Como são as coisas no Santinho! (01 de 12)

Capítulo 01 – Nem tudo o que é teu é meu! 

Poucos o conhecem por Liturgo! Lu, Luciana, sua amada esposa, sabe o nome de batismo do marido, mas no chamego o trata de Tutu. Talvez só Paulo, o Biduzão, o chame pelo nome, mas Biduzão é doutor advogado, gente culta; nem ficava bem descascando apelidos nas tratativas profissionais. Todos os outros o chamam de Fino, até o Chefia e pra todos os efeitos esse é o seu nome de guerra. Na lida da vida Liturgo é o Fino; sempre foi. O apelido decorre de sua estatura e porte físico. Fino é todo fino, do rosto às extremidades. Lu já é uma morenaça, bem um palmo e meio mais alta do que o marido quando ao rés do chão. De salto alto ela se perde nas alturas! Mas isso não deixa Fino complexado, pois ele sabe que aquela mulher o adora e o respeito entre os dois é antológico no Santinho. Além do mais, Fino se garante como homem em todos os sentidos e ninguém desconhece o fato de que não seria bom para a saúde fazer qualquer malícia com a diferença de estatura entre eles ou com a fidelidade de Lu. Ele tem orgulho dela e de ostentá-la como uma estupenda conquista que personifica a capacidade dele como macho e líder. Lu lhe deu um filho, o Dódi, que foi batizado como Dorival. Dódi é um crioulinho magro de nove anos.

Naquele mundo de verdades cambiáveis e condutas discutíveis, Fino tem um eterno e diplomático jogo de braço com o Chefia, o Luigi Fettuccine, o capo da Separados da Unidos do Santinho; uma outra novela envolvendo métodos com os quais nem sempre Fino ou Biduzão concordam. Mas aí teria que entrar na história de Zuzu, numa salada pitoresca e picante, que vou contar mais tarde para não me desviar do assunto.

Fino é um cara branco, com um bigode bem recortado, que veste roupas de executivo, muito raramente dispensando o paletó e a gravata. Ele está sempre acompanhado de uma sombra, o Coisa Torta, um meio irmão de Lu e padrinho de Dódi. Embora Lu seja negra o Coisa Torta é quase branco. É alto e muito forte, tem um corpo quadrado e a cara assimétrica é que lhe deu o apelido. Ele compensa em força o que Fino compensa em inteligência e não se vê um sem o outro. Quando surge um trabalho que se enquadra na especialidade deles não se diz que aquele é um serviço para o Fino ou para o Coisa Torta. Sempre se diz: “Essa é uma tarefa para o Fino e o Coisa Torta.” Como se fosse um nome só. Para consumo popular nunca se soube qual era o nome verdadeiro do Coisa. Ele surgiu mais tarde na família, um pouco antes do nascimento do Dódi. A fidelidade bovina do Coisa, somada à bondade com a Lu e o menino, fizeram com que Liturgo adotasse aquele meio cunhado. Coisa Torta pouco fala, mas tem o hábito de grunhir quando respira com a boca fechada. Esse costume o torna duas vezes mais assustador; o que é muito útil naquilo que eles fazem.

Na escola de Liturgo a primeira coisa que se aprende é que o que é dos outros só pode ser teu se o outro for do mal. Tirar de panaca é o mesmo que roubar de criança. Não tem perdão. O fato de se usar os mesmos métodos do bandido sem consciência se justifica porque nesse mundo de baixo deve se falar a mesma língua, só que com discernimento, além de classe e honra. O que deve prevalecer é a justiça! Por mais paradoxal que isso possa parecer para quem não é do ramo. Se quer ver o Fino puto é só fazer uma injustiça! Ele até dá um tempo para o cara se mandar, mas não apareça mais na frente dele!

***

Dois moradores do Santinho – Critério e Suzuki – estavam encostados a um muro perto do supermercado, na vagabundagem da adolescência desvirtuada. Os dois faziam alguns trabalhos sujos para o Chefia, mas o japa, Suzuki, era dado à chapação, e naquele dia não se podia dizer que ele estava do lado de cá. Critério, na campana, fazia o seu papel de aprendiz de delinquente e estava atento ao movimento do entra e sai dos clientes do supermercado.

― Tá vendo o carro da pinta? ― Falou Critério, usando a mão para esconder o movimento da boca. Suzuki desceu dum limão e teve alguma dificuldade ao se desvencilhar de dois pequenos micos roxos que teimavam em subir por suas canelas magras. Levou alguns segundos para entender o que era um carro e que o papo era com ele.

― Tôôô! ― E depois ele realmente viu um carro esvoaçante e multicolorido que pulsava e resfolegava quase na boca de um dragão.

― Baita carrão! ― Avaliou Critério.

― Baita. ― Babou Suzuki.

― A mina da pinta é a maior vacilona! ― Continuou Critério, fazendo o seu diagnóstico da situação.

― !? ― A aparente guinada no assunto acordou o japa um pouquinho mais enquanto um pedaço de seu cérebro lutava para tentar conectar um “baita carrão” com “mina vacilona”.

― Quando encosta nem chaveia. ― Explicou Critério.

― É? ― Perguntou o companheiro quase chegando lá.

― Sóóó. ― Espichou Critério, numa afirmativa sintética de sua constatação.

― Beleza! ― Disse Suzuki, usando uma fórmula reflexa que certamente agradaria o seu interlocutor sobre qualquer assunto, fosse ele qual fosse.

― Ligou dois e dois? ― Perguntou Critério, aparentemente não se dando conta do lastimável estado do companheiro.

― Quase…! Ajuda! ― Suzuki, tentando manter toda a atenção na transcendental explicação que viria, torceu as mãos e cerrou os olhos para as coisas que dançavam a sua volta.

― O critério é o seguinte: nóis fica na espreita… Vacilou!… Nóis acha! Sacou? ― Traçou Critério, o estrategista.

― Saquei! ― Disse Suzuki, eufórico, mais com a sua capacidade de compreensão do que com os ganhos decorrentes do possível roubo.

― E achado não é roubado!

― Beleza! ― Suzuki começava a ver as possibilidades.

― Dispois nóis vende por dois pau.

― Iiisso! ― Agora Suzuki já conseguia enxergar a cara de Critério através de uma nuvem amarela e sorridente.

― E defendemo o pó das criança!

― Criança? Quem tem criança? Não me mistura o troço! ― Gemeu Suzuki.

― As criança semo nóóóis! Anta travada!

― Belezura! Belezura! ― Quase gritou o japa, agora realmente sacando o plano de Critério.

― Então vamo nessa!

― Peraí…! ― Suzuki agarrou o braço do companheiro enquanto segurava a própria testa com a outra mão.

― Pensando? ­

― Tô! Tá saindo… Dói… Peraí…!

― Pensa logo. ― Impacientou-se Critério.

― E o comprador? ― Perguntou Suzuki num lampejo de pertinência.

― Já tenho!

― Jááá? ― Surpreendeu-se o outro. ― Mas que rápido! Quem?

― O critério é vendê pra pinta do carro.

― Como assim? Tu acha qu’ele vai querê?

― Claaaro! Qual o trouxa que vai deixar de comprar um carrão desses por dois pau? Maior negocião!

― Beleeeza!! ― Exclamou Suzuki já quase de cara. ― Maaano! Ma como tu é esperto! Podia inté sê político.

― Podia! O critério é esse… Mais dispois…

Estratégia feita os dois entraram no carro, Critério puxou dois fios de sob a barra de direção, fez uma ligação direta e em vinte segundos estavam a uma quadra dali.

***

Mas como tudo que acontece no Santinho, um lugar em que a polícia é meramente decorativa, antes do fim da tarde o acontecido já estava nos ouvidos do Fino, que apurou todas as pontas da operação e mandou chamar os dois ladrões de carro.

Fino, tirando o casaco e o pendurando cuidadosamente nas costas da cadeira que iria ocupar, afável e pacientemente  introduziu o assunto, enquanto Coisa Torta grunhia algo de pé as suas costas.

― Fiquei sabendo que os dois autônomos andaram fazendo uma transação lucrativa!

― Nós achamo um carro de banda e pegamo emprestado inté o dono dá as cara. Sacou? ― Resumiu Critério com um olho nas gentilezas de Fino e o outro na carranca do Coisa Torta.

― Bonito! ― Sorriu o Fino.

― O critério é o seguinte: nós racha pra não ficá com cara de roubo só nosso! ― Contemporizou Critério, enquanto Suzuki, mudo, fazia frenéticos meneios afirmativos a seu lado.

― Mas que visão a sua, Critério…! Bem se vê que é um homem de negócio! ― Continuou Fino, dando corda para os pequenos bandidos.

― Nós do ramo sintendemo, né doutor? ― Critério empinou o peito, já mais confiante.

Fino rodou a cadeira, ficou de frente para o Coisa Torta e disse:

― Anota aí que preciso cobrar da professora de português mais empenho no ensino da nossa língua aqui no Santinho. Só de pensar que vou envelhecer tendo que ouvir essa lastimável demonstração de ignorância linguística me deixa nauseado.

― Ghruuunf! ― Rosnou o Coisa Torta, enquanto Critério e Suzuki, sentados em cadeiras de pernas curtas, num plano um pouco mais baixo, enfiavam as mãos entre os joelhos e se olhavam inseguros.

― Vocês sabem de quem é o carro? ― Perguntou Fino.

― Duma pinta aí…! Qui nós vai contatá pra cobrá! ― Respondeu Critério.

― Pois eu sei de quem é o carro e já o contatei! ― Disse o Fino.

― Mior intão! Se o doutor tá na parada a coisa já fica oficial… facilita pra ambas as duas parte e dispois nóis racha!

― O carro pertence a um homem honesto e trabalhador, que nunca fez mal a ninguém.

― Mas é um cagão casado com uma tapada…!!

Fino suspirou e continuou ainda mantendo o seu estilo.

― Vou dizer pra vocês o que vai acontecer. Não me interrompam e prestem bem atenção pra não ficar cansativo. O dono do carro está atrás daquela porta. Eu vou chamar o cara. Vocês vão devolver o que é dele e vão pedir desculpas. Depois, muito rapidamente, vão desaparecer daqui do Santinho e vão rezar todos os dias pra nunca mais aparecerem por aqui nem por descuido, ou o Coisa Torta vai achar vocês e, pelo menos, capar vocês. Ficou alguma dúvida?

― Mas… ― Critério arregalou os olhos. Suzuki estava pálido.

― Aqui no Santinho gente boa está imune, entenderam? Vocês quebraram a regra mais básica dessa comunidade. Se a coisa não for assim isso aqui vira um banditismo só. E fim de papo.

A um sinal de Fino, Coisa Torta abriu a porta e entrou o dono do carro acompanhado por Fettuccine e Biduzão. Critério chegou a ter uma pequena esperança quando viu o chefe, mas logo a descartou. Ele não passava de um peixinho muito pequenininho e os tubarões estavam todos mancomunados.

O Coisa Torta foi designado como acompanhante do dono do carro até que o produto do roubo fosse devolvido. Fettuccine, com as mãos nos bolsos, encolheu os ombros e torceu a boca para Critério e Suzuki como quem diz: “Não posso fazer nada! Você fizeram merda e se lambuzaram!”

Foi Biduzão quem falou.

― O Chefia descolou uma grana pra que vocês possam rapar daqui sem que a polícia seja acionada. Vocês vão permanecer monitorados. Tenham um bom comportamento no lugar que escolherem pra viver. Fazemos isso em consideração à juventude de vocês, pra que tenham uma nova chance e, por favor, não nos façam ficar arrependidos disso…! Vocês sabem muito bem que não temos o costume de apagar arquivos, sistematicamente…! Espero que compreendam!

E os dois saíram mudos, acompanhados pelo Coisa e pelo outro homem, na incerteza se aquele papo não era todo para consumo externo e se eles viriam a luz do próximo dia…!

Enquanto isso Fettuccine esfregava as mãos e dizia:

― Tutto va bene se finisce bene. Que tal um vinho na minha casa pra comemorar a solução do problema?

― Agradeço, mas vou dispensar! ― Sorriu o Fino colocando o casaco. ― Luciana está me esperando pra uma janta muito especial e a patroa fica uma fera se eu não apareço… Vocês conhecem bem a minha Lu!

(Continua…)

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6 Comentários em “Como são as coisas no Santinho! (01 de 12)”

  1. Li Says:

    Caro amigo,se tens alguma intimidade com o Fino,ou se conheces quem tenha,me avise.
    Meu Estado precisa urgentemente de um ser desta grandeza.
    Alguém com esta visão de certo e errado é exatamente do que precisamos por aqui.

    • romacof Says:

      Li! O personagem vive o Complexo de Robin Hood. O Fino original, infelizmente, já morreu, mas o Dódi, filho dele, hoje, deve estar com vinte e cinco anos. Não sei se ele segue os passos do pai. A última vez que Luciana me deu notícias, ele estava fazendo vestibular para engenharia. Naquela época o Coisa ainda andava por aí, mas sem o Fino parecia uma enxada sem cabo e, cá entre nós, sem muito tato para tratar dos assuntos insinuados por você. Fico devendo essa para Sherwood. O triste é a constatação de que o indivíduo necessita e acredita mais num marginal justiceiro do que na proteção instituída…

      Em tempo: qual é o seu Estado? (Se essa resposta não comprometer você!)

  2. Li Says:

    Eu diria que é um herói,em todo seu esplendor,nunca um justiceiro,rs.

    Ainda que seja esdrúxulo um herói parecendo uma enxada sem cabo,concordas?

    Quanto a proteção instituída…

    Sou cearucha,tchê!

    Gaucha de nascimento,cearense por opção.

    • romacof Says:

      Nunca estive no Ceará, mas, quando chega o nosso frio de encarangar pinguim, eu digo: “Ai! Que saudades do Ceará!” (Embora, nesse exato momento, eu esteja sentindo saudades é do frio, enquanto derreto aos 42 graus.).

  3. Li Says:

    Eu não gosto de frio.
    Quase morri no inverno chileno,rs.


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