Como são as coisas no Santinho (05 de 12 – 1ª parte)

05 – O seu inimigo pode ser o seu maior amigo! (1ª parte)

(Para saber como começa essa história clique aqui!)

Entre os inquilinos do Fino havia um policial. O Antunes. Às vezes os dois dividiam uma cerveja quando o Fino ia cobrar o aluguel. Eles não eram íntimos, mas se davam relativamente bem. Contavam piadas, casos, e se agulhavam aqui e ali, principalmente quando a área de ação do Fino atritava com a do Antunes.

Numa dessas visitas o Antunes perguntou pro Fino: ― O amigo tem alguma informação sobre esse falecimento lá no Pinheiro…? O cara era conhecido como Bisca e andava envolvido com o tráfico.

― Sei do Bisca e do caso, mas desconheço as circunstâncias de sua partida. ― Respondeu o Fino enquanto fazia o recibo. ― E até gostaria de saber quem foi que carimbou o passaporte daquele infeliz para externar os meus agradecimentos! Não sei se o amigo me entende!

Antunes sorriu e depois deu uma nova pressionada. ― O Fino realmente não teria nada a ver com o caso?

Fino parou de escrever e olhou nos olhos do Antunes: ― A pergunta está sendo feita pelo policial ou pelo meu amigo?

― Não há como separar um do outro. ― Respondeu Antunes.

― Pois vou lhe responder de uma forma que uma pessoa inteligente possa tirar todas as conclusões que quiser. Essa pessoa em particular não foi embora desse mundo pelas minhas mãos ou em consequência de qualquer palavra que tenha saído da minha boca. Soube que ele foi apagado há dois dias entre as oito e a meia noite. E nessa hora… Deixa ver na minha agenda. ― E tirou um pequeno caderninho preto do bolso do casaco. ― Eu estava com minha Lu, no Cine Rildo, assistindo um filme choroso do gosto da patroa, e depois nós tomamos um Capuccino… e o resto não é da sua conta.

― Você tem uma agenda para o que fez no dia a dia? ― Surpreendeu-se Antunes.

― Sim…! Na verdade, tecnicamente, não é uma agenda. Numa agenda você marca as coisas que tem que fazer. Aqui eu marco as coisas que fiz!

― E por que você anota tudo aí? ― Quis saber Antunes.

― Para saber qual vai ser o meu álibi quando um amigo policial me pergunta se eu tenho alguma coisa a ver com a morte de um Bisca qualquer da vida.

― Mas isso eu nunca tinha visto! ― Riu Antunes.

― Agora já viu! Imagine se você me pergunta o que eu estive fazendo na noite de dez para onze de março, há dois ou três anos atrás, entre as vinte e três e as quatro da madrugada? Só os culpados saberiam responder exatamente o que estavam fazendo. Os inocentes necessitam de uma anotação.

E assim rolava o relacionamento entre os dois.

***

Num dia desses Antunes estava mais sério do que o costume e rodeou muito antes de entrar no assunto.

― O que você me diz desse tal de Luigi Fettuccini?

Os dois bebericavam uma cerveja e Fino considerou que a pergunta era muito vaga. Além do mais entrava num campo que continuava a ser um espinho no Santinho, pois concentrava poder e grana com interesses não muito santos. Resolveu que seria bom que Antunes abrisse mais a guarda e explicasse o porquê do seu repentino interesse pelo gringo. ― Seja mais específico! ― Falou.

― Será que preciso? Ele anda sempre rodeado de indivíduos que não inspiram muita confiança. ― Espichou o Antunes.

― Até aí não é novidade. ― Contrapôs o Fino. ― Desde que ele chegou aqui no Santinho as coisas são assim.

― Mas agora alguns ajudantes dele têm se aproximado muito de uns caras da polícia que têm a consciência meio volúvel… ― Completou Antunes apresentando a sua verdadeira preocupação.

Fino se voltou para o policial com uma cara que demonstrava que aquela realmente era uma notícia para ser levada em conta. Enfim fez seu comentário:― Isso não é bom! ― E os dois ficaram quietos por um longo tempo. Cada qual mergulhado em suas próprias conjecturas.

Depois o Fino se levantou para se despedir de Antunes e disse: ― Mas não se preocupe demais. Aqui no Santinho nós temos os nossos métodos para cuidar desses assuntos e eu lhe prometo que se o gringo anda tendo alguma ideia suja envolvendo a polícia alguém vai puxar as orelhas dele.

Em casa, naquela noite, depois que o Dódi foi dormir, Fino caminhou muito na varanda dos fundos, e Lu sabia que quando isso acontecia era por que o seu Tutu andava com a cabeça muito quente com questões profissionais. Na música que preenchia o pensamento de Fino apenas uma tecla era tocada: se um cara rico, com declaradas intenções de entrar no tráfico de drogas, corrompesse a polícia local algumas portas seriam escancaradas e ele não teria forças para proteger a sua família.

Quando foi deitar Fino perguntou pra Lu. ― Sua tia Deti teria o telefone do Boca?

― Aquele meu primo do Baixo Leme?

― Não conheço outro!

― Ai! Como você é grosso! ― E deitou para o outro lado. Mas como todas as brigas entre eles só duravam um minuto Lu considerou que ele não fora tão grosso assim e afinal ela devolvera a pergunta de uma forma muito infantil. Voltou o corpo para o Fino, lhe deu um beijo na boca e disse: ― Amanhã eu consigo o telefone pra você!

***

Como Zuzu e Fettuccini comandavam as duas escolas de samba do Santinho era inevitável que eles se encontrassem, ora na sede da Separados, ora no barracão da Unidos, para tratar dos assuntos relativos ao carnaval. Nessas reuniões as rusgas eram inevitáveis, mas os participantes achavam melhor que eles se desentendessem ali do que quebrassem o pau no meio de um desfile.

― Por que ele é assim, Romeno? Diz pra mim! ― Costumava se exasperar Zuzu.

― É o amo-o-or! ― Cantava Romeno, deixando Zuzu mais furiosa.

Numa dessas a reunião foi marcada no barracão da Unidos para aparar arestas e combinar uma ou outra coisa que dependia de uma ação conjunta. Na oportunidade havia uma dúzia e meia de presentes. O pessoal de Fettuccini envolvido com o Carnaval, os de Zuzu, e alguns comerciantes do bairro, como o Barraca, dono do Bar Feliz, a fachada do bordel das garotas alegres. Barraca era amigo de Fettuccini.

― Banco cenzinho como o Tutini vai se atrasar mais de meia hora!

― Não aposto com você! Ele se atrasa sempre! ― Disse o Fino. ― Até desconfio que vocês combinam esse atraso pra poder apostar e dividir a grana.

― Que maldade…! ― Começou Barraca a se defender enquanto ria, mas nessa hora o Régis, braço direito do Fettuccini, entrou correndo no barracão.

― O Che…! O Chefia foi sequestrado!

Houve um instante de estupefação geral.

Biduzão foi o primeiro a tentar entender melhor o que havia acontecido. ― Calma! Explique melhor essa história, Régis. Diga o que foi que aconteceu.

― Exatamente o que eu disse…! Três caras armados apareceram e levaram o Chefia!

― E você? ― Perguntou o Fino. ― Você e o outro segurança…

― Não deu tempo pra nada! Foi tudo muito rápido! Num segundo tinha um cano na minha testa e na do Reinaldo, o terceiro cara enfiou um saco na cabeça do Chefia e eles arrancaram num carro preto. Tudo durou segundos. Eram profissionais da pesada. O Reinaldo reagiu, mas bateram nele e depois o apagaram com uma coronhada. E eu vim aqui porque…

― Tem que avisar a polícia! ― Disse Zuzu já pegando o telefone.

― Não! A polícia não… ― Adiantou-se o Régis, e depois olhou com ares de súplica para o Biduzão. ― A polícia não! O Chefia não ia gostar! E os caras também não! Você sabe como é que é…

― Zuzu! Vamos primeiro tentar entender o que realmente está acontecendo. Larga esse telefone. ― Coordenou o Biduzão. ― Alguém entrou em contato com vocês?

― Foi agora! Coisa de cinco a dez minutos. ― Respondeu Régis. ― E eles disseram que iam ligar pra cá! Por isso eu vim.

― Pra cá? ― Exclamou Zuzu. ― Por que pra cá? Aqui não é a casa dele!

― Talvez porque os sequestradores saibam que ele não tem ninguém com quem contar numa hora dessas. ― Tentou explicar o Fino.

― Como assim? ― Perguntou o Barraca.

― Ele é um solteirão que mora sozinho naquela casa. Tem a empregada, mas a essa hora ela não está mais lá. Os outros dois únicos que circulam por lá de forma permanente são o Régis e o Reinaldo. E certamente os bandidos sabiam que ele estava vindo pra cá… ― Argumentou o Fino.

Houve um alvoroço entre os presentes, nitidamente divididos entre o contato ou não com a polícia, mas Biduzão aos poucos apaziguou os mais exaltados e pediu que aquele assunto, por enquanto, permanecesse ali. ― Vamos aguardar o primeiro contato, depois decidimos o que fazer. Se esses caras sabem que nós corremos pra polícia é possível que descontem em cima do Fettuccini.

Um negro alto chamado Alcides, mas que todos tratavam por Virapau, e que trabalhava com o gringo na organização dos carros alegóricos, teve um chilique e Zuzu foi fazer um chá pra ele. A reunião ganhou clima de velório antecipado. E fino e Biduzão levaram o Régis pra uma conversa longe dos ouvidos dos outros.

― Está havendo alguma coisa que você esteja escondendo? ― Perguntou o Fino para o secretário do Chefia.

― Escondendo? Como assim? ― Devolveu o Régis.

― Como assim? Pense bem. O gringo é sequestrado bem debaixo do seu nariz. Vocês são dois homens fortes, treinados e armados. Não houve nenhuma facilitação? ― Perguntou o Fino.

― O… ― O Régis ganhou tons arroxeados. ― Tá querendo insinuar que eu… seu… seu! Mas vai ter que repetir isso lá fora seu baixinho de merda!

― Calma lá! ― Saltou Biduzão entre os dois. ― Ninguém está acusando ninguém. Você concorda que a coisa ficou mal explicada e isso nos dá o direito de pressioná-lo…? Queremos sentir o cheiro da sua resposta! Só isso!

Régis bufou um pouco, mas procurou engolir a própria raiva. ― Vá lá! Não gostei nem um pouco disso que você disse, Fino! Mas vou deixar passar. Eu trabalho com o Chefia desde que ele chegou ao Brasil. Tenho o homem como um irmão. Eu quero é o coro do pessoal que aprontou essa pra cima de nós.

Fino continuou à sua moda, tentando conseguir mais informações.

― E nesse caso você não desconfia de ninguém?… Sabe como é! Você vive grudado com o gringo, sabe das coisas que ele sabe, dos negócios dele e, cá entre nós, esses negócios às vezes são meio enrolados… É muito fácil pisar no calo de alguém… E se essa pessoa se achar prejudicada? Um concorrente, um sócio que se julga traído, sei lá, há gente por aí que costuma tomar medidas drásticas quando se vê ameaçada.

O Régis encheu as bochechas e pensou um pouco.

― Eu não sei de tudo! Só sei que… ― Mas nessa hora o telefone tocou e todos ficaram estáticos a espera de quem iria tomar a iniciativa. Foi Biduzão quem atendeu. E os presentes prestaram muita atenção enquanto Biduzão escutava e concordava com um simples “sim” ou um “está bem” até que desligou e disse:

― Pessoal! A coisa está assim!

(Continua…)

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One Comment em “Como são as coisas no Santinho (05 de 12 – 1ª parte)”

  1. Li Says:

    Aguardando o desenrolar dos acontecimentos…


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