Como são as coisas no Santinho (09 de 12)

09 – Uma troca de confissões.

 (Para saber como começa essa história clique aqui!)

O padre Tito costumava, todas as manhãs, dar duas voltas na praça em frente a igreja do Senhor Menino. Ele era um homem velho e franzino e andava com as mãos às costas olhando para as árvores e apreciando os pássaros. No sentido contrário vinha o corpulento pastor Feliciano, já irritado com alguma coisa e de mal com a vida. Quis o destino que Romeno, enquanto ia para Unidos, atravessasse a praça e cruzasse a calçada bem no meio do caminho deles.

― Dominus vobiscum. ― Acenou Romeno, brincando com o latim e saudando o padre, que respondeu sorrindo.

― E Ele esteja contigo, meu filho! ― E distraído com o gingado de Romeno, já do outro lado da rua, não viu que Feliciano crescia em sua direção, transbordando de ódio.

Feliciano o agarrou e o sacudiu pelos ombros enquanto salivava:

― Como pode dizer que o Senhor está com aquela coisa? Seu desmiolado!

Mas logo atrás de Feliciano vinha o Fettuccini acompanhado de Reinaldo.

O gringo gritou:

― Alto lá! Pode parar!

Feliciano voltou o rosto em direção à voz e viu o outro com um dedo repreendedor erguido. Fettuccini tinha uma estatura média. Estava longe de ser imponente. Era bem mais baixo do que o pastor, porém logo ali estava Reinaldo, dois passos atrás do gringo, com a cara de mau piorada pelo nariz torto desde o sequestro do Chefia. Isso fez com que Feliciano reconsiderasse.

― Desculpem-me! Acho que perdi a cabeça…!

― Eu não acho… Eu garanto que você vai perder a cabeça literalmente se não tirar as mãos do padre! ― Afirmou Fettuccini erguendo a voz.

Feliciano percebeu que ainda segurava os ombros do padre. Imediatamente os soltou como se eles estivessem dando choque. Olhou mais uma vez para o dono da Separados emoldurado pelo corpanzil do capanga e resolveu, de cabeça baixa, se mandar dali.

― Ele o machucou? Padre! ― Fettuccini estava realmente preocupado.

― Não! Não! Foi só uma discussão boba… ― Sorria Tito.

― Quer que o Reinaldo dê um amasso nele?

― Nããão! Que é isso? O Feliciano é um homem bom. Ele só esquenta a cabeça por nada. Daqui a pouco ele reza e fica bom!

― Eu vi que ele se alterou depois que o senhor falou com o secretário da Dona Zuzu… Acho que ele não simpatiza com os gays. ― Disse o gringo dando o seu parecer sobre a posição do pastor.

― São achismos individuais… ― Contemporizou Tito. ― Na nossa profissão é muito comum essa confusão.  Achar que os pontos de vista individuais são verdades absolutas, quando, na verdade, são só… achismos individuais…

O gringo riu e estendeu as duas mãos para segurar a do padre.

― Padre Tito! Só o conhecia de vista, mas é um prazer conhecê-lo pessoalmente. Sou Luiggi Fettuccini, da Separados…

― Sei quem você é. O prazer é meu.

― Eu andava mesmo precisando ter uma conversa com um padre!

― Entendo! Porque não sentamos um pouco naquele banco? ― Disse Tito apontando para um banco da praça. ― A menos que negócios urgentes o estejam esperando…

Fettuccini deu uma tossida e Reinaldo foi se postar a uns vinte metros, atento ao mundo e desligado do Chefia.

Os dois se sentaram e ficaram olhando por muito tempo para o movimento da rua e para uma pomba que ciscava no meio fio. Quando Tito entendeu que aquele silêncio fazia parte da dificuldade que o outro sentia para falar sobre o seu assunto, fosse ele qual fosse, baixou o tom de voz e resolveu dar uma pequena ajuda.

― Às vezes o início de uma conversa parece uma porta estreita demais, pela qual nós não vamos conseguir passar!

― Bota estreita nisso! ― Bufou Fettuccini.

Depois se encheu de coragem e emendou:

― É que eu vivo enrolado nuns desvios…

― Percebo!

― E… ― E voltou a ficar calado. Forçando o padre Tito a uma nova cutucada.

― E você prejudica outras pessoas nesses desvios, meu filho?

― Como…?  Não! Acho que não! É uma coisa só minha!

― Hum!

― Fico pensando se é pecado! Essas coisas…

Padre Tito se sentiu confuso, pois achava que o gringo estava se referindo às suas atividades paralelas, mas percebeu que o assunto era mais íntimo e talvez delicado. Achou que poderia apresentar algumas definições próprias que alargassem limites sem derrubar os pilares da Santa Madre Igreja.

― Sabe! Eu penso assim: Se alguma coisa faz mal a você sem fazer mal a outras pessoas pode ser que você esteja vendo a coisa como pecado não por que realmente seja, mas por que você foi educado a pensar assim…

― É! Talvez seja exatamente por aí… Mas me sinto desconfortável! Sabe? Remoendo, remoendo… ― E, depois de olhar para o Reinaldo posicionado a uma distância estratégica, baixou mais o volume da voz e disse: ― É que eu gosto de uma pessoa…!

― E essa pessoa gosta de você?

― Até pode ser! Não sei!

― Ela tem laços afetivos com outra pessoa?

― Que eu saiba, não! Nããão! Não tem mesmo! Posso garantir.

― Ela sabe que você gosta dela?

― Não! E nem pode saber…

― Então você pretende que ela não saiba que você gosta dela? ― Perguntou Tito tentando entender o nó que havia na cabeça do outro.

― É isso!

― Um amor platônico, então.

― O que é isso? ― Perguntou Fettuccini achando estranha aquela colocação.

― É uma forma de gostar sem um relacionamento íntimo. Gostar à distância. Idealizar um amor considerado impossível, e por aí vai… ― Respondeu Tito.

― Entendi… Bonito! Então deve ser isso… Pois é impossível!

― E por que você acha que um amor impossível é um pecado? ― Quis saber Tito.

― Ufa! O senhor faz perguntar difíceis, padre!

― Você ficaria mais tranquilo se eu considerasse a nossa conversa como um segredo de confissão?

― É! Pode ser… ― Suspirou Fettuccini.

― Mas quero deixar claro que você não é obrigado a dizer qualquer coisa pra mim. Pra todos os efeitos nós só estamos tendo aquela conversa informal que você queria ter com um padre… Lembra?

― Tá certo! Eu vou falar… ― Fettuccini olhou nos olhos do padre Tito e desabafou: ― É que eu gosto – daquele jeito que é impossível e coisa e tal – da Dona Zuzu.

― Entendo! ― Disse Tito mantendo sua fleuma e imparcialidade jurada.

― Entende? ― Fettuccini parecia radiante e ao mesmo tempo desiludido por seu segredo ter sido assimilado de forma tão simples e rápida pelo outro.

― Vou lhe contar uma coisa… ― E agora foi a vez de Tito baixar a voz. ― Quando eu tinha a sua idade – portanto já era padre e casado com a minha escolha – fui gostar de uma moça. Ponha-se na minha situação! Imagine o trabalho que eu tive para equacionar isso na minha consciência! Naquela época eu também pensei que era pecado! Eu havia sido educado para pensar dessa forma. Hoje eu vejo da seguinte forma: seria pecado se eu largasse a minha vocação, que hoje eu sinto como a coisa mais importante da minha vida, ou se eu estragasse a vida daquela moça com os impulsos de um homem equivocado. Afinal, não passava disso! Era um impulso normal de um homem, é claro! Mas também uma entre tantas paixões. Essas coisas que deixam as pessoas cegas e burras. Não que sejam más! Mas que acabam destruindo vidas quando são mal entendidas ou mal direcionadas.

― Porra…! Quero dizer… Mas que coisa, padre…! ― E o gringo emendou ainda dimensionando a sua dor. ― Embora haja aí duas diferenças importantes.

― Quais? ― Sorria Tito para a seriedade do outro.

― Em primeiro lugar o senhor gostou de uma mulher! E depois o senhor tinha e tem a sua vocação sacerdotal! No meu caso é muito diferente! Eu gosto de uma bicha, sou dono de uma escola de samba e todo mundo fica esperando pra saber quando vou dar o grande golpe.

― Tanto quanto eu saiba a Dona Zuzu é uma pessoa íntegra e trabalhadora. A moça de quem eu gostei era uma professora competente que acabou casando e hoje tem dois filhos. Você movimenta um empreendimento que dá trabalho pra várias famílias e eu tento dar consolo espiritual pra essas famílias. Estamos empatados!

― O padre só pode estar brincando comigo? Está esquecendo que ele é um gay? Que eu sou considerado um bandido? ― Gemeu Fettuccini.

― Esqueça essa coisa de gay! É um ser humano maravilhoso e perfeitamente digno de ser objeto do amor de outras pessoas. Nesse caso as opções sexuais só atrapalham por que nós vivemos segundo as definições de nossa civilização. Mas, independentemente, pelo que entendi, seu afeto é platônico!  E depois você é a coisa mais parecida com um bandido frustrado que eu já vi…

― Como…?

― Pelo que ouvi de sua história houve uma grande mudança na forma como o Sr Fettuccini leva a vida e é considerado pelos moradores do Santinho. Você não é um bandido que finge ser um homem bom. Você é um homem bom que pensa que é um bandido. Você faz um esforço enorme pra ser considerado um bandido, mas o Santinho, hoje, não poderia viver sem o trabalho que você desempenha na comunidade.

― O senhor acha isso? ― Perguntou Fettuccini se sentindo quase redimido.

― Com certeza! ― Respondeu Tito.

Fettuccini ficou em silêncio avaliando o que ouvira do padre enquanto Tito fazia um exame de consciência e pedia perdão a Deus por eventuais deslizes cometidos contra os conceitos de sua Igreja.

― E a minha penitência? ― Perguntou Fettuccini, repentinamente.

― E você ainda quer mais…? ― Devolveu Titto.

E acrescentou ao se levantar.  ― E não podemos esquecer de agradecer a Deus por ter colocado o pastor em nosso caminho! Se não fosse a chegada tempestuosa dele nós não teríamos essa conversa.

E os dois riram antes de se despedir.

 (Continua…)

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