Archive for the ‘Ariel, o anjo.’ category

O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais – 4 de 4)

19/06/2011

(Pra saber como começou clique aqui!)

4

“Não acredito! Você recusou a juventude eterna que um Sarney ou um Hugo Chavez dariam os dez dedos para ter e agora vê problemas em ganhar na mega sena!”

“É que a coisa não ficou bem definida!”

“Como assim homem de Deus?”

“Não é toda mega sena que é uma Senhora Mega Sena. Há uma grande diferença entre ganhar sozinho ou num recorde nacional de acertadores. Também há as acumuladas, as grandonas nas viradas de ano, essas coisas, e você sabe muito bem que dinheiro o governo chupa ou escorrega fácil pelos dedos…”

“Então vamos simplificar!” Disse Ariel. “Eu posso lhe garantir que vai ser uma super mega sena acumulada, tendo você como único acertador, e num futuro muito próximo. Está bem assim?”

“É que aí surge um outro problema.” Questionei.

“Ah! Não acredito! Que tipo de problema você ainda consegue ver nessas circunstâncias especialíssimas?”

“Veja bem!” Argumentei. “Eu tenho vinte e oito anos, estou num casa-não-casa com uma mina aí, pretendo ter filhos, e ainda curto a minha mãezinha… Com toda essa grana a segurança dessa gente vai se transformar num problemão…”

Ariel se levantou, ergueu os braços e as asas e gesticulava exasperado: “Você muda de cidade, de país, contrata uma empresa de segurança, muda de identidade, finge que é pobre…”

“Eu não havia pensado dessa forma, Ariel, você foi de grande ajuda, acho que me decidi…”

Mas nessa hora houve um relâmpago cegante dentro da sala e em seguida uma trovoada ensurdecedora e Ariel disse: “Desculpa! É o meu celular… pensei que estava no silencioso.” E atendeu o aparelho falando lá com seu pessoal, por momentos parecendo surpreso, e em outros visivelmente enfurecido.

Por fim desligou e disse. “Um dia ainda pego um destes anjos estagiários, corto as asas dele e mando o infeliz fazer um treinamento de mil anos no Haiti.”

Eu alheio às questões administrativas da Diretoria estava ansioso para comunicar pro Ariel que afinal havia tomado uma decisão. “… pois é, Seu Anjo, acho que já tenho uma resposta pra você…”

Mas Ariel cortou a minha conversa e disse: “Esqueça, houve um erro no setor de registro. Não era você que tinha que fazer a escolha. Destinatário errado. Essas coisas da burocracia. Só perdi o meu tempo… e o seu, é claro! Mil perdões!”

“Mas e a juventude eterna? e a mega?”

“Fica pra próxima! Fui!”

E ele desapareceu num VUPT como quem suga todo o ar da sala e ficou apenas uma pena branca que lentamente foi planando até cair aos meus pés.

 

O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais – 3 de 4)

16/06/2011

(Pra saber como começou clique aqui!)

03

Eu avaliava a situação enquanto encarava o anjo. Não era um sonho. Era uma situação surreal, mas palpável, e me dava um nó no estômago. Sisudo, Ariel me encarava visivelmente contrariado por estar envolvido naquela questão sem a menor importância aos olhos dele. Resignado com a determinação da tal Diretoria. E eu, incrédulo, fora confrontado com uma escolha maluca: juventude eterna ou ganhar uma soma incalculável de dinheiro. E agora? O que eu tinha que fazer? Dar uma resposta relâmpago ao anjo e pronto? Questão resolvida? Eternamente jovem ou riquíssimo? Só isto? E os trâmites? E as formalidades? E a burocracia?

“E então?” Perguntou Ariel, já visivelmente impaciente, interrompendo o meu devaneio.

“Eu, eu não sei!” Respondi. “Algumas ponderações precisam ser feitas antes de tomar uma decisão dessas!”

Ariel se levantou e abriu as asas. Era uma figura impressionante na minha pequena sala. Não disfarçava sua irritação. Quase gritava: “Vocês humanos são um saco! Mesmo lendo o pensamento de vocês, mesmo sabendo que coisas desse tipo vão acontecer, mesmo que eu já saiba o que vou ouvir, não posso deixar de sentir o significado do que é ter uma úlcera quando ouço vocês dizerem que são necessárias ponderações. Ponderações? Mas que ponderações são essas? Você não lembra com quem trepou na noite passada! Não entrou em coma alcoólico porque o vinho era tão ruim que o anestesiou antes de matar você! E agora quer ponderar? Em nome do Altíssimo, criatura sem lógica, escolha uma das duas opções. Ambas são ótimas! o problema fica resolvido, eu me mando, e você faz uso do seja lá o que que você for escolher.”

“Mas há questões fundamentais que precisam ser analisadas.” Disse eu. Ariel desabou no sofá, bufando e revirando os olhos. “Faça a sua análise! Eu espero.”

“Veja a questão da vida eterna…” dizia eu. “

Alto lá!” Interrompeu Ariel. “Foi dito eterna juventude e não vida eterna. Não confunda as coisas. Uma coisa é ficar eternamente jovem. Imune às agressões biológicas, ou aos desequilíbrios patológicos, ou acidentes que não destruam partes significativas do seu corpo, outra é pressupor que você pode se julgar o Clark Kent, se empanturrar impunemente de colesterol, ou querer parar um trem com uma dentada. Ser eternamente jovem não o torna indestrutível, meu chapa. Se você se transformar numa bola de banha não há cardiologista que desentupa  as suas coronárias. Se cair um meteoro neste planeta você vai pro beleléu como todo mundo…”

“Hã!” Disse eu.

“Ai, Meu Deus!” Disse Ariel.

“Mas se eu me cuidar, tiver uma vida regradinha, e o planeta durar alguns milhares de anos posso durar até lá…” Ponderei.

“Evidentemente!” Confirmou Ariel.

“Até conhecer outros planetas…” Emendei.

“Essas coisas todas!” Concordou Ariel.

“Mas aí surge um outro problema…”Comentei.

Ariel suspirou profundamente e perguntou: “Qual seria esse outro problema?”

“A solidão!” Completei. “Em mil anos todas as pessoas que eu conheci durante a minha vida já terão morrido de velhice…”

“Você conhecerá outras!” Disse Ariel.

“Que eu também vou perder porque elas também vão ficar esturricadas e morrer e assim por diante… não sei! É uma questão muito difícil!”

“Então agora ficou fácil!” Se animou Ariel. “A juventude eterna, segundo a sua argumentação, pode levá-lo a uma detestável solidão eterna. Sobra só a outra opção! A mega sena. Certamente essa vai ser a sua escolha? Correto?”

“Não sei não! Aí também há coisas que precisam ser avaliadas!”

“Anjo tinha que ter saco!” Bufou Ariel.

(Continua aqui!)

O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais – 2 de 4)

12/06/2011

(Pra saber como começou clique aqui!)

02

Tente recolher os cacos do seu orgulho e ainda fazer pinta de que nada aconteceu enquanto há um anjo de dois metros sentado na sua sala. Nesse contexto tente iniciar um assunto coerente de um ponto que não seja incoerente. Tente lembrar que em menos de meia hora você estava sonhando com uma estrada dividida, sob os efeitos de uma puta ressaca, e depois…

“Exatamente!” Disse Ariel, se introduzindo no meu pensamento. “Foi o porre que confundiu seu discernimento. Caso contrário eu nem necessitaria estar aqui…”

“Ei! Você estava lendo a minha mente?”

“É! Foi mal! Vou tentar não… demonstrar! Mas isso não muda o que aconteceu: você tomou um vinho vagabundo, avariou a caixa pensante bem no dia que teria que decidir algo importante em sua vida, e, como se trata de um caso único – coisas da Diretoria – e não me pergunte o porquê – fui obrigado a vir até aqui pra, digamos, arrancar de você uma resposta, já que somos obrigados a respeitar esse tal de livre arbítrio.”

“O Homem lá em cima está interessado numa resposta minha sobre um assunto importante?”

Ariel me avaliou como se eu fosse um peixe de óculos lendo a Bíblia. Suspirou e disse lentamente.

“Amigo! Vamos por cada coisa no seu devido lugar. Em primeiro lugar, O Homem, a quem você se refere, não está nem aí pra sua existência específica. É triste, mas essa é a verdade. A Diretoria, ou o segundo escalão – que coordenada de forma mais ou menos indireta as coisas por aqui – ocasionalmente faz experiências com alguns indivíduos de sua espécie, lhes dando escolhas especiais, e num processo absolutamente aleatório escolheu sua insignificante pessoa como protagonista do evento em questão.”

“Pôxa! Desta forma você me reduziu a … um merda!”

“Em princípio essa é a idéia! Mas, voltando ao fato,  numa situação única, foi lhe dada a opção de escolher entre dois caminhos – coisa que não está ao alcance de nenhum ser humano – e nessa circunstância, você ganhará, mesmo que momentaneamente, uma importância ímpar… vamos continuar?”

“Tenho escolha?”

“Claro que tem! Teoricamente você é livre para se dar bem ou quebrar a cara. Diga que não quer saber de nada e eu desapareço… você ficará se martirizando pelo resto da vida por ter ignorado a razão da minha vinda, mas a escolha sempre é sua!”

“Está certo! Então manda!”

Ariel fez uma pausa de efeito e soltou:

“Você ganhou o direito de optar entre dois destinos experimentais. O que você prefere? A eterna juventude ou ganhar na mega sena?”

(continua aqui)

O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais -1 de 4)

09/06/2011

O1

Era um sábado e eu estava acordando tarde. Dizem que Deus ajuda a quem cedo madruga, mas o que vem depois demonstra que essa tese é no mínimo questionável. Eu emergia de um sonho confuso. Chegara a uma bifurcação numa estrada e tinha que escolher um caminho. Uma música repetitiva tirava completamente minha atenção. Minha cabeça doía. O gosto de vinagre me fez lembrar do preço do vinho da noite anterior. O celular tocava a oitava de Beethoven pela vigésima vez. Atendi: “Hã…!?

“Abre a porra dessa porta!” Gritou alguém irritado, perfurando o meu tímpano.

Por que telefonar se era mais fácil tocar a campainha? Cambaleei até porta e a entreabri.

Um cara de dois metros de altura me empurrou junto com a porta e se instalou no meio da sala: “Que missa! Tanta coisa mais importante pra fazer e recebo essa de mandalete pra alguém de merecimento no mínimo duvidoso!”

“Ei!” Eu já conseguira reunir a metade dos meus neurônios e começava a reagir à tempestuosa entrada daquele estranho na minha casa. “Qual é a tua? Me acorda aos berros e invade a minha casa! Tá pensando que é a casa da tua mãe? Tu é grande mas não é dois! E se o teu negócio é dinheiro te liga porque por aqui…” Foi aí que eu notei que o cara tinha asas! Asas! Essas feitas com um milhão de penas. Como uma alegoria de Carnaval. Parecia um pombão enorme.

“Que fantasia é essa?” Puxei uma das penas que se soltou com um estalo.

“Ei! isso dói! Pra seu governo isso não é uma fantasia. Sou um anjo e vim até aqui pra ter um papo com você.”

“Qual é! Cai na real! Convenhamos que essa história de anjo tá meio ruim de engolir! Não dá pra ser mais realista?”

Nesse instante, como num passe de mágica, o grandão me pegou pela mão e estávamos a mil ou dois mil metros acima da cidade. Eu de camiseta e cuecas sentindo um frio do caralho me congelando a alma. A vista era deslumbrante, mas o pavor por estar ali pairando sobre o nada me fez cair a bunda. Agarrei desesperado com as duas mãos o braço do outro e implorei pra que ele desse um fim naquilo.

No piscar seguinte eu estava tremendo de frio e de medo no meio da sala. E o anjo perguntou: “Foi suficientemente realista pra você?”

Ao som dos dentes tiritando eu sacudi a cabeça num sim.

“Meu nome é Ariel! Você teve um sonho e me mandaram aqui pra dar uma mão, essas coisas… mas antes vá trocar as cuecas… eu espero.”

(Continua aqui)