A bandeira e o vento.

A bandeira da democracia está rota. Ela é enorme, desfraldada, colorida, cantada, mas se nós prestarmos atenção poderemos ver que suas margens estão puídas. E ela está ao vento, e o vento, sabidamente, é um devorador de bandeiras.

A capacidade de gerenciamento democrático foi definitivamente colocada em segundo plano. O método consagrado é o do loteamento da máquina administrativa entre os membros da corporação que forja a maioria. As ideologias não significam mais nada. Não existem mais lemas. Não existem rumos. Só interesses.

O processo democrático de escolha foi transformado num grande espetáculo midiático onde é vendida a ideia de liberdade da massa empolgada, onde o que menos importa é o posicionamento consciente, e sim a participação em uma torcida em busca da vitória a qualquer custo. Enquanto isso o sujo comércio eleitoral é empurrado para baixo do tapete.

O povo, aquele que em teoria governa, participa ativamente no jogo corrupto. E o povo, nos intervalos eleitorais, faz eco à inaptidão dos governantes preocupados com a manutenção dos próprios cargos tirando o foco do que realmente interessa. Assim surgem novos partidos velhos que fedem à amnésia histórica. Briga-se contra e a favor de símbolos religiosos, como se fosse possível simbolizar ou apagar o que lhes vai na alma. Padres fomentam o ódio, na contramão do amor ao próximo. Todos ajudando o vento em seu afã de esfarrapar a bandeira.

Se a bandeira cair tudo pode ser justificado em nome de um bem maior! Podemos glorificar um partido, podemos conviver com milícias fascistas para que o estado possa governar em paz, podemos fazer parte de grupos racistas, homofóbicos, exterminantes, e por aí vai, ao gosto e para o gozo da freguesia circunstancial. Podemos até fazer parte do grupo de costureiros da bandeira. Escondidos. A espera que o vento cesse.

Pois estejam certos! Essas duas possibilidades estão convivendo lado a lado. O mundo é redondo e as coisas que um dia partiram em direção ao horizonte costumam dar a volta nos atacando pelas costas.  O equilíbrio é frágil e o planeta é pequeno. Os dominós caem por que um cai. Um euro quebra lá e a instabilidade econômica ecoa aqui. O desemprego ronca como fome. O desespero é irmão da revolta. Os fins justificam os meios. A verdade é uma mentira velha. Nós somos a elite e o resto é um rabo humano por nós arrastado. O governo é o pai protetor e severo. Alguns de nós gritam: “Viva o vento!” E então o vento vence.

***

Todos nós somos a bandeira! Por que rasgá-la? Quem não vê dessa forma é vento!

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5 Comentários em “A bandeira e o vento.”

  1. Judith Rolim Says:

    Perfeito!! Infelizmente a adesão ao vento é muito grande..

    • romacof Says:

      Olá, Judith! E está ventando em todo lugar! inclusive na juventude de nossa cidade. Dito para ser ouvido sem pudores: “Comprar voto é pecadinho sem importância! Depois é só confessar e pronto!” A elasticidade da consciência pode ser testada de várias formas. É só ir puxando e ver até onde ela aguenta. Eu afirmo que ela aguenta até o errado se justificar como solução controladora.

  2. Li Says:

    Neste tear de ventos
    Reinvento
    Com pensamentos meu destino
    Para quem eu dei a chave desse meu cofre de vidro?

  3. Li Says:

    Vejam só,alegraste meu dia,rs.


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