O computador e a compulsão (ou uma breve história de uma compulsão repleta de possíveis comorbidades).

ZZZZ

Não tive uma babá! Sou do tempo em que a mãe trabalhava em casa cuidando dos filhos, cozinhando, lavando, passando, arrumando a casa, e dando estímulos adequados ao marido para que ele permanecesse fielmente em seu papel de provedor do lar. Como os filhos vinham aos lotes os primeiros pajeavam os seguintes, e quando cresciam um pouco mais eram largados no campo para serem criados ao relento, adquirindo defesas, e aprendendo com a vida.

Então o mundo começou a correr. De forma gradativa todos entraram numa sutil e cíclica guerra para conquistar os meios para adquirir os bens de consumo oferecidos pela máquina que empregava os consumidores na produção dos bens. Essa máquina exigiu que os seres humanos acelerassem as suas vidas para acompanharem o ritmo imposto. As famílias necessitaram apertar o cinto e reduzir as bocas. As mães foram convocadas compulsoriamente a se engajarem ao contingente provedor e algumas assumiram definitivamente esse papel. As crianças, necessárias para que a civilização mantivesse o seu mercado futuro, precisavam ser acalentadas e supervisionadas enquanto os pais partiam diariamente para a linha de frente. Foi nesse ponto que mães substitutas, como nunca, foram necessárias. Eram tias, avós, vizinhas sem filhos ou solteiras desempregadas, que não só cuidavam das crias das classes que alimentavam a máquina como, muito frequentemente, acumulavam as funções de arrumadeira, lavadeira, passadeira, e cozinheira. Nesse tempo as crianças foram mantidas reclusas no lugar em que moravam. As babás ocasionais e sobrecarregadas, ou as babysitters exclusivas e engajadas ao sistema, ganharam o auxílio de um dos bens de consumo da época: a televisão, um alegre hipnotizador, muito mais diversificado, inicialmente em tons de cinza e depois multicolorido, com programações específicas para o público infantil.

Depois as casas ganharam computadores e os computadores ganharam a internet. A televisão gradativamente foi substituída por esse bem eletrônico mais capacitado que apresentava uma qualidade especial: a interatividade. E essa nova babá auxiliar permitiu que os filhos dos seres humanos, confinados em seus lares, tivessem acesso a uma infinidade de lugares no mundo, deram suas opiniões sobre eles, modificando-os e foram modificados por eles. Hoje os pais podem até definir os limites na internet para os seus filhos, mas são os filhos que vão ensinar aos pais como isso é feito. A geração que agora tem 20 anos nasceu num mundo em que a internet é uma realidade, e os seus pais necessitam aprender muito para chegar ao ponto de entendimento dessa geração. É mais fácil um adolescente de 15 anos mostrar aos seus pais como acessar qualquer site do que o contrário. Experimente: receitas de molhos exóticos? pornografia interativa? ou um chat onde qualquer estranho é um amigo íntimo?

Ao lado de toda a inegável utilidade de um instrumento que permite a troca instantânea de informações ao redor do mundo está a porta escancarada para todos os tipos de aberrações, de benefício discutível, para as quais a curiosa mente humana nem sempre está preparada.

Define-se como compulsão ao comportamento de um indivíduo que cede sistematicamente ao desejo de realizar ações que lhe dão prazer, mesmo sabendo que esses atos possam acarretar consequências desagradáveis ou insatisfação num momento posterior. Nosso cérebro sofre alterações relacionadas com a liberação de dopamina, um neuro transmissor que faz parte da cadeia de eventos que gera a sensação de prazer no nível bioquímico. Em referência à babá eletrônica computadorizada e ligada ao mundo pela internet, o indivíduo deseja a repetição e a manutenção compulsiva do contato, pois associa o estímulo recebido ao prazer que ocorre quando da liberação do neurotransmissor. Quando a pequena reserva de dopamina se esgota o cérebro elabora mecanismos que repitam o processo numa procura viciosa pela recompensa. É a compulsão pelo computador e pelo que ele oferece. É a subjugação à babá, que amadureceu com o crescimento do usuário e continua sua companheira quando o indivíduo, já adulto, não precisa mais de um instrumento que o mantenha distraído durante o confinamento da infância.

O computador é um instrumento de trabalho, e a internet o acesso para um vastíssimo banco de dados planetário. Atualmente, em inúmeras atividades profissionais, é absolutamente impossível prescindir desse instrumento e desse acesso. Hoje, no consultório, consideraria um retrocesso não manter um arquivo sobre meus contatos com os pacientes, pela agilidade na justaposição e comparação dos registros, ganhando um tempo precioso para ser usado no contato real com o paciente. A possibilidade do instantâneo acesso ao Google, num simples Alt-Tab, e a rápida pesquisa quando surgem assuntos controversos enriquece a resposta que se pode dar a um cliente quando surgem dúvidas sobre medicamentos, condutas e informações adicionais. Da mesma forma, em outros momentos, é interessante ver um filme, conferir e-mails, fazer estudos, dar um volta pelas redes sociais por onde circulam as pessoas de nosso relacionamento, utilizar as ferramentas que hoje substituem as máquinas de escrever e de calcular, verificar os movimentos bancários e conferir nossas economias. Se formos contabilizar todo o tempo gasto frente ao computador nessas atividades, além daquele necessário em nosso trabalho, já teríamos 4 horas diárias. Quando se fala em compulsão estamos falando de todo o tempo gastro frente ao computador além daquele que nossas atividades modernas exigem.

Atualmente é considerado um sinal de compulsão a permanência de 3 a 4 horas diárias frente ao computador, conectado à internet, surfando, contatando-se virtualmente com as janelas abertas por outras milhares de pessoas em igual busca por uma conectividade impessoal, obervando ou querendo ser observado, pelo simples prazer e sem nenhum objetivo prático.

Hoje já encontramos indivíduos dissociados que possuem uma rica gama de relacionamentos virtualmente, mas que não conseguem manter um contato completo ou normal com outro ser humano no mundo real. O compulsivo pode assumir uma personalidade ideada especificamente para o mundo virtual. Um avatar. E psicologicamente alterado, como um drogado, ele pode tudo, ser alto, magro, bonito, rico, inteligente, capaz de comprar o que quiser, relacionar-se sexualmente com quem bem entender, alterar a própria sexualidade, integrar-se a grupos de desajustados e até participar de uma revolução. Pode dispensar o sono, as atividades físicas, a alimentação adequada, e sujeitar-se a uma vida mais curta, mas regada a toda dopamina que seu cérebro puder secretar.

Além das redes, das quais podemos extrair várias utilidades, mas que são utilizadas pelo sistema de uma forma que causaria inveja a George Orwell, é possível escolher joguinhos, chats, mensagens, amizades virtuais, navegação sem destino ou objetivo, paradas em sites pornográficos, webcams, voyeurismo, exibicionismo, compras, sedentarismo, obesidade, hipertensão, diabetes, desajustes sociais, esquizofrenia, numa grande lista cuja somatória de consequências na sociedade ainda não pode ser totalmente avaliada porque a associação das comorbidades ainda é nova.

Dê sua opinião! Critique! Proponha soluções! Ou faça suas escolhas e seja um viciado assumido.

(Ou ria da trágico-comicidade alheia!)

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5 Comentários em “O computador e a compulsão (ou uma breve história de uma compulsão repleta de possíveis comorbidades).”

  1. Li Says:

    Sou do tempo em que criança tinha mãe.
    Sou do tempo em que mãe cozinhava divinamente e dava bronca também.
    Sou do tempo em que o televisor era vendido com uma estante e a tv só tinha programação em p & b.
    Aprendi a navegar nas ondas do rádio,rs.
    Hoje navego por aí,meio perdida,meio encontrada,rs.
    Creio que tudo pode ser usado para o bem ou para o mal.
    Depende de nós.
    Sou uma mulher que se ama e isso nada pode mudar.
    Sou uma pessoa que quer andar no AGORA.
    Nem no passado,nem no futuro.
    Tudo pra mim é uma imensa e deliciosa aventura.
    E mulher tem que ser mulher,criança ser criança e adulto não pode alterar a brincadeira,sob pena de as crianças
    esquecerem quem são.
    Computador deve ser só outra máquina,como a de lavar e a de secar roupas.

    Magnífica reflexão,como sempre !
    Passar por aqui oxigena meu mundo.

  2. E Says:

    Eu vi uns 2 a 3 textos seus há algum tempo. Guardei o link pra esse, pois sabia que precisaria ler e agora o fiz.
    Estou com 18 anos e as verdades nesse texto me deixam intrigado com meu estilo de vida.
    Não tenho tanto contato com minha família o quanto deveria por conta dessa compulsão.
    Sempre me determino a mudar, mas basta alguns minutos de facebook pra esquecer o que tinha me prometido.
    Não sei o que fazer ao certo pra parar com isso, mas agradeço muito pelos seus tópicos, eles nos fazem despertar pra realidade, embora repentinamente eu esquecerei disso.
    Obrigado Romacof!

    • romacof Says:

      A primeira condição para sair de qualquer ciclo vicioso e dar-se conta de que se está ali dentro. A segunda é querer sair! (Parece que você chegou até aqui!) A terceira pode ser um truque! Coisas simples, como um “despertador” (de pulso, ou o celular) estabelecendo um limite de tempo plausível, podem ajudar. A quarta é levantar a bunda dali. Lavar o rosto, comer uma fruta, fazer alongamentos, dar uma mijada, ver se a vizinha distraída esqueceu de fechar a janela, dar uma volta da quadra, e por aí vai. Um abraço, E.

      • E Says:

        Boas ideias! Apesar de já ter visto algo parecido – tipo, pra dormir você tem que fazer todo um ritual, pra que seu corpo entenda que é hora de desligar – mas observando você topificar os afazeres fica mais fácil de internalizar isso.
        Vou tentar alguns truques que você sugeriu – a parte da vizinha foi uma boa – depois entro em contato pra agradecer novamente.
        Obrigado mais uma vez Romacof! Abraços cara!


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