O amor de Abelha

Teodoro criou um fake, usando o nome de Ricardo. No face adotou a foto do Leonardo DiCaprio –  que ele havia modificado no photoshop, aqui e ali,  pra não ficar muito evidente. Virtualmente passou de quase gordo para magrão bombado, ganhou vinte centímetros de altura e deixou de ser pobre. Como estava ficando um quarentão passado, optou pela idade eterna entre os trinta e os trinta e cinco anos. E arrematou com um upgrade cultural associando o alt-tab com o Google. E depois saiu para a rede, desdobrando o papo com as mesmas garotinhas com quem flertava real e virtualmente antes dessa modificação transcendental. Como resultado, logo surgiu um séquito de fãs sequiosas. Baixava da internet os resumos dos livros que ele mentia que lera e listas infindáveis de frases de efeito que ele introduzia nos bate-papos. Mudou de emprego. Largou as prateleiras do Boa Compra e passou a viajar para o exterior. Enquanto Teodoro continuava a suar todos os dias, como repositor de mercadorias no supermercado, Ricardo quase nunca estava no Brasil, mas voando, a pedido do pai, por meridianos distantes, resolvendo problemas para os diretores das empresas espalhadas pelo mundo. Inevitavelmente isso acabava atrapalhando os encontros marcados com as gatinhas que desprezavam Teodoro, mas suspiravam antegozando o beijo prometido por Ricardo. Esse era um homem ocupadíssimo. “Ontem a noite mesmo estava no Brasil e agora já está teclando de Tóquio!” Coisas das “foreign trade operations, diria Ricardo.

Teodoro passava o dia empurrando plataformas com montanhas de rolos de papel higiênico, alheio ao zum-zum do supermercado. O corpo dele se movia sem pensar no que estava fazendo. Aquilo era um sonho cansativo a espera do momento em que acordaria em seu universo fake, num outro país, às vezes –  nunca pedante –  misturando palavras da língua local em suas mensagens, para logo pedir desculpas. “A troca de idioma costuma me confundir mais dos que a troca de fuso.”, queixava-se Ricardo.

Uma das meninas que ele namorava pela internet era a linda e sensual Abelha; uma Megan Fox de dezoito aninhos. Era brasileira, mas morava em Paris com o pai; ele um diplomata da embaixada. Ela teclava: “Quando passar pela Europa venha me visitar, Ric! Sinto que desse encontro pode nascer um amor imenso! Sonho com você todas as noites.” E depois de algum tempo aprofundava a íntimidade: “Penso em você e sinto você tocando o meu corpo até ficar exausta. Oh! Não sei se é possível existir tanto amor!” E outras melosidades do tipo.

Numa noite, ao chegar do trabalho, Ricardo mandou a mensagem: “Estou num voo que fará escala em Paris. Vou ficar uma semana na União Soviética. Encontre comigo no Charles de Gaulle! Hoje, enfim, temos a chance de nos beijar! Reservei uma suíte no Ritz-Carlton em Moscou. Venha comigo! Morro de amor por você! Ricardo.” O eco aflito de Abelha demorou quase três horas: “Oh! Não! Oh! Não! Como o destino pode nos pregar essa peça? Estou na estação de esqui de Courchevel com meus amigos. Temos um avião no aeroporto da estação, mas levaria umas seis horas para chegar a Paris. Diga que pode me esperar! Louca de amor por você! Abelha.” Ricardo esperou outro tanto e, as três da madrugada, respondeu: “O voo foi desviado para o Saïss, no Marrocos. Tempestades com muita turbulência sobre o Atlântico. Estou decolando agora para Moscou. Não é dessa vez que vou passar por sua cidade, minha querida. Choro em pensar que teremos que adiar nosso encontro mais uma vez. Ricardo.”, e esperou até as quatro quando veio a continuação: “Oh! Meu amor! Também estou chorando. Uma avalanche interrompeu o acesso ao aeroporto e ficamos incomunicáveis por quase uma hora. Tremo só de pensar que você poderia estar esperando por mim em Paris. Somos uns desafortunados. Mas ainda vamos nos encontrar, com certeza! E então vou poder demonstrar todo o amor que sinto! Um beijo! Amo você! Abelha.”. E depois derramaram afagos eróticos virtuais até as seis horas da manhã, quando a comissária de bordo pediu que desligassem os aparelhos eletrônicos por que iam entrar no espaço aéreo de uma região muçulmana em conflito. Ricardo foi colocado em off dando lugar a Teodoro, que tinha que se lavar, comer alguma coisa e estar no supermercado as oito. Como são cansativos esses namoros transcontinentais!

Um dia Teodoro estava mergulhado num balcão refrigerado acomodando pizzas calabresas quando uma voz perguntou às suas costas:

— Dóio? É você, Dóio?

Ele custou a entender que alguém falava com ele e, depois de assoprar o pó de uma gaveta esquecida de sua adolescência, lembrou que Dóio era o jeito como as crianças da rua o chamavam. Curioso olhou para a criatura vinda do passado e descobriu uma mulher jovem, de trinta e poucos anos, com óculos de fundo de garrafa, mas bonita. “Quem seria ela?” A mulher, sorrindo, viu a dúvida nas feições de Teodoro e prontamente o tirou da obrigação de reconhecê-la:

— Você não vai se lembrar de mim! Sou a Teleca, filha da dona Mimosa, vocês me chamavam de Meleca! Lembra?

— Mele… a Terezinha! — Reconheceu Teodoro. — Mas você está muito… bonita!

— Obrigada! Você também continua o mesmo gato de sempre. — Piscou tímida Teleca.

Teodoro percebeu que aquilo que ele achava impossível estava acontecendo com ele: havia a chance dele se relacionar fisicamente com uma mulher palpável, que, por um distúrbio conceitual ou em consequência da miopia, o achava um gato. E era bonita!

Com o tempo ela soube tudo sobre ele. Tudo menos o namoro ardente de Ricardo e Abelha. E ele soube que ela era auxiliar de enfermagem, que dividia um apartamento com duas colegas de trabalho, Malu e Tina, que Meleca-Teleca-Terezinha era tão solitária quanto ele, que os dois gostavam das mesmas coisas, das mesmas comidas e dos mesmos filmes e que, em suma, eram como a tampa e o gargalo; feitos um para o outro. Com isso, gradativamente, Ricardo cedeu espaço em sua vida para os devaneios de Teodoro, ao que Abelha reclamava: “O que está havendo entre nós, meu amor? Você parece tão distante, Ric! Por favor, não me faça sofrer! Sou sua eterna Abelha!” e Ricardo explicava: “Abelha! Não pareço! estou distante! Ultimamente, com frequência, vou a lugares sem acesso à internet. Os meios de comunicação dos norte-coreanos são deprimentes! Na verdade ando bastante preocupado com a possibilidade de um conflito entre as duas Coreias. Isso não seria bom para os negócios. Um beijo do Ricardo.”.

O relacionamento entre Teodoro e Teleca ganhou volume por quatro meses. Teodoro gostava cada dia mais de sua vida real, mas, em determinados momentos, exatamente o oposto parecia acontecer com Teleca.

— Você parece tão triste! Foi algo que eu fiz? Foi algo que eu disse? Você está contente com nosso namoro?

— Sim! É claro! É que eu sou assim! Estou preocupada com o trabalho e não desligo nunca!

— Quero fazer o que for preciso para ver você feliz!

— Oh! Meu amor! — Sorriu Teleca acariciando o queixo dele.

Então Teodoro, com o coração acelerado, num impulso, deixou escapar o fatídico:

— Você quer se casar comigo?

Os sons desapareceram. Teleca dilatou as narinas inspirando todo o ar do mundo e deixando Teodoro sem fôlego, mas ela, com os olhos brilhando de felicidade, derreteu o suspense e disse:

— Sim, meu amor! É o que eu mais quero!

Nesse momento Teodoro fez um exame de consciência e achou que era a hora de confessar:

— Há uma coisa sobre mim que eu tenho que contar… — Teleca parecia uma coruja curiosa inclinando a cabeça para escutá-lo. Teodoro criou coragem e completou: — Eu estou terminando um relacionamento anterior. Hoje mesmo dou um fim nisso… Só posso viver pra você!

— Eu… Eu não sabia…! — Suspirou Teleca, que se aconchegou ao peito de Teodoro e deixou escapar uma lágrima…

Teodoro não imaginava como poderia terminar sumariamente com Abelha. Como evitar o assédio posterior a Ricardo? Então teve uma ideia! Ele iria matar Ricardo! Simples! Um assassinato virtual é um assassinato sem culpa. Na verdade poderia ser considerado um suicídio experimental! Os homens, amigos de Ricardo, quase todos fakes criados por Teodoro, escreveriam: “O mundo ficou vazio sem você, amigão?”, ou: “Será que Ricardo morreu?” e as meninas diriam: “Não posso acreditar que isso realmente tenha acontecido!” e “Meu coração está sangrando!”. Teria que ser uma morte cheia de mistérios. Talvez deixando, como um efeito colateral que lhe alimentaria o ego, uma saudade de viúva no coração de Abelha. Sentia até uma pontinha de culpa que se diluía quando pensava na vida real com Teleca.  Durante a madrugada mandou a mensagem: “Minha Abelha! Estou indo para Pyongyang. Último acordo com os líderes locais. De lá, vou direto para Paris. Já avisei meu pai. Esse mundo louco não me interessa mais. Não vejo a hora de dar fim a essa espera. Quero tocar em você. Quero só viver com você e amar você. Ricardo.” Depois esperou quatro dias, pacientemente, em que não entrou como Ricardo, mas usava fakes alternativos e lia as mensagens apaixonadas de Abelha. Depois do trabalho lambia sorvetes com Teleca, mais e mais inebriada com a possibilidade de casamento com aquele homem tão maravilhoso. Faziam planos para o futuro e abraçadinhos iam até o apartamento dela onde se submetiam às flautas de Malu e Tina sobre o casamento. Despediam-se com um longo beijo na porta entreaberta e por aí vai, até onde é possível imaginar as variantes de um singelo namoro provinciano.

Depois do quarto dia um dos amigos fakes de Ricardo escreveu em sua linha do tempo, sob a foto de picos cobertos de neve: Baekdu. Essas montanhas geladas esfriaram o coração quente de Ricardo!”, outro, mais jornalístico, postou, seguido por incontáveis compartilhamentos e comentários tristes: “Agora é fato! O megaempresário Ricardo perdeu a vida tragicamente num acidente aéreo em uma região montanhosa e de difícil acesso da Coreia do Norte. Os destroços foram localizados pela Estação Internacional. O corpo não foi encontrado. O mundo dos negócios está de luto e mais pobre. Quem o conheceu sabe que o planeta perdeu um de seus filhos mais capazes. Vai com Deus, meu amigo. Segue a viagem! Nos encontramos qualquer dia!”, e as inúmeras amigas derramaram uma profusão de emoticons de prantos e de corações pulsantes ou explodindo que umedeceram os olhos de Teodoro. Mas não veio nenhuma mensagem de Abelha. Nada! Esfriando o entusiasmo dele sobre as repercussões de sua própria morte. Afinal, a principal destinatária não comparecera ao velório virtual.

Na manhã seguinte empurrou carrinhos, alinhou latas de sardinha, recolheu iogurtes vencidos, sonhou com o casamento e esperou a hora em que encontraria Teleca na parada de ônibus. Mas logo depois do almoço o Bolha, gerente do Boa Compra, bateu no seu ombro e disse que havia uma pessoa querendo falar com ele no escritório. No escritório? Isso não costumava acontecer! E ainda mais com o gerente vindo chama-lo pessoalmente! Teodoro ficou mais aflito quando o Bolha abriu a porta para que ele entrasse, mas ficou de fora de seu próprio escritório. Lá dentro Malu esperava por ele, com o rosto inchado de tanto chorar. Teodoro, sobressaltado, exclamou:

— Ai, meu Deus! O que aconteceu com Teleca?

E Malu gemeu rouca:

— Nossa amiga se foi. Desistiu daqui.

— Mas como? O que foi que aconteceu? — Gritou Teodoro, com um peso esmagando o peito.

— Remédios. Muitos. Ela deixou uma carta pra você. — E mostrou um envelope que Teodoro quase arrancou das mãos da outra para ler trêmulo e sem acreditar:

“Ricardo, meu amor! Minha vida não tem mais sentido! Com sua morte o chão desapareceu! Estava preparada para um amor que transbordaria pelo mundo e agora estou cega e não sinto mais meu corpo! Vou ao seu encontro na eternidade! Amando você loucamente! Sempre! Abelha.” 

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4 Comentários em “O amor de Abelha”

  1. Jesiel Says:

    Muito bom!


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