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A Epopéia Nefilim e a Origem do Homem

17/02/2012

O texto a seguir, em sua essência, não é meu. Foi compilado há 5 anos de inúmeras fontes escritas que falam dos mitos mesopotâmicos sobre o tempo em que seres interpretados como deuses teriam vivido no planeta Terra. Entre as fontes, talvez uma das principais, encontra-se a controversa obra literária de Zecharia Sitchin, embora muitas coisas que impunemente acrescentei teriam causado desconforto ao recentemente falecido autor. Agora, por ocasião da postagem, observei que esse assunto foi envelhecendo e já é citado em inúmeros pontos da internet. É só você usar uma ferramenta de busca para as palavras que julgar estranhas e conferir. Não vou entrar no mérito da veracidade do que é relatado. Procurei apenas contar uma história a partir das informações que obtive, tendo como base o que foi escrito pelos antigos povos daquela região. Tomei a liberdade de ocasionalmente colori-la com uma terminologia mais moderna, para melhorar o sabor, e, espero, que ninguém a considere como um documento histórico.

A EPOPÉIA NEFILIM E A ORIGEM DO HOMEM    

1)      Os exploradores espaciais – Eridu, a primeira cidade

Os Nefilim chegaram à Terra logo após o período glacial que terminou há 450 mil anos (Estágio de Mindel-Riss no Pleistoceno). Eles seriam originários de um planeta chamado Nibiru (ne-be-ru, “onde os caminhos se cruzam”)(ou quem sabe um portal entre duas dimensões), governado por Marduk, conforme nos informam os textos mesopotâmicos da Suméria e da Acádia, as mais antigas civilizações humanas. (Aqui o Google é prolífico ao definir Marduk tanto como um planeta do mal – confundindo a figura do governante com a do planeta –  como mesclando incontáveis imagens de bandas de roque performático com gosto para visuais satânicos.) (Nibiru, para os desinformados, é o nome do planeta associado ao final dos tempos em 21 de dezembro desse ano – vide calendário Maia). Naquele tempo a humanidade – o gênero homo sapiens – ainda não existia e a história chegou até nós, muito posteriormente, pela narrativa dos próprios Nefilim, aos primeiros humanos capazes de escrevê-la. Esses humanos consideravam os Nefilim como deuses e seus registros influenciaram toda a gênese das religiões do planeta.

Naquela época dois terços da terra firme estavam cobertos pelo gelo, o nível do mar era 180 a 200 metros abaixo do atual, e poucas áreas de clima temperado ofereciam condições favoráveis para a instalação de uma colônia. O local de pouso mais adequado era a planície entre os rios Tigre e Eufrates, na antiga mesopotâmia, onde atualmente fica o Iraque; a temperatura mais amena, a água em abundância e o solo fértil apontavam esta região como uma das opções lógicas, assim como os vales do Nilo e do Indo, mas a presença do petróleo como rica fonte energética de fácil obtenção deve ser sido determinante na escolha. É curioso observar que a palavra Éden origina-se do termo acádio edinu (planície), que por sua vez origina-se do sumério edin (casa dos divinos ou íntegros). (Coisas das línguas.)

A primeira colônia Nefilim foi estabelecida próxima à margem do Rio Eufrates, junto ao pântano que naquele tempo ocupada a região que incluía a foz dos rios da mesopotâmia e boa parte do Golfo Pérsico. Seu nome era Eridu (em sumério e-ri-du significava “casa ao longe construída”; em persa ordu é “acampamento”; em alemão erde é “terra colonizada” assim como em inglês médio é ertha; e ainda, em aramaico, aratha ou ereds é “terra”, em curdo é erd ou ertz e em hebraico é eretz; e por fim o termo earth é, atualmente, “terra” em inglês, referindo-se ao planeta). O Nefilim que chefiou os trabalhos de exploração do novo planeta e administrou Eridu era En-ki (senhor do solo firme), filho de Anu e irmão de En-lil e Nin-ti, que também era sua esposa. Enki designou outros Nefilim para o saneamento dos pântanos e rios, para o cultivo de plantas e melhoria das sementes nativas, para a criação de peixes e outros animais, e para a fabricação de tijolos e construções. O trabalho era executado por um segundo escalão de Nefilim, que os sumérios chamavam de anunnaki. Os registros sumérios indicam que o primeiro grupo de exploradores aguardou 28800 anos pela segunda leva Nefilim. Não sendo possível determinar se os nomes próprios atribuídos às entidades se referiam a indivíduos assombrosamente longevos ou a agrupamentos ou equipes, que, pelos padrões humanos, também seriam extremamente duradouros. Outras correntes apontam com uma solução alternativa para as disparidades temporais apresentadas nos textos sumérios. Segundo essas correntes os Nefilim não teriam vindo do espaço, mas de uma dimensão paralela que periodicamente entra em sincronia com a nossa ocasionando interferências físicas e permitindo a passagem de indivíduos. Se a velocidade do fluxo temporal nessa hipotética dimensão for diferente da nossa teríamos uma teoria explicativa sobre os evidentes contracensos nas datas das reaparições Nefilin. (A menos que eles fossem realmente deuses!) O que não deixa de ser um pensamento interessante e abre um bom campo especulativo para os que pretendem criar um paralelo entre os inúmeros achados inexplicáveis que se misturam em nossa arqueologia e as datações proféticas apresentadas por maias e afins. É só começar a calcular!

2)      A administração de Enlil – O propósito da colonização Nefilim

Há 420 mil anos, no fim do período glacial, chegou à Terra o Nefilim Enlil, o outro filho de Anu, a quem os sumérios atribuíam o papel de principal coordenador da colônia (e que a humanidade passaria a referenciar como o deus criador). Foram estabelecidas as localizações das cidades e instalações Nefilim a serem construídas com o objetivo de servirem como marcos de um espaço-porto na mesopotâmia(*). Começava a segunda fase da exploração do planeta com aumento da população anunnaki e importação de mais equipamento. Enquanto Anu comandava a nave mãe e Enlil assumia o comando da colônia, Enki ganhou outras funções e passou a ser chamado E-a (senhor das águas ou senhor do mundo inferior), ou ainda Bea Nimiki (senhor das minas). A ordem era incrementar a extração de metais para atender às necessidades do planeta Nibiru. No desenrolar da história percebe-se que esta transferência de atribuições gerou um antagonismo entre Enki, o verdadeiro pioneiro, o que organizava as operações anunnaki, e Enlil, que permanecia no conforto do centro de controle da missão colonizadora.

(*) Cidades ou instalações Nefilim que foram destruídas pelo dilúvio (ver mapa):

  1. Eridu – o acampamento pioneiro, a cidade de Enki.
  2. Larsa – (La-ar-sa, “vendo a luz vermelha”) o centro administrativo da missão colonizadora, a cidade de Enlil.
  3. Nippur – centro de controle espacial, onde viviam os anunnaki especialistas em comunicações e os Igigi responsáveis pelas viagens de ida e volta entre a terra, a estação orbital e a nave mãe.
  4. Badtibira – centro industrial coordenado por Nannar, filho de Enlil.
  5. Larak – (La-ra-ak, “vendo brilhante halo”) a cidade dos deuses que não foi encontrada – cuja localização mais lógica seria complementando a linha de pouso Badtibira-Shuruppak-Nippur-Larak-Sippar.
  6. Sippar – o espaço porto, o centro de lançamento de foguetes coordenado por Shamash, filho de Nannar, neto de Enlil e bisneto de Anu.
  7. Shuruppak – centro médico Nefilim coordenado por Ninhursag.

Mapa Mesopotâmia

Enki passou a seu filho Gi-bil (aquele que queima o solo) a “barra de mineração” (um provável banco de dados referentes às técnicas de mineração). Os metais eram extraídos no sudeste africano e levados em ma-gur ur-nu ab-zu (cargueiros para minérios do mundo inferior) para a mesopotâmia onde iam alimentar as fundições de trabalho em metal em Badtibira. Na África a região de mineração era conhecida como A-ra-li (local de brilhantes veios), situada na selva montanhosa da bacia do Zambese onde hoje fica a Rodésia e o nordeste da África do Sul. Os Nefilim construíram em Arali a cidade de Gab-kur-ra (no coração da montanha) onde alojaram os anunnaki que executavam o trabalho braçal de mineração. O motivo primário da vinda dos Nefilim à Terra era a mineração de ouro, prata e cobre, por serem moles, maleáveis, e condutores de calor e eletricidade. O ouro em especial era fundamental na produção de microprocessadores. Mas há registros de que se interessavam também por platina, cobalto e urânio.

3)      A revolta dos anunnaki  – A  criação do adapa adama.

Os textos sumérios fazem menção a 300 anunnaki que permaneceram em órbita ou faziam o transporte espacial como Igigi (astronautas) e 600 que desceram à Terra como trabalhadores. Entre os anunnaki que viviam no planeta, os mineradores de Arali, mesmo contando com ferramentas e máquinas poderosas, eram os que desempenhavam o trabalho mais árduo. O termo sumério kur-nu-gi-a (terra onde deuses-que-trabalham mineram em túneis profundos) ganhou o significado posterior de “terra sem regresso”, tal era o caráter punitivo daquele trabalho. Há cerca de 300 mil anos o cansaço, o desgosto e a revolta levaram estes anunnaki a um motim enquanto Enlil fazia uma visita de inspeção às minas. Os mineiros destruíram suas ferramentas e pressionaram o coordenador para que encontrasse uma solução para o impasse. Foram chamados Anu e Enki e uma assembléia Nefilim foi convocada em Gabkurra.

O relato desta assembléia Nefilim ocorrida há 300 mil anos foi conservada em registros sumérios e é aqui sintetizada porque os fatos que a originaram e suas conseqüências foram determinantes para a espécie humana:

Anu exigiu um inquérito para apurar as responsabilidades. Os anunnaki permaneceram unidos e disseram:

“Cada um de nós declarou guerra! Nós que somos os responsáveis pelas escavações afirmamos que o pesado trabalho que nós é imposto nos mata. Grande é nosso cansaço e nossa angústia.”

Enlil, indignado, fez um ultimato: abdicaria caso os chefes do motim não fossem executados. Mas Anu, ponderado, disse:

“De que nós os acusamos? Suas queixas são justas! O trabalho de todos os dias dos anunnaki é realmente pesado e angustiante. Nós podemos ouvi-los.”

Enki, aproveitando a oportunidade, tomou a palavra na assembléia e disse:

“Nós temos a ciência e o poder para criar um trabalhador primitivo a partir dos seres nativos! Que ele suporte o jugo! Que ele sofra a fatiga dos anunnaki.”

A sugestão da criação de um trabalhador primitivo foi aceita. Ninhursag (aqui chamada de Mami) foi intimada a produzir um adamu (um trabalhador). Enquanto os anunnaki aguardavam, Ninhursag e Enki montaram um bit-shi-im-ti  (“casa onde o vento da vida é soprado” – um complexo biotécnico-hospitalar) para levar a cabo a tarefa proposta. Depois do necessário período (que deve ter sido longo) ela convocou novamente a assembléia e disse:

“Anunnaki! Vocês me incumbiram de uma tarefa e eu a completei. O trabalho pesado já não é vosso… vocês estão livres! Vossa fadiga foi transferida para o trabalhador que criei. Já existe um adapa (modelo de um terráqueo)!”

Ao que os anunnaki correram e lhe beijaram os pés em agradecimento. Um adapa adama fora criado. Um trabalhador feito a partir de um terráqueo fora criado. O trabalho seria feito pelos seus iguais gerados a partir dele.

Enki já estudava a fauna do planeta há milhares de anos. O homo erectus apresentava-se como um animal passível de domesticação, mas era muito inteligente e selvagem para ser transformado direta e imediatamente num dócil animal de trabalho. O longo e gradativo processo de domesticação através de uma reprodução seletiva ainda não resolveria todos os problemas funcionais se a intenção era que eles fizessem o trabalho dos anunnaki. O homo erectus era inapto fisicamente para usar as ferramentas Nefilim. E seria necessário um cérebro melhor, capaz de compreender a fala e as instruções recebidas, sendo, ao mesmo tempo, obediente para ser útil como servo. Enki optou pela manipulação genética.

Assim, há cerca de 300 mil anos os Nefilim criaram o modelo de um homem original da Terra (adapa), um trabalhador (adama), por manipulação genética, combinando os gens do homo erectus, o hominídeo mais evoluído disponível, com os gens Nefilim. Este ser híbrido foi criado, em todos os seus aspectos externos, à imagem e à semelhança de seus criadores, mas programado para um curto período de vida e sem a capacidade de procriar (sem acesso aos “frutos do conhecimento”).

Os textos sumérios referem que Ninti, a esposa de Enki, teve implantado em seu útero um óvulo de uma fêmea homo erectus fertilizado com material genético de um Nefilim. Assim Ninti gerou e deu à luz o primeiro adama, e este, como modelo, forneceu material para que fossem clonados os trabalhadores requeridos pelos anunnaki. Foram gerados seres que se assemelhavam tanto a machos como a fêmeas (em úteros Nefilim, pelo mesmo processo a que Ninti se submetera, ou por métodos artificiais utilizando incubadoras, tendo em vista a demanda exigida). Os adama produzidos eram todos híbridos e todos inférteis por determinação de Enlil. Os adama criados se destinavam ao trabalho nas minas em Arali, mas os anunnaki da mesopotâmia também exigiram servos. Assim alguns adama foram exportados e passaram a cuidar dos animais, das árvores, e dos jardins em Edin.

4)      O homo sapiens e o dilúvio.

O antagonismo entre Enlil e Enki continuou após a solução do problema gerado pelo motim anunnaki. Este antagonismo levou a um novo conflito que definiu o início da civilização humana. Enki, que sempre fora contrário à determinação de Enlil de que os adama fossem estéreis, resolveu interferir com uma solução cientifica para a questão. Não há textos que expressem a causa específica para os acontecimentos ocorridos nos jardins de Edin e registrados pelos sumérios. O fato é que Enlil permanecia politicamente no comando da colônia Nefilim enquanto Enki desempenhava a coordenação dos trabalhos de exploração, mineração, e pesquisa. O mito de Adão e Eva no paraíso sendo tentados pela serpente a comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal foi a versão mais popular que sobreviveu da história original. O termo bíblico nahash (cobra) deriva da raiz suméria que significa decifrar, descobrir, ou aquele que pode decifrar ou descobrir. Enki, o cientista chefe dos Nefilim, o que melhor podia resolver o problema da esterilidade dos híbridos, em Edin, corrigiu a falha original dos adama. Com isto Enki ganhou na versão bíblica a representação de uma serpente, devido ao jogo de palavras e significados, e nascia o homo sapiens como espécie. Havia sido apresentado aos adama o conhecimento do bem e do mal. Os adama ganharam a capacidade de se produzir, já não eram adama, mas Adão e Eva, e “eles viram que estavam nus”. Fora dado um salto sobre os 2 a 3 milhões de anos necessários para transformar o homo erectus em homo sapiens. Criara-se uma lacuna evolutiva e um mistério arqueológico que jamais seria solucionado.

As descobertas na África oriental colocam a transição dos macacos para hominídeos em 14 milhões de anos e situam os primeiros a serem classificados no gênero homo em 2 milhões de anos no passado. O homo erectus utilizado pelos Nefilim há 300 mil anos surgira havia 1 milhão de anos. Uma outra espécie humanóide, a Neandertal, andava pelo planeta quando foi repentinamente varrida do mapa pelo homo sapiens há 35 mil anos. Esses homo sapiens das cavernas receberam o nome de Cro-Magnon, e fisicamente não seriam diferenciáveis do homem atual. Eles vestiam peles, construíam abrigos e armas, viviam em clãs patriarcais e tinham princípios filosóficos e religiosos. Os achados arqueológicos mostram que o Cro-Magnon havia se originado de um homo sapiens ainda mais antigo que vivera na Ásia ocidental e na África há cerca de 250 mil anos. O aparecimento do homem moderno neste momento seria inexplicável do ponto de vista evolutivo sem a interferência Nefilim (ou de um mito qualquer que se assemelhe ao oferecido pela epopeia Nefilin).

Enlil, como forma de punir Enki, fez com que os adama modificados fossem retirados da mesopotâmia e levados para os montes Zagros onde atualmente é a fronteira entre o Iraque e o Irã. Isto ocorreu há 250 mil anos. Neste exílio desenvolveu-se a linhagem inicial do homo sapiens que gradativamente se disseminou para os outros continentes. Dez gerações depois alguns descendentes dos seres humanos banidos de Edin receberam permissão para regressar à mesopotâmia para viverem ao lado dos Nefilim, servindo àqueles a quem consideravam deuses. Segundo os registros sumérios isto aconteceu durante os dias em que Enos (um dos patriarcas bíblicos) viveu.

De 200 mil a 100 mil anos, e de 75 mil anos a 40 mil anos ocorreram novas glaciações durante as quais a população da Terra teve brutais diminuições. Houve um curto período de aquecimento há 40 mil anos e de 38 mil a 13 mil anos ocorreu o último e mais rigoroso período glacial. Nesta época alguns filhos de Nefilim tomavam filhas dos homens como esposas. Os registros antigos apontam Ubar-Tutu, a quem a bíblia chama Lamec, e pai de Noé, como um humano de descendência “divina”, que sob proteção de Ninhursag e Enki, chegou a rei de Shuruppak, a 7ª cidade Nefilim.

Noé, para os sumérios, era conhecido como Utnapishtim, filho de Ubar-Tutu. As indicações são de que a humanidade, nos dias em que Utnapishtim vivia, passava por grande sofrimento em conseqüência da estiagem que se seguira ao último período glacial. As privações atingiam também os Nefilim que não pertenciam à elite, e estes mostravam sinais de degradação, o que incluía todo tipo de permissividade sexual com as mulheres humanas. Enlil, que já se opunha abertamente ao protecionismo dado por seu irmão e Ninhursag a Utnapishtim e sua família, passou a abominar estes relacionamentos, pois via a pureza genética dos Nefilim sendo destruída rapidamente . Os textos sumérios relatam as várias tentativas de Enlil de eliminar a humanidade pela doença e pela fome, e descrevem as ações de Enki em resposta aos apelos de Utnapishtim, curando e alimentando o povo e frustrando os planos do irmão. Enki ria durante as assembléias quando Enlil enfurecido gritava: “Pare de alimentar o povo!”

O fim do período glacial apresentou a Enlil uma impensada forma de aniquilar a humanidade. Aconteceria um dilúvio de grande magnitude. A assembleia Nefilim decidiu ocultar dos seres humanos sua iminente ocorrência e seus efeitos terríveis. A versão bíblica do posicionamento da deidade cristã frente ao destino dos humanos no episódio do dilúvio, adaptada ao posicionamento monoteísta cristão, é cheia de contradições, e coloca a deidade única como ambígua. Os registros mais antigos permitem compreender melhor a história, pois refletem a permanente discordância entre Enlil e Enki. Em assembléia todos Nefilim juraram que guardariam segredo e deixariam os homens a própria sorte. Obrigaram Enki a jurar que não daria aos humanos informações sobre a tragédia que se abateria sobre a colônia e todos os seres vivos.

Quando o dilúvio estava próximo, Enki chamou Utnapishtim à edificação que os humanos consideravam seu templo, e, oculto por um biombo de bambu, contou que uma inundação inevitável iria aniquilar a humanidade em 7 dias (ou num período mensurável de tempo), e lhe deu instruções detalhadas de como poderia construir um barco sem convés e vedado (um sulili, que em hebraico se traduz como soleleth, uma embarcação que pode submergir, ou um submarino) para salvar a si e aos seus, levando os animais, as sementes e os artífices de várias áreas com suas famílias. Enki aconselhou seu protegido de que deveria dar aos outros a desculpa de que construía o barco para sair da mesopotâmia. Iria viver no “mundo inferior” onde encontraria um chão mais fértil, sob as graças de Enki, de quem era seguidor. Com a ajuda de vários habitantes da cidade o barco foi construído e colocado no Eufrates. Enki disse a Utnapishtim que só deveria subir ao barco e fechar as portas quando ouvisse o estremecer dos foguetes de Shamash em Sippar, 180 km a noroeste. Sinal de que os Nefilim estavam procurando a proteção da estação orbital para escapar do dilúvio. Assim fez Utnapishtim. Vieram tempestades colossais e com elas o dilúvio e tudo e todos que estavam no navio se salvaram sem o conhecimento de Enlil.

No fim da última glaciação volumes de gelo de tamanho continental deslocaram-se das massas polares nas calotas do planeta desabando sobre os mares e criaram tsunamis de extrema força destruidora. Isto ocorreu há 13 mil anos. A inundação durou 150 dias. Foi um acontecimento aterrorizante para humanos e Nefilim. Aqueles que os humanos consideravam deuses viram o trabalho de milhares de anos abruptamente destruído, de uma forma muito mais intensa do que todas as expectativas. Do alto da estação orbital os Nefilim amontoados, assustados e famintos, aguardaram o fim do desastre.

Após o dilúvio, quando Utnapishtim desembarcava em terra firme, os Nefilim perceberam que alguém ainda vivia sobre a Terra e desceram ao planeta. Enlil não podia compreender como um homem poderia ter sobrevivido àquela destruição. Um de seus filhos apontou para Enki e disse: “Pergunte a Enki. Ele sabe de todos os assuntos referentes aos humanos e sempre tem seus planos!”

Enki não se furtou à acusação e afirmou que não contara o segredo a nenhum homem, como havia jurado, mas sim a uma parede de bambu em sua casa. Defendeu o valor daquele homem que lutara pela vida usando os meios e conhecimentos empregados. Enki sugeriu a Enlil:

“Já que Utnapishtim demonstrou que não podemos ignorar sua capacidade, cabe agora a nós tomar uma decisão sobre seus direitos”.

Enlil, taticamente se dando por vencido, franqueou o planeta aos humanos.  Os Nefilim auxiliaram os humanos na produção de alimentos, pois da união das duas forças dependeria a sobrevivência de todos. Os Nefilim continuaram a ser tratados como deuses, e ensinaram aos homens os fundamentos que abriram as portas para o domínio de inúmeros campos do conhecimento. A primeira cidade humana foi Kish na localização aproximada de Nippur, onde os rios Tigre e Eufrates se afastam. Os Nefilim acompanharam o nascimento da civilização suméria há cerca de 4500 AC e assessoraram o estabelecimento das primeiras monarquias mesopotâmicas, e nos vales do Nilo e do Indo. Eles continuaram com sua política imperial que mantinha os grupos humanos divididos por interesses ou pela língua, para serem melhor controlados, e suas ações refletindo a personalidade de cada Nefilim. O antagonismo de Enki e Enlil se transmitiu a seus filhos e netos. Os Nefilim partidários de uma raça pura foram gradativamente se isolando, criando seus reinos particulares e exigindo fidelidade de pequenos grupos humanos. Por volta de 3000 anos AC o número de mestiços gerados entre os humanos e os Nefilim já era maior do que o número de Nefilim puros. A raça original vinda de Nibiru estava em franco declínio. E, gradativamente, o Homo sapiens consolidou sua civilização.

O que não deixa de ser uma história interessante! Que aparentemente teve um fim feliz! A menos que em dezembro se abra um novo capítulo, mas aí vai ser uma outra história!

Mandala

10/07/2011

“Afinal! O que é um mandala?” – me perguntou um paciente. Confesso que tive que recorrer ao Google…. e constatei que toda resposta gerava pelo menos duas perguntas, abrindo novas portas que mereciam ser exploradas. 

O mandala é um desenho circular, segundo a premissa sânscrita, com padrões que se repetem ou se espelham, quase sempre simétricos, harmônicos, atraentes, absorventes, onde o centro nos personifica e somos circundados pelo que é o mundo ou a casa simbólica a que pertencemos. Após um determinado período de contemplação, o mandala satura as conexões lógicas feitas pela mente e envolve o observador em inferências e comparações, ou analogias. Por esta razão o mandala também é chamado de chave analógica pelos que o adotam na prática meditativa. Partindo do princípio que o conjunto do sistema cognitivo de um indivíduo utiliza uma parte muito pequena de sua capacidade nos processos vitais e de relacionamento, esta chave analógica busca, no âmago do inconsciente, na porção predominante e não utilizada do sistema nervoso central, a relação do indivíduo com o todo, ou o conjunto universal, ou a unidade cósmica. Deixando de lado a conotação espiritualista deste posicionamento o que se pode afirmar é que a contemplação de um mandala põe o observador num estado de “ver sem analisar objetivamente”, e isto permite que aconteçam flashes de “não-pensar”; instantes surdos ou cegos na constante e saturante receptividade informativa e pragmática para a qual fomos educados. Quem preconiza a observação do mandala pretende que o indivíduo abra o seu inconsciente. Aqui pode haver uma divisão nos objetivos almejados. Alguns apregoam que através desta abertura o indivíduo, num determinado momento, alcançará um estágio em que “estará vazio para poder ser preenchido espiritualmente em busca de uma iluminação.” Outros esperam que a abertura analógica permita que a própria potencialidade inconsciente de cada um trabalhe em prol daquele observador, harmonizando-o, curando-o, ou descobrindo aspectos “energéticos quânticos” que não seriam possíveis através dos sentidos comuns. Como se vê, alguns conceitos citados partem de premissas que por si só abrem outros campos de discussão tais como “iluminação” e “aspectos energéticos quânticos”. Na mistura do que pertence à religiosidade e à física de ponta (que tanto podem ser opostas como enfoques paralelos da mesma coisa) não pretendo por meus pés agora.

Uma pluma solta ao desejo do vento pode ser achada ou ser perdida. Pode pousar no solo e ser pisada, amassada, e misturada ao barro. Pode pousar na mão de um velho e ser avaliada, analisada, e aprisionada no passado. Pode pousar no nariz de uma criança e ser acariciada, assoprada, e devolvida à vida.

A Chave Analógica (5ª postagem)

11/07/2009

(Se você deseja saber como começa esta história clique aqui.) 

Update em 27.08.2010

Há dois dias encontrei uma senhora que ganhou nesta história o nome de Lidia Lutz. Estou com 60 anos. Ela tem quase a mesma idade que eu. O filho dela, aqui chamado Jonas, trabalhou comigo há uns dez anos. Hoje ele tem um pouco mais de 30 anos. Jonas me saudou efusivamente, perguntou como estava o meu coração, brincou com a brancura da minha barba, e se despediu pedindo que eu me cuidasse, pois ele queria que eu ainda tratasse dos netos dele. Não o contrariei. Quem sabe é assim que espicham a vida da gente? Eu e ele nos encontramos com os olhos de quem se conhece de uma forma amena e amigável. Lídia me cumprimentou formalmente. Com olhos de velha assustada. Os olhos dos velhos refletem para sempre alguns pedaços da vida.

10ª PARTE – SAIDA DE CENA E NOTÍCIAS DO FRONT

            Na semana seguinte a minha vida foi modificada radicalmente. A realidade crua das necessidades financeiras me obrigou a largar Porto Alegre. Mesmo sem fontes definidas de renda iniciei uma nova aventura aos trinta anos. Em um único dia me desliguei das clínicas com as quais ainda mantinha alguma relação, e, como um cigano, eu e minha família nos mudamos para Itapeva, em busca de um lugar onde pudesse exercer minha profissão de forma independente; livre dos monopólios que sufocavam o exercício da medicina na capital. Nós e toda mudança acomodados em um caminhão emprestado, sem casa para morar, sem um lugar para instalar um consultório, sem vínculo com qualquer órgão público, apenas com a cara e coragem. Era o dia primeiro de maio de 1980. Passados 29 anos é possível resumir as razões daquela atitude em um único rótulo: sem saída. Um emaranhado de questões desonestas de cunho político me pressionou de forma mesquinha naquela direção. Todos os fios deste novelo, por si só, cabem numa outra história, repleta de curiosidades envolvendo vários nomes que hoje a mídia apresenta como personagens importantes da administração e dos desvios públicos. Estes capítulos, embora  interessantes, serão aqui sumariamente omitidos, por serem irrelevantes no contexto do que me propus a contar. Portanto, abandonei Porto Alegre e fui procurar morada a beira mar, começando do zero, longe do grupo guiado por Gerson e suas histórias mágicas, e sem vínculos freqüentes ou possíveis  com Luana, Juliana, Julio e Talis. Naquele momento esta era uma das minhas intenções: cair fora daquele mundo enigmático e impalpável. Não podia imaginar, então, que um dia ainda teria contatos com alguns deles. Embora indiretos e irreais.

            Em uma semana atendi meu primeiro paciente. Aos poucos as cores das pessoas foram ficando desbotadas. Em seis meses tinha um consultório capaz de manter as necessidades de minha família. As dores de cabeça me abandonaram. Em um ano eu era um membro daquela nova comunidade, integrado em suas histórias sociais e políticas. Em dois anos estava envolvido no processo de emancipação da cidade, e participava de todos os eventos e reuniões das lideranças locais. Foi quando começaram a chegar as cartas de Gerson. 

            A primeira carta permaneceu fechada por um bom tempo num canto da mesa. Qual o interesse do velho? Dois anos haviam se passado. Um tempo suficiente para que o enredo provável, dos eventos envolvendo o grupo ao qual eu pertencera, tivesse se desdobrado de uma forma inimaginável. A minha decisão de me afastar em definitivo daquela viagem louca lutava com a curiosidade em saber como, afinal, haviam se saído os antigos companheiros. O envelope fechado exercia a função de um imã. Ele estava ali ao alcance de minha mão. Dentro uma história escrita por um indivíduo que eu conhecera muito bem e sabia o quanto ele era capaz de manipular a atenção de um curioso para atingir os seus objetivos obscuros. Mas que mal faria ler a carta? Qual efeito mágico o seu conteúdo poderia ter sobre a minha ferrenha intenção de me afastar das ações do grupo de Gerson? A curiosidade acabou vencendo… a mesma que matou o gato! 

            Abri a carta! Iniciava com todos os lugares comuns que se costumava usar quando as cartas ainda eram um meio de comunicação! Contou que Luana e Talis haviam casado! Um acontecimento que eu consideraria improvável dois anos antes. Resumia a situação dos demais com um simples “os outros estão todos bem”. Mostrava interesse e preocupação com minha atividade profissional e desejava que todos os meus sonhos estivessem se realizando. De passagem esperava que eu ainda os considerasse como amigos e companheiros de uma história inacabada, e finalizava colocando-se a disposição para contatos futuros “em nome da grande consideração” que tinha pela minha pessoa. Uma carta que transformada em conteúdo matemático poderia ser resumida a zero. Li a carta várias vezes tentando descobrir nas entrelinhas um objetivo oculto, pois conhecendo Gerson não conseguia imaginar aquele velho matreiro perdendo tempo e escrevendo de próprio punho frivolidades para um indivíduo que ele não via há 2 anos, e, que de certa maneira, havia abandonado o jogo, ou a luta, no meio do processo, com uma despedida extremamente objetiva: as minhas necessidades reais sobrepujavam, e muito, qualquer vontade em permanecer naquela procura mística e pouco produtiva. 

            Devo ter ponderado por uma semana a possibilidade ou a necessidade de uma resposta. Poderia ser considerado deselegante não responder. Enfim respondi. Talis e Luana casados? E Juliana e Julio, como estavam? E afinal! Como se saíra Talis na empreitada em Candeias? Como terminara a história que previa a captura, ou as ações envolvendo o magista? Pronto! Eu estava fisgado.

            Durante 6 ou mais meses mantive uma insólita correspondência com o Gerson. Houve longos comentários filosóficos sobre os invólucros energéticos que revestem o corpo humano como “camadas de uma cebola”. Sobre a interação das camadas externas de duas ou mais pessoas  quando interagem fisicamente ou simplesmente se aproximam. Sobre a vibração, perceptível nas costas e na nuca, quando o invólucro relacionado com os chakras entra em ressonância e permite o que ele chamava “manobra de saída”. Sobre o sistema de procurar, na hora de dormir, o “ponto de ressonância”, situado acima do campo visual. Sobre viagens fora do corpo, e sobre encontros com outros viajantes durante estas hipotéticas saídas. 

            O cepticismo sucumbiu à envolvente e detalhada narrativa de Gerson. Quando eu percebi não só sustentava uma freqüente troca de cartas como também procurava efetivar os processos que eram descritos. E entre uma loucura e outra chegavam as notícias aparentemente soltas: Talis falhara em Candeias. Não conseguira usar seu mandala. O terror embotara sua capacidade de concentração. O magista, ao se sentir ameaçado, causara uma grande destruição nas estruturas que englobavam o local de criação dos porcos e frigoríferos. Talis conseguira escapar com fraturas em uma das pernas. E o magista fugiu! Abandonou aquele local onde poderia ser facilmente encontrado e seu destino agora era incerto. Neste ponto o velho deixava transparecer o contratempo que isto acarretara aos planos há tanto tempo elaborados. Gerson enfatizava que, nestas situações, era importante ter uma visão mental perfeita do mandala, e ter a convicção de que o “visualizador” seria inatingível por qualquer ato do magista se mantivesse o equilíbrio e não se deixasse envolver pelo medo. Eu, enquanto lia aquela história como uma novela estranha ocorrida numa terra distante, percebia que a visão que eu próprio tinha do meu mandala permanecia nítida em minha memória, como um complexo ato reflexo. E ali, embora todos os elementos já estivessem a minha disposição para uma perfeita análise e conclusão, eu não percebi que continuava a ser um peão no jogo de Gerson. 

11ª PARTE – VIAGENS E ENCONTROS NOTURNOS

            Qual a diferença, ou a relação, entre a alucinação e a realidade? A realidade é a alucinação que você pode compartilhar com alguém. A alucinação pode ser a realidade que só você tem a capacidade de perceber. Neste caso fique bem quieto! Avalie bem se você não está num estado alterado de percepção. Quem sabe sob efeito de algum elemento externo, como uma substância química, ou você pode até estar sendo vítima de um hábil ilusionista. Mas não se esqueça de que a realidade, convencionada como tal pode também ser um logro coletivo. Não pense que os outros são normais só porque não vêem o que você está vendo. Eles podem ser cegos, ou inábeis, ou estarem fingindo para não serem rotulados de loucos. O normal não é aquele que não tem alucinações, mas aquele que consegue conviver com elas. Num determinado momento você pode encontrar outra pessoa que compartilha com você a mesma percepção considerada enganosa. Então a probabilidade de que sua ilusão não seja afinal tão irreal cresce; e cresce na mesma proporção a possibilidade de que tenhamos dois alucinados! Ora! Que dilema! Não é fácil definir a normalidade

            Alguns dizem que o melhor é o movimento de se sentar na cama, e depois, se levantar. Antes de saírem naturalmente pela janela ou pelo telhado. Naturalmente! Eu prefiro rolar para trás. Quando se sente a nuca formigar eu levanto as pernas e as jogo para cima, sobre a cabeça, como quem vira uma cambalhota ao contrário, e assim fico normalmente de pé num só movimento. Geralmente no cômodo contíguo, é claro, pois é costume dormir com a cabeça perpendicular a uma parede. Tudo muito lógico.

            As primeiras vezes são cambaleantes, como quem está aprendendo a andar. Principalmente por que no início não se tem consciência do que está acontecendo. Não é um ato premeditado. E estas surpresas geram situações confusas. 

            Lembro de cair da cama. Repentinamente estava sentado no chão com as costas apoiadas na cama. As pernas estendidas no espaço entre a cama e o guarda-roupa. Fiquei perplexo com o fato de estar naquela situação. Embora sonolento, tinha perfeita noção espacial do meu corpo e via os objetos a minha volta com extrema nitidez. Num ato reflexo procurei me mover para sair daquela posição ridícula. Levei a mão esquerda para cima da cama. Eu procurava apoio para um impulso que me permitisse sentar na beira da cama. Mas minha mão segurou uma perna suada e peluda de um indivíduo que estava deitado em meu lugar. A minha mão segurou a minha própria perna. Como um elástico que é repentinamente solto após ser esticado ao máximo eu, num breve instante, estava absolutamente desperto, e vi a mim mesmo sentado no chão segurando a minha perna direita. E, simultaneamente, eu estava sentado na cama, tentando entender aquele perceptível paradoxo.

            O tempo me transformou num viajante com certa prática. As viagens, ao contrário das auras de Thalis, não causavam dores de cabeça e a sensação era muito agradável. Conseguia induzir a ressonância necessária que se transmitia em direção à nuca e permitia a saída do corpo. Ansiava pela hora de conciliar o sono; deitar para dormir  se  transformara num momento esperado. A hora de viajar.

            A rotina do procedimento não evitava o ineditismo nas viagens. Em minhas viravoltas eu atravessava a parede e a partir da sala ao lado ganhava a rua geralmente pela janela. Na primeira vez protegi a cabeça com os braços esperando o estilhaçar da vidraça. Depois não me preocupei mais com estes pequenos detalhes da impenetrabilidade da matéria. 

            Uma constatação que para mim foi uma grande surpresa: o tráfego de viajantes noturnos é intenso. Impressionantemente intenso! Mas a impressão é a de que a maioria esmagadora destas criaturas não sabe que se encontra viajando. Eles vagam sem um rumo, desorientados, refletindo, possivelmente, o próprio sono. Porém há aqueles que nitidamente sabem o que estão fazendo. Alguns percebem você, mas, o evitam. Passam ao longe, fugidiamente. Poucos são amigáveis. A maioria faz uma avaliação não muito simpática de suas intenções e parte em busca de seus próprios objetivos. Há também os que são francamente hostis.

            Uma noite decidi pairar sobre Itapeva, aproveitando a vista admirável, distraidamente, absorto com os ângulos incríveis. Estava feliz com aquele conhecimento privilegiado. E, como surgida do nada, materializou-se ao meu lado uma menina aparentando 9 ou 10 anos. De cabelos longos e rosto suave. Usando um vestido esvoaçante. A imagem de um anjo. Fiquei surpreso com a aparição repentina e mais ainda com aquela  rara aproximação. Ela era linda e eu fiquei encantado com aquele prazer inesperado. Quis chegar mais perto e tentar um diálogo, mas, logo percebi que ela se afastava mantendo uma distância constante de mim. Disse, ou pensei: “Não tenha medo! Só quero conhecê-la!” E ela prontamente respondeu, ou pensou: “Sou Deca! Sei quem você é! e sei o que você quer!” Aquela resposta me desconcertou, mas tentei uma nova abordagem: “Não acredito que nos conheçamos! Podemos ser amigo?” E então algo surpreendente aconteceu: a linda menina sofreu uma brusca metamorfose enquanto se aproximava rapidamente de mim. Num momento era uma doce fada mirim e no segundo seguinte um homem gordo, usando uma toga imunda, com uma face enegrecida e maligna, coberta por uma barba rala e irregular. Aquele personagem me alcançou de forma instantânea e cravou dolorosamente o dedo indicador no meu peito, mostrando dentes tortos e amarelados. Enquanto falava senti seu hálito desagradável: “Vou repetir só mais esta vez! Sou Deca! Sei quem você é e sei o que você quer! Sei onde você vive e sei quem são os seus filhos! Caia fora daqui!” E naquele instante eu estava em minha cama, trêmulo e suado. Sabendo que não fora um sonho. Tentando me orientar frente aquele episódio incomum.

            Após o encontro com Deca passei a fazer viagens mais curtas e mais cuidadosas. Limitava-me a subir no telhado e sentar na cumeeira. Nestas ocasiões, seguidamente, nossa collie, Babuska, latia e olhava em minha direção como se percebesse minha presença sobre a casa. Um fato admirável que observava nestas oportunidades era a luminosidade da noite, da cadela, dos pássaros dormindo nas árvores ao lado da casa, dos pequenos insetos que voavam ou circulavam pela grama lá em baixo. Foi numa noite destas que um pensamento chegou até mim: “Permite que me aproxime?” E o impressionante foi que eu sabia que a pessoa que pedia permissão para se aproximar era o Julio. No segundo imediato ele estava sentado ao meu lado. “Vou resumir!” O pensamento de Julio penetrava em minha mente. “Juliana esteve recentemente em Itapeva. O Magista está aqui. Nós precisamos de você. Não se preocupe com Deca! É um Anunnaki tentando intimidá-lo. Ele não tem poder nenhum. Você saberá o momento certo em que deve agir. Nós estaremos preparados para cumprir a nossa parte. Depois, quando o trabalho estiver concluído,  nos encontraremos. Não há nada a recear, é só desempenhar o papel que lhe cabe. Estamos todos confiantes. O velho acredita em seu poder.” Por um instante Julio ficou ali, como se houvesse mais alguma coisa a dizer, e depois desapareceu. Eu passei o resto da noite sentado no oitão da casa, numa das extremidades da cumeeira. Quem poderia dormir com um “barulho” desses? 

12ª PARTE – O ENCONTRO COM O MAGISTA 

            A região de Itapeva costuma ser acometida por intensas tempestades elétricas. E naquela noite o céu veio abaixo. Chovia impetuosamente. Meus interesses se resumiam em ler um livro e esperar o sono. Mas o telefone tocou e o que me interessava foi totalmente desconsiderado. Na vida de um médico este fato costuma ser comum, mas aquela não seria uma noite comum.

            Um táxi veio me buscar para atender uma criança numa localidade próxima. Era uma casa pequena cuja porta principal ficava na lateral, sem uma soleira ou um pequeno telhado que a protegesse da chuva. Desta forma o motorista manobrou o carro até praticamente acoplar a porta do veículo com a da casa. A dona da casa abriu a porta e eu abri a do carro e praticamente saltei para o interior da casa sem escapar totalmente da chuva intensa.

            A senhora se chamava Lídia Lutz, tinha 3 filhos, e eu já a conhecia de um atendimento ou outro no pequeno posto de saúde da cidade. Ela era franzina e assustadiça, e o cabelo muito curto a deixava com traços masculinos. Usava um pijama surrado e uma coberta sobre os ombros para se proteger do frio. A casa, de madeira, tinha uma planta simples: a peça mais longa, à esquerda, onde eu me encontrava, cumpria as funções de sala e cozinha. Dois outros aposentos, supostamente os quartos, se comunicavam diretamente com o principal e estavam às escuras. Não vi uma porta que indicasse a presença de instalações sanitárias no interior da casa. Nestas pequenas moradias do interior é habitual colocar este recinto fora da estrutura principal, geralmente numa área de serviço nos fundos. 

            O perfil que eu já tinha traçado de Lídia, fruto dos contatos anteriores, era de uma pessoa depressiva, com traços paranóides, e uma espiritualidade confusa onde a fé católica se misturava a crendices e a uma imaginação fértil. Nunca revelava inteiramente seus medos e minha conclusão primária era de que deveria ter problemas de relacionamento com o marido. Este, um caminhoneiro, naquele dia estava ausente, o que aumentava e justificava a ansiedade da mãe pela saúde do filho. 

            “Quem está doente?” Perguntei. E Lídia, com os olhos muito abertos demorou um tempo intrigante para responder: “O Jonas! Ele está ali no quarto de trás”. O mobiliário era muito simples e surrado. Acomodei minha bolsa sobre uma pequena mesa, ainda com restos da última refeição, e segui com as perguntas normais: “O que aconteceu? Teve febre,? aparentou alguma dor? Está bom da barriga?” Novamente ela demorou para responder enquanto me olhava de uma forma indefinida. Respondeu enfim: “É melhor ver!” “O que será que tem esta mulher?” Pensei. “Parece assustada e desorientada.” Resolvi mudar o rumo da conversação: “Lidia! Está tudo bem contigo?” Ela balançou freneticamente a cabeça numa negativa enfática, enquanto abria ainda mais os olhos naquele rosto magro, quase como num pedido mudo de socorro.

            “A criança morreu!” Este foi o primeiro pensamento que me veio à mente. “Ela está desesperada e nega o fato. Quer uma confirmação? Quer um milagre?” O mal estar resultante do confronto com uma situação deste porte não cabe em qualquer descrição. Lídia foi até o quarto e acendeu a luz, mas, não passou da porta. Havia uma cama de casal. Possivelmente o menino dormia com ela quando o marido viajava. Ele estava deitado, e parecia dormir. Eu sentia meus ouvidos zunirem e a boca amarga. Não é possível encarar com naturalidade um momento destes. Quando uma criança está envolvida toda a frieza profissional morre junto com o paciente.

            Sentei na beira da cama e busquei o pulso do menino. Aparentava uns seis anos de idade. Havia pulso! O menino dormia profundamente. Respirava. Estava vivo! Senti um grande alívio e ao mesmo tempo fiquei confuso. Lídia permanecia na porta, sem entrar no quarto, inquieta e assustada. Eu rápida e sumariamente avaliei os sinais do pequeno paciente e nada encontrei. Jonas se apresentava apenas como um menino saudável que dormia normalmente. “Afinal! O que estava acontecendo ali?”

            Pedi que a mãe se aproximasse, mas ela recusou e voltou para a sala onde se sentou em uma cadeira e permaneceu estática, de costas para mim. Fui até ela e sentei a sua frente. “O que está havendo aqui? Lídia! Jonas não apresenta nenhum sinal de que esteja doente. Tente me explicar esta sua aflição. Vamos ver se posso ajudá-la! Me dê pistas!” Necessitava tranqüilizá-la. Se conquistasse a confiança de Lidia e ela se tornasse cooperante talvez aquela incômoda indefinição pudesse ser resolvida. 

            “É difícil!” Por fim ela disse. “O que é difícil?” Continuei socraticamente, tentando extrair respostas que elucidassem aquele chamado sem fundamento. “Descrever o que acontece!” Continuou Lídia. “Por que não tenta?” Articulei procurando ser o mais simpático possível. Ela me olhou no centro dos olhos e até esboçou um sorriso nos cantos da boca. “Ninguém acredita!” Completou Lídia. E se fechou num mutismo triste encarando uma fatia de pão sobre a mesa.

            Fui até o quarto e auscultei o menino. Observei os reflexos das pupilas. Constatei a ausência de rigidez de nuca. Não havia dor à descompressão abdominal súbita. Nem adenopatias palpáveis importantes. Enquanto eu fazia isto Jonas resmungava em seu sono profundo, mas, não demonstrava qualquer desconforto ao ser examinado. Olhei pela porta e vi Lídia de pé ao lado da mesa, olhando para a parede do fundo da peça maior, onde ficava a pia e um fogão. Ela levou as duas mãos à boca e disse numa voz abafada: “Ai, meu Deus! Vai começar…” 

            Intrigado sai do quarto e olhei na direção para onde Lídia fixava seus olhos arregalados. Naquele momento, que deve ter durado 5 segundos, não mais do que isto, o que eu vi gerou em minha mente uma bolsa atemporal. Primeiro fui atingido por uma perplexidade que julgava impossível, e que foi imediatamente transformada em comunhão com a história que Lídia deveria estar vivendo naquela noite, e possivelmente em muitas outras noites. Logo vivenciei um resumo instantâneo dos últimos anos com o grupo coordenado por Gerson. E por fim tive a sensação física, quando toda a pele de meu corpo se eletrificou ao entrar em contato com uma força incomum e estupenda, que não se enquadrava em qualquer conceito possível enquanto exteriorizava a própria existência.

            Naquele ponto a parede da casa ondulava como se fosse uma grande peça de tecido retorcida pelo vento. A louça e os outros utensílios chocavam-se sobre a pia e voava em cacos em todas as direções. O fogão tombou de lado obstruindo a porta dos fundos. Houve um zumbido agudo e depois um silêncio absoluto. A parede voltou a se solidificar como uma parede. O fogão permaneceu caído, e a cozinha era um caos de panelas e talheres misturados com pedaços de pratos. 

            Tive um sobressalto e acordei para a realidade quando Lídia ao meu lado soltou um profundo suspiro. Eu permaneci mudo tentando avaliar minha própria sanidade. Percebi que o gemido de Lídia não era de medo, mas de alívio. Em sua cabeça deveria estar correndo um pensamento de libertação. Não de estar livre do fenômeno, mas de estar livre da solidão. Enfim podia compartilhar. Enfim alguém poderia acreditar naquilo que ela não podia descrever. O chamado pela doença do filho fora um artifício desesperado. Mentira para atrair alguém que pudesse ver que não era louca. E eu era aquela pessoa. Eu fora preparado para aquele momento. Eu fora avisado. Mas eu não me sentia capaz de enfrentar aquela situação. Amaldiçoei Gerson e todos os que sabiam o que estava acontecendo naquela pequena casa no interior pobre de Itapeva. E ao mesmo tempo esperava que cada um daqueles miseráveis manipuladores cumprisse o seu papel. A constatação era óbvia: eu não tinha saída, e dependia da remota e distante ajuda deles.

            Continuava a cair toda a chuva que os céus poderiam acumular para aquele momento especial. Entreabri a porta da frente e percebi que o motorista cochilava no interior do táxi, alheio ao que acontecia na casa. Os filhos de Lídia que dormiam no primeiro quarto eram um pouco mais velhos que Jonas e dormiam um sono em outro mundo. O mundo normal.

            “Quem acreditaria?” Perguntou Lídia, cansada, mas mais conformada. “Meu marido acha que sou louca! As poucas pessoas para quem me abri certamente pensam a mesma coisa. De um tempo para cá decidi ficar quieta e acho que todos pensam que eu deixei de inventar estas coisas. É melhor assim!” 

            “Há quanto tempo?” Perguntei, estranhando o som da minha própria voz. “Há dois anos. Acho. Quase isto. Às vezes passa um tempo em que nada acontece. Depois volta tudo de novo. Meu marido acha que as coisas são quebradas por mim quando me dá uma crise! Uma cunhada minha morou aqui por dois meses para me cuidar, por causa das crianças, entende? Durante aquele tempo quase nada aconteceu e ela nunca viu nada. Você é a primeira pessoa que consegue entender o que eu digo. Hoje estava muito forte. Achei que ia enlouquecer.” 

            “Você acha que a coisa pode se repetir ainda esta noite?” 

            “Não sei!” Depois ficou pensativa por um longo período. Enfim completou: “Eu sei que o doutor não pode fazer nada quanto a isto! Mas eu precisava dividir com alguém. O padre veio benzer a casa há um ano. Ficou pior. Acho que, só por saber que alguém viu as mesmas coisas eu, vou me sentir mais forte. Eu já estava acreditando que tudo isto só acontecia na minha cabeça…”

            “E as crianças? Nunca viram nada?” 

            “Jonas sim! Mas ele é pequeno. Às vezes se assusta. Às vezes até acha engraçado!… mas, me diga doutor! O que eu posso fazer?”

            Então eu comecei uma preleção que surpreendeu Lidia, mas a cada momento que a desenvolvia surpreendia ainda mais a mim mesmo! Eu não tinha certeza das conseqüências daquilo que resolvera fazer, mas, decidi que não poderia continuar vivendo minha vida pragmática sem desenrolar de forma definitiva aquele entrave em que me envolvera quando conhecera Gerson e sua trupe. Meu medo era enorme. Minhas convicções dançavam em uma corda bamba. Era tudo ou nada. “Vamos sentar e esperar! Quem sabe este nosso amigo não resolve nos fazer mais uma visita ainda esta noite?” 

            Lídia pareceu a princípio aliviada, mas, à medida que eu adicionava uma observação ela foi se tornando tensa, talvez até duvidando da minha sanidade mental. E a noite mais anormal de minha vida teve início. 

            Eu, aparentemente, conversava com a dona da casa. Fazia comentários sobre a força que havíamos presenciado, mas sem revelar o conhecimento que tinha de sua natureza. Eu sabia ser o magista, mas isto eu não tinha a intenção de verbalizar. Pretendia passar a idéia de que subestimava a força do fenômeno e que, afinal, eu não passava de um fanfarrão ignorante. Lídia, gradativamente, ficava mais preocupada.

            “Eu tenho medo que esta coisa ganhe uma força que possa nos atingir…!”

            “Não, não se preocupe! Até agora esta coisa só provou que pode fazer barulho, e estragar coisas materiais. Só pretende nos assustar! Talvez até tenha medo de se revelar quando há mais pessoas…” O forro da casa estalou de ponta a ponta, como se algo grande e pesado rolasse no espaço exíguo entre a forração e as telhas simples de amianto. A poeira acumulada pelos anos escapou entre as tábuas em alguns lugares e caiu como uma chuva fina de pó. “Por exemplo: nunca teve coragem de aparecer quando seu marido está em casa…” As luzes piscaram e tive a nítida impressão de que pedras grandes foram atiradas sobre o telhado. “Ele se revela por que vê em você uma mulher fragilizada que tem apenas a companhia de três crianças…”

            Lídia soltou um grito e correu para o quarto em que estava Jonas. Fui atrás. Precisava controlar o meu medo. Necessitava continuar a desenvolver aquela tática, louca ou não, que me parecia a única naquela situação.

            A cama se deslocara no quarto e o colchão com o pequeno Jonas pairava quase meio metro acima do estrado. Lídia desesperada agarrava a beira do colchão e tentava inutilmente alcançar o filho que estava fora de seu alcance. “Só um covarde ataca uma criança indefesa!” Gritei. “Porque não vem brincar comigo? Sua coragem não é suficiente?” 

            O colchão despencou entre o estrado e o chão. Lídia caiu junto e se jogou sobre Jonas para protegê-lo com o corpo. O menino acordou aos prantos. Descargas elétricas bombardearam Itapeva. As luzes se apagaram. Fui envolvido por uma atmosfera sufocante e quente que me aterrorizou entorpecendo as pernas. Nesta hora busquei toda minha capacidade de concentração, no fundo de uma alma que não acreditava possuir, e projetei em minha mente, integralmente, com total nitidez, o mandala de Gerson. 

            Ouvi um uivo agudo e intenso. Senti que estava ajoelhado e depois caído de costas no assoalho de madeira. Um calor intenso queimava minhas orelhas. E fiquei totalmente surdo. Só o silêncio e a escuridão  me atingiram por um período que não pude mensurar. Sentia meu coração acelerado no peito e conseguia compreender que estava vivo. Aos poucos, como retornando de um sonho, ouvia ao longe o ribombar dos trovões. Depois o choro de uma criança. Depois as luzes voltaram. A parede que separava o quarto em que Jonas e Lídia se abraçavam sobre o colchão fora arrancada e as tábuas estavam espalhadas em todas as direções. Os dois filhos maiores de Lídia estavam de pé na porta do outro quarto e olhavam assombrados para aquela cena de explosão.

            Fiquei de pé, peguei minha bolsa e disse para Lídia: “Terminou. Ele foi para outro lugar!” Depois acrescentei: “Se alguém perguntar sobre o estrago diga que foi um raio!” Meus conceitos sobre o mundo real haviam sido modificados para o resto de minha vida.

            Abri a porta da frente e bati na janela do táxi onde o motorista ainda cochilava. 

13ª PARTE – EPÍLOGO

            Na véspera do Natal de 1986 eu estava sentado no alto da torre da Igreja da cidade, pensando no absurdo daquela noite tempestuosa na casa em que enfrentara o magista. Haviam se passado três anos. Percebi que Julio se aproximava. Logo ele estava sentado ao meu lado e conversou comigo naquela maneira peculiar de enfiar as palavras diretamente dentro de minha cabeça.

            “Tivemos êxito! Ele deu um pouco de trabalho na casa de Gerson. Queimou tudo que era elétrico e Gerson perdeu um olho. Mas conseguimos transformá-lo numa tranqüila bola azul e o mandamos para casa. Neste momento os três estão do lado de lá. Gerson acredita que as coisas ficarão desta forma agora por uns bons tempos. Os Anunnaki estão perdendo muito sua força. Talvez em mais trinta ou quarenta anos já tenhamos desenvolvido a tecnologia que nos permita usufruir das informações que estão guardadas naquilo que atualmente se considera o nada.”

            “Isto é uma loucura!” Comentei.

           “Claro que é!”

A Chave Analógica (4ª postagem)

23/06/2009

(Se você deseja saber como começa esta história clique aqui.)

Update em 27.08.2010

Perguntaram se estas pessoas existiram! Todas aparecem na história com nomes falsos, com exceção de Gerson, que tinha este nome, pelo menos até o dia em que se acredita tenha morrido. O meu nome ainda é o mesmo, e ainda estou por aqui. Estas pessoas têm suas vidas, suas famílias, e seus trabalhos. Usei um mome fictício também para Alexandre. Quando fui falar com a mãe dele ela me suplicou que não o mencionasse. Ela não apreciou nenhum pouco a idéia de que o nome de seu filho e a relação que ele tinha com estas “maluquices idiotas” viessem a público

 7ª PARTE – QUESTÕES NÃO RESOLVIDAS          

            “Tudo no seu devido tempo Sr. Talis. Primeiro vocês necessitam das respostas sobre algumas questões que deixei em aberto. Como sempre alguns de vocês não ficarão satisfeitos com as explicações que vou dar. Alguns vão rotulá-las como fantasiosas ou absolutamente sem sentido. Mas é assim que as coisas precisam ser levadas adiante. Acreditem: se aqui eu contasse tudo o que está em jogo, como numa narrativa jornalística, digamos assim, um elo importante existente entre nós se romperia, e o trabalho até agora desenvolvido seria todo jogado fora… na verdade isto já me aconteceu uma vez e não quero repetir o erro! Antes que perguntem qual o elo a que me refiro eu lhes respondo: é a mágica, o mistério, a aventura de dar um passo sem saber qual é o seguinte, pois esta é a essência do caráter de vocês. Vocês querem as respostas agora, já, exatas, lógicas, bem encadeadas, num roteiro linear e límpido, mas, no momento em que tiverem todas as respostas o mistério morrerá, e o interesse de vocês se transformará de uma dúvida interessada em uma dúvida concreta.”

            Todos nós estávamos fortemente atentos à narrativa de Gerson. O tom solene dava a entender que aquela reunião teria um desenrolar diferente de tantas outras anteriores. Havia uma espera ansiosa pela continuação.

            “Em alguns momentos vocês vão considerar o que digo como um devaneio, ou uma história fantasiosa sobre civilizações antigas. Interpretem como quiserem! A partir deste momento tudo que vocês não ignorarem será de grande valia, mesmo que seja apenas para manter a ponte mágica que nos une.”

            “Talis! Com você a conversa será demorada e em outro dia! Evidentemente, se ainda for de seu interesse, gostaríamos que fizesse uma visita ao criador de porcos de Candeias, mas isto não será agora.” Talis suspirou evidentemente aliviado. 

            “Primeira pergunta: quais são as nossas armas?” Houve um movimentar-se inquieto e inseguro entre os presentes, e como Gerson parecia aguardar a resposta de alguém, Juliana tomou a frente e respondeu:

            “Eu acredito, ou é desta forma que racionalizei a minha ação em Candeias, eu tenho a habilidade de detectar a localização de um poltergeist, que, de uma forma que não compreendo não me atinge, e parece se acalmar quando mentalizo minha chave analógica” 

            “Uma boa definição!” Exclamou Gerson.

            Depois se voltou para mim e para Talis e disse: “Vocês dois também não são agredidos pela força a que Juliana chamou poltergeist – que não deixa de ser um bom nome, embora eu prefira chamá-la de magista, pois diferentemente da primeira esta forma não se manifesta por alguém, ela é independente…!no entanto, vocês têm a capacidade de agredir esta força. Não uma agressão destrutiva, mas uma agressão restritiva. O magista se sente impelido a abandonar o lugar em que está alojado. Ele pode fazer de tudo para assustar vocês quando na verdade está se defendendo e desesperado para não ter que mudar de lugar. O magista é uma força monumental que tem a mentalidade de uma criança. Ele quer brincar. Ele quer se sentir seguro. E vocês, aos olhos dele, são como pessoas más e detestáveis. Um magista não pode atingir diretamente vocês, mas pode jogar objetos ou usar de outros recursos indiretos para se defender. Para que vocês tenham sucesso ao enfrentá-lo é fundamental que o mandala que cada um recebeu seja projetado em suas mentes em seus mínimos detalhes. O momento em que isto ocorrer deve ser muito bem arquitetado. Haverá um grupo formado por mim, por Liana e por Julio. Nós temos que estar em sincronia perfeita com vocês. Nós somos a outra ponta. Nós temos as armas para prender o magista.” 

            Minha cabeça doía muito! Gerson nunca fora tão azul! Talis, quieto desde o início, não se conteve e perguntou: “Prender a coisa? Mas afinal o que é… do que é feito, sei lá! Como você pretende fazer isto com uma força, pelo que se deduz é incorpórea? E para quê? Esta piração ainda vai se desdobrar de que forma?”

            “Tenha calma. Vamos ligar os elementos que temos até agora. O desenvolvimento de Juliana começou quando Alexandre resolveu não pertencer mais ao nosso grupo. Ali eu disse que de uma forma indireta havia se aberto uma porta que nos seria favorável. Algo foi “ligado” em Juliana, e ela passou a ter a capacidade de  perceber a existência do magista. Sabemos que o magista é uma força poderosa, que só de uma forma especial pode ser controlada. Agora vou dizer para vocês de que forma podemos usar esta força a nosso favor. Ou de que forma poderemos cumprir o nosso objetivo como grupo. A processo de como podemos prender o magista é irrelevante. Na verdade, para o bem de vocês: Juliana, Talis e Ronaldo, nem é interessante saber como isto será feito. Mas acho importante que todos saibam que há um grupo de inimigos que tentam de todas as formas impedir que tenhamos sucesso. E é interessante saber por que estes inimigos agem desta forma.” Respondeu Gerson. 

            “Mas antes quero que todos saibam que hoje recebi a notícia do falecimento de Alexandre. Isto já estava escrito, mas a morte nunca deixa de nos tocar. É um bom momento para ficamos em silêncio e pensar em tudo o que foi dito até aqui.” 

8ª PARTE – HISTÓRIAS ANTIGAS E ELOS PERDIDOS 

            E realmente se fez um compacto momento de silêncio. Um silêncio como eco à abrupta mudança de assunto para nos dar a notícia. Um silêncio constrangido. Cada um de nós elaborando a própria relação com o controverso indivíduo que todos conhecíamos como Alexandre. Uma personalidade agressiva e envolvente. Inteligente e que possuía os elementos considerados úteis para ser um advogado de sucesso. Que pertencera a um grupo maluco que esperava encontrar, convivendo com Gerson, respostas às velhas questões sobre os mistérios da vida, da origem, do destino, e dos limites do homem frente à realidade e seus aspectos mágicos. Um personagem jovem que usara um poder sobre o qual não tinha domínio e fora vitimado por este poder. Um jovem que convivera conosco e agora estava morto.

            O silêncio foi suavemente preenchido pela voz monocórdica de Gerson quando iniciava seus longos monólogos.

            “Quando as primeiras civilizações humanas se estabeleceram na Mesopotâmia, e nos vales do Indo e do Nilo, a presença dos Nifilim sobre a terra estava em seu declínio. Mas seu conhecimento ainda era colossal. Na tradição suméria se afirmava haver uma relação íntima, genética, entre o Nefilim Enki e os descendentes do gênero Homo sapiens. Enki era considerado um deus benéfico aos olhos dos primeiro humanos que viveram entre o Tigre e o Eufrates. Ao contrário da tradição judaico-cristã que o representava como a serpente que mostrou ao homem o fruto do conhecimento para o bem e para o mal. As castas inferiores dos Nefilim, os Anunnaki, viam no crescimento cultural do Homo sapiens o fim de sua supremacia e, com o apoio da elite ainda reinante, liderada por Enlil, irmão de Enki, por todos os meios tentaram impedir que Enki transmitisse conhecimentos aos seus protegidos. A história dos Nefilim na Terra, seus objetivos, suas cidades pré-diluvianas na mesopotâmia, a relação entre a necessidade de mão de obra no trabalho de mineração na África e a transformação do Homo erectus em um trabalhador escravo é uma longa e complexa história que culmina no surgimento do próprio gênero humano moderno, numa trama rica e polêmica que dá origem a todas as culturas religiosas que existem atualmente sobre a face da Terra. Mas isto ocorreu há mais de 6 mil anos e é um outro capítulo, muito interessante, mas que foge do nosso objetivo imediato. Devemos nos concentrar na mobilização de forças para que o desejo de Enki, de que o conhecimento de sua espécie permanecesse ao alcance dos humanos, seja efetivado… para que este conhecimento seja acessado e utilizado gradativamente, de acordo com o grau de maturidade de nossa espécie… para que a nossa espécie não perca o acesso a este conhecimento que a tradição convencionou chamar de registros acádicos.” 

            Gerson fez uma pausa, olhou em volta, mas não houve perguntas.

            “Todos sabem que a palavra átomo perdeu seu significado há muito tempo. Hoje as partículas subatômicas, que compõe o núcleo do que antes era considerado indivisível, são comprovadamente compostas por outras partes menores… e em breve se saberá que o interior de cada uma destas partes, aparentemente, será composto por um paradoxal e incongruente nada! E digo aparentemente, porque a princípio nossa tecnologia será incapaz de observar a magnífica rede que une cada um destes interiores vazios. Um banco de dados que escapa de nossa compreensão dimensional. Uma porta não para outra dimensão, mas para uma miríade de possibilidades paralelas. Onde cada partícula, que os teóricos estão chamando de quark, se conecta com qualquer outra em qualquer parte do universo através de seu nada interior.”

            Gerson fez uma pausa maior dando a entender que mudaria o rumo na narração, mas que as partes tinham relação entre si.

            “Existe uma brecha entre a nossa dimensão e aquela em que os registros acádicos estão armazenados. Esta pequena abertura, esta fresta, é dinâmica, e está presente em todos os lugares. Realmente em todos os lugares onde existir um núcleo de um átomo, onde existirem próton e nêutrons, onde existem os pequenos quarks em seus interiores.”

            “Sabemos que duas forças de mesma polaridade se repelem. Dois prótons positivos se repelem. Então como é possível mantê-los no interior dos núcleos sem que haja uma desintegração total? Isto é possível graças a um equilíbrio dinâmico que ocorre entre os 3 quarks que compõem um próton ou um nêutron. De uma forma simplificada podemos dizer que a volubilidade entre as cargas gera um artifício tão fugaz e oscilante que as positividades existentes não chegam a se estabelecer o período de tempo necessário para a repulsão.” 

            Alguns de nós se mexeram inquietos pois naquela época estas idéias estavam apenas nascendo e o desconforto pela não compreensão se tornou evidente. Julio comentou: “Gerson! Podemos até acreditar em sua explanação… embora já tenha lido em algum lugar que estes conceitos não passam de ficção matemática, mas, no que nos diz respeito, como podemos entender a tal abertura… e onde entram os Anunnaki e Enki nesta história?”

            “A abertura pode ser encontrada na colisão de partículas! Há experimentos neste sentido. Num determinado momento, uma partícula até então desconhecida, abrirá uma porta entre estas dimensões. Para que isto aconteça a colisão que se pretende deve acontecer. Ela não pode ser evitada. O que os Anunnaki pretendem, pois alguns deles ainda vivem entre nós, é que o ser humano seja incapaz de obter este avanço tecnológico que leve ao encontro da brecha entre as dimensões. O que Enki nos deixou, pois ele não está mais entre nós, é um truque para que os Anunnaki nunca consigam o seu intento.”

            “Pois bem! Aqui entra um pouco de mágica! Pelo menos aos nossos olhos pragmáticos e acostumados a esta pequena ilha dimensional em que todas as coisas devem seguir as regras de Newton ou não existem.”

            “O magista, embora seja uma força poderosa é imatura. Ele pertence à dimensão onde estão os registros acádicos. Passou para nossa dimensão por ação de alguma manobra Anunnaki. Avaliem o magista como uma criança. Ele quer brincar, não importa onde e nem com o quê. Neste momento usa sua força brincando com os porcos, como Juliana nos descreveu. Nosso objetivo é recolocá-lo em sua verdadeira dimensão. Esta foi a herança que Enki nos deixou: enquanto os magistas, que sabemos serem três, estiverem em sua dimensão de origem, o brinquedo favorito deles será infernizar a vida dos Annunaki. De que forma é exatamente este infernizar eu não tenho os meios para saber, mas sei que envolve a física de partículas. Nós temos os meios de devolver este magista para o lado de lá. Assim mantemos este jogo, procurando nunca perder a possibilidade de um acesso total ao registros acádicos. Acreditamos que apenas uma vez os três magistas estiveram num mesmo tempo em nossa dimensão. Isto aconteceu durante a Idade Média, embora nunca tenham deixado de existir grupos, como o nosso, que persistiram na luta contra os Anunnaki”.

            Eu ponderei: “Você concorda, Gerson, que mesmo com tantos sinais insólitos vivenciados em sua companhia, esta trama toda fica fantasiosa e inverossímil. Segundo sua exposição os elementos básicos ocorrem em lugares, ou dimensões, às quais não temos acesso. Fica difícil acreditar numa poderosa força infantil, que não pertence à nossa dimensão, criada e mandada pra cá, por possíveis inimigos da raça humana, com a intenção de que fiquemos afastados de um manancial de conhecimentos. Mesmo depois que Talis tenha feito, seja lá o que ele necessita fazer para que o plano de devolver o magista ao seu mundo funcione, nós, os observadores, teremos apenas uma opção: ajudamos a salvar o mundo de uma nova idade das trevas, porque três magistas do lado de cá provocariam em teoria este efeito, e passamos a acreditar nisto como um ponto de fé. E fim. Pois, na prática o mundo continuará a girar da forma que conhecemos… e ainda: as chaves analógicas nunca nos dariam acesso aos registros acádicos como você nos fez crer no início, ou você teria algo a acrescentar!”

            “É, de certa forma será bom vermos o mundo girando da forma que estamos acostumados… as outras formas talvez não sejam agradáveis. Quanto às chaves analógicas ou mandalas darem acesso direto aos registros… eu menti! Ou torci a verdade para que vocês permanecessem fisgados. As chaves vão ser úteis, mas de outra forma… aguardem e não ficarão decepcionados! Mas tenho umas ressalvas ao que você disse: os magistas não foram criados para este fim. Eles já existiam muito tempo antes dos Nefilim. Enki apenas os prendeu entre as duas dimensões. Aproveitou que são entidades que não evoluem e têm em sua essência unicamente o desejo de brincar e os colocou num lugar onde poderiam ser felizes, impedindo que os Anunnaki nos prejudicassem. Enki sabia que em contato com as pequenas partículas subatômicas os magistas permaneceriam ocupados até o fim dos tempos, mas não previu que os Anunnaki obtivessem os meios de mandar os magistas para o nosso lado. Outra correção: os Anunnaki não são exatamente inimigos da raça humana. De certa forma eles apenas pretendem preservar um conhecimento que consideram propriedade sua e, possivelmente, nos julguem, inaptos ou inferiores. Talvez até temam o uso que a nossa espécie possa fazer de tal conhecimento. Nós, por nossa parte, pretendemos continuar a evoluir, ascender, e quem sabe, chegar ao Princípio!”

            “Princípio?” Perguntou Luana. “Que Princípio?” 

9ª PARTE – DEVANEIO  

            Gerson fechou os olhos e começou uma estranha resposta:

            “O Princípio ou o Fim. O Princípio-Fim é o guardião ou o real conhecedor do conteúdo do nada. O conhecimento da rede de informações que o aparente nada esconde no total das conexões dos interiores infinitesimais só estará ao nosso alcance quando fizermos parte desta mente que tudo engloba. O Princípio-Fim ocupa o mesmo lugar no círculo cósmico. O Princípio observará o lento e caótico modificar do nada por quantos éons? A matéria já estará disforme. A energia, que é ao mesmo tempo a própria essência do Princípio, gradativamente, escorrega em obediência às novas leis físicas do limiar da existência como a definimos. O Princípio sabe que aquilo que chamamos de nada contêm o início de todas as coisas. Que a trama de informações libertas das partículas já não existentes forma a rede necessária para um novo começo. Sabe que não há diferença entre estes dois conceitos aparentemente contraditórios, mas também sabe que isto causaria (ou já havia causado – uma vez que o tempo é apenas uma questão de ótica) uma grande confusão em estágios em que o Princípio procurava sua maturidade…! Afinal o objetivo do Princípio é o Fim. Afinal o Fim tem como objetivo desencadear o Princípio. Afinal, a tendência pulsante universal gera este aparente paradoxo cíclico…”

            “O nada aponta para um estágio entrópico nulo. As infinitas espécies orgulhosas que ergueram civilizações, já há bilhões de anos voltaram ao pó. A luz deu lugar à escuridão total. Os famintos horizontes de eventos dos engolidores de galáxias agregaram-se aos elementos da grande atração. O Universo agoniza.”

            “Para o Princípio o centro do universo é o lugar ocupado por ele. Qualquer lugar é o centro! A expansão universal, com suas misteriosas acelerações, arrastando para um infinito impensável as colossais massas estelares, só colocou todas as coisas materiais em um único lugar: no lugar ocupado pelo Princípio. Para o Princípio era irrelevante a diferença entre os conceitos opostos de: para fora até o infinito inimaginável ou: para o centro até uma singularidade única. O Infinito distante é o próprio centro único! pois o centro único é qualquer ponto onde está o Princípio, e o Princípio se encontra em qualquer lugar. Aquilo que se distancia na verdade cai. Cai para a singularidade final. Cai para a singularidade inicial. E neste instante o universo agoniza; o universo irá pulsar. E com o fim do universo, e daquela especial organização da energia, será o fim do Princípio.”

            “O Princípio, acostumado aos bilhões de anos, percebia, já há algum tempo, que a temperatura se modificava. O gelo do universo agonizante dera lugar, paulatinamente, a um tênue, mas crescente calor. A singularidade se aproximava. O tempo, aparentemente eterno, fluindo na mesma direção e num mesmo ritmo há incontáveis eras, ganhava um elemento novo: aceleração!”

            “O Princípio sabia que quando há aceleração no elemento temporal e uma singularidade se aproxima um grande evento acontecerá: o fim de todas as referências dimensionais definidas pelas leis físicas daquela ondulação universal.”

            “O Princípio, já consciente de ser o Fim, sabe que sua morte será o fogo para um novo Princípio. O Princípio, já quase na singularidade, necessita manter a trama das informações no nada, único, num instante, e no instante seguinte no interior de incontáveis partículas. Num átimo o mistério da criação. E, naquela nova onda, os seres pensantes guardarão a imagem arquetípica de um criador; reflexo do Princípio-Fim retido nas informações que navegam no mar infinito que tornam o nada único dentro de todas as partículas…”

            “Este é o Princípio, Luana. E para que a nossa espécie possa fazer parte dele contamos, em breve, com as ações de nosso bravo guerreiro Talis! Não é Talis?” 

            Talis acordou para a realidade sentindo o peso de toda a evolução sobre seus ombros.

(continua)

A Chave Analógica – (3ª postagem)

03/06/2009

(Se você deseja saber como começa esta história clique aqui.)

Update em 25.08.2010

Na época da postagem chegou a seguinte pergunta: “Mas afinal! em que dimensão esta narrativa ocorre? Elementos ocasionais fazem pensar que não se trata se uma ficção! E o nada que não é o nada? aonde entra nesta história?” (quando seria mais preciso dizer: quando se entra no nada para que a história tenha sentido?). Tudo parece um jogo de palavras mas são palavras que definem um jogo. O nada que passa a idéia de ausência está excluído neste contexto. O nada é muito maior, e está lá, a espera, como uma rede a espera dos peixes… de um quark a outro, como cômodos de uma casa infinita, todos interligados, partes de uma mesma coisa, um único e universal e aparente nada. Onde todas as respostas ecoam há um pouco menos de 13,5 bilhões de anos (pelo menos desta vez). Um nada onde a diferença entre o ver e o olhar é fundamental. Nem sempre aquele que olha vê. Pois para ver nem é preciso olhar…!

Também perguntaram sobre a existência das chaves! Sim! As chaves existem, mas elas não são tão importantes. Girá-las gera analogias em determinadas fechaduras. As fechaduras sim, estas são importantes. Às vezes achar um chaveiro pode ser interessante…! 

6ª PARTE – A MISSÃO DE JULIANA 

            Eu já havia tomado uma decisão: Candeias não faria mais parte de meus planos futuros. Uma cidade pequena, receptiva, oferecendo uma atraente oportunidade profissional, mas agora envolvida em uma história mal contada. Muitas coincidências enroladas no mistério das ações dos meus companheiros “de-coisas-loucas”. Somado a isto havia o fenômeno das cores em volta das pessoas, com desdobramentos desagradáveis fora do ambiente em que as pessoas do grupo estavam envolvidas. Talis se adaptou mais facilmente àquela novidade e por vários dias defendeu de forma obsessiva o conceito das auras. Mas eu não gostei da idéia de permanecer indefinido entre possuir a visão de um iniciado ou ser portador de um paroxismo epiléptico. As crises ocasionais de dores de cabeça eram intensas e nenhum argumento esotérico me convenceu a aceitar de bom grado aquele “poder” inconstante e involuntário. Consultei um neurologista e um oftalmologista (omitindo politicamente os detalhes que teriam me brindado com um encaminhamento a um psiquiatra), mas, aparentemente, nada preocupante foi encontrado. Na época existia um medicamento para cefaléia (Tonopan) que continha butalbital (um barbitúrico) na fórmula, e foi com este remendo que consegui suportar as dores. Passei um bom tempo sem me encontrar com os outros “guerreiros”. Talis me mantinha informado das notícias mais importantes. Eu, nesta época, procurei concentrar todos os meus esforços em minha profissão, e, a cada dia ficava mais evidente que sair de Porto Alegre era a melhor opção. Já havia visitado por duas vezes a pequena cidade de Itapeva, próxima ao litoral, sem as mesmas facilidades que encontrara em Candeias, mas onde o meu trabalho seria muito bem recebido.

            Um dia encontrei Talis e Julio na Sarmento Leite, na esquina da Faculdade de Medicina. O Talis estava pálido. O Julio falante e excitado. Eu nunca o vira assim!

            “Amanhã tem reunião na casa do Gerson. A Juliana tem umas boas histórias para contar. É para todo mundo ir.” Deu um tapa nas costas no Talis que o desequilibrou. “O Talis, aqui, não vê a hora se saber os detalhes. Não é Talis?” Talis abanou a cabeça com os olhos parados e com a boca muda. Estava borrado de medo.

            Pensei: “Não vou! Está na hora de cortar os vínculos com a turma. Logo vou embora daqui. Vamos botar os pés no chão e esquecer esta história de querer achar a porta para um mundo mágico!”. Mas no dia seguinte lá estava eu. Com cara de homem sério, mas tão curioso como todos os outros.

            Gerson saudou a todos de uma forma mais pomposa do que o habitual. Pediu desculpas por ter se ausentado além do previsto, mas acrescentou que acreditava na compreensão dos amigos, afinal, disse: “É preciso trabalhar de vez em quando, pois um homem não pode ficar todo o tempo brincando de guru!” Enquanto isto Juliana mostrava-se visivelmente ansiosa em iniciar o seu relato. Liana e Julio estavam sentados no chão ao lado da poltrona em que Talis havia se acomodado. Um Gerson azulado ocupou o centro do sofá maior tendo eu e Juliana ao seu lado. Enfim o velho voltou sua atenção para Juliana.

            “A informação que eu tinha era de que algo estranho estava acontecendo na criação de porcos de um morador de Candeias.” (Soube que o proprietário era o médico que eu iria substituir no hospital da cidade. A tal criação de porcos não era um estrutura simples. Contava com um frigorífero imponente. Ele exportava carne para vários países, e esta era sua atividade principal. Ele estava ansioso para que alguém o substituísse na atividade médica.). “No meio da noite os animais enlouqueciam. Vários, misteriosamente, conseguiam amanhecer fora dos galpões. E alguns morriam, segundo o diagnóstico dos veterinários, de enfarto, tamanho o estresse sofrido nestas ocasiões”.

            “Todas as possibilidades que poderiam ser as causadoras do transtorno foram analisadas. Predadores, doenças, envenenamentos, ação de vândalos. As coisas aconteciam invariavelmente à noite, mesmo com todas as luzes acesas e na presença de vários técnicos e do proprietário.” O que chamou a atenção de Gerson foi a história contada por um dos funcionários que afirmou ter visto um dos animais ser lançado em um vôo impossível sem que nenhuma ação justificasse o fato.”

            “Então!” – interrompeu Julio – “a super Juliana chegou com seus poderes para solucionar o caso”!

            Juliana, sem dúvida se mostrava bem mais segura do que nós a conhecíamos anteriormente, e retrucou: “Ora Julio! Não se faça de bobo! Você sabe que não posso resolver casos, como você está insinuando! O fato, isto é preciso ficar bem claro, é que eu não sei como funciona, apenas procurei seguir as instruções que o Gerson me deu… fico com muito medo, é claro! mas acredito que nada de mal vai me acontecer se eu fizer as coisas certas. Só faço a minha parte, e acredito, preparo o terreno para que outro termine o trabalho. Se vocês quiserem saber o resto eu continuo…”

            “Vai em frente, guria! Não esquenta com o que digo! Talvez eu esteja é com um pouco de inveja por não ter participado desta sua aventura!” Realmente, era um Julio bem mais extrovertido do que eu conhecia.

            “Bem…” – seguiu Juliana – “… havia alguma coisa lá! Eu não vi esta coisa. Mas vi porcos rodopiarem no ar. E senti aquela eletricidade que deixa todos os teus cabelos de pé. E quando consegui ficar calma, e me convenci de que aquela coisa não podia me atingir, mentalizei meu mandala até poder vê-lo desenhado na minha frente. Então tudo ficou muito quieto, os gritos dos porcos e o som das máquinas se transformaram em um silêncio pesado que aos poucos foi sendo substituído por um zumbido quase ensurdecedor que terminou repentinamente num estalo elétrico. E os porcos foram se acomodar roncando como os porcos fazem para achar um lugar para dormir, e tudo ficou em absoluto silêncio. Mas minha nuca me dizia que a coisa continuava lá, me observando, me analisando, aparentemente sem poder me atingir. Os acontecimentos estranhos, depois me disseram, ficaram bem mais raros, mas a coisa continua lá! E foi isto que aconteceu! “

            “Alguma pergunta?” questionou Gerson.

            “Aonde eu entro nisso?” Cuspiu Talis! E sua rapidez e ansiedade foram tão evidentes que todos rimos, até o próprio Talis, mas Gerson não riu e, como sempre iniciou uma longa preleção, que parecia não ter ligação alguma com aquilo que acabáramos de ouvir.

(continua)

A Chave Analógica (2ª postagem)

07/05/2009

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Update em 26.03.2010

Tente resumir a coisa assim: você morreu e não há nada, não há sentido, não há objetivos, não é relevante qualquer enlevo espiritual, não valeram os estrondosos esforços estelares em cuspir a poeira que nos compõe e nem as teorias darwinianas que explicam a porra atual, e nem as conjecturas que apontam para uma mente cósmica evolucionária. A vida de cada um de nós não passaria de um peido cósmico. Muito insatisfatório!

Ou quem sabe: um doce anjo lhe dará a mão e o levará por um caminho iluminado onde cânticos celestiais soam como o prenúncio de uma estadia eterna em adoração junto ao Pai Supremo. Isto se você for bonzinho. Se você for do mal o chão será rasgado antes do fim de seu último suspiro e você mergulhará direto no caldeirão do capeta para ser fervido e espetado por toda a eternidade. Teorias extremas para depois da vida.

Nós queríamos uma visão fugaz e intelectualizada do sentido da vida. Agora. Não as hipóteses post mortem. Esta era a procura.

Gerson alegava a existência de uma dimensão que rotulava como “o” nada! Não o nada formal da negação de qualquer conteúdo ou continente, mas aquilo que nós sabemos que está interiorizado em toda e qualquer partícula deste universo, aparentes ilhas de misterioso vácuo, onde o sentido do que nos é físico se perde, mas que conteria a verdadeira rede que “cola” e torna único este colossal subproduto do big-bang. Nós nos sentíamos atraídos pelos reflexos desta rede, exteriorizada em todas as manifestações que a natureza fora capaz de inventar, mas que aqui e ali deixava fiapos de mistérios que agiam como um imã sobre as nossas mentes ávidas. A possibilidade da existência desta rede alimentava o enlevo e as conjecturas sobre uma futura e longínqua mente cósmica evolucionária. Um sonho que ultrapassa qualquer egocentrismo.

Para cada um de nós individualmente, e nossas consciências efêmeras, a passagem para qualquer outro plano, cuja descrição foge de nossa capacidade conceitual, é um fim, sobre todos os pontos de referência que nos dizem respeito. Nós sabemos que é irrelevante teorizar a respeito. O “morreu, morreu, antes ele do que eu, foi bom enquanto vivo mas agora já fedeu!” vale tanto quanto quaisquer outras formas mais respeitosas para com o defunto.

Acho que a questão da interpretação sobre a morte tem mais relevância para os que ficam! Recentemente observei isto bem de perto, e eu era o morto!

Não tínhamos o desejo de saber tudo, ou ter um acesso mágico aos alegados registros. Em princípio os mais velhos nos consideravam uns alienados, de forma muito semelhante como a minha geração, agora velha, acha a juventude atual. Esta é a síndrome da contínua falta de comunicação entre as gerações. Naquela época a preocupação era estar envolvido com algo mágico. Isto foi um movimento. Estava em toda parte. Assim como hoje há emos, punks, darks, grunges, neo-nazistas e senadores, naquela época havia os hare krishna, os seguidores de Rajneesh, e grupos heterogêneos como o que descrevi na história. Havia uma ansiedade em descobrir algo que transcendesse a dimensionalidade do dia-a-dia. E ocasionalmente aconteciam coisas interessantes!

4ª PARTE – OS GUERREIROS E SUAS ARMAS

            Minha intenção era não ir mais à casa de Gerson, mas as sensações eram muito variadas e oscilantes. Sentia raiva, medo, indignação, necessidade de não ficar na ignorância no meio de um caminho incompleto, e desejo de respostas. A necessidade de não ficar o resto da minha vida com perguntas entaladas na garganta moveram minhas pernas e quando percebi cheguei à casa do velho.

            Lá só estávamos eu, Talis, Julio, e Gerson. Talvez Luana e Juliana chegassem depois, mas o tempo foi passando e percebi que as ausências haviam sido arranjadas.

            Como se qualquer introdução fosse absolutamente desnecessária, Gerson iniciou sua preleção soturna e uniforme: “Sim! Somos peças de um jogo! Não de um jogo meu, afinal eu também faço parte deste jogo como… usando uma palavra sua, como um peão! Talvez eu seja um peão com alguns privilégios pois sei de coisas que alguns de vocês não sabem! A minha função aqui seria a de um coordenador, quem sabe? Como em todo jogo o nosso objetivo também é ganhar, obter a vitória… eu diria que estamos participando, na verdade, de uma luta, ou de uma batalha. Neste caso a vitória pode representar a vida… a vida individual de um dos guerreiros, ou a vida da causa.. do motivo da luta.”

            “Na verdade eu sei por que cada um de vocês chegou até mim. Além da atração por aquilo que vocês definiram que eu represento ou posso vir a representar individualmente para cada um de vocês, todos vocês possuem uma qualidade, uma capacidade específica… ou, pelo que vejo nos olhos da imaginação de alguns de vocês, um dom, um poder, mas esqueçam estes rótulos fantasiosos e nada úteis… eu prefiro dizer que cada um de vocês possui uma arma!” Talis não se conteve: “Defina melhor isto aí: batalhas, armas, planos desconhecidos, Alexandre deixou de ser um de nós, e pelo que vimos, pode ser um inimigo perigoso. Falo por mim mas garanto que todos aqui estão pensando a mesma coisa: quando começa a correr o nosso sangue?”

            Gerson esboçou o seu arremedo de sorriso e respondeu: “Não há sangue no lado de cá desta luta meu valente guerreiro, talvez alguns arranhões psicológicos, mas nada que os vá deixar um pouco mais loucos do que já são.”

            “Você está se contradizendo” – retruquei – “havia deixado bem clara a diferença entre um jogo e uma batalha exatamente porque, nesta última, vidas podem ser perdidas.”

            “Você não prestou bem a atenção no que eu disse anteriormente” – respondeu Gerson – “eu disse que neste tipo de batalha a vitória representa a vida, ganhar a vida, eu não disse que a derrota representa a morte…! Ganhar a vida significa conseguir um tipo de realização que o jogo nunca poderia nos oferecer. O que se ganha do jogo é efêmero. O que se ganha na batalha marca o guerreiro com o sinal da vitória de uma forma que ele não poderá ser apagado. Este sinal fica gravado em sua alma.”

            “E o que nos acontece em caso de derrota?” – perguntei.

            Houve uma longa pausa como se Gerson escolhesse dentro de si a melhor resposta e não encontrasse as palavras corretas. Por fim ele grunhiu: “Uma frustração muito amarga!”

            Depois, recomposto, continuou: “Quanto ao inimigo Alexandre vocês já podem considerá-lo fora da batalha. Ele está queimando as suas armas. E elas não são eternas quando usadas de forma errada. Em breve teremos notícias dele! Na verdade ele, com toda sua empáfia e sua arrogância, também foi um peão neste jogo. No íntimo eu gostaria que ele tivesse usado toda a sua força no sentido que julgamos correto. Ele seria um aliado de muita valia se a essência dele fosse fazer parte do conjunto dos espíritos que um dia almejam a unidade. Mas… o desejo da conquista é um vício muito insidioso e poderoso.”

            Interrompi a narração: “Você está divagando Gerson!”

            Mas ele sorriu e disse: “Não, não estou, um dia posso contar a vocês sobre o Princípio… e sobre o Fim, e vocês vão juntar todas as peças, e verão que não estou divagando! Nestas questões muitas coisas têm a aparência de uma divagação, ou de uma fantasia. Se eu lhes contasse, agora, onde fica o nada e o que há lá dentro dele, vocês ficariam convencidos de que já estou louco há muito tempo. Talvez minha narrativa não seja tão linear como a de vocês, bem mais jovens, ou talvez a minha linearidade só lhes pareça como fios soltos porque a história é exatamente assim quando você a conhece! Mas… só acompanhem o que lhes vou dizendo e verão que tudo está concatenado… embora, tenho certeza, nem todos ficarão satisfeitos, pois nem tudo pode ser dito antes do devido tempo.”

            “Hoje, com a ausência das meninas é importante que aproveitemos o tempo para falar delas, ou do que ocorreu aqui naquele dia. Todos perceberam a grotesca demonstração do Alexandre. Em resumo ele deixou claro que podia usar a energia de seus chakras focalizando-a na sexualidade de Juliana. Mas para que? O que ele ganhou com isto? Além de obter o repúdio de todos nós ele cometeu um erro grosseiro para um indivíduo com este poder: ele se revelou!”

            Todos nós concordamos que aquela interpretação não nos havia ocorrido! Porque Alexandre se denunciara gratuitamente? Independentemente de sua personalidade controversa ele era um indivíduo inteligente, e, só agora, percebíamos que sua revelação fora um ato estúpido. Esperamos a continuação de Gerson que parecia ser o único que tinha uma resposta.

            “Ele não agiu daquela forma porque quis. Ele foi manipulado. Ele foi instruído a usar a chave analógica para liberar de forma desastrosa o kundalini, porque este desejo já fazia parte da psique daquele rapaz. Ele deve ter levado o desenho a pessoas sem escrúpulos que sentem prazer em lidar com o lado insólito. Estas pessoas não são inimigos reais. Muitos me detestam por vários motivos. São indivíduos estúpidos, sem cultura, que se divertem com o sofrimento dos outros, mas que infelizmente têm acesso ao conhecimento imaterial que já foi disseminado há muito tempo. Aqui, naquela noite, Alexandre tentou usar sua energia sobre Luana, mas ele não sabia que o conhecimento do kundalini é a arma dela. Ela o rejeitou e a sexualidade de Alexandre se voltou para a outra figura feminina que estava presente. Jonas tem um dom: ele percebe quando uma pessoa não é ela mesma ou está sob forte influência externa. Mesmo assim deixamos que Alexandre se voltasse para Juliana. Ela dissimulava muito bem, mas aceitaria as atenções vindas dele, pois já colocara sua receptividade hormonal instintivamente voltada para Alexandre. Deixamos que a demonstração de Alexandre acontecesse. Pois sabíamos que seria possível reverter qualquer mal através de Luana e Violeta. Desta forma permitimos que Alexandre utiliza-se toda sua energia naquele ato, e isto nos abriu a porta que precisávamos. Juliana não sabe o que ocorreu e acredito que todos nós concordamos que deva permanecer assim. Luana não vai gostar nem um pouco se comentarmos sobre o seu domínio sobre o kundalini. Evitem falar disto quando ela estiver presente. Quanto a Julio, ele não se importa de que saibam de sua habilidade.”

            Fez uma pausa e continuou: “E vocês dois agora estarão se perguntando: quais são nossas armas? Que porta misteriosa é essa que foi aberta? Estas perguntas eu vou responder no tempo devido. Eu disse que nem todos ficariam satisfeitos com as minhas respostas.” Depois Gerson fez uma longa pausa, como se desse a conversa por terminada, mas voltou a falar:

            “Há outras perguntas que também não foram respondidas. Nós temos uma meta, é verdade. Há um plano. Este plano foi arquitetado há muitos e muitos anos. Na verdade ele não é um plano único. Nós somos como uma célula. Aquilo que fazemos vem sendo feito por muitas gerações e certamente, neste exato momento, em algum lugar do planeta, outras células vivem o mesmo dilema. Muitas fracassam. Eu diria que muito poucas atingem o seu objetivo. Vocês formam o quarto grupo que coordeno durante a minha vida. Fracassei em todas as três vezes anteriores. Talvez alguns de vocês venham a sentir o chamado que me transformou num… guardião. Acho que este é um nome como outro qualquer, mas que define bem a minha finalidade nesta batalha. As perguntas que agora ouço nas cabeças de vocês são: “Quem é o nosso inimigo? Qual é o nosso objetivo?”

            Todos concordaram com a cabeça, mas Gerson se levantou e disse: “Hoje estou muito cansado. Vou pedir que me perdoem, mas nós precisamos continuar em outro dia.”

            “Ah!” – Gerson agiu como se naquele momento recordasse de um assunto sem muita importância. Ele tirou do bolso dois círculos de papel, com desenhos semelhantes ao que estavam no papel que dera a Alexandre, e deu um para mim e outro para Talis – “estes são os mandalas de vocês, vocês vão saber usá-los.”

5ª PARTE – VENDO COISAS

            Nos dias seguintes a vida de todos tomou rumos inesperados. Houve uma dispersão imprevista. As clínicas em que eu trabalhava sofreram abalos financeiros e passei a ver com melhores olhos uma idéia antiga: escolher uma cidade do interior onde pudesse me estabelecer. Não vi mais Luana e Juliana. Só voltamos a nos encontrar muito tempo depois. Gerson conseguira um trabalho em Camaquã: aparentemente a instalação elétrica de uma casa, e que lhe tomaria um bom tempo. Às vezes encontrava Talis e Julio, mas as nossas conversas eram triviais, embora, inevitavelmente, escorregassem pelo assunto que nos unia. A impressão que ficava era de que a ausência de Gerson nos fizera perder o rumo nas questões que se relacionavam a ele. E os mandalas? Por que mandalas? Para que serviriam? Como assim: ”vocês vão saber usá-los”! A dispersão do grupo deixara um vácuo. Além dos desenhos, que cada um de nós olhava incontáveis vezes, quase ao ponto de decorá-los, muitas perguntas haviam ficado sem uma resposta.

            Eu havia recebido uma boa proposta de trabalho. Assumir um pequeno hospital na cidade de Candeias. Já visitara a cidade. Fora bem acolhido, minha família adorou o lugar, e tudo indicava que meus dias em Porto Alegre estavam contados.

            Um mês depois, numa quinta feira, Talis descia a João Pessoa e me encontrou na porta do restaurante universitário: “Cara! duas noticiais! Primeira: o Alexandre está no Clínicas fazendo todo tipo de investigação para uma paralisia progressiva…não anda, tem dificuldades para falar e comer, e a família quer levá-lo para os Estados Unidos porque aqui não chegaram a diagnóstico nenhum. O prognóstico não é nada bom. A coisa é de fazer pensar…”

            “Sinistra…” – interrompi– “… você quer dizer que a coisa é sinistra… e o Gerson, ninguém tem noticiais do velho?”

            “Esta é a segunda!” – continuou Talis – “O velho andou por aí e teve uma reunião com as meninas há alguns dias atrás! Quem me contou foi Luana. Parece que a Juliana recebeu uma missão, e está toda eufórica, se sentindo a favorita do velho. Nós temos que conferir isto… você sabe que pode dar merda. A Juliana é uma criança, e veja o que caiu em cima do Alexandre.” Concordei com Talis. E naquela quinta a noite nossas pernas mecânicas, temerosas e impacientes, nos levaram para a casa de Gerson.

            Violeta abriu a porta e nos convidou para entrar. Só Julio estava na sala. A esposa de Gerson explicou em seu sorridente sotaque luso-angolano que o marido voltara para Camaquã, mas que na semana seguinte já estaria de volta. Acrescentou que podíamos ficar a vontade e conversar como de costume. Neste momento Luana chegou. Era a primeira vez que nos reuníamos após o episódio que culminara com a expulsão de Alexandre do grupo. Houve um estranho e formal cumprimento embora todos ali fôssemos conhecidos de longa data e tivéssemos muitos assuntos em comum para nos considerarmos amigos íntimos. Luana pareceu adivinhar a nossa necessidade de saber dos detalhes do contato que ela tivera com Gerson e Juliana e naturalmente tomou a palavra: “Na quinta passada, por acaso, encontrei o velho em uma loja de ferramentas no centro. Ele parecia estar com muita pressa e sem tempo para qualquer conversa, mas ao se despedir disse:” “Aparece lá em casa hoje no fim da tarde, e leva a Juliana, eu acho que ela vai gostar de uma coisa que arrumei pra ela!”

            E foi assim que numa narrativa direta, mas cheia de lacunas soubemos por Luana que Gerson dera à Juliana a incumbência de fazer uma visita a cidade de Candeias. Logo Candeias, a cidade que fazia parte dos meus planos imediatos de trabalho! E que Juliana fora até esta cidade com o objetivo específico de investigar o que Gerson chamava de uma anomalia que estaria ocorrendo nos galpões de um criador de porcos da região. As perguntas choveram! Neste momento tive algumas percepções incomuns que não consegui definir como ilusórias ou se algum transtorno neurológico transitório resolvera se instalar em minha mente naquela sala sempre mal iluminada. Vi ou senti que Luana apresentava uma reverberação esverdeada em torno de seu corpo. Isto me deixou indeciso sobre minha participação no intenso questionamento que se seguiu. Optei por ficar quieto e observando.

            Talis, o mais veemente, perguntava: “Juliana? Sozinha numa cidade que ela não conhece? Mas ela lá tem idade para investigar qualquer coisa… ainda mais uma… ora, vocês sabem muito bem o que Gerson quer dizer com anomalias!” Julio completou: “Ela deveria ter ido acompanhada, seria mais seguro; e você tem idéia de que tipo de coisa, ou melhor: ela tem alguma idéia do que deve investigar?”

            “Eu também me preocupei com Juliana e perguntei ao Gerson sobre a natureza desta anomalia, mas vocês conhecem o velho quando resolve fazer mistérios… ele explicou em detalhes a missão só para Juliana. O que pude apurar é que ela pode perceber a tal coisa mas que esta coisa não pode atingi-la!” – enquanto falava, aos meus olhos, mais verde ficava Luana, e o brilho desta cor estranha chegava a tingir os ombro direito de Julio que estava sentado a seu lado. Percebi também que Talis esfregava os olhos como se sentisse um desconforto visual e num determinado momento ele se levantou e disse: “Bem pessoal! O que está feito está feito e se der merda só vamos saber na semana que vem! Hoje vou embora mais cedo! Minha cabeça dói! E já vi que neste papo só vamos nos enrolar mais sem chegar a lugar nenhum.”

            A verde Luana também se levantou e disse para Talis: “Mas espere! Há um recado para você! O Gerson pediu empenho com o mandala que ele lhe deu. Pois se a missão de Juliana for positiva, você vai ter sua chance de usá-lo!” Por um instante maluco vi uma Luana esverdeada frente a frente com um Talis alaranjado. Também me levantei e me despedi de Julio e Luana. Na rua, Talis, agora vermelho-alaranjado, me olhava de um modo estranho: Perguntei “Está tudo bem com você, cara?” Talis respondeu: “Sei lá! De repente parece que todo mundo ficou colorido, e isto está me dando uma dor de cabeça de rachar o casco”

(continua)

A Chave Analógica (1ª postagem)

16/04/2009

Update em 25.08.2010

A realidade é aparente! O mundo é o conjunto de nossas virtualidades individuais. Nem tudo é o que parece ser. A verdade está tanto na brisa como na folha que ela movimenta. O insólito está na rede infinita que se esconde no interior das partículas que a física espreme em busca de uma explicação para o que definimos como sólido seja realmente sólido!

Era necessária uma história que tornasse mais palpável esta conversa maluca. Uma história apresentando personagens, episódios, e um enredo. Uma história com começo, meio e fim! Uma história que poderia ser real, romanceada, ou totalmente fictícia! Então eu resolvi começar uma história! 

PRIMEIRA PARTE – TUDO TEM UM REGISTRO

            Houve um tempo em que conheci um homem chamado Gerson. Ele era casado com uma angolana chamada Violeta. Se a vida ainda o conservasse já teria passado dos cem. Alguns que o conheceram afirmam que um dia Gerson sumiu, desapareceu, parou de circular nos meios em que normalmente era visto. Outros me garantiram que um dia ele simplesmente morreu!

            Gerson reunia a sua volta um grupo de jovens. Aos nossos olhos ele era um velho entre os sessenta ou setenta anos, mas para nós, os jovens, outros trinta anos já se passaram. Gerson era um faz tudo muito comum no fim da década de setenta: pedreiro, eletricista, encanador, pintor, jardineiro e técnico em concertos de aparelhos domésticos. A idade o havia posto à margem do trabalho regular. Mas Gerson, bom no que fazia, transformara o tempo livre numa múltipla fonte de ganho informal.

            O termo que melhor definiria as reuniões na casa de Gerson seria: insólitas. Ele não convidava ninguém. Os participantes apareciam às quintas feiras na hora em que todos os gatos ficam pardos. Era um grupo pequeno, formado por seis jovens de idade entre os 18 e 30 anos, todos de nível universitário ou com suas profissões já definidas. Minha memória, três décadas depois, consegue lembrar que eu estava lá, aos 28 anos, naquela época um médico recém formado, Luana, uma analista de sistemas um pouco mais jovem, Talis, um estudante de informática de 20 anos, uma estudante de 18 anos, Juliana, sempre assustada e quieta aparentando ver ou querer ver mais coisas do que realmente acontecia ali, um advogado de 30 anos, Alexandre, o Narciso do grupo, bem falante e bem vestido, com o gosto para ser o centro de todas as reuniões, e um sexto elemento, Julio, um mulato da minha idade, que cursava a faculdade de farmácia na federal. Julio pouco aparecia e quando estava presente não proferia palavra, embora mantivesse uma atenção intensa no desenrolar das reuniões e às vezes deixava transparecer uma cúmplice sintonia com o dono da casa. Os nomes de algumas pessoas foram modificados propositadamente para evitar relacioná-las com as profundas repercussões que alguns fatos tiveram em suas vidas.

            Hoje, na confusa névoa que o tempo projeta sobre as intenções individuais de tanto tempo atrás, seria impossível determinar como aquele grupo de formou! Como foi seu início? Porque aquelas pessoas com interesses tão variados se sentiram atraídas para uma conversa que durava de três a quatro horas na casa de um homem que não conhecíamos, e que não participava de nenhum grupo acadêmico a que pertencíamos.

            Mas uma coisa todos nós tínhamos em comum! Naquele tempo, ou em conseqüência da idade que tínhamos naquele tempo, todos comungávamos da angústia pelo indefinido. Pelo irreal. Pelas imaginárias realidades paralelas que quase nos tocavam, mas que, obstinadamente, não se revelavam. Pela mágica dos planos esotéricos. Pela alegada energia proveniente dos chakras. Pelas técnicas de meditação e pela improvável possibilidade de uma repentina iluminação espiritual como um cristal que se quebra misteriosamente. Pela dimensão infinita que se esconderia atrás da chama de uma vela num exíguo ambiente de reflexão. Pelo mundo invisível que se insinuaria aqui e ali aos sussurros. E pela esperança de que alguém nos fornecesse pistas, um truque, um caminho. Um guru que nos abrisse a porta, Alguém que dissesse:

            “Todas as coisas estão escritas… é só preciso ir até lá e lê-las! A explicação de um fato. A orientação para que um plano seja correto. A vida de um ser, suas possibilidades e as coisas que jamais poderá realizar…! Tudo tem um registro!”

SEGUNDA PARTE – A HERANÇA DOS NEFILIM

            Ocasionalmente Gerson nos contava algo que ainda não havia acontecido. Depois, de forma desconcertante, o tempo se encarregava de demonstrar que, na verdade, ele estava nos provocando com pequenas previsões. Quando isto acontecia eram inevitáveis que as discussões se tornassem acaloradas, e, para alguns, inconformadas.

            “Aonde se encontra esta falada e misteriosa escrita?”

            “Que história mágica é esta que parece só ter a finalidade de nos manter presos à espera de uma revelação que nunca vai acontecer?”

            “Qual é o seu prazer em nos manter indefinidamente na ignorância?”

            Os mais moderados tentávamos apaziguar: “Talvez você queira nos fazer perceber que há uma brecha para atingir este conhecimento, mas o tempo passa… e a paciência das pessoas tem limites… nós nos sentimos muito limitados para atingir este grau de percepção com os elementos que você tem oferecido!”

            “Há respostas que acreditamos já possam nos ser dadas… algo para meditar, ou esperar. Um ponto lógico onde nos apoiar!”

            Gerson nunca demonstrava oscilações em seu inalterável humor. Ele falava baixo, com longas pausas, e não aparentava muito interesse se as pessoas estavam realmente ouvindo ou compreendendo o que ele dizia. Portanto quando Gerson falava o silêncio na sala era total.

            “Não há pontos lógicos em que se apoiar! Pois nada disto segue princípios cartesianos! Se assim fosse vocês poderiam aprender tudo isto nos livros de escola! Mas a única coisa que a escola faz é prepará-los para o mundo dos fenômenos mensuráveis! E não há como medir, ou avaliar, ou entender de forma lógica a fonte do conhecimento que vocês desejam!”

            “Porra!”- vociferou Alexandre, de pé e gesticulando – “Isto é só um joguinho de palavras, velho… palavras vazias” – ele era o único que se referia a Gerson como velho – “Nos dê algo palpável Algo que mexa com nossas cabeças! Algo que nos mostre de forma definitiva que tudo isto não passa de balela, um bate-papo pseudo filosófico para as menininhas passarem o tempo.”

            O Gerson suspirava. “Vou continuar!” Gerson sempre suspirava quando era interrompido por Alexandre.

            “Há um lugar onde estão todas as coisas que competem ao conhecimento humano. Onde está escrita a nossa herança! São os registros acádios! São… como vocês atualmente costumam dizer, uma inimaginável extensão virtual de informações! Os Nefilim, um povo muito antigo, e que não pertencia ao nosso planeta, transmitiu este… banco de dados – vamos chamá-lo assim – à civilização humana mais antiga, os sumérios, há cerca de sete mil anos! Os acádios, que vieram depois, com o auxilio dos Nefilim, criaram chaves analógicas para acessarem estes registros!”

            “Meu Velho! lendas, história antiga, alienígenas, chaves analógicas, computadores mesopotâmicos… apenas nos dê uma prova de que não somos apenas um bando de idiotas!”

            E então Gerson disse: “Vou dar…! Só para você! Da mesma forma que você não acredita hoje que um computador um dia poderá caber em sua mão, e que se o conectássemos a um simples telefone poderíamos ter acesso instantâneo a todo conhecimento do planeta, e que esta informação só terá sentido, bem mais tarde,  para os seus colegas, mas não mais para você, eu vou lhe dar uma “chave analógica” que lhe permitirá ter acesso aos registros acádios, se você a usar de forma correta.”

            Houve um significativo silêncio. Todos pensavam: então o método para obter o prêmio é a afronta? Por que só o Alexandre ganhara a chave?

            Gerson retirou um círculo de papel do bolso com alguns desenhos que não pudemos identificar e entregou a Alexandre. “Todas as noite, durante três a cinco minutos, visualize este desenho. Esta é a chave! Ela pode lhe dar um grande poder que não sei se você saberá usar! Se você se deixar seduzir pela força desta chave aliada à sua personalidade, que lhe é bem peculiar, o poder poderá consumir você… mas esta vai ser a sua decisão. A chave agora é sua!”

            Alexandre, sem abandonar a postura agressiva, ficou indeciso por um breve momento, depois guardou o desenho no bolso, esboçou um sorriso de triunfo e ao mesmo tempo grunhiu um: “Valeu! velho!”

            E Gerson, demonstrando uma profunda tristeza completou: “… mas não se esqueça: tudo tem uma registro!”!

TERCEIRA PARTE – KUNDALINI

            Na reunião seguinte Alexandre não compareceu. Julio estava. As conversas colaterais sobre as quais Gerson aparentava não tomar conhecimento versavam sobre o evidente favorecimento a Alexandre, que, no grupo, era o elemento destoante. Porque Gerson lhe dera aquele “presente” depois de todas as grosserias proferidas? Surpreendentemente foi Julia quem iniciou o questionamento.

            “Gerson, eu quero… acho que todos nós queremos fazer uma pergunta: temos sido, acho, seus amigos, e você parece que corresponde a esta amizade! Então porque você deu ao Alexandre aquilo que… nós nem sabíamos que existia, mas que em essência todos nós queríamos?”

            Gerson começou sua lenta e monocórdia preleção, entremeada de pigarros e tossidas: “Alguns pontos precisam ser esclarecidos para que no futuro não haja mal entendidos! Eu não sou amigo de vocês! E, se vocês pensarem bem, nenhum de vocês é meu amigo! Nós nos reunimos porque queremos tirar algo uns dos outros! Espero que sejam coisas boas e que não façam falta aos outros, pois nesse caso nós estaríamos roubando uns dos outros. E mais: todos nós estamos aqui por que queremos estar aqui. Ninguém está aqui arrastado por algum meio escuso. Todos nós temos um propósito e por este motivo circunstancial nos reunimos. Vocês têm os objetivos particulares de vocês. E, o grupo que hoje está reunido aqui, composto por pessoas tão diferentes, tem uma meta muito semelhante, embora elas venham a ser usadas de formas muito diferentes!”

            Gerson fez uma longa pausa e tomou um copo de água que Julio fez surgir à sua frente como num ato ensaiado. “Todos vocês!”– continuou Gerson – “querem crescer! Quando digo crescer quero dizer evoluir, construir, fazendo o bem, sentir que uma das camadas de vocês ficou mais feliz! E para que este objetivo seja alcançado é necessário esperar. Não é possível crescer instantaneamente. No momento em que vocês menos esperam a paciência lhes dará, como prêmio, aquilo que vocês tanto queriam.” – E depois de outra pausa continuou, pois todos esperavam uma posição sobre a “chave analógica” dada a Alexandre.

            “O objetivo do Alexandre não é crescer, é conquistar! Ele não tem em sua mente o propósito de ser um indivíduo melhor! Ele já se considera o maior e o melhor ser que existe! Ele só almeja ter, possuir mais, e não interessa a que custo! E ele tem pressa, e a pressa, quando se mexe com o lado insólito das coisas, é um elemento muito explosivo.”

            “Eu não acredito que a chave que eu lhe dei seja realmente útil para o bem. Ele não tem a perseverança para ficar olhando bobamente um pedaço de papel a espera que algo milagroso aconteça. Talvez ele nem volte por um bom tempo… e isto vai ser bom! pois por enquanto vamos ficar livres de sua presença espaçosa… e, se ele voltar… bem, será a última, para nos abrir uma porta, e assim cumprir a sua finalidade.”

Luana se apressou em perguntar: “Espere, espere, e aquela história de pequenos computadores e telefones…” Gerson sorriu e interrompeu a conversa: “Ô, menina! Não seja apressada, você sabe… o que está na escrita está na história!”

            Um dia a conversa girava aleatoriamente sobre meditações, mantras, viagens astrais, e manobras vibracionais. Eu, um aficionado pelas insólitas fronteiras da ciência estava mais interessado na física das partículas subatômicas que segundo Gerson deveria ser em breve descoberta.  Ele deixara escapar que no aparente nada no interior destas partículas havia uma rede infinita que determinava as locações conceituais do espaço e do tempo. Quando as teorizações já viajavam por projetos de um portal quântico a porta se abriu e Alexandre entrou, e ocupou a sala com seu estilo, efusivo, radiante, e absorvente.

            O resultante e incômodo silêncio foi fugaz, e, politicamente, todos o convidaram para vir para a roda e participar das conversas malucas como se aquele fosse o mesmo Alexandre que todos conheciam.

            Alexandre se sentou a sua moda, cruzando suas longas pernas, ocupando mais espaço do que necessitava, e jogando os braços sobre as costas do sofá. Os assuntos gradativamente se perderam ou morreram e todos sentiram que um sólido mal-estar ocupara a sala.

            As reações foram muito rápidas e só muito depois conseguiríamos analisá-las uma a uma. Alexandre estava sorridente, corado, desafiador. Julio imediatamente ficou de pé. Luana olhou com nojo para Alexandre. Gerson, quieto, com o queixo mais erguido do que de costume, passou a encarar mudo e sério as reações dos componentes do grupo. Juliana, sentada em sua cadeira preferida, cruzava as pernas de uma forma aflita, com as mãos contraídas entre as pernas e olhava para nós com os olhos muito abertos. Sua face se contorcia num misto de vergonha e prazer e repentinamente começou a soltar gemidos e soluços de puro orgasmo.

            Sabíamos que havia algo de muito incomum acontecendo ali, mas as implicações eram tão extraordinárias que Talis e eu ficamos imobilizados. No instante seguinte, com rapidez, e com uma força que nos pareceu impossível, vimos Julio e Gerson tomarem o Alexandre pelos braços e jogá-lo pela porta afora. Juliana já não estava na sala. Luana a levara para algum outro lugar da casa. Eu e Talis permanecemos sentados, atônitos, não acreditando em nossas próprias conjecturas.

            Julio e Gerson voltaram a se sentar. Luana voltou e disse que a esposa de Gerson estava cuidando de Juliana. Todos nós queríamos uma explicação. Mas aguardamos mudos até que o Gerson se dispusesse a falar.

            “Kundalini” – disse a guisa de prólogo – “alguém o ajudou a utilizar a chave para abrir a porta da libido animal e usá-la intelectualmente”.

            Perguntei: ”Mas Gerson! Isto… este mau uso da chave que você deu a ele não poderia ter sido previsto? Afinal! Não está tudo nos registros como você diz?”

            “Está!” – respondeu Gerson – “… e já era previsto! E, mesmo lhes parecendo inexplicável agora, era tudo necessário! Os elementos que serão usados para abrir uma porta absolutamente necessária necessitavam ser acordados! Quem o ajudou a descobrir o fogo que havia dentro dele apenas queria me desafiar, mas nos ajudou”.

            Sai de meu torpor sentindo a necessidade de ser a voz do grupo e iniciei um longo discurso de protesto: ”Como? Você diz que nos ajudou? Juliana passou por um constrangimento que dificilmente não se transformará num trauma para o resto de sua vida. Há um monstro a solta por aí, e só Deus pode saber o que ele já fez ou o que poderá vir a fazer. Ele nos ajudou em quê? Vamos crescer espiritualmente assistindo o êxtase sexual de uma menina induzido por um megalomaníaco? Somos o que aqui? Estamos sendo ajudados a fazer o quê? Somos peças de que jogo? Ou pior… estamos ajudando você a fazer o quê? Por que é evidente que algo irreal está acontecendo! E nós… nós somos os peões cegos! Os idiotas, que só permanecemos vindo a sua casa por este… por este imã pelo inusitado! Abra o jogo Sr Gerson! Queremos respostas!”

            Neste momento Juliana voltou para a sala e sentou em sua cadeira como se nada houvesse acontecido. Todos nós a olhávamos a espera de uma reação, de uma resposta, mas ela, ligeiramente constrangida por tantos olhares apenas sorriu e disse: “Que foi pessoal! Perdi alguma coisa?”

            E Gerson, mais para mim, mas de forma que Talis e Julio também ouvissem, completou: “O mesmo fogo da serpente que pode consumir até às cinzas, pode, quando manipulado de forma adequada, ser apagado e com ele a memória do que aconteceu…e, nas circunstâncias, não acho conveniente responder ao seu longo e justo questionamento no dia de hoje! Você não acha?”

            E, inesperadamente Luana completou: “Dona Violeta fez bolinhos e café! Alguém vai querer?”

(continua)