…enquanto isso, nos corredores do congresso.

“Nobre-deputado! Nobre-deputado!” // “Antes de qualquer coisa quero dizer que estamos aqui numa luta constante e inabalável, sempre norteada pelos ideais democráticos, procurando satisfazer os interÉsses de nossa base.” // Sim! Sim! É claro, nobre-deputado! Mas, como é de seu conhecimento há uma avalanche de escândalos financeiros envolvendo figuras dos primeiros escalões em vários ministérios. Algumas, inclusive, de seu partido. O que os nossos ouvintes gostariam de saber é: Qual a sua opinião a respeito? //  “No momento há uma série de movimentos divergentes, próprios das diferenças ideológicas –  o que, em princípio, enriquece o mecanismo democrático –  que estão sendo lapidados graças aos esforços de nossas lideranças, sempre em busca da governabilidade, inclusive considerando esse momento tão delicado da economia mundial.” // “É claro, nobre deputado! Mas não parece ao senhor que o governo está sendo chantageado em nome da governabilidade, e que o delicado momento econômico – usando as suas palavras – não deveria sensibilizar os gestores das vultuosas verbas públicas que foram, e estão sendo, desviadas?” // “Um país de dimensões continentais como o nosso requer uma comunhão de forças políticas, primariamente conflitantes, redirecionadas e focadas no bem comum, tentando manter um equilíbrio dinâmico que exige concessões nas trocas de projetos, o que no cômputo geral transforma a gigantesca engrenagem governamental numa esteira para o aprimoramento das ações em prol da coletividade como um todo. E digo mais: não fosse assim, estaríamos a mercê da especulação do poderio adverso que procura minar a confiança do cidadão comum nos verdadeiros esforços despendidos na administração da coisa pública.”  // “É claro, nobre-deputado! Embora o nosso ouvinte, o mesmo cidadão comum que deveria confiar no senhor, tenha dificuldades para entender a profundidade de sua resposta, gostaríamos de saber qual é a sua posição pessoal a respeito do boicote que seu partido está planejando como represália contra as atitudes severas do governo.” // “Veja bem! Uma coisa é o nosso posicionamento pessoal como parlamentar, e a outra coisa é a posição do partido como entidade no teatro governamental. Nesse ponto a nossa opinião como indivíduo é irrelevante frente à somatória das necessidades, que a representatividade que nos foi delegada pelo povo em sufrágio determinar como prioritárias, e que refletirão a conduta partidária no momento apropriado. Se não fosse assim não haveria fidelidade ideológica e o tecido democrático se romperia pois estaríamos traindo a postura ilibada,  já conhecida de nossos eleitores, de quem somos os fiéis depositários do desejo de se fazer ouvir.” // “É claro, nobre-deputado.  Esperamos que a palavra ilibada volte a constar dos adjetivos atribuíveis aos parlamentares, e queremos agradecer, em nome dos nossos ouvintes, o esforço do senhor na tentativa de manter a coerência a despeito das constatações, possivelmente para não ferir a ética política e o espírito de corpo do parlamento nacional!” // “Eu é que agradeço a oportunidade de poder esclarecer, da forma mais límpida e honesta, as dúvidas que porventura surjam, pois também é nossa função dar satisfação de nossos atos, e ainda mais: é sempre um prazer responder aos meios de comunicação sem os quais muito do necessário colóquio entre o meio político e o povo se perderia. Meu muito obrigado!” // “Acabamos de ouvir a palavra do Nobre-Deputado, do Partido da Base Aliada, sobre os bilionários desvios de verbas ministeriais, diretamente dos corredores do Congresso Nacional. Eu fico por aqui e você segue daí!”

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12 Comentários em “…enquanto isso, nos corredores do congresso.”

  1. Franci23 Says:

    Contudo devo dizer que não sei o que significa a palavra ilibada.

    • romacof Says:

      Não se preocupe com isso! Ela perdeu o significado. Ficou manchada e até o dicionário perdeu a confiança nela. Dizem que atualmente ela vive num depósito de cacos de cerâmica – no ostracismo.

  2. Umav Ozatroz Says:

    políticos têm pelo menos uma utilidade pública: servir de perpétua inspiração para humoristas.

    http://umavozatroz.wordpress.com/2011/08/24/manchete/

    Pena que eles têm o rei na barriga, nós somos os bobos que não são para serem levados à sério e os outros são os servos.

  3. camargo Says:

    político é um especialista em usar o control c control v oral…


  4. Já nem sei mais o que dizer.

    Eu usava a palavra “deboche”.

    A coisa piorou e passei para “acinte”.

    Piorou mais ainda e passei para “escárnio”.

    Agora já me falta vocabulário.

    Quem diria, a política me tornou inculto. :-S

    • romacof Says:

      Muito bom!
      Um legítimo e raro Arthur em versos!
      Se conseguiram produzir tal pérola, as sanhas políticas
      ficam justificadas por caminhos tortos!
      Pois mesmo inculto teu veneno lhes corroi entranhas
      e faz nascer nova corrente crítica.


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