Como são as coisas no Santinho (07 de 12)

07 – A Vingança de Madá!

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Lá pelas dezenove horas terminava o turno de Madalena de Jesus na  confeitaria Doçura que ficava na parte mais baixa do Santinho, já quase no Pinheiro. E era sábado. Um sábado especial. Na cabeça de Madalena era o dia da transformação e da vingança. Não queria ver aquele balcão pelas próximas trinta e seis horas. Férias de fim de semana. Jogou o avental com raiva na bolsa e resmungou um “Fui” pra colega de canga, que a olhou maliciosamente e cantarolou:

― Cuidado com os flashes! ― Essa era Leia, a pequena serpente.

Jantou um grande sanduíche de pão com mortadela e bebeu uma garrafa de suco de laranja. Tomou um banho demorado e se jogou nua sobre a cama. Barriga para cima, braços e pernas abertas, olhos bem abertos, redesenhando os nós do forro barato, a mente repassando os próximos passos, à espera da meia noite. O momento de ir à caça.

Chegou a cochilar, mas um pouco depois das onze uma mola automática a fez saltar da cama. “Hora de se vestir.” Madalena odiava o nome. Na padaria a tratavam de Madá. Mas naquela noite em especial era seria batizada de Má.

Má borrifou o seu melhor perfume, pintou as unhas de um vermelho intenso, caprichou na maquilagem, usou um batom igualmente vermelho, colocou a peruca loira comprada para a ocasião, entrou em uma calcinha vermelha quase inexistente, atirou pra cima um micro vestido vermelho que como uma pluma deslizou pelos seus braços até se ajustar ao corpo. Por fim calçou um par de sapatos vermelhos com os quais treinara a noite, durante uma semana inteira, para ter certeza que não cairia daqueles andaimes. Deu algumas voltas em frente ao espelho. Observou que os seios escapavam o necessário, e sempre uns centímetros antes da vulgaridade. Notou que as nádegas eram agradáveis e firmes. Sorriu. E considerou que o produto era bom.

Nada de relógio e bijus naquela noite. Levaria uma pequena bolsa vermelha com uma longa alça ao ombro. Dentro um lenço, o dinheiro suficiente para ir e vir de táxi, uma identidade que não era a sua, o batom para eventuais retoques, um espelhinho redondo, e um objeto metálico de uns 15 centímetros de comprimento. O objeto tinha um botão numa das faces. Quando esse botão era pressionado uma lâmina afiada era projetada de dentro do cabo transformando o objeto em uma arma mortal.

Desceu até o limite do Santinho onde a Padre Nunes se enfia no Pinheiro. Na calçada ficou atenta para o aparecimento de um táxi. Mas em dez segundos um carro cinza encostou ao meio fio e um grisalho galante baixou o vidro:

 ―A moça quer carona?

Aquilo fugia um pouco do plano, mas economizaria o dinheiro sempre contado. Debruçou-se na janela.

― Vou umas quinze quadras ou um pouco mais nesta mesma avenida… Agradeceria.

― Então entra!

A viajem foi lenta. O motorista não se decidia se mantinha os olhos no trânsito ou nas pernas de Má.

― Encontro?

― Isso!

― Então ocupada?

― Isso!

― Pena! ― Sorriu maliciosamente o motorista.

― É!

Durante o papo Má tirou o batom da bolsa e fingiu que o usava.

― É aqui! … é aqui que eu fico! Muito obrigada, tio!

O grisalho estacionou o carro e agarrou com força a coxa esquerda de Má.

― Um beijinho seria um bom pagamento!

Má guardou o batom na bolsa, e, mantendo a atenção dele em seu lindo sorriso, tirou de lá a lâmina retrátil. Click-Ssipt. A lâmina já estava encostada no pescoço do descuidado.

― Não me custa pintar este vestido um pouco mais de vermelho!… Tio!

O homem retirou a mão da perna de Má e se encolheu contra a porta da esquerda.

― Mal agradecida.

―Sou! ― E saiu do carro.

Enquanto guardava sua arma na bolsa Má ouviu os pneus do carro cantarem em disparada. Economizara o dinheiro do táxi.

Na porta da boate Noite de Amor, naqueles dias a top do Pinheiro, o leão-de-chácara avaliou a loira que se aproximava ondulante. Parecia conhecida, mas não conseguiu acessá-la em seu limitado banco de dados. “Cheira a problema, mas é boa!” sussurrou o seu instinto. Armou a estampa profissional, pernas um pouco afastadas para obter um bom polígono de sustentação, cara séria e alheia às tentações da vida, com as mãos juntas em frente ao saco, como jogador na barreira.

A loira chegou a 20 centímetros do seu nariz. O perfume inundou os sentidos do homem e uma gota de suor lhe correu pela nuca desconfortavelmente. A loira se afastou um metro e sorrindo deu duas voltas com os braços abertos, como uma bailarina, com seu pequenino vestidinho vermelho esvoaçando de forma sensual. E ela falou:

― Que tal? Acha que eu consigo manter uns dez meninos lá dentro consumindo um pouco mais do que eles queriam?

― Tá legal! Vai! Entra logo! ― Enquanto Má rebolava para dentro da boate o homem da porta respirou aliviado e com o indicador afastou o colarinho na parte de trás do pescoço para que aquela gota incômoda pudesse descer um pouco mais e se misturasse com as do suor nas costas.

No interior da boate, Má, já incorporada pelo espírito vingador que a levara até ali, farejava em todas as direções em busca de sua vítima. Era ali que ele vinha. Era ali que ele enrolava as garotinhas idiotas. Era ali que ele iria morrer.

Enquanto ela caçava, as antenas hormonais de vários machos captaram a sua entrada, o contorno de seu corpo, seus movimentos, as voltas que ela dava, seu olhar, seu rosto, suas pernas…

A penumbra, o som alto, as luzes coloridas piscando intermitentemente, a fumaça de muitos cigarros e a dança fracionada pelo efeito estroboscópico dificultavam a procura de Má. Talvez ele estivesse sentado com alguém numa das mesas periféricas, na escuridão total, ou não tivesse chegado, ou não viesse naquela noite. Esse último pensamento deixou Má especialmente frustrada. O plano e a ansiedade pela antecipação não a haviam preparado para esse pequeno, mas importante, detalhe. Considerou que deveria ocupar uma mesa, beber um refrigerante, ter um ponto fixo de observação, e esperar. Afinal, não poderia sair tudo errado. Era fundamental que o animal viesse para ser abatido.

― Acompanhada? ― Alguém se aproximava.

―Sim. ― Com esse diálogo curto ela ia rechaçando os eventuais interessados. Não queria ninguém perturbando a sua campana.

Num dado momento o garçom colocou na sua frente um cálice comprido com um coquetel enfeitado por uma cereja.

― Eu não pedi isso! ― Disse ela ao garçom.

― E uma cortesia daquele senhor! ― E apontou para um mulato sentado duas mesas depois.

O garçom foi embora e Má pensou: “Pulei o táxi e ganhei uma bebida de graça! Estou no lucro.” Bebericou avaliando o teor alcoólico. Era bom. Enquanto se distraiu colocando a cereja na boca o mulato veio e sentou na sua frente dizendo:

― A cereja foi a fruta mais vermelha que consegui combinar com você!

Má sorriu e respondeu:

―Obrigada! ― Enquanto avaliava o interlocutor: “Um moreno bonito e forte. Um sorriso afável. Uma voz agradável com uma boa dicção. Um cheiro sensual e uma cantada colorida.”

― Espero que a bebida não tenha lhe parecido forte demais.

― Na medida… que eu estava precisando! ― Sentia-se mais leve do que pretendia estar, mas amenizou.

Houve um silêncio de ponderações ocultas. De repente o outro disse:

― Paulo… o meu nome!

― Ah!… Má! ― Correspondeu Madalena.

Paulo riu e explicou:

― Espero que seja um apelido! Não me sentiria confortável sabendo que este é o seu nome!

Má também riu e balançou a cabeça:

― É apelido do apelido!

― Fica melhor…― Paulo sorria. ― Quer beber mais alguma coisa?

― Água! Tenho que me manter sóbria esta noite!

― Você vai dirigir?

― Não!… Só que hoje não é dia de beber… ― Estava perdendo o foco e isso a irritou. Suas feições ficaram carregadas e se iniciou um silêncio desagradável. Então Paulo a alvejou.

― Eu conheço você!

A afirmativa a pegou totalmente de surpresa. “Esse homem me conhece? Como? De onde? Em que circunstâncias?” Má ficou totalmente sóbria. Ela estava ali para matar alguém e aquele homem dizia que a conhecia, embora ela pudesse jurar que isso não era verdade. Aquilo atrapalhava e muito a sua saída já planejada.  Olhou sem fôlego para o homem que se dizia Paulo querendo uma explicação. Enquanto Paulo emendava:

― E eu posso ajudar você!

Má quis se levantar para sair dali e se esconder em algum buraco onde não existissem meios de comunicação de qualquer espécie, mas Paulo a segurou pelo punho, suavemente, e a fez sentar:

― Sou seu parceiro! Mas só posso ajudar se você confiar em mim!

Um longo minuto se passou enquanto Má procurava no tampo da mesa a resposta para o enredo confuso e cheio de vergonha em que sua vida se tornara.

― O que você sabe? ― Conseguiu enfim perguntar.

Um velho de aparência elegante e sacana passou pela mesa e deu um tapinha amigável no ombro de Paulo:

― Salve! Biduzão!

Paulo fez um sinal para o garçom que imediatamente estava a seu lado:

― Água… para os dois!

― É pra já, Biduzão!

― Biduzão? ― Perguntou Má, readquirindo a voz.

― É apelido do apelido! ― Plagiou o mulato bem apessoado, conseguindo arrancar um sorriso fraco de Má, que já se sentia Madá, e que estava sentada numa boate com um cara que se chamava Paulo, que todos tratavam por Biduzão, enquanto seu plano de matar um infeliz se escoava pelo ralo, e uma gorda maltratava o palco cantando funks com letras de duplo sentido:

Eu conheço um padeiro, 

o nome dele é Beludo.

Quando eu quero comê cuca

eu compro a cuca do Beludo.

Tem cuca Beludo?

Tem cuca Beludo?

Vem que tem, vem que tem, vem que tem!

Vem que tem, vem que tem, vem que tem!

Biduzão bebeu a água que o garçom trouxe e disse pra Madá:

― Vamos simplificar! Eu demorei um pouco para reconhecer você… até perceber que a diferença básica estava na peruca. Não precisa ficar com vergonha de mim… você não é a primeira que bebe e cai no conto do namorado apaixonado que quer tirar umas fotos íntimas para guardar de recordação. A internet está cheia desse lixo. O que me preocupa nesse momento são os sinais que você emite.

― Qual são os sinais? Sr…Biduzão! ― Perguntou Madá indecisa entre a raiva e a curiosidade.

― Não sei ao certo! Mas posso deduzir. Você sistematicamente recusou todas as tentativas de abordagem. Aparentemente está à espera de alguém. Sua postura não é relaxada de quem espera com prazer. Você está muito tensa. Quem a observa vê em você uma águia pronta para mergulhar sobre uma presa. Quando percebi quem você era juntei os prováveis motivos para suas atitudes. Não me surpreenderia com um fim rápido para o calhorda que tirou proveito de sua boa fé…

― Muito imaginativo de sua parte…― Disse Madá, desconcertada.

Num movimento rápido Biduzão tirou a bolsa de Madá e a abriu. Três segundos bastam para um especialista fazer um diagnóstico. Devolveu a bolsa antes que ela tivesse tempo de articular um protesto.

― Parece que não estou imaginando coisas. ― Disse Biduzão.

― Intrometido! Você não tinha esse direito! O que pretende fazer? Me entregar pra polícia? ― Reclamou Madá, indignada.

Biduzão sorriu enquanto pesava a forma de dizer o que tinha em mente.

― Eu disse pra você que seria o seu parceiro nessa empreitada, mas você precisava confiar em mim…

― Não tenho saída! ― Lamentou Madá.

―Tem sim! Você levanta, vai embora, esquece a merda que ia fazer, eu faço de conta que nunca vi você, e o carinha das fotos continua livre como um pássaro.

― Que interesse você pode ter nisso? ― Perguntou Madá.

― Você não é a única vítima. E essa é a nossa sorte! ― Explicou Biduzão. ― Se algo acontecer com esse cara há tantas interessadas na saúde dele, que as suspeitas dificilmente poderiam ser direcionadas. Ele está na minha alça há algum tempo, por encomenda, mas eu não o conheço pessoalmente. Sabemos que é o mesmo porque o idiota deixou inúmeras pistas nas fotos que jogou na internet. Seria cômodo deixar você fazer sua tentativa… mas só você iria se ferrar, e isso não seria justo. Você é inexperiente, passional, mal equipada, o lugar é público, as saídas são poucas, muitas coisas poderiam sair erradas. Eu tenho uma proposta melhor!

―Faça! ― Disse Madá, já ficando interessada.

― Você me aponta o cara! Só isso! Nós saímos e pronto. Um pessoal que trata desses assuntos resolve o problema depois. E está tudo acabado.

― Tem uma condição! ― Propôs Madá.

Biduzão já estava se divertindo com aquela negociação enquanto ouvia os gritos dos espectadores às suas costas ovacionavam a gorda do funk para que voltasse ao palco.

Suêmi Senta-o-Pau

Suêmi Senta-o-Pau

― Qual condição?

― Eu tinha um plano…― Suspirou Madá. ― Ao lado do banheiro, nos fundos, tem um depósito de bebidas. Eu ia levar o cara pra lá fingindo querer um amasso. Eu ia abrir uma segunda boca no pescoço dele, bem grande, na altura do gogó. O sangue não seria notado no vestido vermelho e com essa iluminação. Eu sairia pela porta da frente, como entrei. Talvez fosse um plano arriscado, cheio de furos, mas meu ódio por esse infeliz é tanto que eu estava cega. A minha vida virou um inferno! Agora você me tira da jogada, bota profissionais no negócio, e me atiça a imaginação com possibilidades de requinte…

― Estou ficando curioso!

― Não quero que ele morra! Eu só quero as bolas dele! ― Concluiu Madá.

Paulo olhou por um bom tempo o rosto jovem e bonito à sua frente. Com trato e sem toda aquela mágoa que lhe corroia a alma poderia perfeitamente fazer o papel de um anjo em qualquer peça de teatro infantil. Que idade teria? Dezoito? Dezenove? Ele estava surpreso com o pedido e ao mesmo tempo o achava justo. Fino não teria problemas para convencer o Coisa Torta desta pequena mudança nos planos. Só teriam que usar máscaras. Má teria as bolas do cara.

― Negócio fechado! ― Disse Biduzão. E apertaram as mãos.

Como se apenas isso faltasse para que a vingança de Madá se concretizasse ela viu na porta da boate surgir a caça. Elegante, cheio de charme, sorridente, andar de felino. Um macho com os dias contados.

― Fique atento. Na saída vou beijar o cara!

― Certo. Vamos embora.

Levantados Má percebeu que Biduzão, além de bonito, era um mulato uns quarenta centímetros mais alto do que ela, e naquele momento sentiu vontade de beber café com leite.

Quando Má caminhou em direção à vítima, como mágica esvoaçante, sorridente, só sexo, em “slow motion”, uma pequena lâmpada no cérebro do infeliz fez uma pálida tentativa de reconhecimento, mas antes disso ele foi afogado por um beijo com a boca, com os braços, com as mãos, com as pernas, que lhe sugou a memória, e assim como ela veio ela foi em direção à porta, vermelha, loiríssima, só curvas, só sangue, e ele sem ar, sem pensar, congelado, marcado, sem saber.

***

― Leia! Você que experimentar comigo estes bolinhos de carne que eu acabei de fritar? ― Perguntou Madá já de volta à lida na Doçura.

― Hummm! ― Saboreou Leia― Gostoso! Tem ovo?!

― Só os coquinhos do meu ex! ― Respondeu Madá.

― Aaah, Madá! Sempre nojenta e debochada!

 

 ***

Fino, quando viu o cunhado entrar na sala, colocou o jornal de lado e perguntou para o Coisa Torta.

— Agradeceu pro Juca do açougue os cocos de carneiro?

— Grumpf!

 

(Continua….)

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