A realidade prescreveu.

Prescrever, no jargão jurídico, significa ficar sem efeito por ter decorrido um certo prazo legal, perder-se por prescrição, ou cair em desuso. Procrastinar significa deixar para depois; o mesmo que empurrar com a barriga. Os fatos, observados por nós na vida política, são tratados desta forma. São procrastinados até prescreverem. Um dia caem no esquecimento ou, de forma mais trágica, no não-conhecimento.

Eu conversava com uma roda de jovens com a idade média de 21 anos. Todos adultos produtivos, alguns pais ou mães, todos motoristas, eleitores e pagadores de impostos. Num determinado momento alguém comentou sobre a veemência de um dos advogados defendendo um homem público que teria sido injustamente acusado por algo que não havia acontecido, a meia vida de distância no passado, num dos governos que haviam transitado por aqui. Fiz as contas. Quando veio a público o episódio do mensalão, um termo tratado com ironia e desconhecimento pela maioria dos presentes, o jovem comentarista teria uns 12 anos. Não demonstrava, agora, ser um alienado, mas na época o foco do seu interesse certamente era outro. No seu julgamento, e de todos os de sua geração, essa aberração política pode ter acontecido numa outra encarnação, em outra dimensão, ou talvez tenha sido uma obra ficcional de gosto duvidoso, totalmente dissociada das coisas que significam algo para ele.

Quando tentei argumentar sobre o quanto a corrupção pode ser nociva, destituindo a necessária confiança no poder público, e de que forma aqueles homens haviam roubado de todos nós, outro jovem me matou: “Qual é, tio!? Nós nem sabemos se isso realmente aconteceu! É possível que o golpe esteja exatamente na tentativa de nos fazer acreditar que os caras são culpados! Sacou?”

Nós estamos destinados a viver eternamente na fantasia de que a coisa tem conserto? Pensando bem, acho que a realidade prescreveu.

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5 Comentários em “A realidade prescreveu.”

  1. camargo Says:

    ouvi falar que A cassação de Fernando Collor é um romance não publicado de Jorge Amado…

  2. Li Says:

    É triste,mas é verdade.
    Tenho uma boa memória,para meu azar.
    Quando conto nossa história para alguns mais jovens eles
    logo perguntam como EU sei.
    Eu estava lá,rs.
    Hoje tudo parece tão distante…que é esquecido.
    Quero crer que se a polícia federal investigou e achou fortes indícios para um julgamento,algo deve ter de real.
    Algumas vezes encontrei pessoas tão interessadas na minha vida privada que quase fui deseducada com elas.
    Como queria que todos fossem assim com a vida pública de seus políticos.

    Falta de memória é um problema.
    Falta de inteligência….não sei o que é pior.

    Tudo passa…até a verdade.

    • romacof Says:

      Salve Li (a desaparecida)! Ter estado lá causa uma certa mistura de indignação com nostalgia. Compreendo a vontade de esquecer o que ninguém quer arrumar. Não aceito o esforço das instituições de ensinarem o esquecimento. Efeito colateral da aprovação compulsória dos não alfabetizados nos 3 primeiros anos. No quarto nenhum professor vai ensinar o be-a-bá pro retardatário quando tem que despejar outras informações para 60% da turma. Num efeito cascata os esquecidos funcionais do sistema esquecem a história ou nunca recebem a oportunidade de conhecê-la. Quando tento encadear a relação entre PP e DEM com PDS e PFL e anteriormente com a ARENA já ouvi gaiato me criticar afirmando que eu estou querendo ver política na construção do estádio do Grêmio, e isso não é verdade!


  3. Sabes o que eu acho muito doido? É que nos meus 16 anos (que completei em 1984, uns dois anos depois que li “1984”) eu tinha noção de quem era quem na política nacional, de que ideologias estavam em questão, do que havia acontecido nos últimos anos, dos motivos pelos quais as coisas estavam como estavam, etc. E eu discutia política a sério com outros párias intelectuais que não se interessavam somente por baladas e bobagens.

    Hoje em dia parece que os jovens pensam que o mundo começou ontem, quando eles se deram conta que existem. Eu sabia quem tinha sido Getúlio Vargas, mas eles não sabem quem foi João Figueiredo! É desconsolador.


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