A Saúde está Doente.

Este post nasceu de um comentário ao blog “Pensar não Dói”, e, como tal, também é um comentário, uma carta resposta, uma ponte, e um relato sobre como as coisas vão por aí.

Arthur! Veja que historinha! (que parece dissociada de seu último comentário, mas que se abraça com ele em vários aspectos, como verá no final). Dia 4 estava em Torres comprando um telefone no meu importador preferido. Como médico tenho a habilidade (ou o azar) de detectar um desconforto na área cardiovascular, e diferenciá-lo da paranoia presumível nesses casos, com certa antecedência. Percebi que virar presunto num banco de praça em Torres não seria um forma muito honrosa de empacotar. Em 80 minutos o Jaime me teletransportou para a emergência do Instituto de Cardiologia, onde fique 5 dias na UTI e fui agraciado com um cateterismo femural e inúmeros outros mimos que o pudor não me permitem relatar, mas que me mantiveram no mundo dos vivos. Tudo isso foi uma merda, mas o final feliz e as atitudes dos caras certos produziram resultados positivos. Fui o penúltimo paciente a ingressar no IC-FUC e, logo após, o setor foi fechado por 3 dias – por absoluta falta da capacidade hospitalar em absorver mais casos – e isso aconteceu em todos os hospitais de Porto Alegre nos dia 5, 6 e 7. A título de curiosidade: fiquei hospitalizado uma noite – ou sendo faturado pela contabilidade da Unimed – numa dança das cadeiras no setor de emergência, por que o número de pessoas era maior do que o número de cadeiras, e por que não havia leitos – uma desculpa funcional, mas não moral.

Vamos equacionar o problema: a cidade de Porto Alegre teve um aumento populacional, e consequentemente de potenciais usuários da rede hospitalar. A rede hospitalar não cresceu na mesma proporção, embora as maquiagens nas reformas nos queiram fazer pensar o contrário. Os convênios de ponta (e citemos apenas a Unimed e a Goldencross) continuam vendendo os seus planos e oferecem médicos, laboratórios, serviços de radioimagem computadorizada, inovações futuristas e hospitalizações com requintes de hotelaria de primeiro mundo. Esses serviços são cobrados dos novos clientes, que acreditam que vão receber o prometido – como naquelas correntes milagrosas em que você manda um real para o último nome da lista e quando o seu nome chegar lá você vai receber 100 mil reais. No entanto, quem deve oferecer o serviço é aquela mesma rede hospitalar que fecha as portas porque não tem como absorver a demanda. E teremos uma copa, e uma olimpíada, e invernos com toda a gama de doenças respiratórias da estação. Parece que está sendo vendido muito peixe que ainda não foi pescado. A rede hospitalar existente faz o que pode. E nessa área, qualquer grupo profissional que tentar quixotescamente aumentar a capacidade de leitos cometerá suicídio financeiro, se não contar com a participação do capital privado e do apoio público. Só não vê quem for cego ou cúmplice.

Soluções que estão sendo propostas ou efetivadas, mais ou menos com aquela objetividade de quem vai à farmácia pra comprar picanha : Estudar uma proposta de aumento da capacidade dos aeroportos. Estudar uma proposta de aumento do contingente policial nas ruas. Melhorar e ampliar a rede hoteleira. Salvar bancos falidos. Obter um habeas corpus para o Cachoeira. Melhorar os estádios. Fazer alguns acordos temporários, por baixo da lona, com a traficância. Pintar a fachada das casas nos locais em que os ingleses podem passar. Liberar a cerveja. Esconder os pobres. Matar cães vadios. Ou vice-versa. Liberar a cerveja. Encurtar as saias e aprofundar os decotes. Varrer as ruas. Sorrir para os turistas. Montar foguetórios nas vizinhanças dos hotéis dos hermanos. Liberar a cerveja (acho que estou me repetindo)! E não dar muita importância para a questão da saúde, pois dor de barriga dá e passa. E se não passar e a coisa for realmente grave o paciente morre. E se morrer vai ser um a menos pra reclamar.

Como insinuei na introdução vou postar o comentário, pois dizem que o eco pode ser ouvido duas vezes.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Médicos, Política, Ponte, Realidade

Tags: , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

2 Comentários em “A Saúde está Doente.”


  1. Ó, céus, eu vou ter que ficar mais tempo acordado para poder ler tudo que eu quero! E o Cágado Xadrez está no alto da lista de prioridades!

    Eu ando com o coração na mão – sem ser cardiologista – porque não tenho conseguido ler nem sequer os blogs linkados no Pensar Não Dói. E fiquei pasmo e assustado com o comentário. Que bom que estás bem para poder relatar o absurdo. Pior seria ter que pedir para o Mauro te consultar e me relatar tua opinião… 😛


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: