Ninguém e o apetite do Leão

― Ele paga impostos? ― Perguntou o rei, repentinamente, ao ministro.
― Hum! Não! ― Disse o ministro, e se apressou em justificar aquele fato insólito. ― Esse homem não tem nada, majestade. Na verdade o lençol que o cobre foi emprestado pela guarda para não trazê-lo despido a vossa presença.

Na terra em que Ninguém vivia havia um rei chamado Leão (ele era rei por que seu pai havia sido o rei anterior, e antes do pai dele fora o seu avô, e assim retro sucessivamente até onde era possível espremer a memória daquele povo, “per omnia saecula saeculorum, amen”. Alguns dos reis haviam sido bons (e outros não haviam sido bons (mas aquilo que eles haviam realmente sido só é saudável dizer entre parênteses (e, portanto, nós os fechamos todos e ponto)))).

Como alguém podia se chamar Ninguém? Todos eram alguém! Um dia o rei soube que em sua terra havia alguém que tinha aquele nome estúpido. Entre curioso e determinado a mudar aquela situação, que ele achava incômoda (talvez por que no mundo existam pessoas que quando não conseguem infernizar a vida de alguém ficam doentes e assim resolvem pegar o pé de ninguém em especial), o rei mandou chamar Ninguém.
Ninguém foi apresentado ao rei. Ele havia sido enrolado num lençol por que quando o encontraram ele estava nu – assim como também não tinha uma casa e nem um cão. Ele trazia sob o braço uma pedra de bom tamanho e pediu permissão para depositá-la no chão, a seu lado, enquanto estava ali.
― Quem é você? ― perguntou o rei.
― Ninguém! ― respondeu Ninguém, humilde!

O rei sorriu desdenhosamente, levantou-se, e de mãos às costas, arrastando suas preciosas roupagens, deu uma lenta volta ao redor de Ninguém, avaliando-o e saboreando a sua magnitude frente àquele trapo humano.

― Quem lhe deu esse nome idiota? ― rispidamente trovejou o rei.
― Todos! ― sussurrou, com a voz trêmula, Ninguém.
― Como…?! ― surpreendeu-se o rei, direcionando um olhar interrogativo aos seus ministros, que estavam presentes.
― É exatamente isso, majestade! ― disse um dos ministros com uma vênia. ― Todas as pessoas com quem contatamos, enquanto procurávamos esse homem, disseram que ele tem esse nome por que todos assim o chamam e não conhecem nenhuma outra forma de identificá-lo. 
― Mas isso é um disparate! Todos quem? ― vociferou o rei, querendo do ministro uma melhor explicação.
― Todo mundo! Os que são seus súditos e aqueles que não o são… ― disse o ministro, murchando enquanto via os olhos do rei se arregalarem como eco às palavras que haviam escorregado de sua língua; e, sabendo que a sua permanência como ministro (e de sua cabeça ligada ao resto) dependia da capacidade de elaborar consertos rápidos aos furos no raciocínio, emendou: ― Tais como os viajantes, comerciantes e magistrados de outros reinos, que estão aqui entre nós. 
― Ah! ― Disse o rei que, voltando ao trono, deu as costas ao ministro e a Ninguém (e perdeu a oportunidade de ver o “Ufa!” do ministro e o sorriso maroto dos outros).

Já sentado, depois de acomodar as complexas vestes, o rei apoiou o queixo sobre a mão, avaliou a própria impotência contra aquela estranha e desafiadora unanimidade em suas terras, em que, ele sabia, havia um exército de opositores e bajuladores, e voltou à carga.

― Você vai receber um nome adequado!  ― Sentenciou o rei, e Ninguém, sem levantar os olhos, sacudiu a cabeça afirmativamente. ― Um nome digno de um súdito meu! ― Continuou o rei, divagando, e Ninguém continuou a balançar a cabeça. ― Um nome dado por seu rei! ― Coroou o rei, e Ninguém, sem saber se deveria parar ou continuar a concordar, por via das dúvidas não parou mais de sacudir a cabeça com medo de parecer mal agradecido (embora tivesse vontade de perguntar ao rei como ele ia fazer para que os outros parassem de chamá-lo de Ninguém).

― Ele paga impostos? ― Perguntou o rei, repentinamente, ao ministro.
― Hum! Não! ― Disse o ministro, e se apressou em justificar aquele fato insólito. ― Esse homem não tem nada, majestade. Na verdade o lençol que o cobre foi emprestado pela guarda para não trazê-lo despido a vossa presença.
― Nada?! ― Questionou o rei, surpreso pela segunda vez.
― Absolutamente nada! ― Confirmou o ministro. ― Ele dorme sob as árvores e come circunstancialmente em troca de alguma tarefa informal que desempenhe aqui e ali, ou conforme a caridade das outras pessoas.

O rei permaneceu estático, sem saber de que forma poderia exercer o seu poder sobre aquele homem, e por fim, já ficando cansado da presença de Ninguém, com um gesto de enfado, disse:
― Saia!
Ninguém, percebendo que a desagradável situação havia finalmente terminado, sem saber quantas mesuras as circunstâncias exigiam, se enredou com o pano que o cobria, tropeçou atrapalhado e ficou nu.

Por um curto instante permaneceu paralisado e houve um constrangimento geral, mas se apressou em pegar a pedra para ir embora. Ao que o rei, apontando para a pedra, perguntou:
― E essa pedra? O que você faz com ela? ― E Ninguém, como quem é pego roubando, deixou cair a pedra no chão, olhou para os próprios pés e respondeu:
― Deito a cabeça nela pra dormir, meu rei. ― Gemeu.
― Mas nessa pedra?! ― Exclamou o rei, irritado por estar novamente surpreso num espaço tão curto de tempo.
― É a que melhor encaixou na minha cabeça… ― Explicou, se desculpando, Ninguém.
― Saia daqui e leve a sua pedra! ― Gritou o Rei, indignado.
― Na verdade a pedra não é minha…! ― Sorriu Ninguém, achando graça de sua equivocada propriedade sobre a pedra.
Em socorro à expressão confusa do rei o ministro esclareceu:
― O que esse homem está indiretamente dizendo é que essa pedra, sendo parte do solo, e sendo ele a base do seu reino, na verdade, pertence a vossa majestade…
― Ah! ― Entendeu o rei, que ficou meditando sobre o assunto.

Como o silêncio se prolongou e tudo indicava que o seu tempo ali havia terminado, Ninguém respirou fundo e se atreveu a perguntar baixinho:
― Posso ir?
― Vá, vá. ― Respondeu Leão, distraído. ― Mas deixe a minha pedra.

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2 Comentários em “Ninguém e o apetite do Leão”

  1. camargo Says:

    ai ai… me senti entregando minhas pedrinhas…

    outro belo texto, caro escritor.

    • romacof Says:

      Não devemos nos apegar aos bens materiais, principalmente aos BEM materiais. Eles são de todos! E tudo o que é de todos é de ninguém, e, como a fábula nos ensina, o que é de Nnguém deve permanecer com o rei. Palavra da tributação.


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