Esclarecimentos e orientações aos eleitores.

Nesse ano há eleições. Assim como em todos os anos pares. Anos pares são aqueles em que o dinheiro que você paga de imposto sofre um surto de retorno em obediência à manjada máxima de que dois coelhos devem ser mortos com uma paulada só. Os dois coelhos, esclarecendo aos incautos, são: o direito que você tem de ver a aplicação pública do que foi recolhido, e o duplo uso do dinheiro na lubrificação da máquina em prol do jogo político. Coisas democráticas. Você foi convocado sem direito à apelação, independentemente da qualidade do produto oferecido. Mas isso é coisa velha e nem adianta ter chiliques. Pense nisso como a aplicação obrigatória do tal princípio da tentativa e erro. A esperança é de que um dia nós acertemos depois de tentar muitas e muitas vezes. Convenhamos que é difícil compreender como é possível sintetizar um perfume a partir de tanto fedor, mas, dizem os entendidos, é por aí mesmo, pois a diferença está numa sutileza química que nos escapa. Um dia sai. O importante é ter fé. Fé de mais ou fé de menos são meras cacofonias do percurso.

Eu ia dizer pra vocês anularem o voto, mas desisti disso. É uma ideia boba. Votem no cara mais parecidinho com cada um de vocês. E seja o que Deus quiser. Se a média dos eleitores não for essencialmente corrupta já é um grande negócio. Se a média não for burra é melhor ainda.

Observem, então, os candidatos. Para isso vou dar uma dica. Nos horários políticos televisionados, que eles dizem que são gratuitos, e são! realmente são! pelo menos naquele instante, uma vez que você já os pagou em suaves e imperceptíveis prestações embutidas na tributação de tudo que você consome, não desligue a TV. Apenas aperte a tecla mute. E mantenha sua atenção sobre o que rola na telinha. Como num filme mudo. Avalie as faces, os olhos, e a mímica de cada um. O que eles dizem não tem valor nenhum. Trocando tudo por estática ainda é mais produtivo. Não são verdades. São chavões. Frases feitas. Coisinhas de efeito para engabelar os trouxas. Nem eles acreditam, realmente, no que estão dizendo. Mandaram que eles dissessem aquilo. O partido. O patrão. O cara que lucra ou pretende lucrar. Enfim, despersonifique o culpado e diga que o script é obra do sistema e portanto irrelevante. Pronto! Agora você terá o candidato limpo. Como o velho Charles Chaplin que em sua pureza nos fazia rir sem dizer nenhuma palavra.  Lembre: a verdade está na alma, e os olhos são as suas janelas.

E depois vem o inevitável dia em que você se tornará responsável pelo que vai dar. Então é melhor fazer o melhor possível, nunca esquecendo que eles vão legislar em causa própria, e muitos deles vão roubar descaradamente, e o remendo só poderá ser tentado no próximo ano par, e nos próximos dois anos pares há notícias de que teremos uma olimpíada e uma copa, e essas coisas mascaram ainda mais o processo, e a próxima chance real pode ficar só para 2016. Resumindo: seja sério pelo menos uma vez na vida.

Considere que há três tipos de políticos: o maluco, o corrupto, e o idealista. O maluco é aquele que pensa que pode mudar o mundo. O corrupto é aquele que sabe que não pode mudar o mundo e não só se aproveita disso como faz o possível para que o mundo permaneça como está. O idealista é aquele que sabe que não pode mudar o mundo, mas faz o possível para que as ideias mudem. Esses últimos são muito raros e são pessoas tristes.

Na política, os idealistas fazem política e os malucos acham grandes soluções para problemas que não existem, ou não percebem onde estão os verdadeiros problemas. Enquanto isso os corruptos lucram com ela. Na paz, enquanto os idealistas lutam e os malucos acham que a revolta é a solução, os corruptos lucram com ela. E na guerra, enquanto os idealistas lutam e os malucos morrem, os corruptos lucram com ela.

Os malucos e os idealistas são temporários. Os primeiros viram chacota ou passam a ser pitorescos. Os segundos geralmente se desiludem e voltam pra casa sem alcançarem uma massa crítica que faça diferença. Os únicos que permanecem são os corruptos. Eles são realistas. Eles sabem que as pessoas não estão dispostas a enxergar. Eles sabem que é mais fácil corromper do que converter. Eles sabem que a permanência é mais garantida quando se lucra e muito incerta quando se luta.

E enquanto milhões podem ser manobrados bovinamente para mantê-los em seus tronos eles se perguntam: “Mudar?! Por quê?”

Pense nisso.

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2 Comentários em “Esclarecimentos e orientações aos eleitores.”

  1. cerbero62 Says:

    nossa!! como vc é pessimista… assim o pessoal vai acabar não votando…

    eu continuo na minha cruzada: voto, quando me apresentarem um projeto digno. Ponto.

    parabéns por mais um excelente post…


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