Como são as coisas no Santinho! (04 de 12 – 2ª parte)

Capítulo 04 – Os negócios com padre Guido. (continuação)

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Com Chupeta na equipe e instruído sobre papel a desempenhar eles voltaram a cuidar com muito carinho da vida privada do padre Guido. Numa tarde em que o padre estava sozinho na casa paroquial despacharam Chupeta, cheiroso e bem vestidinho, com sua carinha inocente e meiga.

Enquanto Teleco manuseava o equipamento o padre Guido ia até a porta pra atender quem estava tocando a campainha. Zuzu aguardava ansiosa e Romeno olhava pra telinha, curioso pra saber no que ia dar tudo aquilo. Fino, sentado de pernas cruzadas, já arquitetava o passo seguinte daquela história se tudo desse certo.

O padre Guido abriu a porta e se deparou com aquele encanto de criatura que sorria de forma triste e angelical.

― Boa tarde, amiguinho! Seja bem vindo à casa do Senhor?

― Boa tarde, padre! Eu precisava ter uma palavrinha… ― Disse Chupeta, já entrando, em seu papel de tímido, enfiando ainda mais fundo as mãos nos bolsos, olhando num segundo para os olhos do padre e no outro para a ponta dos sapatos dele.

― Venha! ― Disse o padre com uma mão no ombro do rapaz. ― No meu escritório nós podemos falar mais a vontade!

E os dois entraram na casa enquanto as câmaras de Teleco seguiam os dois.

― Sobre que assunto o amiguinho quer falar com o padre? ― Perguntava o padre Guido, transbordando simpatia e aveludando a voz.

Os dois se sentaram num sofá no escritório do padre. Chupeta começou a desenrolar o seu script. E lá no barracão Zuzu cruzava os dedos e dizia:

― Não me embicha agora! Pelo amor de Deus!

― É que é assim ó! Eu sempre tive um sonho de entrar pro seminário, mas meu pai nunca deixou…

Nesse ponto Chupeta tinha que fazer uma pausa suficientemente longa para ter um suspiro e deixar transparecer uma tristeza meio indefinida, a espera de que o padre mostrasse o tom de seu interesse pelo assunto do pirralho. O combinado era que, se o padre Guido desse sinais de impaciência, Chupeta deveria pedir desculpas e dizer que talvez não fosse a hora adequada pra ter aquela conversa. Se o padre continuasse desinteressado Chupeta deveria cair fora pra não forçar a barra e queimar um possível flagrante no futuro.

― Diga! Meu anjo! ― E os olhos de Guido brilharam de amor pelo pequeno visitante. ― Diga pro padre porque você está sofrendo!

Bingo! ― Exclamou Teleco no barracão se certificando que tudo estava perfeitamente conectado na gravação daquela cena.

― Agora meu pai morreu…! ― Disse Chupeta, quase num soluço. E o padre deixou escapar um:

― Oooh! ― E envolveu Chupeta num abraço que aparentava ser paternal e fechou os olhos enquanto cheirava sofregamente os cabelos bem lavados e inebriantemente perfumados do tristonho candidato a seminarista.

Agora vai! Agora vai! ― Torcia Zuzu segurando as mãos de Romeno.

E como aquele abraço se prolongasse, com suaves chamegos nas costas de Chupeta, houve um longo momento de suspense. Será que o padre Guido seria acometido por uma aguda crise de castidade? Mas, inicialmente aparentando indecisão, o padre acariciou a nuca do Chupeta, e logo após, afoitamente, foi trazendo a cabeça dele pro seu colo com a mão esquerda enquanto com a direita procurava desabotoar a braguilha. E quando o pênis rijo saltou contra o rosto imberbe e atônito do rapaz ele gritou, acordando de sua entrega órfã em busca de um consolo:

― O que é isso? Padre! Meu Deus…!

E Guido, quase frenético, com voz rouca dizia:

― O padre vai proteger você! Vamos ficar amigos! Vem cá! Vem cá!

― Não! ― Gemia Chupeta, sendo agarrado pena nuca. ― Isso não! Isso é pecado! Me laaarga!

Guido o agarrou pelos cabelos e deu dois tapas no ouvido esquerdo do Chupeta que chorou de dor.

― Chupa! ― Roncou. ― Chupa!

― Nããão! ― Desvencilhou-se Chupeta― Nojento! ― E saiu correndo e chorando em direção à porta da rua.

Guido, encolerizado e sem fôlego ainda esbravejou:

― Porra! Seu merda! Meeerda!

No barracão Zuzu dava um rodopio de porta bandeira e Romeno e Teleco se abraçavam. Fino bateu palmas e exclamou:

― Foi de tirar o chapéu!

Chupeta foi ovacionado como herói quando voltou ao escritório do barracão. Fino teceu elogios à sua performance e Zuzu quase o esmagou com um abraço de ursa.

Teleco esperou um momento em que o padre não estivesse na casa paroquial e se apresentou como o Técnico da Companhia à secretária. Com a desculpa de que era para conferir se as linhas tinham ficado perfeitas após a vistoria anterior, circulou pela casa e removeu o seu equipamento de espionagem. Fino se encontrou com Biduzão e combinaram os detalhes de uma visita ao padre Guido.

***

― Poderíamos enumerar uma série de irregularidades no procedimento de vocês… ― Argumentava Biduzão. ― Diríamos que a justiça não veria com bons olhos o que vocês fizeram!

― Então ficamos quites! ― Exclamou Fino.

― Como? Não liguei… ― Disse confuso Biduzão.

― Eu também não vejo com bons olhos muitas coisas feitas pela justiça! Nada mais justo que ela também não veja com bons olhos algumas coisas feitas por mim. ― Explicou Fino. ― O fato é que uma coisa muito errada aconteceu no Santinho, e se formos esperar pelos meios considerados legais, além da demora, pouca coisa vai mudar na prática, e isso nós estamos carecas de saber. Então eu pergunto ao doutor: Está dentro no arremate dessa questão do padre, ou vai ficar preso na conceituação entre o que é moral e o que é legal?

Biduzão não pode deixar de sorrir e fechou os olhos ao concordar:

― É claro que estou dentro, Fino! Só é minha função alertá-lo que violação de privacidade e chantagem escancarada são caminhos perigosos para serem seguidos, mesmo estando com a razão.

― Está bem, doutor! ― Arrematou Fino. ― Agradeço de coração a assessoria, mas que nós vamos comer o fígado desse filho da puta, mesmo que a justiça fique cega do outro olho, ah, isso vamos!

No dia seguinte Fino, Biduzão, e o Coisa Torta se apresentaram na casa paroquial.

O padre Guido recebeu aquele grupo inusitado entre apreensivo e curioso.

― Entrem! Estejam à vontade! É assunto da Igreja?

Em vez de responder, Fino se voltou para o Coisa Torta e disse:

―Fique do lado de fora e se alguém quiser entrar diga que o padre no momento está muito ocupado.

O Coisa Torta grunhiu, saiu, fechou a porta, e cruzou os braços como se  fosse ficar ali por toda a eternidade.

 ― O que está acontecendo? ― Franziu a testa o padre Guido.

― Muitas coisas! ― Disse o Fino. ― Mas eu vou deixar que o Dr Paulo, nosso advogado, apresente para o senhor a razão de nossa vinda. ― Com a deixa Biduzão abriu um notebook e instalou nele um pen-drive. Depois virou o note para o padre e os três ficaram em silêncio.

Fino e Biduzão, nas costas do computador, apenas ouviram o som do filme já conhecido enquanto apreciavam as variações nas feições do padre Guido. Uma campainha soou e depois de algum tempo se ouviu o ringido de uma porta se abrindo.

― Boa tarde, amiguinho! Seja bem vindo à casa do Senhor?

― Boa tarde, padre! Eu precisava ter uma palavrinha…

― Venha! No meu escritório nós podemos falar mais a vontade!

Uma pausa e depois:

―Sobre que assunto o amiguinho quer falar com o padre?

― É que é assim ó! Eu sempre tive um sonho de entrar pro seminário, mas meu pai nunca deixou…

Houve um suspiro ou um soluço.

― Diga! Meu anjo! Diga pro padre porque você está sofrendo!

O padre Guido estava pálido e a ponta do nariz ficara nitidamente cianótica. Nesse ponto Biduzão temeu pela possibilidade de que o padre enfartasse e o desenlace acabasse sendo totalmente inesperado.

― Agora meu pai morreu!

―Oooh!

Houve um silêncio maior em que Guido com uma das mãos no queixo fechou os olhos, já sabendo o desenrolar da cena, mas sem acreditar que aquilo pudesse estar acontecendo.

― O que é isso? Padre! Meu Deus!

― O padre vai proteger você! Vamos ficar amigos! Vem cá! Vem cá!

― Não! Isso não! Isso é pecado! Me laaarga!

O som de dois tapas foram ouvidos nitidamente e em seguida um gemido ou um choro.

― Chupa! Chupa!

― Nããão! Nojento!

Sons de passos de alguém correndo e depois o de uma porta batendo.

― Porra! Seu merda! Meeerda!

Fino e Biduzão aguardaram pacientemente que o padre Guido dissesse alguma coisa, mas como ele parecia paralisado, com os olhos fixos na tela, Biduzão fechou o notebook, retirou o pen-drive e o colocou no centro da mesa ao alcance do padre. Depois de algum tempo, com a voz rouca e a boca meio encoberta pela mão que apoiava o queixo, o padre perguntou:

― O que vocês querem? É uma chantagem?

―De certa forma é uma chantagem! ― Concordou Biduzão.  ― Mas não da forma que o senhor imagina. Nós não queremos nada que venha do senhor e que pessoalmente nos favoreça como é convencional em uma chantagem. Na verdade nosso ganho é indireto…

―E se eu não concordar? ― Perguntou Guido.

― Nesse caso… ― Interrompeu Fino. ―… eu chamo o Coisa Torta, que eu pedi que ficasse lá fora porque ele é uma pessoa muito sensível e não entenderia essa aberração que acabamos de assistir, e nós vamos dar um passeio. Coisa, aliás, que já havia sido cogitada quando ficamos sabendo de suas preferência sexuais…

― O senhor está me ameaçando? ― Arregalou os olhos o padre.

― Com todas as letras! ― Respondeu Fino. ― O senhor pode escolher negociar com o Dr. Paulo ou comigo. O que eu posso lhe garantir é que a minha proposta pode ser extremamente dolorosa, mas de fim rápido. Enquanto a do doutor vai deixá-lo com vida e sem nenhum arranhão, pelo menos fisicamente.

― O que vocês querem? ― Gemeu Guido.

Biduzão abriu uma pasta e tirou alguns papéis.

― Fizemos algumas averiguações e descobrimos que a CRV que o senhor usa está em seu nome e quitada. Gostaríamos que o senhor assinasse esta procuração nos dando plenos poderes para negociá-la! A verba resultante será aplicada no Fundo para Atendimento Psicológico das Crianças do Santinho. Até pensamos em usar o nome… das Crianças Vítimas do Padre Guido, mas achamos que isso poderia soar mal e a ação ficaria mal vista.

O padre não poderia ficar mais pálido e aparentemente capitulara.

― A segunda coisa… ― Continuou Biduzão. ― É entregar esse pen-drive que está sobre a mesa ao seu bispo, para que ele entenda a razão de seu repentino abandono da Paróquia.

― Mas isso é o fim… ― Esboçou o padre. ― Isso eu não posso fazer!

― É uma escolha sua. ― Disse Biduzão. ― Nós podemos representá-lo, mas achamos que seria mais ético se a iniciativa, pelo menos aparentemente, partisse do senhor.

― Eu não posso… Oh! Meu Deus! Que outra escolha vocês me deixaram? ― Quase chorava o padre Guido.

― O senhor tem a opção de se matar! ― Completou o Fino. ― Mas acho que pela sua fé isso seria considerado pecado!

(Continua…)

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2 Comentários em “Como são as coisas no Santinho! (04 de 12 – 2ª parte)”

  1. Li Says:

    Com as luzes acesas,caro amigo!


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