Conhecendo o Origami

 Edição de aniversário
(dia 10 de abril o Cágado Xadrez comemora 6 anos)

Primeira Pata de Romacof

Um dia comecei a dobrar uma folha de papel tentando obter uma pata, ou um ganso, ou um cisne, ou uma figura que poderia lembrar qualquer uma dessas aves, com um razoável grau de semelhança, nunca permitindo uma circunstancial confusão com um galináceo, embora uma simpática tia tenha se esmerado em caretas e dito que detestava morcegos.

De qualquer forma coloco aqui a foto desta minha primeira obra origâmica para apreciação e juízo.

Depois li um livro básico. Em seguida assisti a um filme em que uma pequena japonesa, com extrema facilidade, construía uma estrela de extrema complexidade, e comecei a me aprofundar, não acreditando que aquela atividade pudesse estar limitada somente aos iniciados. Logo meus familiares começaram a cochichar que um novo santo obsessivo havia incorporado em mim, e essa fase, que durou quatro meses, resultou no presente post e em algumas dúzias de origamis modulares que vou mostrar até o final.

O santo já foi embora, mas o estágio com ele foi bastante gratificante. Quem tiver fotos de suas dobraduras e quiser expô-las por aqui é só dizer. Quem quiser dicas sobre o assunto é só pedir.

A história do Origami (“oru”, dobrar + “kami”, papel) (o dia 24 de outubro é o dia mundial do origami)

A origem oriental

Como todas as tradições antigas o Origami tem sua origem envolta em lendas ou conjecturas a partir de fatos históricos isolados. Há os que afirmam que ele nasceu na China há dois mil anos com a invenção do papel, mas não foram encontradas evidências disso. “Zhi”, na China antiga, significava papel, mas o termo se manteve como o designativo para a seda. No Japão era empregada a palavra “kami” (em referência ao vidoeiro, ou ainda “kaba” ou “kan” para as tiras de madeira ou bambu) e a terminologia permaneceu relacionada ao papel ou a um material em que se escreve. Com base nisso alguns historiadores colocam a origem do Origami no Japão antigo, no período Heian (794 a 1185, em Kyoto), e fazem referências ao folclore japonês em que Abe No Seimei (921 a 1005) teria feito um pássaro de papel que, ao ser oferecido ao rei, se transformara num pássaro de verdade. E ainda citam o “tatogami”, um costume já existente no período Heian em que o papel era dobrado de uma forma específica para envolver quimonos. 

Embora na língua japonesa a palavra “kami” seja empregada tanto no sentido de papel como em referência às forças espirituais supra-humanas do xintoísmo, não há nenhuma relação naquela cultura entre a religião e a origem do origami. A ortografia que permaneceu é a mesma, mas a fonética para os dois significados em japonês arcaico é diferente.

No período Heian a expressão “origami-tsuki” significava um papel dobrado, decorado com gravuras, em que era escrito uma carta ou uma relação de coisas ou eventos. Já no período Edo (1603 a 1868) passou a significar o documento de qualificação que acompanhava um objeto qualquer, como, por exemplo, um presente valioso. No Japão da atualidade o “origami-tsuki” afirma  que um determinado produto foi adequadamente avaliado por peritos. Ou seja: um termo de garantia.

Tzuru

O origami, como passatempo ou recurso decorativo em cerimônias, já era utilizado pelos samurais no período Muromachi (1336 a 1573), com o nome de “orisue” ou “oribaka”. O modelo mais popular, avaliando o seu caráter histórico, sem sombra de dúvida, é o pássaro “tzuru” (ou “orizuru”), que aparece na padronagem de quimonos já no século XVIII. A mais antiga citação documentada se referindo a atividade origami, como a entendemos atualmente, está num poema de Ihara Saikaku, de Osaka, de 1680, em que são descritas as borboletas obtidas pela dobradura do papel (ainda usando o nome “orisue”), utilizadas nos simbolismos de um casamento. Um origami modular em forma de cubo, chamado “tamatebako”, é retratado nas gravuras do Ranma Zushiki de 1734. As dobras para obter um “senbazuru” (mil tzurus) são descritas por Akisato Rito em Sembazuru Orikata de 1797. No entanto, a palavra origami só passou a ser o termo popularmente designativo de dobradura de papel mais recentemente, no período Showa (1926 a 1989), no reinado do Imperador Hirohito.

Outras origens

Em meados do século XIX o pedagogo alemão Friedrich Fröbel desenvolveu um sistema de ensino para crianças em que empregava princípios da dobradura em ludoterapia. O fato é que as distâncias e os longos períodos de isolamento político fizeram com que o intercâmbio cultural só recentemente fosse restaurado. Como conseqüência houve um desenvolvimento em paralelo, mas de forma totalmente independente entre o origami oriental e a dobradura européia.

Atualmente as descobertas de cada lado se misturam o que aponta para um rico confronto. As novas tecnologias na fabricação de papéis e padrões permitem novas possibilidades. A internet transporta os modelos não de mão em mão, como antigamente, mas numa grande velocidade. As pequenas improvisações individuais, que cada origamista vai desenvolvendo, pelo natural método de tentativa e erro, promovem evoluções muito mais rápidas em conseqüência da rápida troca de informações.

O “tzuru” migrou para a Europa nos primeiros anos da era Meiji (1868 a 1912). O Filósofo espanhol Miguel de Unamuno (1864 a 1936) fez muitos modelos do que denominou “la pajarita” (pequeno pássaro). E até hoje, na Espanha, este é o nome dado ao origami. Assim, até 1950, o origami era conhecido por “papierfalten” na Alemanha e “paper folding” nos países de língua inglesa. O Origami atual é fruto do intercâmbio cultural entre Oriente e Ocidente; sendo um híbrido basicamente japonês-europeu.

O origami moderno

Uchiyama Kosho

Tradicionalmente as dobraduras e as formas produzidas eram passadas adiante anonimamente. Não havia uma relação entre a obra e a pessoa que a criara. No origami moderno, a partir do fim do século XX, o paradigma foi invertido. As seqüências de dobradura passaram a ser consideradas modelos desenhados por um criador de origamis. Uchiyama Kosho (1912 a 1998),  foi o precursor desse modo de pensar. Os origamistas começaram a partir da premissa de que a idéia é uma propriedade particular e passaram a patentear os seus modelos.

Na moderna origamia o diagrama que representa a seqüencia de dobraduras para se alcançar um modelo ganhou importância, pois representa o próprio origami de uma forma esquemática e reproduzível. Alguns puristas enfatizam determinadas regras como dobraduras a partir de uma folha quadrada, sem cortes, ou uso de cola, e insistem na regra básica de que para fazer um origami não é necessário nada além de um papel de origami, ou de várias folhas do mesmo tamanho, no caso dos modulares.

Em meados do século XX um grupo de origamistas de várias nacionalidades (Yoshizawa Akira, Takahama Toshie, Isao Honda, Robert Harbin, Gershon Legman, Oppenheimer de Lillian, Samuel Randlett, Vicente Solórzano-Sagredo, entre outros) promoveu a popularização da atividade, fundando organizações, publicando modelos de vários designers, adotando como padrão o método de notação para diagramas de Yoshizawa Akira (1911 a 2005), e transformando o termo origami num designativo universal para a atividade.

A matemática

Peter Engel

Todo origami começa com uma superfície bidimensional, geralmente quadrada, e muitos modelos, que posteriormente irão evoluir para formas completamente diferentes, em suas dobraduras iniciais terão formatos iguais. Estas fases do design que são comuns a vários modelos são chamadas bases. Origamistas modernos (como Uchiyama Kosho na década de 30 e Vicente Solórzano-Sagredo na década de 40) organizaram estas bases de acordo com uma análise geométrica. Observaram os vincos que permanecem no papel ao ser desdobrado e abriram o caminho para o surgimento de novas bases. Maekawa Jun e Peter Engel deram atenção especial às figuras geométricas do padrão vincado do papel desdobrado, e a partir delas reinventaram vínculos projetando novos modelos antes das dobraduras terem sido efetivamente feitas.

Esta teoria evoluiu para uma dimensão matemática e novos modelos foram desenvolvidos por Meguro Toshiyuki, Kawahata Fumiaki, Robert Lang, Max Hulme e Neal Elias e outros. Foram criados algoritmos que avaliam as possibilidades no padrão de vincos de uma determinada base e feitos programas de computador que auxiliam o designer a projetar novos modelos.

A arte

Yoshizawa Akira

A palavra “origami” vem de oru (dobrar) e kami (papel). Assim, origami é papel dobrado. No entanto o origami não pode ser reduzido ao papel, à dobradura, e à obtenção de um determinado modelo, a partir de formas geométricas simples. Muitas figuras do período Edo baseiam-se nas características físicas do washi (papel feito basicamente a partir da casca de arroz). Não é possível fazer um “Catfish”, ou “Water Lilly”, ou “Sembazuru” com papéis ocidentais sem rasgá-lo. Além disso, a filosofia por trás do origami não está centrada unicamente em produzir uma forma, mas no ritual, na cerimônia, e na intenção inclusa na confecção daquela forma. Quem faz um origami expressa algo além da mera modelagem. Desde os anos 50, Yoshizawa Akira afirmava que o origami é uma arte e influenciou a moderna origamia. Ele transcendeu a realidade representada em seus objetos e procurou colocar expressão emocional em suas obras. Yoshizawa inovou molhando o papel para amolecer suas fibras antes de dobrar, e cortando as bordas do papel. Alguns origamistas usaram várias camadas de washi tingidas e criaram formas únicas. Uchiyama Kosho e Michael La Fosse também demonstraram que a escolha do papel e a versatilidade são importantes na origamia moderna.

Eric Joisel

Vincent Floderer

Hoje a modelagem avançada é um atributo exclusivo de designers e aficionados. A cada dia fica mais difícil acompanhar um CP (“crease pattern” – padrão de dobras), base das criações modernas. Há diagramas e análises de vincos muito pouco acessíveis. Na origamia artística moderna a reprodução lúdica, por observadores sem o devido talento, passou a ser uma atividade com tendências ao desaparecimento. Os expoentes nesta arte são Jean-Claude Correia, Vincent Floderer, Eric Joisel, e Giang Dinh.

Origami modular

Robert Neale

Mitsonobu Sonobe

Mukhopadhyay

 Assim como o avançado origami moderno abandonou o critério da peça dobrada segundo um plano e se aproximou da modelagem, seguindo os impulsos do artista, o origami modular (em que peças complexas são criadas pela justaposição de módulos) abandonou o critério de uma única folha, e libera, ocasionalmente, o uso de cola ou amarras para manter a coesão dos módulos.

A primeira evidência histórica de um origami modular aparece (como já foi citado anteriormente) no livro Ranma Zushiki, de Hayato Ohoka, de 1734. O modelo do livro é um cubo chamado “tamatebako” construído a partir de seis módulos obtidos pela tradicional dobradura “menko”, em que cada módulo representa uma face do cubo. Outras estruturas modulares, os “kusudamas”, ou bolas medicinais, apareceram de forma imprecisa no período Edo, e foram redescobertos na década de 60 por Robert Neale nos EUA e mais tarde pela japonesa Mitsonobu Sonobe. Hoje os “kusudamas” se multiplicam em formas e variantes rapidamente se popularizando como elementos decorativos.

O termo kusudama (“kusu”, remédio + “dama”, bola) se origina do uso deste modular, na cultura japonesa, como um receptáculo suspenso para ervas aromáticas ou medicinais. Atualmente eles são usados como elementos decorativos no festival Tanabata Matsuri (Festival das Estrelas) que acontece em julho na província de Miyagi, e como balões para serem partidos em comemorações específicas quando recebem o nome de “waridama”.

Os origamis modulares podem ser planos ou tridimensionais, em forma de estrelas, anéis ou poliedros. Alguns se aproximam de fractais como a esponja de Menger. Há uma grande variedade de módulos, a grande maioria como variantes de um Neale ou de um Sonobe que se baseiam no princípio de que cada unidade possui aletas que se encaixam em bolsos dos módulos contíguos, ou em módulos Mukhopadhyay, fundamentados em bases diferentes, que necessitam ser coladas para ganhar estabilidade.

Além dos exemplos e fotos que ilustram o texto resolvi postar algumas fotos de origamis feitos por mim durante a busca pelas informações que compõem o presente texto. Se houver interesse de alguém pelos diagramas necessários para reproduzi-los é só pedir que o Cágado Xadrez terá o maior prazer em fazer a postagem.

Romacof (Sonobe variante Bascetta)

Romacof (Sonobe variante Bascetta)

Kusudamas variados

Kusudamas variados

Kusudamas variados

Kusudama híbrido electra-flor

Anúncios
Explore posts in the same categories: Luzes

Tags: , , , , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

2 Comentários em “Conhecendo o Origami”

  1. marcelo Says:

    olá amigo Ronaldo td bem??? ^^
    muito boa a materia. E seus modulares estao muito bonitos,
    bem dobrados.
    gostei de todos em especial o electra-flor.
    ja vi muitos modulares e d varias formas mas esse eu naum conhecia ^^ rsrs
    depois posso enviar algumas fotos das minhas dobraduras ???
    t mais
    att Marcelo Dias ^^


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: