Como são as coisas no Santinho! (02 de 12)

Capítulo 02 – O que é justo é justo!

(Para saber como começa essa história clique aqui!)

Noutro caso fui um protagonista indireto, ou, pelo menos, o indutor da história.

Num certo período da minha vida fiz plantões num posto de saúde do Santinho. Eu tinha um FIAT 147, o Carrocha, que era velho, mas era o meu cavalo. Sem ele seria difícil a locomoção da minha casa ao bairro e naqueles altos e baixos. Um dia inventei de trocar de carro e fiz um negócio casado envolvendo o dono de um GOL e um picareta do Santinho que queria ficar com o Carrocha. O picareta levou o FIAT para dar uma ajeitadinha e disse que me pagaria no dia seguinte. Mas no quarto dia eu ainda não tinha visto a cor do dinheiro, e tampouco a do comprador ou a do velho FIAT. Dessa forma, me sentindo logrado, sem ter o dinheiro para completar a compra do GOL, tendo que subir a pé o Santinho, cheguei atrasado, cansado e irritado ao posto de atendimento médico.

Quis o acaso que meu primeiro paciente fosse o Dódi, queimando de febre em consequência de uma amigdalite aguda. Depois da consulta pedi desculpas pelo atraso à Luciana, a mãe do garoto, e sucintamente relatei o fato de ter ficado a pé por ter sido enganado por um negociante de carros usados.

Três dias depois, num fim de tarde, com a clientela atendida e o posto praticamente deserto, a recepcionista, distraída, teve um sobressalto quando duas figuras praticamente se materializaram no outro lado do balcão.

― A moça trabalha aqui? ― Perguntou Fino, educadamente.

― Tr-trabalho. ― Gaguejou Ritinha, quase deixando cair os óculos de míope.

Fino, vendo que a menina havia ficado assustada com a silenciosa chegada deles, procurou ser o mais gentil possível. Fez um gesto com a mão apresentando o Coisa-Torta.

― Não se assuste com meu cunhado! Ele é feio, mas é gente boa!

― Ãh, ãh!

― Muito prazer! Meu nome é Liturgo, mas pode me chamar de Fino! É como sou conhecido aqui no Santinho.

― Sim. Sei. ― Tentava se recompor, Ritinha.

― Coisa-Torta! ― Fino franziu a testa para o cunhado como se o repreendendo pela carranca que não se aplicava naquela hora e lugar. ― Sorria e diga um olá pra senhorita!

― Grunf! ― Disse o Coisa. E Fino, vendo o resultado da tentativa do cunhado em sorrir, achou que a cara natural dele era mais bonita.

― Ele não fala muito; ele é meio-irmão da minha Lu… Luciana.

― Sei. Conheço.

― Tem um doutor que trabalha aqui. Usa óculos… tem barba.

― Sei. Sei.

― Ele está?

― Não! Ele atendeu às consultas da tarde, mas já foi… Ele tinha que pegar o ônibus… Ele está sem carro… ― Tentou explicar Ritinha.

― Exatamente por isso… por causa do carro, digo, é que estamos aqui. O doutor tratou do meu menino. A Lu o trouxe outro dia. Um neguinho que é a coisa mais amada! Ele tem uma pinta aqui na bochecha.

― Hum. Hum. Estou lembrada!

― Viemos agradecer.

― Ah! O menino ficou bom? ― Exclamou Ritinha, finalmente aliviada.

― Está que é um demoniozinho! ― E o sorriso do Fino era de um pai realmente feliz por saber que o filho havia recuperado totalmente a capacidade de ser endiabrado.

― Nós gostamos de saber quando o paciente se recuperou…

― Queremos também agradecer porque o doutor foi muito respeitoso com a minha Lu. ― E o Fino se debruçou sobre o balcão e baixou o volume da voz, como para contar um segredo. ― Não sei se me faço entender…

― Ah…! Sim. ― Sussurrou Ritinha, sem saber por que sussurrava e se realmente entendia.

Fino fez uma pausa mais prolongada enquanto avaliava a recepcionista e por fim resolveu revelar o motivo da sua vinda.

― Nós ficamos sabendo que o doutor vendeu o carro para um picareta daqui do Santinho e esse comerciante ficou em débito para com o nosso doutor. ― E como Ritinha permanecesse muda Fino resolveu perguntar:― Acompanhando?

― Não sei…!Claro! Acho que sim! ― Disse Ritinha, confusa.

― Não? Sim? Sei? Não sei?… A senhorita sabe do que eu estou falando?

― Cl-claro! ― Confirmou Rita.

― Então nós – eu e o Coisa-Torta – tomamos a liberdade de fazer uma visita para o indivíduo citado.

― Prainducá! ― Grunhiu o Coisa.

― Oh! Viu? O Coisa-Torta no fundo tem a alma de um educador.

― Sim! ― Ritinha abriu mais os olhos e eles ficaram enormes por trás das lentes grossas.

― Esse envelope tem a quantia que aquele senhor ficou devendo. Peço à moça o favor de entregar isso para o doutor com os cumprimentos do Fino e do Coisa-Torta.

― Mas…

― Diz que é pela saúde do menino. E diz pra ele que amigo do Fino é irmão do Fino.

― Digo.

― E diz também que é como um irmão do Coisa-Torta, que, nunca esquecendo, é o dindo… E Deus me livre acontecer algum mal pro meu menino!

― Grunf! ― Confirmou o Coisa.

― Vocês… Não aconteceu nada com o homem? ― E Ritinha já estava arrependida por ter feito aquele tipo de pergunta para a qual não queria saber a resposta.

― Que homem? ― Perguntou Fino, aparentando estar genuinamente surpreso.

― O pica…! O cara da dívida!

― Não sei de cara nem de homem, moça. Viemos aqui só para agradecer pela recuperação do meu neguinho. Foi um prazer conhecê-la! Passar bem! Transmita saudações ao doutor. ― E com uma vênia deu meia volta e foi embora.

― Transmito. ― Disse Ritinha, segurando um envelope pardo e ajeitando os óculos.

― Grunf! ― Disse o Coisa-Torta, com as mãos às costas, já lá da porta.

(Continua…)

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One Comment em “Como são as coisas no Santinho! (02 de 12)”

  1. Li Says:

    Passando…


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