Demóstenes e as pedrinhas bonitas.

Se você acha um saco ler papo furado introdutório pule as letras coloridas e vá direto ao texto…!

Hoje as crianças (e muitos adultos) ficam sem entender as notícias veiculadas pela mídia. Os enredos das histórias estão recheados de expressões jurídicas ou regimentais. Nem sempre é possível distinguir o mocinho do bandido. E os desdobramentos são tão longos e complexos que nós às vezes nos perguntamos: “Esse aí, que agora é o chefe da investigação, não é aquele que havia renunciado pra não ser cassado, naquele outro caso, no mandato anterior?” Antigamente tínhamos o recurso das fábulas, das lendas, e dos contos envolvendo palácios em terras distantes com seus reis solitários e mágicos sinistros. As histórias eram despidas dos meandros e desvios desnecessários e ganhavam versões fantasiosas, diretas e sintéticas, para que as crianças entendessem a trama, com um começo, um meio e um fim, com uma lógica alinhavada perceptível,  para que todos pudessem depreender dali algum ensinamento moral. É claro que as histórias atuais não podem ser tão facilmente simplificadas, tendo em vista a miríade de relacionamentos, principalmente nas questões palacianas. Se os olhos e os ouvidos da lei encontram dificuldades para distinguir um conchavo fisiológico de uma gatunagem explícita, imagine a confusão dos leigos (eu e você) quando ouvimos uma declaração incongruente de um nobre homem público. Será que aquilo foi um arroto de um garganteador ou um deslize de um bandido burro? E, se enveredarmos pela colossal elasticidade nos conceitos de moralidade, e pela análise da carência de critérios e filtros que impeçam que desequilibrados se utilizem da máquina pública, entraremos com os dois pés num tratado sobre a psicopatia – um longo e triste capítulo da relação dos homens com seus líderes – e fugiremos totalmente do tema desta postagem, que é a reutilização da fantasia, para que as nossas crianças possam entender o que vai por aí. Então vamos em frente!

 

 

Conta uma lenda que, num reino muito distante, vivia um homem chamado Demóstenes (o que na língua antiga significava “a força do povo”). Esse homem era o responsável pela retidão nos assuntos e negócios do reino. Todos os acordos dos homens poderosos deveriam ser analisados por ele. Depois que ele escrevesse em um pergaminho: “Avaliei os mais variados aspectos desse acordo e conclui, por minha consciência, que ele obedece aos mais estritos ditames morais e está voltado para o bem de todos. Comunique-se ao rei que é uma proposta ética, e que sua execução depende apenas de sua soberana vontade.” Depois que ele enrolasse o documento e derramasse cera quente para selá-lo com seu carimbo todos ficavam tranquilos, pois Demóstenes havia escrito a sua palavra. Ele era o guardião da Ética. E isso era inquestionável.

Mas um dia, estando muito quente, Demóstenes, cansado de tanto trabalhar, passou perto de uma cachoeira e resolveu se banhar. Ficou nu, deitou suas roupas sobre as pedras à margem do rio e foi se deliciar com o frescor das águas, que caiam do céu refletindo os raios do sol como um véu de prata riquíssimo que os anjos displicentemente estivessem distribuindo sobre aquele pedaço de mundo. O guardião da Ética ficou inebriado com tanta beleza e tanto prazer. Sentiu sono e se deitou numa pequena praia à sombra da cachoeira. Mas mal havia cochilado ouviu uma voz: “Por que ter esse prazer por um momento tão curto se ele pode ser todo seu por todo o tempo?” Demóstenes deu um salto, assustado, pois acreditava estar sozinho naquele lugar, e, como estava nu, entrou na água, deixando só a cabeça de fora. “Quem… quem está aí?” Gaguejou. E a voz voltou a falar: “Sou o espírito da cachoeira, nobre guardião da ética, e quero lhe oferecer uma vida rica que faça justiça à sua incansável dedicação.” Demóstenes, ainda confuso e não podendo acreditar na realidade daquela situação, exclamou: “Sei que não sou devidamente pago pelo que faço, mas também sei que não é possível ficar eternamente nesse recanto tão agradável, pois tenho trabalho a fazer!” E a voz retrucou: “Meu bom homem! Aquele que dispõe dos meios não precisa vir até aqui, mas manda que o prazer vá até ele.” Por um instante Demóstenes ficou intrigado com aquelas palavras, mas depois achou melhor voltar à sua vida, pois não ficava bem ao guardião da Ética nem ter pensamentos que não combinassem com a essência de sua função. Procurou as roupas, as vestiu rapidamente, e saiu dali. Mas o que Demóstenes não sabia era que enquanto ele falava com a voz da cachoeira os bichinhos do lugar haviam escondido em seus bolsos pequenas pedras preciosas.

De volta a sua sala de trabalho Demóstenes percebeu aquelas bonitas pedrinhas, que imaginou haviam rolado para os seus bolsos na pressa de se vestir, e como ele só sabia distinguir o certo do errado, mas não fazia a menor ideia sobre a diferença entre um quartzo e um diamante, colocou as pedrinhas numa tigela que estava sobre a mesa e se esqueceu delas.

Nesta sala circulavam muitas pessoas, desde as mais importantes, que desempenhavam funções vitais dentro do reino, até os costumeiros parasitas e espertos que orbitam o poder em busca de oportunidades escusas, e entre umas e outras algumas sabiam perfeitamente a diferença entre uma pedra preciosa e um cascalho. Essas pessoas foram, gradativa e indiretamente, ensinando ao guardião da Ética o significado das palavras ditas pela a voz na cachoeira. Um dos ministros propôs a troca de uma daquelas pedrinhas por uma carruagem nova.  Depois um dos conselheiros do rei fez questão de lhe oferecer uma casa mais ampla e arejada em troca de quatro pedrinhas que, aos olhos de Demóstenes, nada significavam. E por fim, a mais linda cortesã que circulava pelo palácio, e que jamais havia correspondido a um olhar seu, se ofereceu para deitar com ele pelas pedrinhas restantes.  E ela organizou reuniões e vieram os amigos e a vida de Demóstenes de transformou numa festa. Nesse ponto ele compreendeu que as pedras tinham um grande valor, compravam coisas que ele jamais poderia comprar com seu ganho como guardião da Ética, e que, em consequência de sua avidez e imprevidência, todas as pedras haviam acabado.

Um dia Demóstenes acordou e viu que a cortesã não estava mais lá. Com ela desapareceram os amigos. A casa estava vazia e triste. A carruagem precisava de uma reforma. Os empregados contratados por aquela amiga circunstancial queriam melhores salários e reclamavam da falta de víveres na dispensa. O guardião da Ética voltou ao trabalho acumulado e sentiu o gosto amargo de sua pequenez financeira. Passou a namorar a ideia de voltar à cachoeira onde encontraria, certamente, mais pedras preciosas. Pesou em sua consciência, por um breve momento, a relação entre os seus desejos e suas obrigações profissionais, e, mais brevemente ainda, criou mecanismos mentais toscos para justificar o seu pecado – afinal, um homem melhor situado economicamente poderia trabalhar com mais tranquilidade pelo bem de todos. E, impaciente, foi em busca da cura para sua aflição.

Lá estava a cachoeira, com seu véu líquido caindo e cantando melodiosamente, mas Demóstenes não tinha sentidos para a beleza do lugar ou para a água refrescante; ele procurava, sofregamente, no lugar onde no primeiro dia deixara suas roupas, possíveis gemas, diamantes, pedrinhas preciosas faiscantes e coloridas, que lhe devolvessem a fortuna perdida. Mas, por mais que procurasse, nada encontrou. Irritado, gritou para a cachoeira: “Onde estão aquelas malditas pedras?” E a cachoeira respondeu: ”Se você está falando das pedras que você levou naquele dia em que veio se banhar posso afirmar que só você sabe o destino delas!” Demóstenes, perplexo, se defendeu: “Como assim? Levei daqui? Você está insinuando que eu roubei as pedras?” E a cachoeira continuou: “E você, o que está insinuando? Que as pedras caminharam com suas próprias perninhas e se enfiaram em suas roupas?” Demóstenes ficou num silêncio confuso e a cachoeira arrematou: “Ora, ora, meu bom homem! Veja em que embrulhada sem lógica você se meteu! É verdade que posso lhe transformar num homem rico, mas o uso que você fará dessa riqueza não depende de mim. Tudo indica que algumas pedras, das quais eu gostava muito, e que já estavam por aí há milhares de anos, foram levadas e, pelo que me consta, usadas por você, conforme a sua consciência. Agora você quer mais! E pode tê-las. Só que dessa vez eu não vou deixar que você simplesmente as leve graciosamente”. Demóstenes, irritado, retrucou: “Você… você está tentando me corromper, e eu… eu sou…” Mas a cachoeira o interrompeu: “Essa questão já foi esclarecida na sua chegada ansiosa em busca de mais pedras: você se corrompeu! Agora estou lhe propondo que estabeleçamos um preço pela continuidade desse seu novo estado: corrompido e, quem sabe, rico. Vamos negociar?” Demóstenes não sabia o que dizer. Todos os seus argumentos pareciam ocos. Algo dentro dele se contorcia em nome da Ética, mas suas novas necessidades gritavam por uma fonte de recursos que as mantivesse. A cachoeira disse: “Bem! Você precisa de tempo pra pensar. Compreendo. E tempo é algo que eu tenho de sobra. Quando você se decidir, amanhã, ou em mil anos, apareça!” Talvez não fosse de tristeza, mas de resignação, a máscara que ficou estampada na face de Demóstenes quando ele fez a pergunta que mudou a sua vida: “Qual é o negócio”?

O espírito da cachoeira tomou a forma humana e ficou conhecido como o Homem Bom, e, sorridente, passou a fazer parte dos mais importantes círculos do poder. Demóstenes, o guardião da Ética, como parte do acordo entre eles, abria as portas para o Homem Bom, e patrocinava moralmente os encontros dele com os homens poderosos do reino. Em pouco tempo o Homem Bom fazia parte da máquina que administrava os inúmeros negócios daquela terra. Estava intimamente envolvido com os ricos, com os lordes, com os juízes, e com os governadores das províncias distantes. Em contrapartida não faltaram mais pedrinhas bonitas e valiosas ao guardião.

O trabalho de Demóstenes, como guardião da Ética, censurando os negócios de condes e barões e ocasionalmente acusando-os de conluios, lhe rendia muitos inimigos. Esses inimigos observavam Demóstenes como aves de rapina e começaram a notar os sinais de seu mágico enriquecimento. Pelos corredores do palácio surgiram cochichos intrigados com a aparente relação entre o aparecimento do Homem Bom e a nova vida de Demóstenes. Brotavam os inevitáveis invejosos. Grupos se aliavam para trocarem segredos vingativos. E, como muitas pessoas murmuravam sobre a mesma coisa, um dia aquela coisa acabou caindo nos ouvidos da polícia secreta do rei.

“Não posso acreditar! Minha polícia me traz notícias de que o guardião da Ética está enriquecendo ilicitamente num envolvimento com esse a que todos chamam de o Homem Bom”. Bradava, indignado, o rei para um de seus conselheiros. E esse, ponderadamente, argumentava: “Majestade, são necessárias provas que confirmem essa notícia. Ordene que a polícia apresente algo mais palpável antes de julgar o guardião”. E o rei, que era um homem justo, concordou: “Farei dessa forma! Exigirei uma prova antes de tomar uma posição definitiva”. E como tudo o que é dito em segredo entre duas pessoas só pode permanecer eternamente em segredo se uma das pessoas morrer imediatamente, no dia seguinte a notícia que corria de boca em boca pelo palácio era de que o guardião da Ética e o Homem Bom haviam perdido as graças do rei, e que a queda deles era uma questão de tempo. Os desafetos de Demóstenes sorriam antegozando a vingança e os sócios do Homem Bom corriam para uma última negociata antes que a fonte secasse.

O chefe da polícia do rei conhecia um homem que tinha o nome de Técnico. Esse homem viajara pelo mundo e havia adquirido vasto conhecimento das artes mágicas. Ele sabia como conjurar milhares de microfadas espiãs, que, uma vez orientadas, se infiltravam em todos os lugares e escutavam as conversas mais secretas. E assim, por um bom período, sem que os grandes do reino suspeitassem, circularam entre eles olhos e ouvidos encantados. E finalmente, a uma ordem do Técnico, as fadinhas voltaram e reproduziram tudo o que haviam descoberto. Nesse momento se percebeu que todos desconheciam um importante detalhe sobre o Homem Bom: ele era, ao mesmo tempo, o espírito da cachoeira, e que, por mais cuidadosas que as cachoeiras tentem ser, elas sempre respingam.

As microfadas começaram a falar e não pararam mais. A cada nova narrativa iam sendo colocados em dúvida os conselhos dos conselheiros, os votos de fidelidade dos nobres que se diziam fiéis, e o julgamento dos juízes. O rei, mudo, duvidava de todos e intimamente perguntava se ele próprio estaria acima das dúvidas. O povo, impotente, não sabia em quem confiar. O Homem Bom permaneceu rico, mas  foi levado para o calabouço e Demóstenes perdeu sua função como guardião da Ética. Alguns doutores da lei pediram ao rei que promovesse acareações entre os inúmeros envolvidos, mas esses utilizaram dispositivos legais, muito comuns naquele reino, tais como o direito de ficar calado e o direito de não dizer a verdade, e mesmo as provas que o Técnico obteve de nada valeram. Algumas pequenas fadinhas morreram roucas em vão, e contam os viajantes que recentemente estiveram naquela terra que até hoje não foi possível contabilizar todos os respingos.

Enquanto isso, o antigo guardião da Ética, agora mais experiente, vive das pedrinhas bonitas que conseguiu guardar…!

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2 Comentários em “Demóstenes e as pedrinhas bonitas.”

  1. Élio Rolim Says:

    Amigo ? Ronaldo.
    Gostei muito de sua acurada maneira de comentar, através desta “fábula” , os desencontros de uma ética tão usurpada no nosso Brasil.


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