados conforme a receita da comadre. Cada dia fica mais difícil encontrar uma conduta eficaz contra certas bactérias.

Quem nos garante que as proibições atuais realmente surtirão efeito? Já existe um comércio ilegal para os anorexígenos. O arrebite pode ser adquirido como troco nos lugares que comercializam drogas mais pesadas. As anfetaminas só foram levadas oficialmente à clandestinidade e logo ganharão o status de pecado. Portanto muito mais atraentes!

A proibição total é quase tão nociva quanto a liberação total. Quem fabrica extra-oficialmente vai continuar fabricando, mesmo por que o lucro é muito maior do que a multa ocasional. O dependente químico vai continuar comprando, certamente com um pouco mais de trabalho e gastando mais. Quem vende também terá mais trabalho, mas ganhará mais. E isso tudo vai acontecer mesmo que os médicos sejam proibidos de receitar. Nada resolveria, a curto prazo, educar os  usuários e os potencialmente usuários; talvez no futuro isto seja útil, mas muita água vai rolar antes de mudanças notáveis serem visualizadas. Como a dor no bolso é a que realmente deixa marcas memoráveis, acho que o caminho é liberar, normatizar e taxar as eventuais irregularidades. Mas taxar muito bem! E isso vale para a maconha, para a cerveja e para os comerciais idiotas.

Vivo numa terra de caminhoneiros há 30 anos e eles sabem que receita de arrebite nem pagando muito bem. Não me interessa um consultório com fila pra comprar esse tipo de receita. Não quero nem um boteco com fama de boca de fumo. Quando um paciente me pergunta se usar arrebite faz mal pra saúde  eu respondo: que a mulher dele é jovem e bonita, que e os filhos dele são novinhos, e que se ele for ao banco e fizer um seguro de vida coxudo em nome da mulher e dos filhos, por mim ele pode se arrebitar até ficar mais travado que caminhão na lomba. Se o arrebite não fizer mal ele só vai sentir uma dorzinha no bolso. Se fizer mal a família dele vai chorar feliz.

Será que há um remédio popular para tratar o país?

02/04/2011

Caro Franci! Embora minha experiência seja curta, e a observação só se relacione aos últimos sessenta anos, vi neste período muita coisa sair na “inoperância” para uma operacionalidade razoável. Podemos citar como exemplo a questão dos medicamentos da farmácia popular. Sem sombra de dúvida um avanço. Há alguém fazendo alguma coisa. Sabemos que qualquer dia um político vai sacudir a bandeira política da paternidade desde avanço. Que assim seja se este é o preço que temos que pagar no jogo exibicionista que a democracia expõe na vitrine da vida pública! Mas sabemos também que paralelamente a isto muitos continuam mamando à solapa nas tetas do país e nada produzem. Sabemos que o custo da máquina pública não é o que nos é apresentado. Que o país poderia gerar muito mais se o leite não se esvaísse para o vale dos corruptos.

Na terra das “côsas brasís” há a piada já velha da obra pública que recebeu três orçamentos: um japonês pediu três milhões, um alemão seis, e um brasileiro nove milhões. Questionado pelo homem público de ilibada moral sobre aquela discrepância o brasileiro respondeu: “Ora! Três pra mim, três pra você, e três pro japonês!” Frente à esta escarrada verdade econômica nacional o país sai caro exatamente para quem paga a conta: nós!

Parece, Li, que o brasileiro triste pensa que tem vergonha de ser brasileiro! Ele tem é vergonha de se dizer regido por alguns brasileiros como os da piada. Não há como se orgulhar desta gente, na verdade. Mas nós sabemos que o brasileiros médio mantêm os corruptos e os inúteis esvoaçantes pelos corredores das casas públicas por uma série de fatores crônicos. Porque não sabe observar e aprender. Não sabe escolher e não sabe votar. Não sabe fiscalizar e não sabe cobrar. E acha bonitinho o folclórico, o tosco, o burro, o incapaz e o larápio. E ainda diz: “Eles são a cara do país!” A cara do país de quem? Não do meu!

O país está conseguindo tratar a hipertensão e a diabetes dos brasileiros com medicamentos gratuitos. O país necessita tratar a sua principal doença: a corrupção. Qual é o custo deste medicamento? Ele existe? Vamos ter que admitir que o ser humano é essencialmente corrupto e nada há para ser feito? Esta doença é incurável? Chamamos o médico ou o coveiro?

Só pra acordar!

31/03/2011

Vocês notaram a coisa impressionante que está acontecendo no Japão? Não me refiro ao terremoto, ou ao tsunami, ou ao desastre atômico.  Estou falando do fato de que lá não há saques, e de que ninguém fura a fila. Impressionante!

O Natal veio e foi. Assim como o Ano Novo. O Brasil tirou férias. O Carnaval já é passado. Maria faturou o BBB e agora já sabemos que “um século tem dez anos”. A base da pirâmide voltou às aulas. Da metade pra cima os produtivos se desentorpecem do etilismo praiano e começam a tatear os bolsos pra saberem onde foram roubados. Ao fundo o leão da receita produz faíscas ao afiar as unhas e já podemos ouvir os seus rugidos cada vez mais próximos. A vida se retorce em seu recomeço enfarado. Ouço um “oi” de Lya anunciando que já há pensamentos no planeta. Então eu tenho umas coisinhas pra dizer.

Afinal! Será que há remédio?  A prescrição dos antibióticos foi normatizada? Quem fura o sistema? O médico? A farmácia? O produtor? A distribuidora? O usuário? A fiscalização? Todos? Alguns? A quem interessa o cumprimento da norma? A quem interessa o não cumprimento? Como burlar a lei? Quem perde com isto? Quem ganha com isto? Vale a pena mexer nesta lata de merda? É melhor deixar como está para ver como é que fica? Quem quer saber a resposta a estas perguntas? Quem quer dar palpites e começar uma discussão? Falar sobre Isto resolve alguma coisa? Os medicamentos básicos para hipertensão e diabetes, fornecidos gratuitamente pelo governo através das farmácias populares, representam um avanço social? Esqueçam os ganhos políticos agregados a qualquer processo semelhante! É tão difícil absorver algo bom sem pensar numa forma de ganhar algo mais?

No início se falou do Japão. Lá, distante diametralmente 12 mil quilômetros sob nossos pés, no outro lado da esfera planetária, onde nossos irmãos antípodas parecem desconhecer inocentemente o jeitinho patropi de levar vantagem em tudo, o medicamento gratuito recebido seria visto como um direito adquirido perfeitamente justificado, como parte do retorno da carga tributária, em resposta à participação coletiva e cooperativa da massa, mas que, em contrapartida, exigiria uma crescente responsabilidade do usuário, não como forma de pagamento, mas como uma demonstração de que existe uma consciência de que “o que é público não é só meu, mas é de todos.”  Em nosso país é necessário o entendimento de que é possível usufruir de uma vantagem sem mamar. É necessário que o povo aprenda que não é necessário roubar o que já está sendo dado. Assim os mais lentos ou os mais carentes de recursos poderão chegar até a fonte antes que ela seque. Será que temos algum futuro como sociedade altruísta? Uma mudança na maneira de pensar vigente, se não servir pra nada, pelo menos pode servir de exemplo aos políticos. Quem sabe eles aprendem alguma coisa!

Será que só há perguntas?

Há realmente controle nos medicamentos?

05/12/2010

Não há milagre econômico! Não dá pra fazer com 5 reais um bolo que custa 50 e impunemente chamar os amiguinhos de seu filho pra uma festa de aniversário! Em outras palavras: vai dar ca-ga-nei-ra! Vai dar ca-ca-ca! Encrenca! Entendeu?

A partir de 28 de novembro a venda de 93 substâncias de ação antimicrobiana obedece às novas regras determinadas pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A resolução (RDC/44 de 26/10/2010) é encontrada na íntegra no portal da anvisa, assim como a lista dos princípios ativos que passam a ser controlados. Encontrei a notícia mais esclarecedora para os leigos na página da G1-Brasil. Quem estiver curioso é só clicar nos dois links acima e se interar.

A automedicação com antibióticos é um velho problema de saúde pública. O indivíduo que se automedica com qualquer outra droga pode até se matar! Mas esta morte, em princípio, atinge somente aquele indivíduo. Já quem faz uso indiscriminado de antibióticos está fomentando o desenvolvimento de microorganismos cada vez mais resistentes. E, um dia, cepas que não são sensíveis a nenhuma droga conhecida matarão um grande número de pessoas. Se ficarmos esperando vai acontecer! Em escala menor, mas preocupante, a medicina já enfrenta em território nacional a KPC, uma  Klebsiella pneumoniae, mas outras super-bactérias estão espalhadas pelo planeta a espera de uma massa crítica ideal e de condições sanitárias que as favoreçam. Portanto a resolução é muito bem vinda. Palmas para a ANVISA.

(Os profissionais da saúde foram informados pela mídia. Não houve nenhum comunicado sobre a norma técnica. Talvez não tenha havido tempo! Afinal, os esforços direcionados para esta ação tomaram pé apenas agora, no ano passado, e a constatação do problema só acontece há 25 ou 30 anos! Paradoxos na era da internet.)

A existência de um conjunto de regras não significa que o problema esteja definitivamente resolvido. Mesmo que todos os profissionais da saúde prescrevam antibióticos corretamente. Mesmo que todos os produtos éticos gerados pela indústria obedeçam à determinação da ANVISA. Mesmo que todas as farmácias façam o registro de suas vendas. Mesmo que todos os pacientes entendam qual é o sentido disto tudo. E mesmo que o governo complemente o seu papel regrador exercendo uma continuidade fiscalizadora.

Vou contar uma história! Em 2001 fui secretário da saúde do meu município. Os médicos do serviço público começaram a reclamar que os pequenos pacientes tratados com amoxicilina fornecida pela rede, sistematicamente, não mostravam melhora alguma. Fucei em outros setores da administração e encontrei o seguinte: Na época um vidro de amoxicilina de referência custava 18 reais. A melhor opção genérica 12. A FURP de Campinas nos oferecia o mesmo medicamento, sem os adereços publicitários, por 5,40. E a empresa que ganhou a licitação nos vendeu o produto por 1,88. Um real e oitenta e oito centavos por um vidro de antibiótico para o seu filho! Licitação ganha e mercadoria recebida de acordo com as regras laicas. Regras nem um pouco interessada se a mercadoria era ou não um antibiótico e no filho de quem seria usada! Lacrei uma caixa e pedi uma análise para a Faculdade de Farmácia da UFRGS. Fui informado de que realmente era uma amoxicilina! E que a dosagem encontrada se aproximava bastante da apregoada, mas que as análises subseqüentes, feitas após a diluição, mostravam concentrações rapidamente decrescentes. No mesmo laudo a faculdade se desculpava pela impossibilidade de efetuar os métodos utilizados pela ANVISA que quantificam a fixação da droga nas proteínas plasmáticas, ou a bioequivalência do produto.  Muito gentis. Como se eu pudesse pagá-los! Um teste de bioequivalência custa hoje cerca de 250 mil reais. Traduzindo: enquanto as primeiras tomadas correspondiam às de um medicamento de referência, as posteriores, gradativamente, se mostravam inócuas para o fim a que se destinavam. Um perfume francês “meide-in-assuncion” extremamente adequado para os objetivos de uma bactéria: criar todas as resistências possíveis.

A indignação pedia uma ação concreta contra o que, na minha ótica, se configurava um crime. O meu esperneio foi insuficiente e teve um alcance proporcional ao peso de minha conta bancária no financiamento daquela cruzada inglória. Descobri que este tipo de ação não interessa nem aos que fabricam medicamentos éticos (e não me perguntem o porquê). Os órgãos públicos não fizeram eco aos meus pedidos de esclarecimento. Nunca soube se os julgaram irrelevantes ou improcedentes. Mas nós sabemos que esta informação interessa aos que pagam uma quantia faz-de-conta, por um medicamento faz-de-conta, para tratar uma infecção que não faz-de-conta, pois não há como fazer de conta que a infecção foi banida. Nós sabemos que o resultado se traduz num gasto dobrado, com prejuízos para a saúde e para o bolso! Como nos jogos de máfia não é inteligente enfartar duas vezes a opção foi mudar o foco e interar o usuário da realidade. Um trabalho de formiga. “Minha senhora! Não há milagre econômico! Não dá pra fazer com 5 reais um bolo que custa 50 e impunemente chamar os amiguinhos de seu filho pra uma festa de aniversário! Em outras palavras: vai dar ca-ga-nei-ra! Vai dar ca-ca-ca! Encrenca! Entendeu? Compre o remédio certo! Se o cara da farmácia disser que aquele outro é a mesma coisa, diga pra ele que a senhora vai comprar na outra farmácia – o que também não deixa de ser a mesma coisa! Dê nos dedos de quem quiser lhe lograr! Seja esperta!” E por aí vai, entre outras.

Deboches a parte fica a questão em aberto. No Brasil, com menos de 400 substâncias, são feitos quase 15 mil medicamentos. A ANVISA poderia, trabalhando sem trégua, analisar cada um deles de 80 em 80 anos num voto de confiança praticamente vitalício.  É impossível determinar o volume da pirataria que chega às farmácias e ganha licitações nos mais de 5 mil pequenos municípios de nosso país. Falo de todo e qualquer medicamento. Inclusive os usados na hipertensão e na diabetes. Neste momento milhares de brasileiros estão lendo a bula de um trocinho comprado na esquina e que será engolido em 2 minutos. Como são medicamentos que na prática não existem eles não ganham o status de fiscalizáveis. Neste caso, quando a droga é um antibiótico, se diz que ele está descontrolado. É o mundo do faz-de-conta, onde os microorganismos fazem as contas! Afinal! Quantas almas valem uma bonificação irreal?

Durma-se com um barulho desses!

Milagres da farmacologia moderna!

08/05/2010

No fim do mês passado completei 60 anos. Houve todos os tipos de piadas sobre agora ser um sex…agenário; que enquanto sessenta ainda se levanta, depois setenta, tenta, e nada. E assim por diante. Os meus parentes e amigos fizeram questão de deixar bem vívida a idéia de que agora o tempo deve ser contado não no sentido do que passou mas do que ainda falta, e outras gentilezas do tipo. E como a maioria dos amigos de uma pessoa são de sua faixa etária, ou aproximados, vai aqui a minha contribuição, como médico, para os 60 anos, ou mais, de todos eles. Trata-se de um pequeno pacote de medicamentos composto por 4 drágeas numeradas de 1 a 4.

Quando você não se lembrar mais para que serve aquele apêndice existente entre suas pernas, que teima em se esconder sob a prega de sua barriga, e que ocasionalmente você vê em espelhos ou fotos, tome a drágea número 1. Ela se chama MELEMBRINA. Fará você recordar quase instantaneamente da função daquele órgão. Se você for do tipo emotivo lágrimas de saudade poderão transbordar de seus olhos. Não fique envergonhado. As estatísticas afirmam que isto é extremamente comum embora seja negado pela maioria. Neste momento é bom estar acompanhado por uma parceira sexual, do sexo de sua preferência.

Engula então a drágea número 2, chamada LEVANTOL. E não se assuste! Pois modificações na micro rede vascular interna daquele órgão, antes esquecido, farão com que ele cresça, intumesça, como uma fênix renascendo das cinzas, ou como um gato dado como morto ressuscitando de sob as lenhas do fogão, numa imagem menos mitológica e mais gaudéria.

Chega então o momento de ingerir a drágea número 3. PAUDUREX. Um milagre da moderna indústria farmacêutica. Capaz de manter o órgão renascido por cerca de 40 minutos em atividade febril ou enquanto durarem as coronárias de um usuário possesso. Não é aconselhável que portadores de stents, marcapassos, ou pontes de safena ultrapassem os 10 minutos recomendados para estes casos nos capítulos 47 a 52 do 3º volume da bula do pacote.

E, finalmente, quando o usuário percebe que tem que – note que não é quando percebe que vai, mas quando percebe que tem que – chegar ao clímax ou se esvairá desidratado e estorricado, deve engolir a drágea número 4, a ACABIM, a mágica das mágicas, a explosão sensória final que tudo justifica, até a manobra suicida de ter tomado o pacote inteiro. Há relatos de sobreviventes que descrevem visões que ultrapassam a nossa dimensão. Obviamente, estes medicamentos devem ser usados sob rigorosa orientação médica.