Como são as coisas no Santinho (11 de 12)

11 – Num acerto de conta sempre pode sobrar um troco…

 (Para saber como começa essa história clique aqui!)

Quando o Coisa Torta voltou com o Barraca já faltava pouco para meia noite. Os dois bandidos estavam amarrados um de costas para o outro e o Fino terminava com uma lata de sardinha.

― Agora que eu fui me dar conta como estava com fome! ― Exclamou.

― O que está pegando? ― Perguntou o Barraca, emburrado, não gostando nenhum um pouco do desdobramento daquele episódio com um aposento do seu estabelecimento sendo utilizado como cativeiro do filho do Fino.

― Parece que essas duas criaturas do além têm uma revelação a fazer. ― Respondeu o Fino enquanto o Coisa Torta entortava a sua pior careta para cima dos prisioneiros. Suzuki voltou a se mijar e Critério, sem levantar os olhos, achou que se contasse a verdade poderia amaciar o seu lado.

― O critério era o seguinte, seu Barraca: nóis segurava o coisinha do seu Fino pra descolá uma grana…

― E o que o meu bar tem a ver com isso? Caralho!

― E que a dona nos aprotegeria, tá ligado? Ansim nóis se vingava e ela também, tá ligado?

― Que dona? Que dona?

― A Dona Zulma, a pernuda das pegada, tá ligado?

O Barraca desabou numa cadeira com os braços caídos entre as pernas, estourando o botão do paletó. Pareceu que iria dizer alguma coisa. Abriu a boca umas três vezes, mas só soltou todo o ar dos pulmões como um peixe no seco. O Coisa Torta alcançou um copo d’água e ele bebeu tudo num gole só. Depois perguntou para o Fino, quase num choro:

― Será que eu mereço?

― Tá com o coração forte, Barraca? ― Perguntou o Fino.

― Acho…!

O Fino incentivou Critério cutucando a barriga dele com o dedo enquanto o Coisa Torta girava as duas cadeiras com os prisioneiros para que Critério ficasse bem de frente para o Barraca.

― Como era mesmo a explicação sobre quem é o proprietário do estabelecimento? Repete pra nós!

― Quando nós dissemo que num ficava bem usa o bar do seu Barraca ela disse que num fazia mal causo que ela ia sê a dona disso tudo dispois duns acerto…

― Isso! Bom menino! Agora repete pra nós aquele lance do encomendamento…

― Era uns trampo pra dispois…! ― Gemeo Critério com olhar de súplica

― Eu sei! Mas, dadas as circunstâncias atuais, acho que o Sr Barraca merece ser sabedor desse trampo! Não é mesmo?

O gogó de Critério subiu algumas vezes e por fim ele disse, definhando, num tom bem baixo:

― Nóis dizemo pra ela que nóis tinha um grande respeito pelo senhor, mas ela ofereceu um troco grosso pra nóis apagá o senhor… mas isso era pra mais dispois…

Barraca ficou paralisado e sem piscar. Sentado com as mãos gordas apoiadas nos joelhos. Olhando pra cara ranhenta do Critério. E muito lentamente foi se dando conta das dimensões do problema que ele tinha nas mãos. Conseguiu dizer:

― Mas a puta…! ― Mas o Fino interrompeu o seu desabafo chamando-o à razão.

― Espero que o amigo saiba que é necessário esfriar bem esse prato antes de comê-lo.

O Barraca se ergueu devagar e colocou a mão no ombro do Fino antes de dizer:

― Eu sempre assopro bem o mingau. Pode deixar! ― E saiu.

Quando Fino e Coisa Torta ficaram sozinhos com a dupla de bandidos o Fino pediu que o cunhado desamarrasse os dois da cadeira, mas mantivesse as amarras das mãos. Fez uma careta por causa do cheiro de urina e disse.

― A noite está tão bonita que até merece um passeio!

― Prainducá?

― E adianta…?

 ***

Barraca chegou ao Bar Feliz perto das duas horas da madrugada, muito depois do horário de costume. E veio só! Celino não entendeu quando o patrão passou por ele sem dizer uma palavra. Mas logo depois um dos funcionários do bar foi ao posto de Celino e disse:

― O Barraca mandou te chamar!

― Mas e a portaria…?

― Vai que eu cuido!

E Celino foi apressado para o escritório enquanto remoía: “Mas o que estava acontecendo? Chegou atrasado, sem a Dona Zulma, nem me cumprimentou e agora me chama lá pro escritório! Tem fedor aí…! Ah! Isso tem!”

― Entra e fecha a porta! ― Disse o Barraca envolto na fumaça dum charuto.

Celino entrou e ficou a espera, remexendo na memória para saber se encontrava alguma coisa errada que tivesse feito e pudesse justificar as atitudes do patrão. O Barraca rosnou, fungou, olhou uma meia dúzia de vezes para cara do outro enquanto penteava os cabelos da nuca com a mão e por fim aumentou ainda mais a estranheza das circunstâncias  oferecendo um charuto para o Celino que o aceitou e ficou sem saber o que fazia com aquilo apagado.

― Tá acontecendo um problema…! ― Começou o Barraca.

Celino achou por bem ficar quieto até saber a natureza do problema.

― Acho que a patroa vai precisar fazer um passeio…! ― Continuou o Barraca, tateando para achar o tom certo na conversa. ― É isso! Um passeio pra… pra ver a mãe, coitadinha! Até podemos dizer que ela já tá meio morta, essas coisas…! E eu queria que você fosse o meu homem de confiança pra desenrolar esse negócio!

― E onde mora a mãe da Dona Zulma? ― Perguntou Celino.

― Sabe aquela curva grande no fim da Comendador Pitangueira?

― Sei!

― Tem um enorme paredão cinza do lado direito…!

― É o muro dos fundos do cemitério! ― Correspondeu Celino.

― É isso aí! ― Disse o Barraca.

― E o que mais? ― Quis saber Celino.

― Não tem mais!

― É ali? ― Arregalou os olhos, Celino, entre surpreso e assustado.

― É.

― Lá mesmo? No cemitério? ― Sussurrou Celino, querendo uma confirmação.

― Positivo!

Celino se remexeu inquieto sem saber onde enfiar as mãos e amassou o charuto no bolso. Depois de escolher e pesar muito as palavras continuou no jogo do Barraca.

― E essa visita vai ser demorada?

― Muito!

― E será que vai ter quarto vago pra ela?

― Sempre tem!

Como Celino ficasse em silêncio tentando assimilar as implicações da ordem que estava recebendo do patrão, o Barraca emendou:

― Indo agora, você pega ela em casa e faz a visita antes de amanhecer…!

― Certo! ― Aceitou Celino já indo até a porta. Mas parou, pensou um pouco e perguntou:

― O patrão já se despediu da patroa?

― Já.

― Então não tem mais volta?

O Barraca mascando o charuto já apagado determinou entristecido:

― Vá fazer o seu trabalho, rapaz, e respeite a minha viuvez!

Celino engoliu a saliva limpando a garganta, deu uma tossidinha criando coragem e soltou:

― Então o patrão não vai se importar se, antes da visita pra mãe, eu tirar uma casquinha com a Dona Zulma.

O Barraca deu um salto, derrubando a cadeira, com as bochechas em fogo, e gritou:

―Qual é a tua? Ô Celino! Tá me tirando pra corno?

 

Continua em…

https://romacof.com/2014/05/15/como-sao-as-coisas-no-santinho-12-de-12/

 

 

 

 

 

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