Como são as coisas no Santinho (10 de 12)

10 – Quando a dor é mais doída…

  (Para saber como começa essa história clique aqui!)

Era uma sexta feira. No dia seguinte Dódi completaria 10 anos. Ele foi à aula como todos os dias da semana. E como já era praticamente um homenzinho ele dispensava solenemente a companhia da mãe ou do pai tanto na ida como na volta. Dódi não estava nem um pouco a fim de pagar mico de filhinho mimado na frente dos colegas. Pegava a sua bike e comia o morro. Mas Luciana o esperava pontualmente ao meio dia na porta da casa para dar um beijo na cria e perguntar como havia sido a manhã na escola. Só que naquele dia Dódi não voltou.

“Um pequeno atraso! Coisa comum! Não vá agora dar uma de mãe superprotetora, Dona Luciana! Mas já passou meia hora! Não! Quase quarenta minutos! Ai, meu Deus! Cadê o meu Dódi?” Esse era o nó na cabeça de Luciana quando percebeu que o filho não aparecia e o tempo criava um buraco em seu coração.

Ela já ia entrar em busca do Fino quando uma bicicleta dobrou a esquina. “Parece que é ele! Mas não é a bike dele! Não! Não é ele!” Só que o moleque passou por ela em disparada e jogou contra o seu peito um papel amarrotado.  Luciana levou um susto e depois pegou o papel e leu uma mensagem montada com letras recortadas de todos os tamanhos:

Tamo-cum-teumoLeki-fino

SEm-fatia-vaLE-200-miLHAx

Custou a entender o que estava escrito e conforme o significado daquilo foi caindo em seu espírito sentiu as pernas bambas, mas conseguiu entrar em casa e entregar o papel para o marido.

Fino primeiro notou a palidez de Luciana e suas feições transtornadas, mas não deu importância ao pedaço de papel até que a esposa quase sem voz conseguiu dizer:

― Oh, meu Deus! O que é isso?

Fino leu a mensagem e os dois, lentamente, sentaram. Depois ele abraçou Luciana e só então ela conseguiu chorar.

Coisa Torta surgiu na sala, vindo do interior da casa, pressentindo que alguma coisa muita errada estava acontecendo com a sua família.

O resto do dia foi tumultuado. Fino precisou do Biduzão, que aconselhou a participação do Antunes. Zuzu viu o entra e sai e contou pro Romeno. Do Romeno pra Bela foi um pulo. E no fim da tarde até o Fettuccini e o Barraca faziam parte do time de solidários. Mas não houve novos contatos.

Antunes achava que os sequestradores iriam usar o mesmo artifício do bilhete montado pra marcar a hora e o local do recebimento do dinheiro. Bela e Zuzu tentavam consolar uma Luciana aflita e trêmula. O Barraca zanzava de um lado pro outro sem saber se ficava triste ou curioso. O gringo precisou ser contido pra não montar uma equipe de atiradores com a intenção de revirar o mundo a procura do menino. Coisa Torta, quieto, permaneceu contra a parede, mas sem tirar os olhos do Fino. E Fino e Biduzão confabulavam pelos cantos.

― Se tivessem pedido muito e o bilhete tivesse menos erros eu ficaria mais tranquilo! ― Dizia o Fino.

― Acha que isso voga, Fino?

― Quem pede pouco e escreve mal daquele jeito é gente fraca. A ralé perde a cabeça por muito pouco…

De vez em quando Fino levava a mão ao coração e Biduzão percebeu:

― Tá sentindo alguma coisa? Liturgo.

― Não! Está tudo bem!

Numa dessa tocadas no peito, quando já era passado das 9 da noite, Fino pediu licença e saiu da sala. Enfiou a mão do bolso e tirou um celular que vibrava. Havia uma mensagem.

“BAR FELIZ FUNDOS – HH+M? – TB – DD”

Quando Fino voltou disse pro Coisa Torta de forma que todos ouvissem:

― Me leva ao plantão pra dar uma verificada na pressão?

― Deixa que eu levo você. ― Se prontificou o Barraca.

― Não! Agradeço! Mas você pode ser mais útil aqui, pra dar uma força pro Antunes, se surgir alguma novidade.

― Ah! Isso é! ― Concordou o Barraca.

― Está tudo bem com você, querido? ― Angustiou-se Luciana.

― Acho que não tomei o meu remédio hoje…! É isso!

Luciana, quando olhou para o marido, enrugou a testa e dilatou as narinas, mas aos presentes, envolvidos com a expectativa da situação, aquilo não passou de uma repreensão preocupada.

Já no carro, Fino tirou duas pistolas de sob o banco do motorista e telegrafou pro Coisa Torta:

― Está tudo bem com o Dódi. Ele está nos fundos do Bar Feliz. Tem dois homens e uma mulher na parada. Se precisar, usa isso, mas atira só nas pernas…!

Depois, quase num lamento, acrescentou uma recomendação desnecessária:

― Mas primeiro vê bem pra ter certeza que não é o nosso neguinho!

O Bar Feliz ficava na ladeira oeste a umas dez quadras da casa do Fino. O terreno em que fora construído aquela boate permitia acesso também pela rua dos fundos, que era usada para descarregar bebidas e como rota de fuga de amantes eventualmente perseguidos por esposas ciumentas.

Havia um muro alto e um portão amplo que estava fechado. Mas uma parte desse portão tinha o formato de uma pequena porta comum e era por ali que os fugitivos se esgueiravam.  Ela estava aberta e foi por ali que Fino e Coisa Torta entraram.

O lugar estava quase às escuras, iluminado só pela luz pública de um poste do outro lado da rua. Havia uma desorganizada pilha de caixas e algumas camas desmontadas e encostadas à parede. Os dois estavam imóveis ouvindo apenas o som abafado da música tocada na boate na outra extremidade do terreno. Nesse momento uma porta foi aberta em um sujeito magro, de cabelo espigado e vestindo bermudas, saiu apressado para urinar.

Fino e Coisa Torta estavam a dois metros dele, mas como o outro havia saído de uma peça iluminada não tivera tempo para acomodar as pupilas à escuridão. Por via das dúvidas o Coisa Torta deu dois passos e martelou com um soco o topo da cabeça do mijador noturno, que desabou de cara sobre a poça da própria urina e ali ficou.

“Se for um deles, é menos um.” Pensou o Fino.

A porta tinha ficado entreaberta e pela fresta Fino pode ver outro indivíduo, de costas, sentado num banquinho e colando letras em um pedaço de papel sobre uma pequena mesa.

Eles entraram devagar, mas a porta ringiu. O outro homem achando que era o companheiro que retornava falou.

― Busca outra ceva pra nóis quisto aqui tá um bafo!

Fino imediatamente reconheceu aquela voz e falou bem baixinho:

― Mas que saudade, Critério!

Critério deu um salto, derrubando a mesa e espalhando as letras recortadas, mas só o que fez foi se aproximar da mão do Coisa Torta e em seguida desabar no chão.

Fino viu que a bicicleta de Dódi estava atirada a um canto e havia outra porta no fundo da pequena peça. A abriu muito lentamente. Estava escuro lá dentro, mas deu para perceber o branco de dois olhos conhecidos e os dentes do enorme sorriso de Dódi.

― Onde está a mulher? ― Perguntou Fino, mais mexendo os lábios do que realmente emitindo os sons.

Dódi encolheu os ombros e respondeu imitando o pai:

― Faz tempo que ela foi embora. Só ouvi a voz dela, mas acho que sei quem é…!

Os três se abraçaram emocionados e depois das revelações necessárias voltaram a dar atenção para os sequestradores.

O Coisa arrastou para dentro da peça o primeiro que ele havia nocauteado e eles puderam confirmar aquilo que já adivinhavam. Era a dupla Critério e Suzuki. O letrista iletrado e o mijão chapado.

Fino conversou com Dódi.

― Você sabe quem são esses caras?

― Não faço a menor ideia!

― E a mulher? Você realmente não viu a cara dela… só ouviu a voz! Correto?

― É isso aí ― respondeu Dódi compenetrado.

― Então… ― Continuou o Fino. ― Presta bem atenção. Você não vai precisar mentir muito… no máximo omitir uma coisinha ou outra. Você foi sequestrado por dois homens. Você não conhece os caras e não conseguiria identificá-los. Você não viu essa mulher! Portanto, pra todos os efeitos, ela não existe! Você não sabe pra onde foi que eles lhe levaram! Faz de conta que foi assim como o pai está dizendo. Num descuido deles, agora, há pouquinho, você pegou a bicicleta e fugiu. Saiu a esmo sem saber por onde realmente andava até que viu ruas conhecidas e, por acaso, deu de cara com o dindo. O pai, parece, tinha ido procurar um médico… Será que o papai está bem? Que sorte ter encontrado o dindo! Oh, mãezinha! Como pensei em você! Hã? Acompanhou?

― E se a polícia me pressionar? ― Perguntou Dódi.

― Aí você passa a bola pra mim…

― Legal! ― Fechou Dódi.

E Fino arrematou para o Coisa Torta,:

― E você, que acabou de encontrou o Dódi, leva o moleque pra casa por que lá está todo mundo preocupado com ele. Eu, você não tem certeza, parece que vou ser observado ou fazer um soro…! E, quando ninguém estiver ligado na sua, desvia o Barraca pra cá que nós temos que ter uma conversa…

― Grumpfff! ― Concordou o Coisa Torta e saiu abraçado com o afilhado.

 (Continua….)

Anúncios
Explore posts in the same categories: Santinho

Tags: , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: