Hora de votar! Hora de se indignar!

Dilma era franca favorita, amparada pelo poder das bolsas, pelo uso da máquina pública, por uma campanha com um orçamento de dar inveja a produtores de Hollywood e, somos obrigados a admitir, pela baixa empolgação do povo pelo discurso de seus oponentes. Ela, como uma extensão de Lula, tinha contra si apenas a rejeição natural por quem representa um poder que em 12 anos não consegue mais disfarçar as sangrias econômicas usando simplesmente a lógica elementar de botequim.

A metade da população que vota, e se sente livre para expressar o que sente e pensa, não queria Dilma por conta de várias coisas. Primeiro as pessoas comuns só aceitam um poder que se perpetue se ele for uma mera alegoria que não mexe no bolso de ninguém e, ao mesmo tempo, seja sensível à choradeira geral. O ideal seria um poder bondoso, com caráter divino, ou fruto de uma fantasia romântica. Podemos até dizer que negar a perpetuação aos mortais  represente uma contorção intrauterina da tal democracia que um dia há de nascer, enquanto flertamos com as monarquias de mentirinha inventando reis do carnaval, da música e do futebol. Em segundo lugar, não existe o tal milagre econômico que permite agradar a todos, da forma que foi prometido nas campanhas. E isso ocorre, em parte, porque o número de famintos é muito maior do que o tamanho do bolo e, nunca podendo esquecer – por que não nos é permitido esquecer – que, quando não é mal administrado pela incompetência, o bolo costuma ser esfarelado pelo caminho atendendo aos interesses daqueles que só acham graça na política se for dessa forma. E, em terceiro lugar, em consequência do desgaste do atual discurso socialistóide, que emprega os camaradas fincando as amarradas nas entranhas da administração pública, ao mesmo tempo sustentando a militância fiel e fazendo com que os restantes torçam o nariz. Aqui também cabe a consideração de que muitos dos insatisfeitos assim o são porque se sentem apartados do processo de esfarelamento do bolo. A tal falta de ocasião, que por não criar o ladrão, cria a oposição!

Nem sei se é bom entrar nos detalhes dos programas de maquiagem para a saúde e para educação. Afinal essas coisas sempre existiram e não passam de farelos com nome e sobrenome, que são rolados para os governos seguintes, para que o poder de negociação sobre o voto não se evapore. Uma compra institucionalizada com máscara de ajuda ao próximo!

Repentinamente, Eduardo morre! E Marina ascende de mera coadjuvante, morando de favor no partido dos outros, a candidata à presidência, com reais chances de vencer. Que coisa! Como isso pode acontecer? São as mesmas perguntas que ecoam em todos os redutos petistas da nação, além de o que fazer para reverter a situação incômoda e que expressa, aparentemente, o fato de que uma menor rejeição é algo que não deve ser desprezado, ou de que um mártir acidental pode dar muita visibilidade a uma campanha secundária, ou de que há um desejo nítido em direção a uma mudança, seja ela qual for, e que a tal nova política, algo tão indefinido quanto qualquer uma das ideologias políticas, pode ser uma bandeira mais barata e vitoriosa. Contra Marina pesa a inexperiência executiva, mas isso também pesava contra Dilma há quatro anos. Pesa também a impossibilidade de agradar todo mundo quando se escorrega nas questões que não são religiosas, mas que as religiões evangélicas insistem em dizer que são. Ao mesmo tempo em que o deus evangélico travestido de homofóbico intransigente entra em crise existencial, quando vê a sua liberdade criativa ser questionada, Marina, como presidente em potencial, tem que repensar suas respostas a todo momento, sobre assuntos que não lhe dizem respeito, cuidando para não pisar nos calos dos vários pastores. Outra situação incômoda! É muitos santo pra pouca vela!

Nesse andor de misturar religião com política já há quem prefira o marxismo retrógrado do PT a um imponderável futuro com radicalismos evangélicos.

E nisso tudo Aécio não decolou! Nem com os outros escorregando na borra do petróleo. Nem com portos em Cuba, médicos de Fidel, bolivarismos mal disfarçados, malafaices de dedo em riste e promessas de cura gay.

No cômputo final acho que ainda dá Dilma! O orçamento de Marina acaba antes da eleição, junto com o seu fôlego minguado. Ela vai desinflar e o mais provável é que não saibamos, pelo menos dessa vez, no que ia dar!

E ainda somos obrigados a votar? Difícil escolher! Nada encanta! Há um ano as ruas gritaram que os políticos não nos representavam! E agora? vão nos representar? Nada mudou e tudo promete uma salada mal picada. Que gente sem atrativos nós temos como candidatos! Como dizer para quem vota que é um dever escolher o melhor! Mas que melhor! Quando o tom da retórica é a de que devemos odiar os nossos irmãos que não são exatamente iguais aos idealizados por um determinado gibi, a vontade é virar as costas e mandar essa cambada para o inferno! Ou para Cuba!

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