Como são as coisas no Santinho! (04 de 12 – 1ª parte)

Capítulo 04 – Os negócios com padre Guido.

(Para saber como começa essa história clique aqui!)

Isso aconteceu alguns anos depois do encontro de Zuzu com Fettuccini, quando as coisas andavam relativamente apaziguadas e havia um pároco novo, chamado Guido, na igreja do Senhor Menino.

Zuzu entrou no atelier de costura e encontrou todas as mulheres quietas. E isso era incomum. Fora o barulho das máquinas o silêncio das matracas era sólido. Sinal inequívoco de que algo ia mal. Zuzu encostou na Cida, a mais espevitada, e sussurrou.

― Que bicho comeu a língua de vocês? ― A outra arregalou os olhos e deu um sorriso torto.

―Sei lá! Elas que são pretas que se expliquem! ― Como se ela não fosse a mais retinta de todas.

Zuzu, que não gostava de um mal-estar sem explicação, principalmente num ambiente de trabalho que costumava ser alegre, pensou: “Se uma delas tá de bico com outra vou acabar com isso e é já!” E bateu palmas.

― Meninas! Parem tudo e me digam a razão dessa estranheza!

Mas o silêncio continuou. Algumas a encararam mudas e outras olharam para baixo como se estivessem envergonhadas. Foi então que Tereza, uma mulata viúva de seus trinta anos e que coordenava o atelier, soltou um soluço e desatou a chorar. Zuzu se aproximou de Tereza e falou com carinho.

― Conheço você, Tereca! Diga pra sua amiga o que está acontecendo pra que eu possa ajudar!

― Não é nada, não, Dona Zuzu! Não adianta… ― Soluçou Tereza.

Como se estivessem esperando aquele momento pra tomarem partido, várias outras costureiras quebraram o silêncio e disseram em tons que variavam da indignação à solidariedade.

― Adianta sim!

― Como não é nada?

― Vai! Conta tudo!

― A Zuzu precisa saber!

 Zuzu olhou em volta, mas as donas das vozes engoliram qualquer coisa que ainda tinha para dizer.

Zuzu pensou um instante e disse:

― Vem comigo, Tereca.

No escritório pediu que Romeno saísse e pressionou.

― Vamos lá. Só vamos sair daqui hoje quando eu estiver sabendo toda essa história.

Tereza relutou um pouco, mas conseguiu contar chorando e fungando o que havia acontecido. O seu filho de 10 anos havia sido molestado sexualmente pelo padre Guido.

Zuzu, vivida, sabia que aquilo era uma das coisas que acontecia no mundo torto dos seres humanos, mas não pode deixar de ficar revoltada quando a notícia veio bater a sua porta. Tentou apaziguar a costureira. Disse que aquilo não podia ficar sem uma reação. Dispensou Tereza para que pudesse ir para casa cuidar dos seus sentimentos e pediu que Romeno acha-se Biduzão para um aconselhamento legal sobre o assunto.

Naqueles dias a Senhor Menino contava só com um padre porque esfriara o interesse da Igreja no Santinho e a freguesia havia diminuído muito com a vinda dos evangélicos.

Biduzão e Zuzu conversaram com Tereza e Belinho, a vítima dos desvios do padre Guido, mas o
menino entrou em pânico com a possibilidade de ser uma testemunha. Disse que negaria tudo e ainda ia jurar que aquilo não passava de invenção da cabeça maluca deles. Quando perguntaram se o padre o havia ameaçado ele respondeu que não tinha medo do padre e sim do que iam dizer dele na escola depois que o assunto virasse a piado do ano.

Zuzu já estava perdendo as esperanças de fazer justiça quando Fino apareceu no escritório do barracão, enfiou a cabeça pela porta e deu duas batidas com os nós dos dedos na madeira.

― Permite que entre?

―Entre, Fino! Posso ser útil em alguma coisa? ― Perguntou Zuzu.

―Na verdade acho que sou eu que posso ser útil nessa questão indefinida que a senhora está vivenciando com o nosso pároco! ― Fino sempre foi muito respeitoso com Zuzu e fazia questão de tratá-la como uma dama, mesmo sabendo que não era uma mulher. Zuzu ficou imediatamente curiosa.

― Posso me sentar? ― Disse Fino, ainda de pé no meio da pequena sala.

― Claro! Claro! Onde estou com a cabeça? Você me pegou de surpresa vindo até aqui falar desse assunto. ― E Zuzu se apressou em desocupar uma cadeira para o visitante, já que ali todas estavam constantemente acomodando pilhas de roupas das confecções da Escola.

Fino desabotoou o botão do casaco, sentou e começou um pequeno histórico para introduzir o motivo de sua vinda.

― Quando o Santinho começou a crescer meu pai era jovem e viu que as pessoas que vieram pra cá investir no comércio iam desejar casas melhores para morar com suas famílias. Ele então resolveu focar o seu trabalho nessa necessidade, comprou muitos terrenos a preço de nada, porque aqui, naquela época, as coisas não valiam nada, e construiu várias casas. Dessa forma, informalmente, a minha família entrou para o ramo imobiliário, que eu tenho procurado manter e ampliar pensando em um dia deixar um bom negócio pro meu Dódi. ― Fino fez uma pausa, com as mãos em posição de prece e avaliou o grau de atenção de Zuzu.

― Numa das casas mora um rapaz. Ele é boa pessoa, mas me deve uma substancial quantia em alugueis. Eu sei que ele não vai ter condições de pagar…! Esteve adoentado e sem trabalhar…! Essas coisas! Bem! Acontece que sabendo do impasse da senhora no esclarecimento do problema do menino e tudo mais eu vislumbrei uma possibilidade de casar os nossos interesses. Esse meu inquilino dispõe de um bom material eletrônico que nos permitiria, digamos, espionar e filmar as atitudes do padre, sempre partindo do princípio que ele realmente tenha culpa e volte a cair em tentação. Dessa forma satisfaríamos o seu desejo de justiça, o rapaz que me deve quita a dívida comigo e nós dispensamos de nossa comunidade um elemento nocivo.

Zuzu estava admirada com a proposta de Fino e tentada a aceitá-la imediatamente, mas perguntou:

― E o que você ganha com isso?

Fino sorriu e respondeu:

― O meu primeiro pensamento, quando soube do assunto, foi assoprar no santo ouvido do Coisa-Torta que o padre era sócio do capeta e que o meu Dódi, afilhado dele, corria o risco de ser vítima de um dos pecados do padre! A senhora conhece o meu cunhado! Depois pensei melhor e achei que o Coisa-Torta não merecia sujar as mãos com um sujeito desse tipo. Da forma como estou lhe propondo usamos uma alternativa menos violenta, talvez até vantajosa para as crianças que o padre prejudicou, e eu ganho a satisfação de viver num lugar mais limpo. Isso é bom pra todos nós! Principalmente pro meu neguinho! E só isso já me paga!

Assim, com a ajuda de Teleco, o inquilino de Fino, foram tomadas providências na montagem da arapuca para o padre Guido. Os telefones da casa paroquial começaram a apresentar um chiado desagradável e as ligações passaram a ter um destino incerto. No segundo dia a secretária da paróquia ligou para um indivíduo que ela acreditava ser funcionário da Companhia Telefônica e pediu uma vistoria geral no sistema. Durante a tarde, travestido como técnico da Companhia, Teleco examinou as linhas enquanto a secretária estava ocupada atendendo Romeno com uma infindável lista de preocupações sobre os sacramentos atrasados das crianças carentes do Santinho e o padre Guido era mantido preso no confessionário atendendo um inusitado aumento na demanda de desejosos de se verem livres de seus pecados. O técnico trabalhou tão bem que em menos de meia hora resolveu todos os problemas e, enquanto isso, instalou pequenas câmaras nas dependências da casa paroquial e na sacristia.

Mas depois de três dias de monitoramento, em que o padre Guido foi observado a sós com várias crianças, sem que nada fora do comum ocorresse, a frustração começou a minar as esperanças da pequena equipe de espionagem, formada por Zuzu, Romeno, Fino, e Teleco.

Num momento em que todos estavam quietos e pensativos, Romeno resolveu se manifestar:

― Estive pensando! Nós não estamos oferecendo ao padre a isca certa!

Como os outros permaneceram em silêncio a espera de uma continuidade, Romeno completou o seu pensamento.

― O Belinho é filho único de uma viúva. Não tem uma figura masculina que o defenda. Os pentelhos que apareceram na filmagem são todos filhinhos de algum papai conhecido do bairro. Acredito que o padreco não queira se arriscar muito. Nós teríamos que montar uma cilada mais apetitosa pra ele. Além do mais estamos aqui a espera que ele volte a atacar uma outra criança da nossa comunidade, e vocês me desculpem, estou achando essa nossa tocaia meio sacana e desleal com a criança para quem o padre vier a se insinuar! ― O puxão de orelhas vindo de Romeno deixou todos nitidamente constrangidos. Fino sorriu e disse:

― Gostei! Sinal que você é do bem! E que nós não somos tão espertos quanto estávamos pensando!

Zuzu perguntou dando uma rebolada com as duas mãos cravadas na cintura:

― Você está sugerindo que joguemos o filho de uma viúva na jaula do padre, querido? E onde fica a moralidade da nossa tocaia nesse caso?

Romeno, imitando os trejeitos de Zuzu, respondeu:

― Cai na real, que-ri-da! Apenas o padreco precisa acreditar que é um filho de uma viúva, ou mesmo que é uma criança!

― E onde vamos desencavar essa isca milagrosa? ― Perguntou Zuzu.

―Eu conheço um cara… ― Disse Romeno

Romeno descreveu o cara. Era conhecido como Chupeta e morava no Pinheiro, um bairro vizinho. Já era maior de idade, no entanto, por essas mexidas da genética, ninguém lhe daria mais do que treze. Era um gay de metro e meio com a face de um anjo. E não borboleteava de forma exagerada. O nome já dizia qual era a sua especialidade, mas por um troco ele seria capaz de passar por um menino virgem e puro.

― O que vocês acham? ― Perguntou Zuzu.

―Não custa nada nós conhecermos esse amigo do Romeno! ― Ponderou o Fino.

―Alto lá! Que não sou dado a essas boiolices. ― Reclamou Romeno. ― Conhecido! E não amigo!

(Continua…)

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2 Comentários em “Como são as coisas no Santinho! (04 de 12 – 1ª parte)”

  1. Li Says:

    Tenho certeza que essa turma faria ótima figura num certo planalto central,não achas?

    E se achares algo entregue,fazendo o favor,para o Fino.
    Ela saberá que fim dar…para A COISA .

    • romacof Says:

      Depois da ação dos justiceiros (naquele caso do rapaz que foi acorrentado nu e amassado) passou a ser politicamente incorreto qualquer pensamento correlato.


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