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A extinção do Homo sapiens!

23/01/2017

As gerações se sucedem a cada trinta anos. Nasci em 1950. Em média meus filhos são da geração 1980 e meus netos, em média, da 2010. Seguindo esse raciocínio, meus bisnetos serão da geração 2040 e só vou conhecer algum deles se conseguir ser especialmente longevo, ou se a primeira filha de minha primeira filha resolver encurtar essa média.

Aqui, todos os indicativos e tendências apontam para uma possibilidade interessante! A geração dos meus bisnetos, a de 2040, possivelmente será a última geração totalmente sapiens sobre o planeta! Com isso não estou afirmando que receberemos emigrantes vindos do espaço. Não creio nesse evento, também interessante e até possível, mas de uma probabilidade extremamente pequena, embora ficcionistas alimentem toda espécie de mito refutando a minha descrença e eu, secretamente, torça para que eles estejam certos. Além do mais não disponho dos atributos para profetizar uma data para a descida da nave dos extraterrestes! Quando afirmo que a geração de 2040 será a última em que apenas exemplares da espécie Homo sapiens representarão a cereja do bolo da criação sobre a superfície do planeta Terra estou me referindo à observação de coisas reais que estão acontecendo. É só voltar os olhos na mesma direção e você concluirá que, afinal, essa afirmação não é tão louca quanto parece.

A manipulação genética é um fato. Para o bem ou para o mal iremos usar essa capacidade em nossa própria espécie antes da metade desse século (se isso já não aconteceu!). Essa é a tendência e é inevitável!  Inevitável por que temos a capacidade, a curiosidade e a vontade. Apenas esses três fatores transformaram primatas africanos em astronautas em 250 mil anos, a escrita mesopotâmica na comunicação virtual em 5 mil anos e o primeiro canhão na bomba atômica em 600 anos. Pelo visto aprendemos rápido! E não nos preocupamos muito com as consequências.  O quarto fator que determina a abertura de todas as comportas sempre foi a necessidade. Nós necessitávamos descobrir e conquistar. Saímos da África e vasculhamos o planeta todo. Levou milhares de anos, mas um dia ele acabou e então alguém apontou o dedo para o céu e resolveu que faltava aquela ilha lá em cima. Aprendemos a anotar, calcular, comercializar e quando necessitamos de mais espaço, mais rapidez, mais controle, mais lucro, mais produtividade, mais pesquisa, mais conhecimento, transformamos os métodos e eles evoluíram para o computador e para a internet e há quem afirme que não vamos parar antes de esbarrar na inteligência artificial. E as necessidades na guerra justificaram a espetacular rapidez nas ações. Em 40 anos a teoria da relatividade de Einstein se transformou na destruição de Hiroshima e Nagasaki. Não somos apenas rápidos. Somos perigosos.

Se algo ainda freia o movimento em direção à aberta manipulação genética humana é a solidez da argumentação refutando os questionamentos éticos; como se isso fosse realmente levado em conta nas mais variadas culturas espalhadas pelo planeta!

As necessidades se justificam pelo próprio conhecimento em si, pelo interesse da indústria farmacêutica, pelo aumento da força e da resistência, pelas necessidades de adaptação espacial, climática, funcional, militar, pelo propagado aumento médio da capacidade física e mental do seu filho, pela luta contra as doenças e contra a morte, e por aí vai.

Em 2100, quando andarem por aqui os bisnetos dos meus netos, esse parágrafo acima já será uma realidade! Algumas insinuações contidas nele podem ter lhe causado arrepios, mas outras você até viu com bons olhos! Pouco importa se Aquela Superpotência cria soldados geneticamente modificados, fortes como touros e com cérebros de nabo. A mesma tecnologia permite que meu filhinho querido possa ser saudável e inteligente, além dos melhores sonhos de todos os papais e mamães.

Isso tem um lado ruim, mas também tem um lado bom!

O lado ruim é óbvio. Se princípios comerciais puderem ditar as normas de uma engenharia genética voltada para as necessidades corporativistas seriam abertas as portas para as mais grotescas aberrações, que deixariam a visão de Aldous Huxley, em admirável Mundo Novo, no chinelo. Por outro lado, que me perdoem os amantes da espécie, me parece que o auto rotulado Homo sapiens sapiens (duplamente sábio!) chegou a um beco evolutivo! Nos últimos 40 mil anos fez coisas incríveis, mas não evoluiu na mesma proporção que as coisas que ele próprio criou. Retire da espécie suas conquistas tecnológicas e solte os seres humanos num lugar de recursos escassos e eles regredirão para uma nova idade média em um dia. É claro que podem se valer da tradição oral e reaprender parte do que sabiam, apresentando em, talvez, 4 ou 5 gerações, outra configuração histórica. Mas no momento em que forem largados às próprias custas e nas primeiras décadas de luta num ambiente hostil terão mostrado que são animais, inteligentes e imprevisíveis, agressivos e potencialmente assassinos, inevitavelmente ladrões, e estupradores sempre que possível. Evolutivamente pouco diferentes dos primeiros exemplares de 40 mil anos, ou talvez até mais bárbaros, contrariados pelo injusto revés.  Nossa tecnologia deu saltos assombrosos, mas nós não evoluímos. Está certo que não houve tempo para isso, afinal, uma espécie se contorce por milhões de anos para apresentar um resultado satisfatório e adaptado ao seu habitat. Nós apreendemos a adaptar os habitats, ocasionalmente destruindo-os no processo, mas nunca vamos nos adaptar a nenhum deles. E podemos repetir essa experiência, frustrantemente, incontáveis vezes…

E por essa que me atrevo a dizer que a revolução genética que bate a nossa porta é uma necessidade. Somos experts em mudar as coisas sem medir as consequências! Talvez tenha chegado a hora da mudança final! Vamos mudar a nós mesmos. Se no corpo atual nossa evolução emperrou, quem sabe possamos criar uma combinação genética, ou um habitat genético, mais favorável? E a ética? Alguém gritou lá nos fundos. Ética! Parece que esse era o nome da pedra que caiu na cabeça dos dinossauros há 65 milhões de anos…

Seguindo a história dos bisnetos dos meus netos vou brincar de profeta da manipulação genética, já que dos aliens não sou, e inventar uma pequena ficção em cima do tema.

Em 2200 apenas a espécie Neo-Homo (já que tudo precisa ter um nome!) estará capacitada a participar dos programas de exploração espacial. Antes de 2400 a presença do Neo-Homo na vida política e econômica do planeta já terá uma massa crítica determinante. Haverá revoltas e movimentos contra o aparente segregacionismo contra os humanos inferiores. Rígidas leis de eugenia proibirão a miscigenação. Os inferiores terão sua natalidade controlada a um filho por casal. Em 2700 os novos humanos terão transformado o planeta num paraíso habitado por 2 bilhões de novas pessoas e conquistado uma quase imortalidade. Antes do ano 2800 os 300 mil humanos inferiores remanescente são alocados em reservas controladas onde poderão ser visitados e estudados. No ano 2950 morre o último e deprimido descendente dos Romacof. Na virada do próximo milênio, a elite Neo-Homo, às vésperas de partir para outra galáxia, vive um dilema: Deixa os últimos Homo sapiens entregues a própria sorte ou, bondosa e preventivamente, promove a extinção da espécie, incapacitando-os reprodutivamente, pois, como se sabe, eles são persistentes, vingativos e perigosos…

 

Pongo disse:

19/05/2016

 “Pensem um pouco comigo… Todas as indicações apontam para um processo evolutivo-seletivo. E, pelos exemplos que dispomos, esse processo é proativo, progressivo, construtivo e protetor da prole e do genoma. Local e circunstancialmente há desacordos sobre a proteção do habitat, quando interesses individuais sobressaem e nesse momento o substrato sofre, mas, não podemos negar, até criaturas primitivas como os humanos criam fóruns de discussão e procuram acordos que impeçam um suicídio coletivo. Se esse acordar não está acontecendo por motivos altruístas e transcendentais pelo menos está acontecendo por puro instinto de sobrevivência. E este instinto, convenhamos, é fundamental para o indivíduo e para a espécie. Se ele não existisse, ou se todo o processo evolutivo fosse bizarramente destrutivo, a espécie já teria sido aniquilada há muito tempo.

Claro que o fim dos humanos pode acontecer a qualquer momento por motivos variados, como bruscas oscilações do tempo ou da mecânica universal, independentes dos esforços errôneos e indisciplinados dos próprios interessados. Alguém dirá: “Qual teria sido o propósito de nossa existência se isso acontecesse?” E eu pergunto: “Porque deveria existir um propósito?” Mesmo porque, para haver um propósito dessa dimensão, deveria haver uma dimensão propositora adequada, e essa visão subverteria o questionamento aqui apresentado…!

Voltando, podemos pressupor que, se uma catástrofe cósmica não aniquilar os humanos, digamos, amanhã ou em um milhão de anos, o processo (evolutivo-seletivo-construtivo) que envolve a espécie continuará…

Como se sabe o universo é velho, o que lhe confere paciência. Mas, mesmo sendo velho, ainda é, paradoxalmente, jovem. O paradoxo existe somente para os nossos olhos, já que a nossa existência, como espécie, é um piscar de olhos quando a comparamos com o todo.

No desenrolar da história universal aparecerão outras espécies cognitivamente capazes e empenhadas numa luta evolutiva. Um dia, muito distante no tempo, a somatória dos processos evolutivos vai gerar uma consciência que, sob qualquer ótica ou julgamento de um humano atual, seria indistinguível de um deus. Se a espécie humana fará parte dessa somatória passa a ser assunto de uma especulação quimérica sobre esoterismo e mérito. Então poderíamos afirmar, muito, muito retroativamente que, hoje, deus está nascendo, e que, quando o universo atingir a maximização da entropia, como qualquer coisa que se apoie em energia, dizer, num átimo, após uma quase eternidade de observação e análise, sabendo-se, afinal, o princípio e o fim:  “Faça-se a luz!”, para que o ciclo continue.”

 

 

Como fazer um despacho com duas velas e uma garrafa de cerveja!

25/03/2012

 

O orangotango é meio lento pra certas coisas. Deixa ver se entendi! O advogado, que também é parlamentar, argumenta pela incapacidade contábil do Estado e vota contra o aumento dos professores na Câmara, e, em sua banca, onde enfileira clientes professores, argumenta pela capacidade contábil do Estado e entra na justiça contra o Governo. Deu na Zero. É isso? Não é?  Minha vó sempre disse que acender uma vela pra Deus e outra pro Diabo pode não ser uma coisa muita limpa, mas garante nas duas pontas. Além do mais, quem vai saber?  Eles não se conversam mesmo! Estão de mau há milênios! Isso me lembra a história do cara que vendia Cloranfenicol. Chegava numa cidadezinha. Dava um jeito de entrar num casamento pomposo. Contaminava a maionese com uma Salmonela amiga. Esperava o andaço escorrer e aparecia como o salvador da pátria. Os exames do Lacem demoram uma missa de bispo.  Até lá o esperto vendia o estoque e pegava a estrada. Quando o resultado chegava o povo, já curado, dizia: “Não é que ele tinha razão?”

Parece outra coisa, mas se você olhar bem vai ver que é apenas o outro lado da mesma minhoca: a novela da cerveja na copa. Equacionando: O povo bebia, misturava o porre com as paixões clubistas e o amor pela mãe do juiz, perdia o tino e partia pro pau. Como da violência resultante ocorriam tragédias estúpidas se achou por bem proibir a venda de bebidas alcoólicas nos estádios. Embora se saiba que isso não é levado à risca, e se argumente que é impossível evitar que um indivíduo encha a cara no boteco da esquina antes do jogo, as ocorrências despencaram (vide estatísticas dos órgãos de policiamento). Sempre lembrando que por mais bêbado que alguém esteja ao entrar no estádio não há como manter o mesmo teor alcoólico pulando, gritando, suando e urinado por duas ou três horas.  

Então vem a copa e a soberania do país vai pro pinico. Em nome do lucro, a Fifa, educadamente, faz com que nós os eleitores paguemos regiamente um bando de parlamentares para discutirem se a lei vai ou não tirar férias durante o evento esportivo. E que venham os porres, e as mortes, e o luto. Mas que as empresas produtoras de cerveja alcancem suas metas de venda. E que os engravatados recebam a sua parte (pois não sejamos inocentes de acreditar que ninguém está levando uma comissãozinha nessa história!). Orangotango sofre até com os ecos das coxias: “Nós evangélicos  não entendemos “lhufas” desse negócio florestal, mas se vocês ruralistas votarem com a nossa bancada na questão da “ceva” nós estamos com vocês, nem que seja pra melar.” (Mas onde foi mesmo que minha vó escondeu as velas?)

Ninguém e o apetite do Leão

27/02/2012

― Ele paga impostos? ― Perguntou o rei, repentinamente, ao ministro.
― Hum! Não! ― Disse o ministro, e se apressou em justificar aquele fato insólito. ― Esse homem não tem nada, majestade. Na verdade o lençol que o cobre foi emprestado pela guarda para não trazê-lo despido a vossa presença.

Na terra em que Ninguém vivia havia um rei chamado Leão (ele era rei por que seu pai havia sido o rei anterior, e antes do pai dele fora o seu avô, e assim retro sucessivamente até onde era possível espremer a memória daquele povo, “per omnia saecula saeculorum, amen”. Alguns dos reis haviam sido bons (e outros não haviam sido bons (mas aquilo que eles haviam realmente sido só é saudável dizer entre parênteses (e, portanto, nós os fechamos todos e ponto)))).

Como alguém podia se chamar Ninguém? Todos eram alguém! Um dia o rei soube que em sua terra havia alguém que tinha aquele nome estúpido. Entre curioso e determinado a mudar aquela situação, que ele achava incômoda (talvez por que no mundo existam pessoas que quando não conseguem infernizar a vida de alguém ficam doentes e assim resolvem pegar o pé de ninguém em especial), o rei mandou chamar Ninguém.
Ninguém foi apresentado ao rei. Ele havia sido enrolado num lençol por que quando o encontraram ele estava nu – assim como também não tinha uma casa e nem um cão. Ele trazia sob o braço uma pedra de bom tamanho e pediu permissão para depositá-la no chão, a seu lado, enquanto estava ali.
― Quem é você? ― perguntou o rei.
― Ninguém! ― respondeu Ninguém, humilde!

O rei sorriu desdenhosamente, levantou-se, e de mãos às costas, arrastando suas preciosas roupagens, deu uma lenta volta ao redor de Ninguém, avaliando-o e saboreando a sua magnitude frente àquele trapo humano.

― Quem lhe deu esse nome idiota? ― rispidamente trovejou o rei.
― Todos! ― sussurrou, com a voz trêmula, Ninguém.
― Como…?! ― surpreendeu-se o rei, direcionando um olhar interrogativo aos seus ministros, que estavam presentes.
― É exatamente isso, majestade! ― disse um dos ministros com uma vênia. ― Todas as pessoas com quem contatamos, enquanto procurávamos esse homem, disseram que ele tem esse nome por que todos assim o chamam e não conhecem nenhuma outra forma de identificá-lo. 
― Mas isso é um disparate! Todos quem? ― vociferou o rei, querendo do ministro uma melhor explicação.
― Todo mundo! Os que são seus súditos e aqueles que não o são… ― disse o ministro, murchando enquanto via os olhos do rei se arregalarem como eco às palavras que haviam escorregado de sua língua; e, sabendo que a sua permanência como ministro (e de sua cabeça ligada ao resto) dependia da capacidade de elaborar consertos rápidos aos furos no raciocínio, emendou: ― Tais como os viajantes, comerciantes e magistrados de outros reinos, que estão aqui entre nós. 
― Ah! ― Disse o rei que, voltando ao trono, deu as costas ao ministro e a Ninguém (e perdeu a oportunidade de ver o “Ufa!” do ministro e o sorriso maroto dos outros).

Já sentado, depois de acomodar as complexas vestes, o rei apoiou o queixo sobre a mão, avaliou a própria impotência contra aquela estranha e desafiadora unanimidade em suas terras, em que, ele sabia, havia um exército de opositores e bajuladores, e voltou à carga.

― Você vai receber um nome adequado!  ― Sentenciou o rei, e Ninguém, sem levantar os olhos, sacudiu a cabeça afirmativamente. ― Um nome digno de um súdito meu! ― Continuou o rei, divagando, e Ninguém continuou a balançar a cabeça. ― Um nome dado por seu rei! ― Coroou o rei, e Ninguém, sem saber se deveria parar ou continuar a concordar, por via das dúvidas não parou mais de sacudir a cabeça com medo de parecer mal agradecido (embora tivesse vontade de perguntar ao rei como ele ia fazer para que os outros parassem de chamá-lo de Ninguém).

― Ele paga impostos? ― Perguntou o rei, repentinamente, ao ministro.
― Hum! Não! ― Disse o ministro, e se apressou em justificar aquele fato insólito. ― Esse homem não tem nada, majestade. Na verdade o lençol que o cobre foi emprestado pela guarda para não trazê-lo despido a vossa presença.
― Nada?! ― Questionou o rei, surpreso pela segunda vez.
― Absolutamente nada! ― Confirmou o ministro. ― Ele dorme sob as árvores e come circunstancialmente em troca de alguma tarefa informal que desempenhe aqui e ali, ou conforme a caridade das outras pessoas.

O rei permaneceu estático, sem saber de que forma poderia exercer o seu poder sobre aquele homem, e por fim, já ficando cansado da presença de Ninguém, com um gesto de enfado, disse:
― Saia!
Ninguém, percebendo que a desagradável situação havia finalmente terminado, sem saber quantas mesuras as circunstâncias exigiam, se enredou com o pano que o cobria, tropeçou atrapalhado e ficou nu.

Por um curto instante permaneceu paralisado e houve um constrangimento geral, mas se apressou em pegar a pedra para ir embora. Ao que o rei, apontando para a pedra, perguntou:
― E essa pedra? O que você faz com ela? ― E Ninguém, como quem é pego roubando, deixou cair a pedra no chão, olhou para os próprios pés e respondeu:
― Deito a cabeça nela pra dormir, meu rei. ― Gemeu.
― Mas nessa pedra?! ― Exclamou o rei, irritado por estar novamente surpreso num espaço tão curto de tempo.
― É a que melhor encaixou na minha cabeça… ― Explicou, se desculpando, Ninguém.
― Saia daqui e leve a sua pedra! ― Gritou o Rei, indignado.
― Na verdade a pedra não é minha…! ― Sorriu Ninguém, achando graça de sua equivocada propriedade sobre a pedra.
Em socorro à expressão confusa do rei o ministro esclareceu:
― O que esse homem está indiretamente dizendo é que essa pedra, sendo parte do solo, e sendo ele a base do seu reino, na verdade, pertence a vossa majestade…
― Ah! ― Entendeu o rei, que ficou meditando sobre o assunto.

Como o silêncio se prolongou e tudo indicava que o seu tempo ali havia terminado, Ninguém respirou fundo e se atreveu a perguntar baixinho:
― Posso ir?
― Vá, vá. ― Respondeu Leão, distraído. ― Mas deixe a minha pedra.

A Epopéia Nefilim e a Origem do Homem

17/02/2012

O texto a seguir, em sua essência, não é meu. Foi compilado há 5 anos de inúmeras fontes escritas que falam dos mitos mesopotâmicos sobre o tempo em que seres interpretados como deuses teriam vivido no planeta Terra. Entre as fontes, talvez uma das principais, encontra-se a controversa obra literária de Zecharia Sitchin, embora muitas coisas que impunemente acrescentei teriam causado desconforto ao recentemente falecido autor. Agora, por ocasião da postagem, observei que esse assunto foi envelhecendo e já é citado em inúmeros pontos da internet. É só você usar uma ferramenta de busca para as palavras que julgar estranhas e conferir. Não vou entrar no mérito da veracidade do que é relatado. Procurei apenas contar uma história a partir das informações que obtive, tendo como base o que foi escrito pelos antigos povos daquela região. Tomei a liberdade de ocasionalmente colori-la com uma terminologia mais moderna, para melhorar o sabor, e, espero, que ninguém a considere como um documento histórico.

A EPOPÉIA NEFILIM E A ORIGEM DO HOMEM    

1)      Os exploradores espaciais – Eridu, a primeira cidade

Os Nefilim chegaram à Terra logo após o período glacial que terminou há 450 mil anos (Estágio de Mindel-Riss no Pleistoceno). Eles seriam originários de um planeta chamado Nibiru (ne-be-ru, “onde os caminhos se cruzam”)(ou quem sabe um portal entre duas dimensões), governado por Marduk, conforme nos informam os textos mesopotâmicos da Suméria e da Acádia, as mais antigas civilizações humanas. (Aqui o Google é prolífico ao definir Marduk tanto como um planeta do mal – confundindo a figura do governante com a do planeta –  como mesclando incontáveis imagens de bandas de roque performático com gosto para visuais satânicos.) (Nibiru, para os desinformados, é o nome do planeta associado ao final dos tempos em 21 de dezembro desse ano – vide calendário Maia). Naquele tempo a humanidade – o gênero homo sapiens – ainda não existia e a história chegou até nós, muito posteriormente, pela narrativa dos próprios Nefilim, aos primeiros humanos capazes de escrevê-la. Esses humanos consideravam os Nefilim como deuses e seus registros influenciaram toda a gênese das religiões do planeta.

Naquela época dois terços da terra firme estavam cobertos pelo gelo, o nível do mar era 180 a 200 metros abaixo do atual, e poucas áreas de clima temperado ofereciam condições favoráveis para a instalação de uma colônia. O local de pouso mais adequado era a planície entre os rios Tigre e Eufrates, na antiga mesopotâmia, onde atualmente fica o Iraque; a temperatura mais amena, a água em abundância e o solo fértil apontavam esta região como uma das opções lógicas, assim como os vales do Nilo e do Indo, mas a presença do petróleo como rica fonte energética de fácil obtenção deve ser sido determinante na escolha. É curioso observar que a palavra Éden origina-se do termo acádio edinu (planície), que por sua vez origina-se do sumério edin (casa dos divinos ou íntegros). (Coisas das línguas.)

A primeira colônia Nefilim foi estabelecida próxima à margem do Rio Eufrates, junto ao pântano que naquele tempo ocupada a região que incluía a foz dos rios da mesopotâmia e boa parte do Golfo Pérsico. Seu nome era Eridu (em sumério e-ri-du significava “casa ao longe construída”; em persa ordu é “acampamento”; em alemão erde é “terra colonizada” assim como em inglês médio é ertha; e ainda, em aramaico, aratha ou ereds é “terra”, em curdo é erd ou ertz e em hebraico é eretz; e por fim o termo earth é, atualmente, “terra” em inglês, referindo-se ao planeta). O Nefilim que chefiou os trabalhos de exploração do novo planeta e administrou Eridu era En-ki (senhor do solo firme), filho de Anu e irmão de En-lil e Nin-ti, que também era sua esposa. Enki designou outros Nefilim para o saneamento dos pântanos e rios, para o cultivo de plantas e melhoria das sementes nativas, para a criação de peixes e outros animais, e para a fabricação de tijolos e construções. O trabalho era executado por um segundo escalão de Nefilim, que os sumérios chamavam de anunnaki. Os registros sumérios indicam que o primeiro grupo de exploradores aguardou 28800 anos pela segunda leva Nefilim. Não sendo possível determinar se os nomes próprios atribuídos às entidades se referiam a indivíduos assombrosamente longevos ou a agrupamentos ou equipes, que, pelos padrões humanos, também seriam extremamente duradouros. Outras correntes apontam com uma solução alternativa para as disparidades temporais apresentadas nos textos sumérios. Segundo essas correntes os Nefilim não teriam vindo do espaço, mas de uma dimensão paralela que periodicamente entra em sincronia com a nossa ocasionando interferências físicas e permitindo a passagem de indivíduos. Se a velocidade do fluxo temporal nessa hipotética dimensão for diferente da nossa teríamos uma teoria explicativa sobre os evidentes contracensos nas datas das reaparições Nefilin. (A menos que eles fossem realmente deuses!) O que não deixa de ser um pensamento interessante e abre um bom campo especulativo para os que pretendem criar um paralelo entre os inúmeros achados inexplicáveis que se misturam em nossa arqueologia e as datações proféticas apresentadas por maias e afins. É só começar a calcular!

2)      A administração de Enlil – O propósito da colonização Nefilim

Há 420 mil anos, no fim do período glacial, chegou à Terra o Nefilim Enlil, o outro filho de Anu, a quem os sumérios atribuíam o papel de principal coordenador da colônia (e que a humanidade passaria a referenciar como o deus criador). Foram estabelecidas as localizações das cidades e instalações Nefilim a serem construídas com o objetivo de servirem como marcos de um espaço-porto na mesopotâmia(*). Começava a segunda fase da exploração do planeta com aumento da população anunnaki e importação de mais equipamento. Enquanto Anu comandava a nave mãe e Enlil assumia o comando da colônia, Enki ganhou outras funções e passou a ser chamado E-a (senhor das águas ou senhor do mundo inferior), ou ainda Bea Nimiki (senhor das minas). A ordem era incrementar a extração de metais para atender às necessidades do planeta Nibiru. No desenrolar da história percebe-se que esta transferência de atribuições gerou um antagonismo entre Enki, o verdadeiro pioneiro, o que organizava as operações anunnaki, e Enlil, que permanecia no conforto do centro de controle da missão colonizadora.

(*) Cidades ou instalações Nefilim que foram destruídas pelo dilúvio (ver mapa):

  1. Eridu – o acampamento pioneiro, a cidade de Enki.
  2. Larsa – (La-ar-sa, “vendo a luz vermelha”) o centro administrativo da missão colonizadora, a cidade de Enlil.
  3. Nippur – centro de controle espacial, onde viviam os anunnaki especialistas em comunicações e os Igigi responsáveis pelas viagens de ida e volta entre a terra, a estação orbital e a nave mãe.
  4. Badtibira – centro industrial coordenado por Nannar, filho de Enlil.
  5. Larak – (La-ra-ak, “vendo brilhante halo”) a cidade dos deuses que não foi encontrada – cuja localização mais lógica seria complementando a linha de pouso Badtibira-Shuruppak-Nippur-Larak-Sippar.
  6. Sippar – o espaço porto, o centro de lançamento de foguetes coordenado por Shamash, filho de Nannar, neto de Enlil e bisneto de Anu.
  7. Shuruppak – centro médico Nefilim coordenado por Ninhursag.

Mapa Mesopotâmia

Enki passou a seu filho Gi-bil (aquele que queima o solo) a “barra de mineração” (um provável banco de dados referentes às técnicas de mineração). Os metais eram extraídos no sudeste africano e levados em ma-gur ur-nu ab-zu (cargueiros para minérios do mundo inferior) para a mesopotâmia onde iam alimentar as fundições de trabalho em metal em Badtibira. Na África a região de mineração era conhecida como A-ra-li (local de brilhantes veios), situada na selva montanhosa da bacia do Zambese onde hoje fica a Rodésia e o nordeste da África do Sul. Os Nefilim construíram em Arali a cidade de Gab-kur-ra (no coração da montanha) onde alojaram os anunnaki que executavam o trabalho braçal de mineração. O motivo primário da vinda dos Nefilim à Terra era a mineração de ouro, prata e cobre, por serem moles, maleáveis, e condutores de calor e eletricidade. O ouro em especial era fundamental na produção de microprocessadores. Mas há registros de que se interessavam também por platina, cobalto e urânio.

3)      A revolta dos anunnaki  – A  criação do adapa adama.

Os textos sumérios fazem menção a 300 anunnaki que permaneceram em órbita ou faziam o transporte espacial como Igigi (astronautas) e 600 que desceram à Terra como trabalhadores. Entre os anunnaki que viviam no planeta, os mineradores de Arali, mesmo contando com ferramentas e máquinas poderosas, eram os que desempenhavam o trabalho mais árduo. O termo sumério kur-nu-gi-a (terra onde deuses-que-trabalham mineram em túneis profundos) ganhou o significado posterior de “terra sem regresso”, tal era o caráter punitivo daquele trabalho. Há cerca de 300 mil anos o cansaço, o desgosto e a revolta levaram estes anunnaki a um motim enquanto Enlil fazia uma visita de inspeção às minas. Os mineiros destruíram suas ferramentas e pressionaram o coordenador para que encontrasse uma solução para o impasse. Foram chamados Anu e Enki e uma assembléia Nefilim foi convocada em Gabkurra.

O relato desta assembléia Nefilim ocorrida há 300 mil anos foi conservada em registros sumérios e é aqui sintetizada porque os fatos que a originaram e suas conseqüências foram determinantes para a espécie humana:

Anu exigiu um inquérito para apurar as responsabilidades. Os anunnaki permaneceram unidos e disseram:

“Cada um de nós declarou guerra! Nós que somos os responsáveis pelas escavações afirmamos que o pesado trabalho que nós é imposto nos mata. Grande é nosso cansaço e nossa angústia.”

Enlil, indignado, fez um ultimato: abdicaria caso os chefes do motim não fossem executados. Mas Anu, ponderado, disse:

“De que nós os acusamos? Suas queixas são justas! O trabalho de todos os dias dos anunnaki é realmente pesado e angustiante. Nós podemos ouvi-los.”

Enki, aproveitando a oportunidade, tomou a palavra na assembléia e disse:

“Nós temos a ciência e o poder para criar um trabalhador primitivo a partir dos seres nativos! Que ele suporte o jugo! Que ele sofra a fatiga dos anunnaki.”

A sugestão da criação de um trabalhador primitivo foi aceita. Ninhursag (aqui chamada de Mami) foi intimada a produzir um adamu (um trabalhador). Enquanto os anunnaki aguardavam, Ninhursag e Enki montaram um bit-shi-im-ti  (“casa onde o vento da vida é soprado” – um complexo biotécnico-hospitalar) para levar a cabo a tarefa proposta. Depois do necessário período (que deve ter sido longo) ela convocou novamente a assembléia e disse:

“Anunnaki! Vocês me incumbiram de uma tarefa e eu a completei. O trabalho pesado já não é vosso… vocês estão livres! Vossa fadiga foi transferida para o trabalhador que criei. Já existe um adapa (modelo de um terráqueo)!”

Ao que os anunnaki correram e lhe beijaram os pés em agradecimento. Um adapa adama fora criado. Um trabalhador feito a partir de um terráqueo fora criado. O trabalho seria feito pelos seus iguais gerados a partir dele.

Enki já estudava a fauna do planeta há milhares de anos. O homo erectus apresentava-se como um animal passível de domesticação, mas era muito inteligente e selvagem para ser transformado direta e imediatamente num dócil animal de trabalho. O longo e gradativo processo de domesticação através de uma reprodução seletiva ainda não resolveria todos os problemas funcionais se a intenção era que eles fizessem o trabalho dos anunnaki. O homo erectus era inapto fisicamente para usar as ferramentas Nefilim. E seria necessário um cérebro melhor, capaz de compreender a fala e as instruções recebidas, sendo, ao mesmo tempo, obediente para ser útil como servo. Enki optou pela manipulação genética.

Assim, há cerca de 300 mil anos os Nefilim criaram o modelo de um homem original da Terra (adapa), um trabalhador (adama), por manipulação genética, combinando os gens do homo erectus, o hominídeo mais evoluído disponível, com os gens Nefilim. Este ser híbrido foi criado, em todos os seus aspectos externos, à imagem e à semelhança de seus criadores, mas programado para um curto período de vida e sem a capacidade de procriar (sem acesso aos “frutos do conhecimento”).

Os textos sumérios referem que Ninti, a esposa de Enki, teve implantado em seu útero um óvulo de uma fêmea homo erectus fertilizado com material genético de um Nefilim. Assim Ninti gerou e deu à luz o primeiro adama, e este, como modelo, forneceu material para que fossem clonados os trabalhadores requeridos pelos anunnaki. Foram gerados seres que se assemelhavam tanto a machos como a fêmeas (em úteros Nefilim, pelo mesmo processo a que Ninti se submetera, ou por métodos artificiais utilizando incubadoras, tendo em vista a demanda exigida). Os adama produzidos eram todos híbridos e todos inférteis por determinação de Enlil. Os adama criados se destinavam ao trabalho nas minas em Arali, mas os anunnaki da mesopotâmia também exigiram servos. Assim alguns adama foram exportados e passaram a cuidar dos animais, das árvores, e dos jardins em Edin.

4)      O homo sapiens e o dilúvio.

O antagonismo entre Enlil e Enki continuou após a solução do problema gerado pelo motim anunnaki. Este antagonismo levou a um novo conflito que definiu o início da civilização humana. Enki, que sempre fora contrário à determinação de Enlil de que os adama fossem estéreis, resolveu interferir com uma solução cientifica para a questão. Não há textos que expressem a causa específica para os acontecimentos ocorridos nos jardins de Edin e registrados pelos sumérios. O fato é que Enlil permanecia politicamente no comando da colônia Nefilim enquanto Enki desempenhava a coordenação dos trabalhos de exploração, mineração, e pesquisa. O mito de Adão e Eva no paraíso sendo tentados pela serpente a comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal foi a versão mais popular que sobreviveu da história original. O termo bíblico nahash (cobra) deriva da raiz suméria que significa decifrar, descobrir, ou aquele que pode decifrar ou descobrir. Enki, o cientista chefe dos Nefilim, o que melhor podia resolver o problema da esterilidade dos híbridos, em Edin, corrigiu a falha original dos adama. Com isto Enki ganhou na versão bíblica a representação de uma serpente, devido ao jogo de palavras e significados, e nascia o homo sapiens como espécie. Havia sido apresentado aos adama o conhecimento do bem e do mal. Os adama ganharam a capacidade de se produzir, já não eram adama, mas Adão e Eva, e “eles viram que estavam nus”. Fora dado um salto sobre os 2 a 3 milhões de anos necessários para transformar o homo erectus em homo sapiens. Criara-se uma lacuna evolutiva e um mistério arqueológico que jamais seria solucionado.

As descobertas na África oriental colocam a transição dos macacos para hominídeos em 14 milhões de anos e situam os primeiros a serem classificados no gênero homo em 2 milhões de anos no passado. O homo erectus utilizado pelos Nefilim há 300 mil anos surgira havia 1 milhão de anos. Uma outra espécie humanóide, a Neandertal, andava pelo planeta quando foi repentinamente varrida do mapa pelo homo sapiens há 35 mil anos. Esses homo sapiens das cavernas receberam o nome de Cro-Magnon, e fisicamente não seriam diferenciáveis do homem atual. Eles vestiam peles, construíam abrigos e armas, viviam em clãs patriarcais e tinham princípios filosóficos e religiosos. Os achados arqueológicos mostram que o Cro-Magnon havia se originado de um homo sapiens ainda mais antigo que vivera na Ásia ocidental e na África há cerca de 250 mil anos. O aparecimento do homem moderno neste momento seria inexplicável do ponto de vista evolutivo sem a interferência Nefilim (ou de um mito qualquer que se assemelhe ao oferecido pela epopeia Nefilin).

Enlil, como forma de punir Enki, fez com que os adama modificados fossem retirados da mesopotâmia e levados para os montes Zagros onde atualmente é a fronteira entre o Iraque e o Irã. Isto ocorreu há 250 mil anos. Neste exílio desenvolveu-se a linhagem inicial do homo sapiens que gradativamente se disseminou para os outros continentes. Dez gerações depois alguns descendentes dos seres humanos banidos de Edin receberam permissão para regressar à mesopotâmia para viverem ao lado dos Nefilim, servindo àqueles a quem consideravam deuses. Segundo os registros sumérios isto aconteceu durante os dias em que Enos (um dos patriarcas bíblicos) viveu.

De 200 mil a 100 mil anos, e de 75 mil anos a 40 mil anos ocorreram novas glaciações durante as quais a população da Terra teve brutais diminuições. Houve um curto período de aquecimento há 40 mil anos e de 38 mil a 13 mil anos ocorreu o último e mais rigoroso período glacial. Nesta época alguns filhos de Nefilim tomavam filhas dos homens como esposas. Os registros antigos apontam Ubar-Tutu, a quem a bíblia chama Lamec, e pai de Noé, como um humano de descendência “divina”, que sob proteção de Ninhursag e Enki, chegou a rei de Shuruppak, a 7ª cidade Nefilim.

Noé, para os sumérios, era conhecido como Utnapishtim, filho de Ubar-Tutu. As indicações são de que a humanidade, nos dias em que Utnapishtim vivia, passava por grande sofrimento em conseqüência da estiagem que se seguira ao último período glacial. As privações atingiam também os Nefilim que não pertenciam à elite, e estes mostravam sinais de degradação, o que incluía todo tipo de permissividade sexual com as mulheres humanas. Enlil, que já se opunha abertamente ao protecionismo dado por seu irmão e Ninhursag a Utnapishtim e sua família, passou a abominar estes relacionamentos, pois via a pureza genética dos Nefilim sendo destruída rapidamente . Os textos sumérios relatam as várias tentativas de Enlil de eliminar a humanidade pela doença e pela fome, e descrevem as ações de Enki em resposta aos apelos de Utnapishtim, curando e alimentando o povo e frustrando os planos do irmão. Enki ria durante as assembléias quando Enlil enfurecido gritava: “Pare de alimentar o povo!”

O fim do período glacial apresentou a Enlil uma impensada forma de aniquilar a humanidade. Aconteceria um dilúvio de grande magnitude. A assembleia Nefilim decidiu ocultar dos seres humanos sua iminente ocorrência e seus efeitos terríveis. A versão bíblica do posicionamento da deidade cristã frente ao destino dos humanos no episódio do dilúvio, adaptada ao posicionamento monoteísta cristão, é cheia de contradições, e coloca a deidade única como ambígua. Os registros mais antigos permitem compreender melhor a história, pois refletem a permanente discordância entre Enlil e Enki. Em assembléia todos Nefilim juraram que guardariam segredo e deixariam os homens a própria sorte. Obrigaram Enki a jurar que não daria aos humanos informações sobre a tragédia que se abateria sobre a colônia e todos os seres vivos.

Quando o dilúvio estava próximo, Enki chamou Utnapishtim à edificação que os humanos consideravam seu templo, e, oculto por um biombo de bambu, contou que uma inundação inevitável iria aniquilar a humanidade em 7 dias (ou num período mensurável de tempo), e lhe deu instruções detalhadas de como poderia construir um barco sem convés e vedado (um sulili, que em hebraico se traduz como soleleth, uma embarcação que pode submergir, ou um submarino) para salvar a si e aos seus, levando os animais, as sementes e os artífices de várias áreas com suas famílias. Enki aconselhou seu protegido de que deveria dar aos outros a desculpa de que construía o barco para sair da mesopotâmia. Iria viver no “mundo inferior” onde encontraria um chão mais fértil, sob as graças de Enki, de quem era seguidor. Com a ajuda de vários habitantes da cidade o barco foi construído e colocado no Eufrates. Enki disse a Utnapishtim que só deveria subir ao barco e fechar as portas quando ouvisse o estremecer dos foguetes de Shamash em Sippar, 180 km a noroeste. Sinal de que os Nefilim estavam procurando a proteção da estação orbital para escapar do dilúvio. Assim fez Utnapishtim. Vieram tempestades colossais e com elas o dilúvio e tudo e todos que estavam no navio se salvaram sem o conhecimento de Enlil.

No fim da última glaciação volumes de gelo de tamanho continental deslocaram-se das massas polares nas calotas do planeta desabando sobre os mares e criaram tsunamis de extrema força destruidora. Isto ocorreu há 13 mil anos. A inundação durou 150 dias. Foi um acontecimento aterrorizante para humanos e Nefilim. Aqueles que os humanos consideravam deuses viram o trabalho de milhares de anos abruptamente destruído, de uma forma muito mais intensa do que todas as expectativas. Do alto da estação orbital os Nefilim amontoados, assustados e famintos, aguardaram o fim do desastre.

Após o dilúvio, quando Utnapishtim desembarcava em terra firme, os Nefilim perceberam que alguém ainda vivia sobre a Terra e desceram ao planeta. Enlil não podia compreender como um homem poderia ter sobrevivido àquela destruição. Um de seus filhos apontou para Enki e disse: “Pergunte a Enki. Ele sabe de todos os assuntos referentes aos humanos e sempre tem seus planos!”

Enki não se furtou à acusação e afirmou que não contara o segredo a nenhum homem, como havia jurado, mas sim a uma parede de bambu em sua casa. Defendeu o valor daquele homem que lutara pela vida usando os meios e conhecimentos empregados. Enki sugeriu a Enlil:

“Já que Utnapishtim demonstrou que não podemos ignorar sua capacidade, cabe agora a nós tomar uma decisão sobre seus direitos”.

Enlil, taticamente se dando por vencido, franqueou o planeta aos humanos.  Os Nefilim auxiliaram os humanos na produção de alimentos, pois da união das duas forças dependeria a sobrevivência de todos. Os Nefilim continuaram a ser tratados como deuses, e ensinaram aos homens os fundamentos que abriram as portas para o domínio de inúmeros campos do conhecimento. A primeira cidade humana foi Kish na localização aproximada de Nippur, onde os rios Tigre e Eufrates se afastam. Os Nefilim acompanharam o nascimento da civilização suméria há cerca de 4500 AC e assessoraram o estabelecimento das primeiras monarquias mesopotâmicas, e nos vales do Nilo e do Indo. Eles continuaram com sua política imperial que mantinha os grupos humanos divididos por interesses ou pela língua, para serem melhor controlados, e suas ações refletindo a personalidade de cada Nefilim. O antagonismo de Enki e Enlil se transmitiu a seus filhos e netos. Os Nefilim partidários de uma raça pura foram gradativamente se isolando, criando seus reinos particulares e exigindo fidelidade de pequenos grupos humanos. Por volta de 3000 anos AC o número de mestiços gerados entre os humanos e os Nefilim já era maior do que o número de Nefilim puros. A raça original vinda de Nibiru estava em franco declínio. E, gradativamente, o Homo sapiens consolidou sua civilização.

O que não deixa de ser uma história interessante! Que aparentemente teve um fim feliz! A menos que em dezembro se abra um novo capítulo, mas aí vai ser uma outra história!

O Debate das Pulgas (2ª parte)

10/05/2009

O lento retorno…

Um dos três, que eram como gêmeos (que depois me disseram se chamar Joaquim!), olhou para aquele meu olho esquerdo, aberto, que observava atento, registrando o desenrolar dos fatos. (O olho acompanhante dos movimentos e atos, sem entrar no mérito se verdades ou  interpretações antropomórficas daquela esfera aconceitual) Então, este, a que me referi, sorriu e disse: “Por que não fecha este olho e dorme?” Respondi (ou pensei e de alguma forma me fiz compreender porque minhas cordas vocais estavam impedidas pelo tubo): “Por que quero ver o processo! afinal, é uma oportunidade única! Estou presente e consciente e ao mesmo tempo sabedor de que morri. E isto se opõe ao meu conceito de continuidade.” A resposta veio pronta: “Então reconceitue ou se convença de que não chegou a sua hora! Vamos! Feche o olho! Facilite o meu trabalho”.

Devo ter piscado! O box era o 23! Um entubado sente muita sede e não há um método estabelecido para comunicar este desespero básico! A anestesia é uma das maiores invenções (depois do velcro e do papel higiênico)! Quando ela acaba o mundo é um dos piores lugares para se viver. Há uma certa dificuldade inicial para contar os tubos,  de diâmetros variados,  que de alguma forma foram introduzidos em seu corpo.  Você se surpreende com a imaginação dos técnicos nesta área! Tente contar os buracos novos. Os abertos e os suturados. Tente dormir! De 30 em 30 segundos você será acordado por alguém lhe injetando algo ou conferindo um sinal vital. Não vão entender sua necessidade aflita por duas gotas de água pingadas em sua boca ao lado do tubo! Esqueça! Feche os olhos como Joaquim pediu. Facilite o trabalho deles. Sempre chega o momento mágico. Ou você finalmente é desligado, ou sobrevive. O tubo é tirado e trocado por um sugador voraz que lhe introduzem pela traquéia até terem certeza que sua alma foi sugada. Como prêmio lhe pingam quatro gotas de água em sua língua. As amarras nas pernas serão mantidas. O destorturar deve ser gradativo para que você não pense que as coisas podem ser transformadas em algo fácil como num passe de mágica. O tempo é um remédio espetacular. Correção: o tempo ganha do velcro e do papel higiênico. Só perde para a anestesia.

De olhos fechados aproveite para “reconceituar”. Fique atento para o diálogo que as pulgas travam, acaloradas, atrás de suas orelhas.

O Debate das Pulgas!

29/03/2009

                                                          

 

Eu não acredito! Você pode até acreditar! Mas eu estava lá e os elementos matemáticos desenhavam-se paradoxalmente nítidos e indeterminados para se chegar a uma conclusão definitiva. Dirão: “você não tem fé!” É. Tenho fé que talvez esta seja uma ponderação exata.

 

Eu estava fora! Fora! Do lado de fora daquilo que o conceito humano convencionou estar aqui! Alguns dirão: “você só apagou! É o mesmo que Juan fazia com Castañeda! Uma viagem! Uma peiotada hospitalar”. Até isto é possível!

 

Eu estava de peito aberto. Literalmente! Enquanto mãos hábeis revascularizavam um coração hipotérmico e uma máquina incógnita movimentava meu sangue para que a isquemia não se generalizasse.

 

Eu estava nu. Deitado no chão. Foi imediato como um bater de palmas. Eu estava aberto, mas toda a equipe empenhada em me trazer de volta se fora. Dois focos de luz iluminavam a cena. As luzes estavam direcionadas sobre um coração pálido e agonizante que sabia ser o meu, mas todo o restante deste ambiente insólito estava mergulhado na mais absoluta escuridão. Eu me via. E era nauseante. A cena não tinha a realidade de um sonho. Era mais real do que a lembrança imediata de ter teclado a lembrança imediata de ter teclado. Mas o eu que eu via deitado mantinha o olho esquerdo aberto. Bem aberto. Vendo. Não acreditando. Mas registrando para uma posterior análise!

 

Eu não estava só! Três indivíduos circulavam nas sombras a minha volta. Todos eram altos, magros, de pele clara, tinham cabelos cheios e grisalhos, e vestiam batas de cor crua. Os três eram extremamente parecidos, como gêmeos, e falavam entre si em tons baixos usando palavras que eu não conseguia compreender. Aparentavam apenas observar a cena da qual eu era o protagonista nu. Meu olho esquerdo aberto. Meu peito aberto.

 

Eu fumava. E fumava bem há 9 anos atrás. Perto de uns seiscentos centímetros por dia. Um dia, do alto da gruta de uma das mães de um dos filhos de um dos criadores olhei para baixo e vi cerca de cinco mil pessoas olhando na minha direção. É óbvio que elas não olhavam para mim! Todas aquelas pessoas estavam lá movidas por seu desejo de acreditar na essência espiritual personificada pela estátua aos pés da qual eu estava. Aquelas pessoas só tinham olhos para sua fé, para seus pedidos, para seus agradecimentos. Naquele momento aquelas cinco mil pessoas tinham um só pensamento.

 

Eu tinha um pensamento: abandonar o cigarro! Rapidamente pensei: “A santa que me perdoe. Não comungo da fé que vejo expressa na face destas pessoas. Vou parecer um vampiro da energia alheia. Mas se estes bilhões de neurônios, nestes cinco mil cérebros que estão voltados para cá, têm a força de pelo menos acender uma lâmpada, usem esta energia para mandar à merda o meu vício de fumar”.

 

Eu não fumei mais! Física? Filosofia? Poder da mente? A fé dos outros usada em meu benefício? Uma comunhão ímpar? Positivismo? Pragmatismo? Algo a ser catalogado para uma posterior análise!

 

Eu estava mariscando. Eram sete horas da manhã. Para quem não sabe: mariscar é arrancar um molusco bivalve de uma profundidade média de 40 centímetros a beira do mar. Uma atividade que requer um bom esforço braçal e cardíaco movimentando areia molhada. Uma hora depois fui chamado a Porto Alegre, pois minha mãe havia sido hospitalizada. Ao chegar a Porto Alegre minha movimentação e respiração se tornaram abruptamente difíceis e um quadro de angina foi se caracterizando. E por caminhos errados fui cair e enfartar no único lugar certo num raio de 2 mil quilômetros.

 

Eu já contei esta história em “Qual é a tua?” mas o enfoque agora é outro. O ciclo se fechou. Lá estava eu, nu, de peito aperto, deitado no chão, com os três incógnitos personagens ao meu lado. Meu olho esquerdo aberto.

 

Eu tinha um pensamento: se eu fechar este olho o momento mágico vai chegar. Volto para casa num pacote. Deixo na mão todos que de alguma forma dependem de mim. E tudo aquilo? E tudo aquilo que falta fazer? Se eu fechar o olho e acordar num imenso gramado de perus gordos estarei no céu de Kurt Vonnegut. Se acordar sentindo todas as dores que a morfina não apaga os caras tiveram sucesso? Fechei os olhos e acordei querendo ser um feliz e gordo peru, mas sem dores.

 

Apenas junte tudo.

 

Eu tenho duas pulgas atrás da orelha. Elas debatem acaloradamente. Uma argumenta sobre a convergência aleatória de probabilidades com resultados aqui positivos e ali negativos. Afinal em milhões de possibilidades não há quem ganhe a mega-sena a beira da bancarrota? Se dermos uma Remington a um macaco e alguns bilhões de anos ele não poderia produzir uma bíblia de dar inveja a Gutenberg? A outra pulga desdenha este pragmatismo que nega a imaterialidade. Ela só diz: “Apenas junte tudo”!

 

Eu vou ficar na minha. Recolhendo dados. Mas confesso que a conversa está ficando boa!