Aos amigo do PT

Alguns amigos reclamaram, no pé do meu ouvido, da expressão “militância desvairada”, usada, noutro dia, em referência àquelas pessoas que ultrapassam suas atribuições no esforço para obter uma vitória política, utilizando métodos que o candidato, talvez, desconheça e até condene. Circunstancialmente, todos os que reclamaram são simpatizantes do partido dos trabalhadores.

Tentei argumentar que eu também posso ser simpatizante de um determinado grupo, embora não tenha obrigação de concordar com tudo que aquele grupo faça. Que achei interessante a entrada de Lula na história do país que, constitucionalmente, me pertence, uma vez que não havia gostado daquela mudança tucana em favor da reeleição. Que depois o meu desencanto ressuscitou com feições petistas quando a maçã apodreceu no colo de Lula e ele não sabia de nada. E por aí vai, na saudável alternância democrática de querer que, de erro em erro, algo dê certo para o país. Mas, confesso, não fui muito feliz na minha argumentação.

Tenho que dizer uma coisa sobre a militância desvairada, ou sobre aqueles que não vão às últimas consequências, mas acreditam piamente, como Rui Falcão, que tudo pode ser feito em nome de um plano maior, de país, pelo bem de todos, inclusive lesar, roubar, desviar e mentir. Não tente apresentar um ponto de vista diferente dos princípios dogmáticos que regem o pensamento dos profundamente engajados. É perda de tempo trocar ideias conflitantes quando do outro lado há somente pontos de fé. Você pode até estar aberto a colocações lógicas que o convençam de que, afinal, você estava errado e tudo pode ser cor-de-rosa nas entrelinhas de um texto jacobino, mas o outro lado nunca estará.

E é impressionante como o rosário das certezas é desfiado conta a conta.

Foi-me explicado que nunca antes, na história desse país, foi tão fácil planejar uma aquisição, uma empresa e um futuro. Tentei dizer que essas coisas são consequências da estabilidade econômica e, tanto quanto me cutuca a memória, começou quando Collor caiu (esse mesmo que agora é senador por Alagoas) e assumiu Itamar Franco, 20 a 24 anos atrás, nomeando um famigerado tucano chamado FHC para ministro da fazenda e sua equipe engendrou o Plano Real. Antes disso, quando o Sarney era o presidente, a inflação ultrapassava os 80% ao mês e o salário devia ser imediatamente consumido em artigos de primeiríssima necessidade sob o risco de, em 30 dias, ser corroído pela metade sem ter sido gasto um centavo. Não havia como planejar nada! O futuro, naquela época, se resumia a um mês, quando havia o que comprar. Lula soube aproveitar o terreno arado e as sementes plantadas, assim como teve a sorte do mercado mundial passar por um período bom das pernas durante o seu mandato.

Também me explicaram que coisas foram construídas, que pontes foram feitas, que estradas foram asfaltadas e que hospitais foram inaugurados, numa lista interminável de benfeitorias.  Tentei dizer que nos governos da ditadura todas essas coisas foram feitas, até num gigantismo exagerado, mas isso não significa que devamos dar vivas ao regime militar. Que muitas das obras daquela época foram, proporcionalmente, mais visíveis e mais úteis do que as do governo atual e que agora, inclusive, está havendo sucateamento de escolas, diminuição dos leitos hospitalares e asfaltamento parcial das estradas, porém com inaugurações integrais, conforme o calendário político. E que nós não podemos nos deixar enganar com essas realizações funcionais propagadas pelos governos. Qualquer um deles! Eles, quando fazem algo que é intrínseco à sua função, o fazem de forma lenta, cara, cheia de furos contábeis inexplicáveis, e nós não podemos esquecer de que estão fazendo apenas a obrigação, ligada ao cargo que conquistaram por desejo próprio e para a qual estão sendo pagos. Até a galinha, quando canta depois de ter posto um ovo especialmente difícil, tem mais méritos.

E por fim me elucidaram sobre os crimes que foram combatidos e sobre os culpados que foram para a cadeia, outra coisa que, nunca antes na história desse país, havia ido vista ou contada. Tentei contra argumentar que isso ocorreu por uma conjunção de fatores alheios às virtudes do governo, que, aliás, tentou negar o problema e blindar os envolvidos, que o judiciário, que não é perfeito, se mostrou razoavelmente isento; que os meios de comunicação, nos últimos anos, evoluíram da notícia de véspera lida num jornal vencido à postagem instantaneamente jogada na internet, tornando muito mais difícil esconder as ilicitudes para sempre; mas nada disso convenceu os meus amigos.

Depois me senti culpado! Que direito tenho de jogar areia na crença dos que acreditam em alguma coisa? Afinal, parece tão confortante acreditar! Embora eu não me sinta desconfortável sendo um descrente. Acho que o modelo político precisa ser continuamente aperfeiçoado. Um dia nós vamos acertar! Essa é a minha única crença na política. Ou talvez seja simplesmente esperança! Um dia, aos encontrões e tropeços, nós temos que acertar, e quando esse dia chegar, a gente continua de olho bem aberto, torcendo para que o vencedor do momento faça as coisas certas, para o nosso bem… e para o bem dele…

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