Como são as coisas no Santinho (06 de 12)

06 – Tratamento VIP para as autoridades.

(Para saber como começa essa história clique aqui!)

Depois que o Barraca promoveu a Zulma a esposa com comes e bebes e papel em cartório, o Bar Feliz ganhou status de estabelecimento de família. Na prática tudo continuava como era antes, mas, graças a uma maquiagem simpática na parte pública da casa, de tarde alguns casais faziam lanches nas mesas da calçada, e alguns até levavam seus filhos para uma laranjada no bar do tio Barraca. Depois que a noite fechava e as mariposas abriam suas asas a freguesia mudava e a entrada era barrada por um armário de um metro e noventa, o Juscelino. O Barraca, em seu costume de abreviar os nomes, deu ao porteiro o nome de Celino. Só entrava quem o Celino deixava ou conhecia muito bem. “Dimenor” nem pensar!

Já era meia noite e o Barraca estacionou o carro no meio fio, fez a volta pela frente abotoando o casaco e abriu a porta da direita para que a Zulma pudesse descer estilosa e com ares de primeira dama. Depois que ela entrou no bar, enquanto o Barraca, que era dois palmos mais baixo que o porteiro, passava pela porta, Celino segredou no ouvido dele.

― O senador já chegou! Tá numa beca! Uma finura!

― Estou sabendo. ― Disse o Barraca. ― Mas não estou entendendo é essa admiração toda!

― É que eu apreceio o ômi! ― Explicou Celino.

― Celino! ― Ralhou o Barraca. ― Tu tá muito fresco pro meu gosto!

― Não, patrão! É no sentido público! Tá ligado? ― Se defendeu Celino.

― Hum! Vá lá! Mas não quero saber de tietagem aqui na minha zona! ― Avisou Barraca, com a cara amarrada.

― To sabendo! Pode deixar.

O Barraca andou mais dois passos, mas parou, pensou um pouco e voltou até a porta para dizer mais alguma coisa pro Celino.

―Tem outra… Chega mais!

―Pode dizer, patrão! ― Disse Celino, empertigado como um poste.

― Chega mais! Ô orelhão! Não quero falar alto!

― Ah! Foro íntimo! ―E Celino inclinou a cabeça enquanto o Barraca ficava na ponta dos pés. ― Sou todo ouvido.

O Barraca passou os dedos na testa enquanto torcia a boca e franzia o nariz. ― Ando com um calor aqui na testa… Meio que coça…! Sabe?

― Nossa! ― Exclamou Celino, com os olhos muito abertos, perfeitamente ciente do significado daquela revelação.

― Não comenta! Não comenta! Só escuta…― Pediu o Barraca com o indicador direito batendo no próprio ouvido.

― Hum! Hum!

― Minha fonte diz que a Zu… a patroa… tá sendo assediada por um cara!

― Hummm!

― E eu sei quem é o cara! ― Revelou o Barraca tocando de leve com o dedo sob o olho direito pra indicar que estava esperto e vendo.

―Hum? ― Celino enrugou a testa nitidamente curioso.

― O senador…― Revelou o Barraca.

Por-ra! ― Assoprou Celino, silabicamente, sem sonorizar a palavra.

― Então… ― Continuou o Barraca, falando claro e macio para que o assunto flutuasse até o fundo da alma do porteiro. ― Então o meu broder Celino vai pedir para o senhor Fino emprestar pra nós o Coisa Torta. Só por uma noite! Pra que vocês façam uma parceria…

― Serviço profissional?

― É!

― O patrão quer um trabalho de catigoria? ― Perguntou compenetrado Celino.

― É!

― Quer que nóis amasse o cara aqui no estabelecimento?

― Nããão! Lentitude! ― Quase gritou o Barraca. E depois voltou ao tom sibilante. ― Não mistura as coisas.

Celino coçou a têmpora e fez uma careta de guri mijado.

― Aqui no público nós tratamos a excelência com todo o respeito que o cargo merece. Afinal, nós vivemos numa democracia e somos civilizados… depois, no privado,  é outra conversa.

― Ah! Meio no longe… ― Entendeu Celino.

― Exatamente!

―É pra matá a excelência? ― Quis saber Celino, em busca de uma melhor definição para os seus limites.

O Barraca cruzou as mãos nas costas, balançou a cabeça, pensou um pouco e respondeu:

― Hummm. Não!… Repercute de forma negativa nos serviços de assistência que as escolas tão fazendo… Tem muita gente que gosta do cara.

― Quebrar, bem quebradinho! Pode? ― Insistiu Celino.

―Pode. Mas sem muita marca pra perícia.

―O Coisa Torta vai gostá! Ele não apreceia político! ― Sorriu Celino.

 (Continua…)

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