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A extinção do Homo sapiens!

23/01/2017

As gerações se sucedem a cada trinta anos. Nasci em 1950. Em média meus filhos são da geração 1980 e meus netos, em média, da 2010. Seguindo esse raciocínio, meus bisnetos serão da geração 2040 e só vou conhecer algum deles se conseguir ser especialmente longevo, ou se a primeira filha de minha primeira filha resolver encurtar essa média.

Aqui, todos os indicativos e tendências apontam para uma possibilidade interessante! A geração dos meus bisnetos, a de 2040, possivelmente será a última geração totalmente sapiens sobre o planeta! Com isso não estou afirmando que receberemos emigrantes vindos do espaço. Não creio nesse evento, também interessante e até possível, mas de uma probabilidade extremamente pequena, embora ficcionistas alimentem toda espécie de mito refutando a minha descrença e eu, secretamente, torça para que eles estejam certos. Além do mais não disponho dos atributos para profetizar uma data para a descida da nave dos extraterrestes! Quando afirmo que a geração de 2040 será a última em que apenas exemplares da espécie Homo sapiens representarão a cereja do bolo da criação sobre a superfície do planeta Terra estou me referindo à observação de coisas reais que estão acontecendo. É só voltar os olhos na mesma direção e você concluirá que, afinal, essa afirmação não é tão louca quanto parece.

A manipulação genética é um fato. Para o bem ou para o mal iremos usar essa capacidade em nossa própria espécie antes da metade desse século (se isso já não aconteceu!). Essa é a tendência e é inevitável!  Inevitável por que temos a capacidade, a curiosidade e a vontade. Apenas esses três fatores transformaram primatas africanos em astronautas em 250 mil anos, a escrita mesopotâmica na comunicação virtual em 5 mil anos e o primeiro canhão na bomba atômica em 600 anos. Pelo visto aprendemos rápido! E não nos preocupamos muito com as consequências.  O quarto fator que determina a abertura de todas as comportas sempre foi a necessidade. Nós necessitávamos descobrir e conquistar. Saímos da África e vasculhamos o planeta todo. Levou milhares de anos, mas um dia ele acabou e então alguém apontou o dedo para o céu e resolveu que faltava aquela ilha lá em cima. Aprendemos a anotar, calcular, comercializar e quando necessitamos de mais espaço, mais rapidez, mais controle, mais lucro, mais produtividade, mais pesquisa, mais conhecimento, transformamos os métodos e eles evoluíram para o computador e para a internet e há quem afirme que não vamos parar antes de esbarrar na inteligência artificial. E as necessidades na guerra justificaram a espetacular rapidez nas ações. Em 40 anos a teoria da relatividade de Einstein se transformou na destruição de Hiroshima e Nagasaki. Não somos apenas rápidos. Somos perigosos.

Se algo ainda freia o movimento em direção à aberta manipulação genética humana é a solidez da argumentação refutando os questionamentos éticos; como se isso fosse realmente levado em conta nas mais variadas culturas espalhadas pelo planeta!

As necessidades se justificam pelo próprio conhecimento em si, pelo interesse da indústria farmacêutica, pelo aumento da força e da resistência, pelas necessidades de adaptação espacial, climática, funcional, militar, pelo propagado aumento médio da capacidade física e mental do seu filho, pela luta contra as doenças e contra a morte, e por aí vai.

Em 2100, quando andarem por aqui os bisnetos dos meus netos, esse parágrafo acima já será uma realidade! Algumas insinuações contidas nele podem ter lhe causado arrepios, mas outras você até viu com bons olhos! Pouco importa se Aquela Superpotência cria soldados geneticamente modificados, fortes como touros e com cérebros de nabo. A mesma tecnologia permite que meu filhinho querido possa ser saudável e inteligente, além dos melhores sonhos de todos os papais e mamães.

Isso tem um lado ruim, mas também tem um lado bom!

O lado ruim é óbvio. Se princípios comerciais puderem ditar as normas de uma engenharia genética voltada para as necessidades corporativistas seriam abertas as portas para as mais grotescas aberrações, que deixariam a visão de Aldous Huxley, em admirável Mundo Novo, no chinelo. Por outro lado, que me perdoem os amantes da espécie, me parece que o auto rotulado Homo sapiens sapiens (duplamente sábio!) chegou a um beco evolutivo! Nos últimos 40 mil anos fez coisas incríveis, mas não evoluiu na mesma proporção que as coisas que ele próprio criou. Retire da espécie suas conquistas tecnológicas e solte os seres humanos num lugar de recursos escassos e eles regredirão para uma nova idade média em um dia. É claro que podem se valer da tradição oral e reaprender parte do que sabiam, apresentando em, talvez, 4 ou 5 gerações, outra configuração histórica. Mas no momento em que forem largados às próprias custas e nas primeiras décadas de luta num ambiente hostil terão mostrado que são animais, inteligentes e imprevisíveis, agressivos e potencialmente assassinos, inevitavelmente ladrões, e estupradores sempre que possível. Evolutivamente pouco diferentes dos primeiros exemplares de 40 mil anos, ou talvez até mais bárbaros, contrariados pelo injusto revés.  Nossa tecnologia deu saltos assombrosos, mas nós não evoluímos. Está certo que não houve tempo para isso, afinal, uma espécie se contorce por milhões de anos para apresentar um resultado satisfatório e adaptado ao seu habitat. Nós apreendemos a adaptar os habitats, ocasionalmente destruindo-os no processo, mas nunca vamos nos adaptar a nenhum deles. E podemos repetir essa experiência, frustrantemente, incontáveis vezes…

E por essa que me atrevo a dizer que a revolução genética que bate a nossa porta é uma necessidade. Somos experts em mudar as coisas sem medir as consequências! Talvez tenha chegado a hora da mudança final! Vamos mudar a nós mesmos. Se no corpo atual nossa evolução emperrou, quem sabe possamos criar uma combinação genética, ou um habitat genético, mais favorável? E a ética? Alguém gritou lá nos fundos. Ética! Parece que esse era o nome da pedra que caiu na cabeça dos dinossauros há 65 milhões de anos…

Seguindo a história dos bisnetos dos meus netos vou brincar de profeta da manipulação genética, já que dos aliens não sou, e inventar uma pequena ficção em cima do tema.

Em 2200 apenas a espécie Neo-Homo (já que tudo precisa ter um nome!) estará capacitada a participar dos programas de exploração espacial. Antes de 2400 a presença do Neo-Homo na vida política e econômica do planeta já terá uma massa crítica determinante. Haverá revoltas e movimentos contra o aparente segregacionismo contra os humanos inferiores. Rígidas leis de eugenia proibirão a miscigenação. Os inferiores terão sua natalidade controlada a um filho por casal. Em 2700 os novos humanos terão transformado o planeta num paraíso habitado por 2 bilhões de novas pessoas e conquistado uma quase imortalidade. Antes do ano 2800 os 300 mil humanos inferiores remanescente são alocados em reservas controladas onde poderão ser visitados e estudados. No ano 2950 morre o último e deprimido descendente dos Romacof. Na virada do próximo milênio, a elite Neo-Homo, às vésperas de partir para outra galáxia, vive um dilema: Deixa os últimos Homo sapiens entregues a própria sorte ou, bondosa e preventivamente, promove a extinção da espécie, incapacitando-os reprodutivamente, pois, como se sabe, eles são persistentes, vingativos e perigosos…

 

Lógica carcerária.

19/04/2015

Uma nave espacial desceu suavemente no pátio da Papuda. Um humanoide, hermeticamente acondicionado num traje espacial, saiu da nave e disse para a turba alvoroçada: “Quero falar com seu líder”!

O negrão Cururu, relações públicas extraoficial da chefia, enfiou os dois indicadores na boca e soltou um assobio de furar tímpano. Veio do fundo da massa, um mulato atarracado, acompanhado de um magrinho, usando óculos fundo-de-garrafa, que segurava um tablet. O Cururu fez as apresentações: “Ô-do-Espaço, Porra, Porra, Ô-do-Espaço”!

O alienígena e o Porra fizeram acenos de índio e o visitante falou: “Quero trocar tecnologia por informação”!

“Então manda”! Respondeu o Porra.

“Quantos habitantes tem esse planeta?” Perguntou o alien.

“Sei lá! Gordo! O que tu me diz”?

O magrinho míope fuçou dois segundos no tablet e respondeu: “Quase sete bi e meio, chefia”!

“Porra! Tudo isso? Tu tá certo, ô Gordo?”

“Tá no Google! Dá um real por cabeça e ainda sobra um quarto do petrolão!”

“Porra! É gente pra caral…! Eu não sabia disso!” E se dirigindo ao alien completou: “É isso aí que o Gordo disse. Manda outra”!

“Qual é o arsenal atômico  do planeta”?

O Porra levantou o queixo para o Gordo e ele tascou: “Diz aqui que é por volta de 22 mil ogivas… no ano passado umas 5 mil estavam operacionais e 90% delas eram dos americanos e dos russos. E ainda diz que os Estados Unidos, o primeirão, é o único país que tem bomba fora do seu território”!

“E quem é o líder deles”? Perguntou o alien.

“Essa é mole”! Respondeu o Porra. “Nos esteites manda o negrão Obama, meio gente boa, mas político! Sabe como é”!

O alien, como pagamento, ofereceu dispositivos que permitiam acesso ilimitado às informações disponíveis no planeta, aparelhos de comunicação à distância, dificilmente detectáveis pelo sistema carcerário, e armas superiores às das forças policiais, mas o Porra disse que já tinha tudo aquilo e que, para o momento, bastava ter aquela nova amizade empenhada e a promessa de negócios futuros. O alienígena agradeceu pelas informações, repetiu o aceno de índio, voltou para a nave e partiu.

O Gordo disse no pé do ouvido do Porra: “Tá certo que ele só tinham coisa velha pra oferecer, mas bem que tu podia pedir uma mãozinha pra nos tirar daqui”!

E o Porra retrucou: “Tu tá louco, ô porra! Lá fora é um banditismo só. Aqui nós tá seguro! Segurança máxima, sacou?”!

O amor de Abelha

13/03/2014

Teodoro criou um fake, usando o nome de Ricardo. No face adotou a foto do Leonardo DiCaprio –  que ele havia modificado no photoshop, aqui e ali,  pra não ficar muito evidente. Virtualmente passou de quase gordo para magrão bombado, ganhou vinte centímetros de altura e deixou de ser pobre. Como estava ficando um quarentão passado, optou pela idade eterna entre os trinta e os trinta e cinco anos. E arrematou com um upgrade cultural associando o alt-tab com o Google. E depois saiu para a rede, desdobrando o papo com as mesmas garotinhas com quem flertava real e virtualmente antes dessa modificação transcendental. Como resultado, logo surgiu um séquito de fãs sequiosas. Baixava da internet os resumos dos livros que ele mentia que lera e listas infindáveis de frases de efeito que ele introduzia nos bate-papos. Mudou de emprego. Largou as prateleiras do Boa Compra e passou a viajar para o exterior. Enquanto Teodoro continuava a suar todos os dias, como repositor de mercadorias no supermercado, Ricardo quase nunca estava no Brasil, mas voando, a pedido do pai, por meridianos distantes, resolvendo problemas para os diretores das empresas espalhadas pelo mundo. Inevitavelmente isso acabava atrapalhando os encontros marcados com as gatinhas que desprezavam Teodoro, mas suspiravam antegozando o beijo prometido por Ricardo. Esse era um homem ocupadíssimo. “Ontem a noite mesmo estava no Brasil e agora já está teclando de Tóquio!” Coisas das “foreign trade operations, diria Ricardo.

Teodoro passava o dia empurrando plataformas com montanhas de rolos de papel higiênico, alheio ao zum-zum do supermercado. O corpo dele se movia sem pensar no que estava fazendo. Aquilo era um sonho cansativo a espera do momento em que acordaria em seu universo fake, num outro país, às vezes –  nunca pedante –  misturando palavras da língua local em suas mensagens, para logo pedir desculpas. “A troca de idioma costuma me confundir mais dos que a troca de fuso.”, queixava-se Ricardo.

Uma das meninas que ele namorava pela internet era a linda e sensual Abelha; uma Megan Fox de dezoito aninhos. Era brasileira, mas morava em Paris com o pai; ele um diplomata da embaixada. Ela teclava: “Quando passar pela Europa venha me visitar, Ric! Sinto que desse encontro pode nascer um amor imenso! Sonho com você todas as noites.” E depois de algum tempo aprofundava a íntimidade: “Penso em você e sinto você tocando o meu corpo até ficar exausta. Oh! Não sei se é possível existir tanto amor!” E outras melosidades do tipo.

Numa noite, ao chegar do trabalho, Ricardo mandou a mensagem: “Estou num voo que fará escala em Paris. Vou ficar uma semana na União Soviética. Encontre comigo no Charles de Gaulle! Hoje, enfim, temos a chance de nos beijar! Reservei uma suíte no Ritz-Carlton em Moscou. Venha comigo! Morro de amor por você! Ricardo.” O eco aflito de Abelha demorou quase três horas: “Oh! Não! Oh! Não! Como o destino pode nos pregar essa peça? Estou na estação de esqui de Courchevel com meus amigos. Temos um avião no aeroporto da estação, mas levaria umas seis horas para chegar a Paris. Diga que pode me esperar! Louca de amor por você! Abelha.” Ricardo esperou outro tanto e, as três da madrugada, respondeu: “O voo foi desviado para o Saïss, no Marrocos. Tempestades com muita turbulência sobre o Atlântico. Estou decolando agora para Moscou. Não é dessa vez que vou passar por sua cidade, minha querida. Choro em pensar que teremos que adiar nosso encontro mais uma vez. Ricardo.”, e esperou até as quatro quando veio a continuação: “Oh! Meu amor! Também estou chorando. Uma avalanche interrompeu o acesso ao aeroporto e ficamos incomunicáveis por quase uma hora. Tremo só de pensar que você poderia estar esperando por mim em Paris. Somos uns desafortunados. Mas ainda vamos nos encontrar, com certeza! E então vou poder demonstrar todo o amor que sinto! Um beijo! Amo você! Abelha.”. E depois derramaram afagos eróticos virtuais até as seis horas da manhã, quando a comissária de bordo pediu que desligassem os aparelhos eletrônicos por que iam entrar no espaço aéreo de uma região muçulmana em conflito. Ricardo foi colocado em off dando lugar a Teodoro, que tinha que se lavar, comer alguma coisa e estar no supermercado as oito. Como são cansativos esses namoros transcontinentais!

Um dia Teodoro estava mergulhado num balcão refrigerado acomodando pizzas calabresas quando uma voz perguntou às suas costas:

— Dóio? É você, Dóio?

Ele custou a entender que alguém falava com ele e, depois de assoprar o pó de uma gaveta esquecida de sua adolescência, lembrou que Dóio era o jeito como as crianças da rua o chamavam. Curioso olhou para a criatura vinda do passado e descobriu uma mulher jovem, de trinta e poucos anos, com óculos de fundo de garrafa, mas bonita. “Quem seria ela?” A mulher, sorrindo, viu a dúvida nas feições de Teodoro e prontamente o tirou da obrigação de reconhecê-la:

— Você não vai se lembrar de mim! Sou a Teleca, filha da dona Mimosa, vocês me chamavam de Meleca! Lembra?

— Mele… a Terezinha! — Reconheceu Teodoro. — Mas você está muito… bonita!

— Obrigada! Você também continua o mesmo gato de sempre. — Piscou tímida Teleca.

Teodoro percebeu que aquilo que ele achava impossível estava acontecendo com ele: havia a chance dele se relacionar fisicamente com uma mulher palpável, que, por um distúrbio conceitual ou em consequência da miopia, o achava um gato. E era bonita!

Com o tempo ela soube tudo sobre ele. Tudo menos o namoro ardente de Ricardo e Abelha. E ele soube que ela era auxiliar de enfermagem, que dividia um apartamento com duas colegas de trabalho, Malu e Tina, que Meleca-Teleca-Terezinha era tão solitária quanto ele, que os dois gostavam das mesmas coisas, das mesmas comidas e dos mesmos filmes e que, em suma, eram como a tampa e o gargalo; feitos um para o outro. Com isso, gradativamente, Ricardo cedeu espaço em sua vida para os devaneios de Teodoro, ao que Abelha reclamava: “O que está havendo entre nós, meu amor? Você parece tão distante, Ric! Por favor, não me faça sofrer! Sou sua eterna Abelha!” e Ricardo explicava: “Abelha! Não pareço! estou distante! Ultimamente, com frequência, vou a lugares sem acesso à internet. Os meios de comunicação dos norte-coreanos são deprimentes! Na verdade ando bastante preocupado com a possibilidade de um conflito entre as duas Coreias. Isso não seria bom para os negócios. Um beijo do Ricardo.”.

O relacionamento entre Teodoro e Teleca ganhou volume por quatro meses. Teodoro gostava cada dia mais de sua vida real, mas, em determinados momentos, exatamente o oposto parecia acontecer com Teleca.

— Você parece tão triste! Foi algo que eu fiz? Foi algo que eu disse? Você está contente com nosso namoro?

— Sim! É claro! É que eu sou assim! Estou preocupada com o trabalho e não desligo nunca!

— Quero fazer o que for preciso para ver você feliz!

— Oh! Meu amor! — Sorriu Teleca acariciando o queixo dele.

Então Teodoro, com o coração acelerado, num impulso, deixou escapar o fatídico:

— Você quer se casar comigo?

Os sons desapareceram. Teleca dilatou as narinas inspirando todo o ar do mundo e deixando Teodoro sem fôlego, mas ela, com os olhos brilhando de felicidade, derreteu o suspense e disse:

— Sim, meu amor! É o que eu mais quero!

Nesse momento Teodoro fez um exame de consciência e achou que era a hora de confessar:

— Há uma coisa sobre mim que eu tenho que contar… — Teleca parecia uma coruja curiosa inclinando a cabeça para escutá-lo. Teodoro criou coragem e completou: — Eu estou terminando um relacionamento anterior. Hoje mesmo dou um fim nisso… Só posso viver pra você!

— Eu… Eu não sabia…! — Suspirou Teleca, que se aconchegou ao peito de Teodoro e deixou escapar uma lágrima…

Teodoro não imaginava como poderia terminar sumariamente com Abelha. Como evitar o assédio posterior a Ricardo? Então teve uma ideia! Ele iria matar Ricardo! Simples! Um assassinato virtual é um assassinato sem culpa. Na verdade poderia ser considerado um suicídio experimental! Os homens, amigos de Ricardo, quase todos fakes criados por Teodoro, escreveriam: “O mundo ficou vazio sem você, amigão?”, ou: “Será que Ricardo morreu?” e as meninas diriam: “Não posso acreditar que isso realmente tenha acontecido!” e “Meu coração está sangrando!”. Teria que ser uma morte cheia de mistérios. Talvez deixando, como um efeito colateral que lhe alimentaria o ego, uma saudade de viúva no coração de Abelha. Sentia até uma pontinha de culpa que se diluía quando pensava na vida real com Teleca.  Durante a madrugada mandou a mensagem: “Minha Abelha! Estou indo para Pyongyang. Último acordo com os líderes locais. De lá, vou direto para Paris. Já avisei meu pai. Esse mundo louco não me interessa mais. Não vejo a hora de dar fim a essa espera. Quero tocar em você. Quero só viver com você e amar você. Ricardo.” Depois esperou quatro dias, pacientemente, em que não entrou como Ricardo, mas usava fakes alternativos e lia as mensagens apaixonadas de Abelha. Depois do trabalho lambia sorvetes com Teleca, mais e mais inebriada com a possibilidade de casamento com aquele homem tão maravilhoso. Faziam planos para o futuro e abraçadinhos iam até o apartamento dela onde se submetiam às flautas de Malu e Tina sobre o casamento. Despediam-se com um longo beijo na porta entreaberta e por aí vai, até onde é possível imaginar as variantes de um singelo namoro provinciano.

Depois do quarto dia um dos amigos fakes de Ricardo escreveu em sua linha do tempo, sob a foto de picos cobertos de neve: Baekdu. Essas montanhas geladas esfriaram o coração quente de Ricardo!”, outro, mais jornalístico, postou, seguido por incontáveis compartilhamentos e comentários tristes: “Agora é fato! O megaempresário Ricardo perdeu a vida tragicamente num acidente aéreo em uma região montanhosa e de difícil acesso da Coreia do Norte. Os destroços foram localizados pela Estação Internacional. O corpo não foi encontrado. O mundo dos negócios está de luto e mais pobre. Quem o conheceu sabe que o planeta perdeu um de seus filhos mais capazes. Vai com Deus, meu amigo. Segue a viagem! Nos encontramos qualquer dia!”, e as inúmeras amigas derramaram uma profusão de emoticons de prantos e de corações pulsantes ou explodindo que umedeceram os olhos de Teodoro. Mas não veio nenhuma mensagem de Abelha. Nada! Esfriando o entusiasmo dele sobre as repercussões de sua própria morte. Afinal, a principal destinatária não comparecera ao velório virtual.

Na manhã seguinte empurrou carrinhos, alinhou latas de sardinha, recolheu iogurtes vencidos, sonhou com o casamento e esperou a hora em que encontraria Teleca na parada de ônibus. Mas logo depois do almoço o Bolha, gerente do Boa Compra, bateu no seu ombro e disse que havia uma pessoa querendo falar com ele no escritório. No escritório? Isso não costumava acontecer! E ainda mais com o gerente vindo chama-lo pessoalmente! Teodoro ficou mais aflito quando o Bolha abriu a porta para que ele entrasse, mas ficou de fora de seu próprio escritório. Lá dentro Malu esperava por ele, com o rosto inchado de tanto chorar. Teodoro, sobressaltado, exclamou:

— Ai, meu Deus! O que aconteceu com Teleca?

E Malu gemeu rouca:

— Nossa amiga se foi. Desistiu daqui.

— Mas como? O que foi que aconteceu? — Gritou Teodoro, com um peso esmagando o peito.

— Remédios. Muitos. Ela deixou uma carta pra você. — E mostrou um envelope que Teodoro quase arrancou das mãos da outra para ler trêmulo e sem acreditar:

“Ricardo, meu amor! Minha vida não tem mais sentido! Com sua morte o chão desapareceu! Estava preparada para um amor que transbordaria pelo mundo e agora estou cega e não sinto mais meu corpo! Vou ao seu encontro na eternidade! Amando você loucamente! Sempre! Abelha.” 

Demóstenes e as pedrinhas bonitas.

03/05/2012

Se você acha um saco ler papo furado introdutório pule as letras coloridas e vá direto ao texto…!

Hoje as crianças (e muitos adultos) ficam sem entender as notícias veiculadas pela mídia. Os enredos das histórias estão recheados de expressões jurídicas ou regimentais. Nem sempre é possível distinguir o mocinho do bandido. E os desdobramentos são tão longos e complexos que nós às vezes nos perguntamos: “Esse aí, que agora é o chefe da investigação, não é aquele que havia renunciado pra não ser cassado, naquele outro caso, no mandato anterior?” Antigamente tínhamos o recurso das fábulas, das lendas, e dos contos envolvendo palácios em terras distantes com seus reis solitários e mágicos sinistros. As histórias eram despidas dos meandros e desvios desnecessários e ganhavam versões fantasiosas, diretas e sintéticas, para que as crianças entendessem a trama, com um começo, um meio e um fim, com uma lógica alinhavada perceptível,  para que todos pudessem depreender dali algum ensinamento moral. É claro que as histórias atuais não podem ser tão facilmente simplificadas, tendo em vista a miríade de relacionamentos, principalmente nas questões palacianas. Se os olhos e os ouvidos da lei encontram dificuldades para distinguir um conchavo fisiológico de uma gatunagem explícita, imagine a confusão dos leigos (eu e você) quando ouvimos uma declaração incongruente de um nobre homem público. Será que aquilo foi um arroto de um garganteador ou um deslize de um bandido burro? E, se enveredarmos pela colossal elasticidade nos conceitos de moralidade, e pela análise da carência de critérios e filtros que impeçam que desequilibrados se utilizem da máquina pública, entraremos com os dois pés num tratado sobre a psicopatia – um longo e triste capítulo da relação dos homens com seus líderes – e fugiremos totalmente do tema desta postagem, que é a reutilização da fantasia, para que as nossas crianças possam entender o que vai por aí. Então vamos em frente!

 

 

Conta uma lenda que, num reino muito distante, vivia um homem chamado Demóstenes (o que na língua antiga significava “a força do povo”). Esse homem era o responsável pela retidão nos assuntos e negócios do reino. Todos os acordos dos homens poderosos deveriam ser analisados por ele. Depois que ele escrevesse em um pergaminho: “Avaliei os mais variados aspectos desse acordo e conclui, por minha consciência, que ele obedece aos mais estritos ditames morais e está voltado para o bem de todos. Comunique-se ao rei que é uma proposta ética, e que sua execução depende apenas de sua soberana vontade.” Depois que ele enrolasse o documento e derramasse cera quente para selá-lo com seu carimbo todos ficavam tranquilos, pois Demóstenes havia escrito a sua palavra. Ele era o guardião da Ética. E isso era inquestionável.

Mas um dia, estando muito quente, Demóstenes, cansado de tanto trabalhar, passou perto de uma cachoeira e resolveu se banhar. Ficou nu, deitou suas roupas sobre as pedras à margem do rio e foi se deliciar com o frescor das águas, que caiam do céu refletindo os raios do sol como um véu de prata riquíssimo que os anjos displicentemente estivessem distribuindo sobre aquele pedaço de mundo. O guardião da Ética ficou inebriado com tanta beleza e tanto prazer. Sentiu sono e se deitou numa pequena praia à sombra da cachoeira. Mas mal havia cochilado ouviu uma voz: “Por que ter esse prazer por um momento tão curto se ele pode ser todo seu por todo o tempo?” Demóstenes deu um salto, assustado, pois acreditava estar sozinho naquele lugar, e, como estava nu, entrou na água, deixando só a cabeça de fora. “Quem… quem está aí?” Gaguejou. E a voz voltou a falar: “Sou o espírito da cachoeira, nobre guardião da ética, e quero lhe oferecer uma vida rica que faça justiça à sua incansável dedicação.” Demóstenes, ainda confuso e não podendo acreditar na realidade daquela situação, exclamou: “Sei que não sou devidamente pago pelo que faço, mas também sei que não é possível ficar eternamente nesse recanto tão agradável, pois tenho trabalho a fazer!” E a voz retrucou: “Meu bom homem! Aquele que dispõe dos meios não precisa vir até aqui, mas manda que o prazer vá até ele.” Por um instante Demóstenes ficou intrigado com aquelas palavras, mas depois achou melhor voltar à sua vida, pois não ficava bem ao guardião da Ética nem ter pensamentos que não combinassem com a essência de sua função. Procurou as roupas, as vestiu rapidamente, e saiu dali. Mas o que Demóstenes não sabia era que enquanto ele falava com a voz da cachoeira os bichinhos do lugar haviam escondido em seus bolsos pequenas pedras preciosas.

De volta a sua sala de trabalho Demóstenes percebeu aquelas bonitas pedrinhas, que imaginou haviam rolado para os seus bolsos na pressa de se vestir, e como ele só sabia distinguir o certo do errado, mas não fazia a menor ideia sobre a diferença entre um quartzo e um diamante, colocou as pedrinhas numa tigela que estava sobre a mesa e se esqueceu delas.

Nesta sala circulavam muitas pessoas, desde as mais importantes, que desempenhavam funções vitais dentro do reino, até os costumeiros parasitas e espertos que orbitam o poder em busca de oportunidades escusas, e entre umas e outras algumas sabiam perfeitamente a diferença entre uma pedra preciosa e um cascalho. Essas pessoas foram, gradativa e indiretamente, ensinando ao guardião da Ética o significado das palavras ditas pela a voz na cachoeira. Um dos ministros propôs a troca de uma daquelas pedrinhas por uma carruagem nova.  Depois um dos conselheiros do rei fez questão de lhe oferecer uma casa mais ampla e arejada em troca de quatro pedrinhas que, aos olhos de Demóstenes, nada significavam. E por fim, a mais linda cortesã que circulava pelo palácio, e que jamais havia correspondido a um olhar seu, se ofereceu para deitar com ele pelas pedrinhas restantes.  E ela organizou reuniões e vieram os amigos e a vida de Demóstenes de transformou numa festa. Nesse ponto ele compreendeu que as pedras tinham um grande valor, compravam coisas que ele jamais poderia comprar com seu ganho como guardião da Ética, e que, em consequência de sua avidez e imprevidência, todas as pedras haviam acabado.

Um dia Demóstenes acordou e viu que a cortesã não estava mais lá. Com ela desapareceram os amigos. A casa estava vazia e triste. A carruagem precisava de uma reforma. Os empregados contratados por aquela amiga circunstancial queriam melhores salários e reclamavam da falta de víveres na dispensa. O guardião da Ética voltou ao trabalho acumulado e sentiu o gosto amargo de sua pequenez financeira. Passou a namorar a ideia de voltar à cachoeira onde encontraria, certamente, mais pedras preciosas. Pesou em sua consciência, por um breve momento, a relação entre os seus desejos e suas obrigações profissionais, e, mais brevemente ainda, criou mecanismos mentais toscos para justificar o seu pecado – afinal, um homem melhor situado economicamente poderia trabalhar com mais tranquilidade pelo bem de todos. E, impaciente, foi em busca da cura para sua aflição.

Lá estava a cachoeira, com seu véu líquido caindo e cantando melodiosamente, mas Demóstenes não tinha sentidos para a beleza do lugar ou para a água refrescante; ele procurava, sofregamente, no lugar onde no primeiro dia deixara suas roupas, possíveis gemas, diamantes, pedrinhas preciosas faiscantes e coloridas, que lhe devolvessem a fortuna perdida. Mas, por mais que procurasse, nada encontrou. Irritado, gritou para a cachoeira: “Onde estão aquelas malditas pedras?” E a cachoeira respondeu: ”Se você está falando das pedras que você levou naquele dia em que veio se banhar posso afirmar que só você sabe o destino delas!” Demóstenes, perplexo, se defendeu: “Como assim? Levei daqui? Você está insinuando que eu roubei as pedras?” E a cachoeira continuou: “E você, o que está insinuando? Que as pedras caminharam com suas próprias perninhas e se enfiaram em suas roupas?” Demóstenes ficou num silêncio confuso e a cachoeira arrematou: “Ora, ora, meu bom homem! Veja em que embrulhada sem lógica você se meteu! É verdade que posso lhe transformar num homem rico, mas o uso que você fará dessa riqueza não depende de mim. Tudo indica que algumas pedras, das quais eu gostava muito, e que já estavam por aí há milhares de anos, foram levadas e, pelo que me consta, usadas por você, conforme a sua consciência. Agora você quer mais! E pode tê-las. Só que dessa vez eu não vou deixar que você simplesmente as leve graciosamente”. Demóstenes, irritado, retrucou: “Você… você está tentando me corromper, e eu… eu sou…” Mas a cachoeira o interrompeu: “Essa questão já foi esclarecida na sua chegada ansiosa em busca de mais pedras: você se corrompeu! Agora estou lhe propondo que estabeleçamos um preço pela continuidade desse seu novo estado: corrompido e, quem sabe, rico. Vamos negociar?” Demóstenes não sabia o que dizer. Todos os seus argumentos pareciam ocos. Algo dentro dele se contorcia em nome da Ética, mas suas novas necessidades gritavam por uma fonte de recursos que as mantivesse. A cachoeira disse: “Bem! Você precisa de tempo pra pensar. Compreendo. E tempo é algo que eu tenho de sobra. Quando você se decidir, amanhã, ou em mil anos, apareça!” Talvez não fosse de tristeza, mas de resignação, a máscara que ficou estampada na face de Demóstenes quando ele fez a pergunta que mudou a sua vida: “Qual é o negócio”?

O espírito da cachoeira tomou a forma humana e ficou conhecido como o Homem Bom, e, sorridente, passou a fazer parte dos mais importantes círculos do poder. Demóstenes, o guardião da Ética, como parte do acordo entre eles, abria as portas para o Homem Bom, e patrocinava moralmente os encontros dele com os homens poderosos do reino. Em pouco tempo o Homem Bom fazia parte da máquina que administrava os inúmeros negócios daquela terra. Estava intimamente envolvido com os ricos, com os lordes, com os juízes, e com os governadores das províncias distantes. Em contrapartida não faltaram mais pedrinhas bonitas e valiosas ao guardião.

O trabalho de Demóstenes, como guardião da Ética, censurando os negócios de condes e barões e ocasionalmente acusando-os de conluios, lhe rendia muitos inimigos. Esses inimigos observavam Demóstenes como aves de rapina e começaram a notar os sinais de seu mágico enriquecimento. Pelos corredores do palácio surgiram cochichos intrigados com a aparente relação entre o aparecimento do Homem Bom e a nova vida de Demóstenes. Brotavam os inevitáveis invejosos. Grupos se aliavam para trocarem segredos vingativos. E, como muitas pessoas murmuravam sobre a mesma coisa, um dia aquela coisa acabou caindo nos ouvidos da polícia secreta do rei.

“Não posso acreditar! Minha polícia me traz notícias de que o guardião da Ética está enriquecendo ilicitamente num envolvimento com esse a que todos chamam de o Homem Bom”. Bradava, indignado, o rei para um de seus conselheiros. E esse, ponderadamente, argumentava: “Majestade, são necessárias provas que confirmem essa notícia. Ordene que a polícia apresente algo mais palpável antes de julgar o guardião”. E o rei, que era um homem justo, concordou: “Farei dessa forma! Exigirei uma prova antes de tomar uma posição definitiva”. E como tudo o que é dito em segredo entre duas pessoas só pode permanecer eternamente em segredo se uma das pessoas morrer imediatamente, no dia seguinte a notícia que corria de boca em boca pelo palácio era de que o guardião da Ética e o Homem Bom haviam perdido as graças do rei, e que a queda deles era uma questão de tempo. Os desafetos de Demóstenes sorriam antegozando a vingança e os sócios do Homem Bom corriam para uma última negociata antes que a fonte secasse.

O chefe da polícia do rei conhecia um homem que tinha o nome de Técnico. Esse homem viajara pelo mundo e havia adquirido vasto conhecimento das artes mágicas. Ele sabia como conjurar milhares de microfadas espiãs, que, uma vez orientadas, se infiltravam em todos os lugares e escutavam as conversas mais secretas. E assim, por um bom período, sem que os grandes do reino suspeitassem, circularam entre eles olhos e ouvidos encantados. E finalmente, a uma ordem do Técnico, as fadinhas voltaram e reproduziram tudo o que haviam descoberto. Nesse momento se percebeu que todos desconheciam um importante detalhe sobre o Homem Bom: ele era, ao mesmo tempo, o espírito da cachoeira, e que, por mais cuidadosas que as cachoeiras tentem ser, elas sempre respingam.

As microfadas começaram a falar e não pararam mais. A cada nova narrativa iam sendo colocados em dúvida os conselhos dos conselheiros, os votos de fidelidade dos nobres que se diziam fiéis, e o julgamento dos juízes. O rei, mudo, duvidava de todos e intimamente perguntava se ele próprio estaria acima das dúvidas. O povo, impotente, não sabia em quem confiar. O Homem Bom permaneceu rico, mas  foi levado para o calabouço e Demóstenes perdeu sua função como guardião da Ética. Alguns doutores da lei pediram ao rei que promovesse acareações entre os inúmeros envolvidos, mas esses utilizaram dispositivos legais, muito comuns naquele reino, tais como o direito de ficar calado e o direito de não dizer a verdade, e mesmo as provas que o Técnico obteve de nada valeram. Algumas pequenas fadinhas morreram roucas em vão, e contam os viajantes que recentemente estiveram naquela terra que até hoje não foi possível contabilizar todos os respingos.

Enquanto isso, o antigo guardião da Ética, agora mais experiente, vive das pedrinhas bonitas que conseguiu guardar…!

Ninguém e o apetite do Leão

27/02/2012

― Ele paga impostos? ― Perguntou o rei, repentinamente, ao ministro.
― Hum! Não! ― Disse o ministro, e se apressou em justificar aquele fato insólito. ― Esse homem não tem nada, majestade. Na verdade o lençol que o cobre foi emprestado pela guarda para não trazê-lo despido a vossa presença.

Na terra em que Ninguém vivia havia um rei chamado Leão (ele era rei por que seu pai havia sido o rei anterior, e antes do pai dele fora o seu avô, e assim retro sucessivamente até onde era possível espremer a memória daquele povo, “per omnia saecula saeculorum, amen”. Alguns dos reis haviam sido bons (e outros não haviam sido bons (mas aquilo que eles haviam realmente sido só é saudável dizer entre parênteses (e, portanto, nós os fechamos todos e ponto)))).

Como alguém podia se chamar Ninguém? Todos eram alguém! Um dia o rei soube que em sua terra havia alguém que tinha aquele nome estúpido. Entre curioso e determinado a mudar aquela situação, que ele achava incômoda (talvez por que no mundo existam pessoas que quando não conseguem infernizar a vida de alguém ficam doentes e assim resolvem pegar o pé de ninguém em especial), o rei mandou chamar Ninguém.
Ninguém foi apresentado ao rei. Ele havia sido enrolado num lençol por que quando o encontraram ele estava nu – assim como também não tinha uma casa e nem um cão. Ele trazia sob o braço uma pedra de bom tamanho e pediu permissão para depositá-la no chão, a seu lado, enquanto estava ali.
― Quem é você? ― perguntou o rei.
― Ninguém! ― respondeu Ninguém, humilde!

O rei sorriu desdenhosamente, levantou-se, e de mãos às costas, arrastando suas preciosas roupagens, deu uma lenta volta ao redor de Ninguém, avaliando-o e saboreando a sua magnitude frente àquele trapo humano.

― Quem lhe deu esse nome idiota? ― rispidamente trovejou o rei.
― Todos! ― sussurrou, com a voz trêmula, Ninguém.
― Como…?! ― surpreendeu-se o rei, direcionando um olhar interrogativo aos seus ministros, que estavam presentes.
― É exatamente isso, majestade! ― disse um dos ministros com uma vênia. ― Todas as pessoas com quem contatamos, enquanto procurávamos esse homem, disseram que ele tem esse nome por que todos assim o chamam e não conhecem nenhuma outra forma de identificá-lo. 
― Mas isso é um disparate! Todos quem? ― vociferou o rei, querendo do ministro uma melhor explicação.
― Todo mundo! Os que são seus súditos e aqueles que não o são… ― disse o ministro, murchando enquanto via os olhos do rei se arregalarem como eco às palavras que haviam escorregado de sua língua; e, sabendo que a sua permanência como ministro (e de sua cabeça ligada ao resto) dependia da capacidade de elaborar consertos rápidos aos furos no raciocínio, emendou: ― Tais como os viajantes, comerciantes e magistrados de outros reinos, que estão aqui entre nós. 
― Ah! ― Disse o rei que, voltando ao trono, deu as costas ao ministro e a Ninguém (e perdeu a oportunidade de ver o “Ufa!” do ministro e o sorriso maroto dos outros).

Já sentado, depois de acomodar as complexas vestes, o rei apoiou o queixo sobre a mão, avaliou a própria impotência contra aquela estranha e desafiadora unanimidade em suas terras, em que, ele sabia, havia um exército de opositores e bajuladores, e voltou à carga.

― Você vai receber um nome adequado!  ― Sentenciou o rei, e Ninguém, sem levantar os olhos, sacudiu a cabeça afirmativamente. ― Um nome digno de um súdito meu! ― Continuou o rei, divagando, e Ninguém continuou a balançar a cabeça. ― Um nome dado por seu rei! ― Coroou o rei, e Ninguém, sem saber se deveria parar ou continuar a concordar, por via das dúvidas não parou mais de sacudir a cabeça com medo de parecer mal agradecido (embora tivesse vontade de perguntar ao rei como ele ia fazer para que os outros parassem de chamá-lo de Ninguém).

― Ele paga impostos? ― Perguntou o rei, repentinamente, ao ministro.
― Hum! Não! ― Disse o ministro, e se apressou em justificar aquele fato insólito. ― Esse homem não tem nada, majestade. Na verdade o lençol que o cobre foi emprestado pela guarda para não trazê-lo despido a vossa presença.
― Nada?! ― Questionou o rei, surpreso pela segunda vez.
― Absolutamente nada! ― Confirmou o ministro. ― Ele dorme sob as árvores e come circunstancialmente em troca de alguma tarefa informal que desempenhe aqui e ali, ou conforme a caridade das outras pessoas.

O rei permaneceu estático, sem saber de que forma poderia exercer o seu poder sobre aquele homem, e por fim, já ficando cansado da presença de Ninguém, com um gesto de enfado, disse:
― Saia!
Ninguém, percebendo que a desagradável situação havia finalmente terminado, sem saber quantas mesuras as circunstâncias exigiam, se enredou com o pano que o cobria, tropeçou atrapalhado e ficou nu.

Por um curto instante permaneceu paralisado e houve um constrangimento geral, mas se apressou em pegar a pedra para ir embora. Ao que o rei, apontando para a pedra, perguntou:
― E essa pedra? O que você faz com ela? ― E Ninguém, como quem é pego roubando, deixou cair a pedra no chão, olhou para os próprios pés e respondeu:
― Deito a cabeça nela pra dormir, meu rei. ― Gemeu.
― Mas nessa pedra?! ― Exclamou o rei, irritado por estar novamente surpreso num espaço tão curto de tempo.
― É a que melhor encaixou na minha cabeça… ― Explicou, se desculpando, Ninguém.
― Saia daqui e leve a sua pedra! ― Gritou o Rei, indignado.
― Na verdade a pedra não é minha…! ― Sorriu Ninguém, achando graça de sua equivocada propriedade sobre a pedra.
Em socorro à expressão confusa do rei o ministro esclareceu:
― O que esse homem está indiretamente dizendo é que essa pedra, sendo parte do solo, e sendo ele a base do seu reino, na verdade, pertence a vossa majestade…
― Ah! ― Entendeu o rei, que ficou meditando sobre o assunto.

Como o silêncio se prolongou e tudo indicava que o seu tempo ali havia terminado, Ninguém respirou fundo e se atreveu a perguntar baixinho:
― Posso ir?
― Vá, vá. ― Respondeu Leão, distraído. ― Mas deixe a minha pedra.

A Epopéia Nefilim e a Origem do Homem

17/02/2012

O texto a seguir, em sua essência, não é meu. Foi compilado há 5 anos de inúmeras fontes escritas que falam dos mitos mesopotâmicos sobre o tempo em que seres interpretados como deuses teriam vivido no planeta Terra. Entre as fontes, talvez uma das principais, encontra-se a controversa obra literária de Zecharia Sitchin, embora muitas coisas que impunemente acrescentei teriam causado desconforto ao recentemente falecido autor. Agora, por ocasião da postagem, observei que esse assunto foi envelhecendo e já é citado em inúmeros pontos da internet. É só você usar uma ferramenta de busca para as palavras que julgar estranhas e conferir. Não vou entrar no mérito da veracidade do que é relatado. Procurei apenas contar uma história a partir das informações que obtive, tendo como base o que foi escrito pelos antigos povos daquela região. Tomei a liberdade de ocasionalmente colori-la com uma terminologia mais moderna, para melhorar o sabor, e, espero, que ninguém a considere como um documento histórico.

A EPOPÉIA NEFILIM E A ORIGEM DO HOMEM    

1)      Os exploradores espaciais – Eridu, a primeira cidade

Os Nefilim chegaram à Terra logo após o período glacial que terminou há 450 mil anos (Estágio de Mindel-Riss no Pleistoceno). Eles seriam originários de um planeta chamado Nibiru (ne-be-ru, “onde os caminhos se cruzam”)(ou quem sabe um portal entre duas dimensões), governado por Marduk, conforme nos informam os textos mesopotâmicos da Suméria e da Acádia, as mais antigas civilizações humanas. (Aqui o Google é prolífico ao definir Marduk tanto como um planeta do mal – confundindo a figura do governante com a do planeta –  como mesclando incontáveis imagens de bandas de roque performático com gosto para visuais satânicos.) (Nibiru, para os desinformados, é o nome do planeta associado ao final dos tempos em 21 de dezembro desse ano – vide calendário Maia). Naquele tempo a humanidade – o gênero homo sapiens – ainda não existia e a história chegou até nós, muito posteriormente, pela narrativa dos próprios Nefilim, aos primeiros humanos capazes de escrevê-la. Esses humanos consideravam os Nefilim como deuses e seus registros influenciaram toda a gênese das religiões do planeta.

Naquela época dois terços da terra firme estavam cobertos pelo gelo, o nível do mar era 180 a 200 metros abaixo do atual, e poucas áreas de clima temperado ofereciam condições favoráveis para a instalação de uma colônia. O local de pouso mais adequado era a planície entre os rios Tigre e Eufrates, na antiga mesopotâmia, onde atualmente fica o Iraque; a temperatura mais amena, a água em abundância e o solo fértil apontavam esta região como uma das opções lógicas, assim como os vales do Nilo e do Indo, mas a presença do petróleo como rica fonte energética de fácil obtenção deve ser sido determinante na escolha. É curioso observar que a palavra Éden origina-se do termo acádio edinu (planície), que por sua vez origina-se do sumério edin (casa dos divinos ou íntegros). (Coisas das línguas.)

A primeira colônia Nefilim foi estabelecida próxima à margem do Rio Eufrates, junto ao pântano que naquele tempo ocupada a região que incluía a foz dos rios da mesopotâmia e boa parte do Golfo Pérsico. Seu nome era Eridu (em sumério e-ri-du significava “casa ao longe construída”; em persa ordu é “acampamento”; em alemão erde é “terra colonizada” assim como em inglês médio é ertha; e ainda, em aramaico, aratha ou ereds é “terra”, em curdo é erd ou ertz e em hebraico é eretz; e por fim o termo earth é, atualmente, “terra” em inglês, referindo-se ao planeta). O Nefilim que chefiou os trabalhos de exploração do novo planeta e administrou Eridu era En-ki (senhor do solo firme), filho de Anu e irmão de En-lil e Nin-ti, que também era sua esposa. Enki designou outros Nefilim para o saneamento dos pântanos e rios, para o cultivo de plantas e melhoria das sementes nativas, para a criação de peixes e outros animais, e para a fabricação de tijolos e construções. O trabalho era executado por um segundo escalão de Nefilim, que os sumérios chamavam de anunnaki. Os registros sumérios indicam que o primeiro grupo de exploradores aguardou 28800 anos pela segunda leva Nefilim. Não sendo possível determinar se os nomes próprios atribuídos às entidades se referiam a indivíduos assombrosamente longevos ou a agrupamentos ou equipes, que, pelos padrões humanos, também seriam extremamente duradouros. Outras correntes apontam com uma solução alternativa para as disparidades temporais apresentadas nos textos sumérios. Segundo essas correntes os Nefilim não teriam vindo do espaço, mas de uma dimensão paralela que periodicamente entra em sincronia com a nossa ocasionando interferências físicas e permitindo a passagem de indivíduos. Se a velocidade do fluxo temporal nessa hipotética dimensão for diferente da nossa teríamos uma teoria explicativa sobre os evidentes contracensos nas datas das reaparições Nefilin. (A menos que eles fossem realmente deuses!) O que não deixa de ser um pensamento interessante e abre um bom campo especulativo para os que pretendem criar um paralelo entre os inúmeros achados inexplicáveis que se misturam em nossa arqueologia e as datações proféticas apresentadas por maias e afins. É só começar a calcular!

2)      A administração de Enlil – O propósito da colonização Nefilim

Há 420 mil anos, no fim do período glacial, chegou à Terra o Nefilim Enlil, o outro filho de Anu, a quem os sumérios atribuíam o papel de principal coordenador da colônia (e que a humanidade passaria a referenciar como o deus criador). Foram estabelecidas as localizações das cidades e instalações Nefilim a serem construídas com o objetivo de servirem como marcos de um espaço-porto na mesopotâmia(*). Começava a segunda fase da exploração do planeta com aumento da população anunnaki e importação de mais equipamento. Enquanto Anu comandava a nave mãe e Enlil assumia o comando da colônia, Enki ganhou outras funções e passou a ser chamado E-a (senhor das águas ou senhor do mundo inferior), ou ainda Bea Nimiki (senhor das minas). A ordem era incrementar a extração de metais para atender às necessidades do planeta Nibiru. No desenrolar da história percebe-se que esta transferência de atribuições gerou um antagonismo entre Enki, o verdadeiro pioneiro, o que organizava as operações anunnaki, e Enlil, que permanecia no conforto do centro de controle da missão colonizadora.

(*) Cidades ou instalações Nefilim que foram destruídas pelo dilúvio (ver mapa):

  1. Eridu – o acampamento pioneiro, a cidade de Enki.
  2. Larsa – (La-ar-sa, “vendo a luz vermelha”) o centro administrativo da missão colonizadora, a cidade de Enlil.
  3. Nippur – centro de controle espacial, onde viviam os anunnaki especialistas em comunicações e os Igigi responsáveis pelas viagens de ida e volta entre a terra, a estação orbital e a nave mãe.
  4. Badtibira – centro industrial coordenado por Nannar, filho de Enlil.
  5. Larak – (La-ra-ak, “vendo brilhante halo”) a cidade dos deuses que não foi encontrada – cuja localização mais lógica seria complementando a linha de pouso Badtibira-Shuruppak-Nippur-Larak-Sippar.
  6. Sippar – o espaço porto, o centro de lançamento de foguetes coordenado por Shamash, filho de Nannar, neto de Enlil e bisneto de Anu.
  7. Shuruppak – centro médico Nefilim coordenado por Ninhursag.

Mapa Mesopotâmia

Enki passou a seu filho Gi-bil (aquele que queima o solo) a “barra de mineração” (um provável banco de dados referentes às técnicas de mineração). Os metais eram extraídos no sudeste africano e levados em ma-gur ur-nu ab-zu (cargueiros para minérios do mundo inferior) para a mesopotâmia onde iam alimentar as fundições de trabalho em metal em Badtibira. Na África a região de mineração era conhecida como A-ra-li (local de brilhantes veios), situada na selva montanhosa da bacia do Zambese onde hoje fica a Rodésia e o nordeste da África do Sul. Os Nefilim construíram em Arali a cidade de Gab-kur-ra (no coração da montanha) onde alojaram os anunnaki que executavam o trabalho braçal de mineração. O motivo primário da vinda dos Nefilim à Terra era a mineração de ouro, prata e cobre, por serem moles, maleáveis, e condutores de calor e eletricidade. O ouro em especial era fundamental na produção de microprocessadores. Mas há registros de que se interessavam também por platina, cobalto e urânio.

3)      A revolta dos anunnaki  – A  criação do adapa adama.

Os textos sumérios fazem menção a 300 anunnaki que permaneceram em órbita ou faziam o transporte espacial como Igigi (astronautas) e 600 que desceram à Terra como trabalhadores. Entre os anunnaki que viviam no planeta, os mineradores de Arali, mesmo contando com ferramentas e máquinas poderosas, eram os que desempenhavam o trabalho mais árduo. O termo sumério kur-nu-gi-a (terra onde deuses-que-trabalham mineram em túneis profundos) ganhou o significado posterior de “terra sem regresso”, tal era o caráter punitivo daquele trabalho. Há cerca de 300 mil anos o cansaço, o desgosto e a revolta levaram estes anunnaki a um motim enquanto Enlil fazia uma visita de inspeção às minas. Os mineiros destruíram suas ferramentas e pressionaram o coordenador para que encontrasse uma solução para o impasse. Foram chamados Anu e Enki e uma assembléia Nefilim foi convocada em Gabkurra.

O relato desta assembléia Nefilim ocorrida há 300 mil anos foi conservada em registros sumérios e é aqui sintetizada porque os fatos que a originaram e suas conseqüências foram determinantes para a espécie humana:

Anu exigiu um inquérito para apurar as responsabilidades. Os anunnaki permaneceram unidos e disseram:

“Cada um de nós declarou guerra! Nós que somos os responsáveis pelas escavações afirmamos que o pesado trabalho que nós é imposto nos mata. Grande é nosso cansaço e nossa angústia.”

Enlil, indignado, fez um ultimato: abdicaria caso os chefes do motim não fossem executados. Mas Anu, ponderado, disse:

“De que nós os acusamos? Suas queixas são justas! O trabalho de todos os dias dos anunnaki é realmente pesado e angustiante. Nós podemos ouvi-los.”

Enki, aproveitando a oportunidade, tomou a palavra na assembléia e disse:

“Nós temos a ciência e o poder para criar um trabalhador primitivo a partir dos seres nativos! Que ele suporte o jugo! Que ele sofra a fatiga dos anunnaki.”

A sugestão da criação de um trabalhador primitivo foi aceita. Ninhursag (aqui chamada de Mami) foi intimada a produzir um adamu (um trabalhador). Enquanto os anunnaki aguardavam, Ninhursag e Enki montaram um bit-shi-im-ti  (“casa onde o vento da vida é soprado” – um complexo biotécnico-hospitalar) para levar a cabo a tarefa proposta. Depois do necessário período (que deve ter sido longo) ela convocou novamente a assembléia e disse:

“Anunnaki! Vocês me incumbiram de uma tarefa e eu a completei. O trabalho pesado já não é vosso… vocês estão livres! Vossa fadiga foi transferida para o trabalhador que criei. Já existe um adapa (modelo de um terráqueo)!”

Ao que os anunnaki correram e lhe beijaram os pés em agradecimento. Um adapa adama fora criado. Um trabalhador feito a partir de um terráqueo fora criado. O trabalho seria feito pelos seus iguais gerados a partir dele.

Enki já estudava a fauna do planeta há milhares de anos. O homo erectus apresentava-se como um animal passível de domesticação, mas era muito inteligente e selvagem para ser transformado direta e imediatamente num dócil animal de trabalho. O longo e gradativo processo de domesticação através de uma reprodução seletiva ainda não resolveria todos os problemas funcionais se a intenção era que eles fizessem o trabalho dos anunnaki. O homo erectus era inapto fisicamente para usar as ferramentas Nefilim. E seria necessário um cérebro melhor, capaz de compreender a fala e as instruções recebidas, sendo, ao mesmo tempo, obediente para ser útil como servo. Enki optou pela manipulação genética.

Assim, há cerca de 300 mil anos os Nefilim criaram o modelo de um homem original da Terra (adapa), um trabalhador (adama), por manipulação genética, combinando os gens do homo erectus, o hominídeo mais evoluído disponível, com os gens Nefilim. Este ser híbrido foi criado, em todos os seus aspectos externos, à imagem e à semelhança de seus criadores, mas programado para um curto período de vida e sem a capacidade de procriar (sem acesso aos “frutos do conhecimento”).

Os textos sumérios referem que Ninti, a esposa de Enki, teve implantado em seu útero um óvulo de uma fêmea homo erectus fertilizado com material genético de um Nefilim. Assim Ninti gerou e deu à luz o primeiro adama, e este, como modelo, forneceu material para que fossem clonados os trabalhadores requeridos pelos anunnaki. Foram gerados seres que se assemelhavam tanto a machos como a fêmeas (em úteros Nefilim, pelo mesmo processo a que Ninti se submetera, ou por métodos artificiais utilizando incubadoras, tendo em vista a demanda exigida). Os adama produzidos eram todos híbridos e todos inférteis por determinação de Enlil. Os adama criados se destinavam ao trabalho nas minas em Arali, mas os anunnaki da mesopotâmia também exigiram servos. Assim alguns adama foram exportados e passaram a cuidar dos animais, das árvores, e dos jardins em Edin.

4)      O homo sapiens e o dilúvio.

O antagonismo entre Enlil e Enki continuou após a solução do problema gerado pelo motim anunnaki. Este antagonismo levou a um novo conflito que definiu o início da civilização humana. Enki, que sempre fora contrário à determinação de Enlil de que os adama fossem estéreis, resolveu interferir com uma solução cientifica para a questão. Não há textos que expressem a causa específica para os acontecimentos ocorridos nos jardins de Edin e registrados pelos sumérios. O fato é que Enlil permanecia politicamente no comando da colônia Nefilim enquanto Enki desempenhava a coordenação dos trabalhos de exploração, mineração, e pesquisa. O mito de Adão e Eva no paraíso sendo tentados pela serpente a comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal foi a versão mais popular que sobreviveu da história original. O termo bíblico nahash (cobra) deriva da raiz suméria que significa decifrar, descobrir, ou aquele que pode decifrar ou descobrir. Enki, o cientista chefe dos Nefilim, o que melhor podia resolver o problema da esterilidade dos híbridos, em Edin, corrigiu a falha original dos adama. Com isto Enki ganhou na versão bíblica a representação de uma serpente, devido ao jogo de palavras e significados, e nascia o homo sapiens como espécie. Havia sido apresentado aos adama o conhecimento do bem e do mal. Os adama ganharam a capacidade de se produzir, já não eram adama, mas Adão e Eva, e “eles viram que estavam nus”. Fora dado um salto sobre os 2 a 3 milhões de anos necessários para transformar o homo erectus em homo sapiens. Criara-se uma lacuna evolutiva e um mistério arqueológico que jamais seria solucionado.

As descobertas na África oriental colocam a transição dos macacos para hominídeos em 14 milhões de anos e situam os primeiros a serem classificados no gênero homo em 2 milhões de anos no passado. O homo erectus utilizado pelos Nefilim há 300 mil anos surgira havia 1 milhão de anos. Uma outra espécie humanóide, a Neandertal, andava pelo planeta quando foi repentinamente varrida do mapa pelo homo sapiens há 35 mil anos. Esses homo sapiens das cavernas receberam o nome de Cro-Magnon, e fisicamente não seriam diferenciáveis do homem atual. Eles vestiam peles, construíam abrigos e armas, viviam em clãs patriarcais e tinham princípios filosóficos e religiosos. Os achados arqueológicos mostram que o Cro-Magnon havia se originado de um homo sapiens ainda mais antigo que vivera na Ásia ocidental e na África há cerca de 250 mil anos. O aparecimento do homem moderno neste momento seria inexplicável do ponto de vista evolutivo sem a interferência Nefilim (ou de um mito qualquer que se assemelhe ao oferecido pela epopeia Nefilin).

Enlil, como forma de punir Enki, fez com que os adama modificados fossem retirados da mesopotâmia e levados para os montes Zagros onde atualmente é a fronteira entre o Iraque e o Irã. Isto ocorreu há 250 mil anos. Neste exílio desenvolveu-se a linhagem inicial do homo sapiens que gradativamente se disseminou para os outros continentes. Dez gerações depois alguns descendentes dos seres humanos banidos de Edin receberam permissão para regressar à mesopotâmia para viverem ao lado dos Nefilim, servindo àqueles a quem consideravam deuses. Segundo os registros sumérios isto aconteceu durante os dias em que Enos (um dos patriarcas bíblicos) viveu.

De 200 mil a 100 mil anos, e de 75 mil anos a 40 mil anos ocorreram novas glaciações durante as quais a população da Terra teve brutais diminuições. Houve um curto período de aquecimento há 40 mil anos e de 38 mil a 13 mil anos ocorreu o último e mais rigoroso período glacial. Nesta época alguns filhos de Nefilim tomavam filhas dos homens como esposas. Os registros antigos apontam Ubar-Tutu, a quem a bíblia chama Lamec, e pai de Noé, como um humano de descendência “divina”, que sob proteção de Ninhursag e Enki, chegou a rei de Shuruppak, a 7ª cidade Nefilim.

Noé, para os sumérios, era conhecido como Utnapishtim, filho de Ubar-Tutu. As indicações são de que a humanidade, nos dias em que Utnapishtim vivia, passava por grande sofrimento em conseqüência da estiagem que se seguira ao último período glacial. As privações atingiam também os Nefilim que não pertenciam à elite, e estes mostravam sinais de degradação, o que incluía todo tipo de permissividade sexual com as mulheres humanas. Enlil, que já se opunha abertamente ao protecionismo dado por seu irmão e Ninhursag a Utnapishtim e sua família, passou a abominar estes relacionamentos, pois via a pureza genética dos Nefilim sendo destruída rapidamente . Os textos sumérios relatam as várias tentativas de Enlil de eliminar a humanidade pela doença e pela fome, e descrevem as ações de Enki em resposta aos apelos de Utnapishtim, curando e alimentando o povo e frustrando os planos do irmão. Enki ria durante as assembléias quando Enlil enfurecido gritava: “Pare de alimentar o povo!”

O fim do período glacial apresentou a Enlil uma impensada forma de aniquilar a humanidade. Aconteceria um dilúvio de grande magnitude. A assembleia Nefilim decidiu ocultar dos seres humanos sua iminente ocorrência e seus efeitos terríveis. A versão bíblica do posicionamento da deidade cristã frente ao destino dos humanos no episódio do dilúvio, adaptada ao posicionamento monoteísta cristão, é cheia de contradições, e coloca a deidade única como ambígua. Os registros mais antigos permitem compreender melhor a história, pois refletem a permanente discordância entre Enlil e Enki. Em assembléia todos Nefilim juraram que guardariam segredo e deixariam os homens a própria sorte. Obrigaram Enki a jurar que não daria aos humanos informações sobre a tragédia que se abateria sobre a colônia e todos os seres vivos.

Quando o dilúvio estava próximo, Enki chamou Utnapishtim à edificação que os humanos consideravam seu templo, e, oculto por um biombo de bambu, contou que uma inundação inevitável iria aniquilar a humanidade em 7 dias (ou num período mensurável de tempo), e lhe deu instruções detalhadas de como poderia construir um barco sem convés e vedado (um sulili, que em hebraico se traduz como soleleth, uma embarcação que pode submergir, ou um submarino) para salvar a si e aos seus, levando os animais, as sementes e os artífices de várias áreas com suas famílias. Enki aconselhou seu protegido de que deveria dar aos outros a desculpa de que construía o barco para sair da mesopotâmia. Iria viver no “mundo inferior” onde encontraria um chão mais fértil, sob as graças de Enki, de quem era seguidor. Com a ajuda de vários habitantes da cidade o barco foi construído e colocado no Eufrates. Enki disse a Utnapishtim que só deveria subir ao barco e fechar as portas quando ouvisse o estremecer dos foguetes de Shamash em Sippar, 180 km a noroeste. Sinal de que os Nefilim estavam procurando a proteção da estação orbital para escapar do dilúvio. Assim fez Utnapishtim. Vieram tempestades colossais e com elas o dilúvio e tudo e todos que estavam no navio se salvaram sem o conhecimento de Enlil.

No fim da última glaciação volumes de gelo de tamanho continental deslocaram-se das massas polares nas calotas do planeta desabando sobre os mares e criaram tsunamis de extrema força destruidora. Isto ocorreu há 13 mil anos. A inundação durou 150 dias. Foi um acontecimento aterrorizante para humanos e Nefilim. Aqueles que os humanos consideravam deuses viram o trabalho de milhares de anos abruptamente destruído, de uma forma muito mais intensa do que todas as expectativas. Do alto da estação orbital os Nefilim amontoados, assustados e famintos, aguardaram o fim do desastre.

Após o dilúvio, quando Utnapishtim desembarcava em terra firme, os Nefilim perceberam que alguém ainda vivia sobre a Terra e desceram ao planeta. Enlil não podia compreender como um homem poderia ter sobrevivido àquela destruição. Um de seus filhos apontou para Enki e disse: “Pergunte a Enki. Ele sabe de todos os assuntos referentes aos humanos e sempre tem seus planos!”

Enki não se furtou à acusação e afirmou que não contara o segredo a nenhum homem, como havia jurado, mas sim a uma parede de bambu em sua casa. Defendeu o valor daquele homem que lutara pela vida usando os meios e conhecimentos empregados. Enki sugeriu a Enlil:

“Já que Utnapishtim demonstrou que não podemos ignorar sua capacidade, cabe agora a nós tomar uma decisão sobre seus direitos”.

Enlil, taticamente se dando por vencido, franqueou o planeta aos humanos.  Os Nefilim auxiliaram os humanos na produção de alimentos, pois da união das duas forças dependeria a sobrevivência de todos. Os Nefilim continuaram a ser tratados como deuses, e ensinaram aos homens os fundamentos que abriram as portas para o domínio de inúmeros campos do conhecimento. A primeira cidade humana foi Kish na localização aproximada de Nippur, onde os rios Tigre e Eufrates se afastam. Os Nefilim acompanharam o nascimento da civilização suméria há cerca de 4500 AC e assessoraram o estabelecimento das primeiras monarquias mesopotâmicas, e nos vales do Nilo e do Indo. Eles continuaram com sua política imperial que mantinha os grupos humanos divididos por interesses ou pela língua, para serem melhor controlados, e suas ações refletindo a personalidade de cada Nefilim. O antagonismo de Enki e Enlil se transmitiu a seus filhos e netos. Os Nefilim partidários de uma raça pura foram gradativamente se isolando, criando seus reinos particulares e exigindo fidelidade de pequenos grupos humanos. Por volta de 3000 anos AC o número de mestiços gerados entre os humanos e os Nefilim já era maior do que o número de Nefilim puros. A raça original vinda de Nibiru estava em franco declínio. E, gradativamente, o Homo sapiens consolidou sua civilização.

O que não deixa de ser uma história interessante! Que aparentemente teve um fim feliz! A menos que em dezembro se abra um novo capítulo, mas aí vai ser uma outra história!

O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais – 4 de 4)

19/06/2011

(Pra saber como começou clique aqui!)

4

“Não acredito! Você recusou a juventude eterna que um Sarney ou um Hugo Chavez dariam os dez dedos para ter e agora vê problemas em ganhar na mega sena!”

“É que a coisa não ficou bem definida!”

“Como assim homem de Deus?”

“Não é toda mega sena que é uma Senhora Mega Sena. Há uma grande diferença entre ganhar sozinho ou num recorde nacional de acertadores. Também há as acumuladas, as grandonas nas viradas de ano, essas coisas, e você sabe muito bem que dinheiro o governo chupa ou escorrega fácil pelos dedos…”

“Então vamos simplificar!” Disse Ariel. “Eu posso lhe garantir que vai ser uma super mega sena acumulada, tendo você como único acertador, e num futuro muito próximo. Está bem assim?”

“É que aí surge um outro problema.” Questionei.

“Ah! Não acredito! Que tipo de problema você ainda consegue ver nessas circunstâncias especialíssimas?”

“Veja bem!” Argumentei. “Eu tenho vinte e oito anos, estou num casa-não-casa com uma mina aí, pretendo ter filhos, e ainda curto a minha mãezinha… Com toda essa grana a segurança dessa gente vai se transformar num problemão…”

Ariel se levantou, ergueu os braços e as asas e gesticulava exasperado: “Você muda de cidade, de país, contrata uma empresa de segurança, muda de identidade, finge que é pobre…”

“Eu não havia pensado dessa forma, Ariel, você foi de grande ajuda, acho que me decidi…”

Mas nessa hora houve um relâmpago cegante dentro da sala e em seguida uma trovoada ensurdecedora e Ariel disse: “Desculpa! É o meu celular… pensei que estava no silencioso.” E atendeu o aparelho falando lá com seu pessoal, por momentos parecendo surpreso, e em outros visivelmente enfurecido.

Por fim desligou e disse. “Um dia ainda pego um destes anjos estagiários, corto as asas dele e mando o infeliz fazer um treinamento de mil anos no Haiti.”

Eu alheio às questões administrativas da Diretoria estava ansioso para comunicar pro Ariel que afinal havia tomado uma decisão. “… pois é, Seu Anjo, acho que já tenho uma resposta pra você…”

Mas Ariel cortou a minha conversa e disse: “Esqueça, houve um erro no setor de registro. Não era você que tinha que fazer a escolha. Destinatário errado. Essas coisas da burocracia. Só perdi o meu tempo… e o seu, é claro! Mil perdões!”

“Mas e a juventude eterna? e a mega?”

“Fica pra próxima! Fui!”

E ele desapareceu num VUPT como quem suga todo o ar da sala e ficou apenas uma pena branca que lentamente foi planando até cair aos meus pés.