A Síndrome de Jaquirana.

A palavra Jaquirana, nome de uma pequena cidade do nordeste do Rio Grande do Sul, com uma população um pouco menor do que 5 mil habitantes e quase isso de eleitores, foi transformada num meme relacionado à corrupção eleitoral. Falar em Jaquirana, a cidade, antes conhecida pelo frio e pela companhia de avião Jaquirana Air criada pelo chargista Iotti, hoje é o mesmo que falar em compra e venda de votos.  As colunas sérias e as piadas se desdobram em detalhes. E fica a aparência de que as ilicitudes desse tipo só acontecem lá. Ou que apenas lá os mercadores da consciência democrática foram desastrosamente inaptos aos esconderem seus rabos.  Ou ainda: que só lá alguém teve a perspicácia de montar uma arapuca para pegar os fraudadores. Mas todos nós sabemos que comprar e vender votos é uma prática que acontece em 100% dos municípios brasileiros. Alguém gritará lá do fundo: “Prova!”. (Da mesma forma que se discute não se um gol foi de mão, mas se um juiz pode anular um gol que lhe disseram que foi de mão, como se a essência daquele jogo estivesse não no respeito às regras, mas no processo de avaliação.) Eu respondo: “Nós podíamos parar de reclamar, acusar e investigar a compra e a venda de votos; isso toma tempo, estressa e sai caro – além de obter resultados magros a curto prazo e nenhum resultado aplicável daqui a quatro anos – podemos, simplesmente, institucionalizar esse tipo de acordo entre o candidato e o eleitor. Fica valendo o gol de mão, e não se discute mais isso!”

E ao ver as imagens relacionadas às jaquiranas espalhadas por aí se constata algo assombroso: há revolta e indignação popular não pelo que se pressupõe errado, mas pela ação policial e da justiça contra os erros. Logo se vê que a relação entre o candidato corrupto e o eleitor corrupto apresenta vínculos muito mais íntimos do que a do indivíduo com sua consciência. Ou as consciências já foram adulteradas e os conceitos éticos de que falo fazem parte de uma língua estranha. Podemos até observar aqui e ali a influência da inocência e da ignorância, ou da necessidade e do imediatismo desesperado, mas também não nos escapa a mão da má índole, da avidez de sugar sempre não importa de quem, e da triste cultura da impunidade. Afinal, quem vai processar ou prender milhões de fraudadores? Eles afirmam (e eu também!): não há nesse país poder nenhum e ninguém com culhões para tratar essa doença. Trata-se da Síndrome de Jaquirana! Endêmica! Plenamente conhecida! E intratável!

A menos que…! Alguém pensasse um pouco na possibilidade de delação premiada para aquele vendedor de votos que não é um mau sujeito, apenas foi ludibriado, estava necessitado, e nem sabia que era crime. As leis necessitam se adaptar à realidade. Não há como enquadrar milhões. Mas há como cortar o mal pela raiz entendendo que o entendimento da lei tem diferentes níveis de entendimento.

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2 Comentários em “A Síndrome de Jaquirana.”

  1. cerbero62 Says:

    faz o voto ser livre, não obrigatório e libera a compra… escancara, mas fiscaliza os gastos de campanha com seriedade. Quero ver como a opinião pública vai lidar na urna com quem compra voto, já que vai ter que justificar os gastos de verdade…

    • romacof Says:

      Se o voto for livre, na cultura atual, só os credores votarão. Na justificativas das despesas as manobras serão filhas da sonegação da qual o brasileiro já é ex cathedra. O brasileiro é cúmplice e admirador do sonegador. Pois sonegação é uma ato de rebeldia indignada contra a má aplicação do dinheiro´público. Já que somos obrigados a votar temos que brigar pelo voto limpo a qualquer custo, para fazer eco à ficha limpa. Mas ainda advogo a delação premiada para o votante vendedor e arrependido. É fácil diferenciar da denúncia vazia. É mais fácil dizer a verdade. A mentira morre quando é posta de ré.


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