Ovos fritos com bacon no café.

Mãos às costas, lá ia o velhinho, pela praia deserta, às seis da manhã. Estava irritado com alguma coisa que Juvenal dissera na noite anterior. (Ou talvez  com o fato de não conseguir lembrar o que Juvenal dissera.)

Encurvado pela cifose ele tinha, a cada passo, a intermitente visão da unha torta do dedão direito. Divagava sobre a hipotética arquitetura divina, tentando traçar um paralelo entre a dimensão maçambiquiana e a própria existência, e dava furtivas olhadas para que o caminho imediato não lhe provocasse tropeços. Então, vinda do nada, caminhando no sentido contrário, surgiu a diminuta figura de uma outra criatura madrugadora.  A visão curta não lhe permitia uma definição precisa, mas tudo indicava que se tratava de uma mulher.

Resquícios hormonais caíram na circulação escorrendo de recipientes esquecidos e fizeram com que abandonasse os moluscos e o dedão e prestasse mais atenção no horizonte. Com sorte seria jovem, pelo menos mais jovem do que ele (o que não seria tão improvável assim). E também bonita e vistosa, segundo os seus já elásticos e engavetados critérios de estética e sensualidade. Isso até lhe abriu o apetite e passou a pensar em comer duas torradas com leite quando voltasse pra casa, e não apenas uma como era de hábito.

A silhueta inicialmente indistinta crescia com passadas largas enquanto inversamente encolhia a circunferência abdominal do velhinho. Ficou uns quinze ou vinte centímetros mais alto sem perceber o protesto das vértebras que queriam dolorosamente se render ao apelo gravitacional.

Era jovem. Era bela. Estava cada vez mais perto. Era do número que ele lembrava ser o seu. Estava de tênis e boné. Ele ajustou os óculos para se certificar que não estava nua, mas usava um minúsculo conjunto de paninhos displicentemente jogados sobre os limites entre o pudor e imaginação.

E então, repentinamente, quando ela estava apenas a uns três ou quatro metros dele, como se ele fosse um marco pré-estabelecido, ela deu meia volta e retornou pelo caminho que viera. O velhinho sentiu a boca seca. Alguma coisa palpitou arritmicamente no peito, mas ele estava mais preocupado em não piscar. Pois naquele instante o universo, como num passe de mágica, ficara imóvel entre duas batidas do coração.

Não fora simplesmente uma meia volta. Mas uma meia volta eterna. Para ser recuperada infinitas vezes ou enquanto sua memória sobrevivesse. Em “ssslllooowww motion”. Como num suave movimento de balé ou num volteio de pião invisivelmente equilibrado no nada o pé direito dela havia parado no fim de um passo qualquer e o esquerdo não o imitara. Ao invés disso ele recuara, levado por uma perna esguia que girava para fora e para a esquerda ao mesmo tempo em que as coxas, o umbigo, os seios, os ombros e o pescoço, como uma onda, se adaptavam aos novos comandos. No rodopio a ponta do pé direito imprimiu uma pequena cova na areia, o braço esquerdo, equilibrando o movimento do corpo, deslizou para trás num arco perfeito, o direito se ergueu e na ponta dele surgiu uma mão delicada que acenou para o velhinho, a jovem iluminou o rosto com um sorriso, e os lábios dela se uniram e soltaram no ar um beijinho mudo que calou o mar.

O cabelo em rabo de cavalo, saindo por trás do boné, imitando um ponteiro de relógio que anda ao contrário, desenhou uma linha fictícia no ar. E o corpo todo, refeito do brusco intervalo, voltou a ondular em sua essência, de volta ao espaço-tempo normal, se afastando dele.

O velhinho custou a se mover. Piscou avidamente para recuperar a umidade das escleróticas. Nos poucos segundos em que ficou paralisado viu o dorso e o par glúteo se afastarem dele. Tentou retomar a caminhada num ritmo mais acelerado para prolongar aquele momento, mas os ciáticos protestaram de forma veemente. Respirou fundo preparando o espírito para se conformar com a lembrança do encontro e disse três vezes, admirado e sôfrego: “Mazá! Mazá! Mazá!” Depois, enquanto assistia às nádegas, e todo o resto, saltarem graciosamente sobre um pequeno córrego, pensava que Juvenal dificilmente acreditaria naquilo.

E por falar em Juvenal, repentinamente, se lembrou o que lhe irritara tanto na noite anterior. O amigo desaconselhara caminhadas matinais e com ares doutorais dissera que é nessas horas que os velhos mais morrem de enfarto. O velhinho sorriu e de peito erguido voltou para casa. Sentia-se um vencedor. Comeria ovos fritos com bacon no café.

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12 Comentários em “Ovos fritos com bacon no café.”

  1. camargo Says:

    em que praia esse cara caminha?

    • romacof Says:

      A pergunta é gerada pelo desejo de comer ovos fritos com bancon? pela desertice da praia? pela curiosidade de conhecer Juvenal? ou para saber o grau cifótico do velhinho?

  2. camargo Says:

    conhecer o Juvenal, é claro…


  3. Só matando vocês dois…

  4. camargo Says:

    ah! antes que passe batido… excelente texto!


  5. Engraçado como, depois de aprender tudo que aprendi sobre nutrição em novembro de 2014, a parte das torradas e dos ovos com bacon deste texto parece totalmente absurda. 🙂


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