A dinâmica do voto secreto.

O artifício do voto secreto no congresso existe, e as tentativas para derrubá-lo vêm sistematicamente falhando nos últimos dez anos. Podemos até admitir a sua gênese baseada no temor de represálias. Podemos até admitir o direito de privacidade do parlamentar que vota escolhendo entre candidatos para um determinado cargo. Mas o que nos é permitido pensar quando é aventada a possibilidade do voto secreto ser usado na questão da cassação de Demóstenes? Renan Calheiros, que posa dando tapinhas amigáveis nas costas do colega de senado, é um dos mais ardentes defensores do voto secreto e tem se beneficiado de sua existência. Jaqueline Roriz, flagrada recebendo propina, foi considerada inocente por 265 votos secretos, contra os 166 que acreditaram naquilo que os seus olhos (e os de todo o povo brasileiro) estavam vendo na documentação em vídeo. E agora se anuncia mais um deboche constitucional. Como isso é possível?

Para nós, a ponta forte, mas infelizmente desfiada, da corda democrática, já parece inacreditável que pessoas adultas se reúnam para esclarecer uma questão que envolve presidiários, espiões, senadores, deputados, ministros, juízes, governadores, empreiteiras bilionárias, e desvios incalculáveis e transformem a reunião numa pantomima. Os depoentes, aos sorrisos, só não declaram frontalmente o pouco caso que fazem da opinião popular porque isso quebraria o silêncio combinado. Tudo em nome de um outro artifício que também é uma piada constitucional: o direito de não entregar os cúmplices a menos que a justiça exija. E por que a justiça não os obriga? E se obrigasse, quem nos garante que ouviríamos a verdade? Nessa hora são desconsideradas as infindáveis horas de gravação, as fotos, os vídeos, os telefonemas, os acordos, as araponguices e outras melecas palacianas que nos enojam e transbordam todos os dias pelos telejornais como se o assunto se referisse ao enredo de uma ficção e não de nossas vidas, do nosso trabalho, dos nossos interesses, e do nosso dinheiro, roubado descaradamente. Devemos considerar o trabalho da polícia federal descartável? Ou não confiável? Devemos considerar a protelação judiciária desinteressada? Ou suspeita? Devemos considerar as informações da mídia como uma teoria conspiratória? Ou uma mentira? Devemos nos considerar incapazes de entender que neste circo nos estão dando o papel de palhaços?

Como pode um homem público tão envolvido com ilicitudes ser inocentado num processo de cassação? Como o congresso pode passar por cima de todas as provas acumuladas? Não é possível partir do princípio que toda a classe política esteja corrompida. A mecânica é simples.  O silêncio dos convocados frente à CPI esconde o envolvimento de muitas figuras importantes. Enquanto o silêncio se prolonga tempo é ganho. Votos são negociados. A preocupação de muitos dos nobres senhores está focada naquilo que Demóstenes pode falar caso venha a ser cassado. Mas o número dos envolvidos não é suficiente para inocentá-lo. Então a corrente corporativista, com seus incontáveis elos fisiológicos, começa a fazer aquilo que sabe fazer melhor. Costurar uma rede de acordos cobrando dívidas e favores, aproveitando o tempo que a morosidade do sistema permite. Multiplicam-se os votos a favor do acusado. Alguns podem até odiá-lo, mas se ele cair, fulano cai, e se fulano cair, cai meu credor, e se meu credor cair, eu caio. E, se tudo isso acontecer no silêncio que a constituição permite, melhor ainda. Ninguém pode ser diretamente acusado.

***

―Quem foi? Eu não fui.
―E a opinião pública? O que vamos dizer pro povo?
―Povo? Que povo?

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7 Comentários em “A dinâmica do voto secreto.”

  1. camargo Says:

    mas homem, tá acontecendo tudo isso é? Eu não vi nada pq tava empolgado com as declarações da Xuxa…

  2. camargo Says:

    ahahahah… foi a maneira que encontrei para não deixar subir a pressão…
    acabei fazendo igual aos políticos diante das nossas opiniões.

    Só posso pedir desculpas pela indelicadeza democrática.

      • camargo Says:

        então tá… mas, voltando ao assunto, vc não acha que, mesmo que ninguém faça campanha para o não voto, o “silêncio dos culpados” só aumenta as fileiras dos não votantes?

        é claro que não considero não votar uma solução para nossos problemas políticos, porém, a massa crítica sempre foi quem definiu os interesses de quem manda…

        • romacof Says:

          “O silêncio dos culpados” frente ao beneplácito das autoridades presumíveis, além de ganhar tempo para a Corporação, aumenta o número de indignados, irritados, surpresos, e indiferentes com o processo político. Só que essa massa continua sendo obrigada a votar e passa a votar de forma cada vez mais burra, chamando esse movimento de “voto de protesto”. Um milhão e trezentos mil palhaços elegeram o deputado Tiririca. Aquele que se decepciona com um Demóstenes hoje não pensa em votar de forma corretiva na próxima vez, ele pensa em avacalhar o processo, ou seja, pensando que grita passa a mugir, e o mugido da massa desmoralizada só é bom para a Corporação. A continuidade nos trará novos corruptos. Se o que nos cabe é a democracia seria bom que ela crescesse, deixasse a adolescência, que é aquele período em que se procurar aprender que não é inteligente persistir no erro.


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