O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais – 4 de 4)

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“Não acredito! Você recusou a juventude eterna que um Sarney ou um Hugo Chavez dariam os dez dedos para ter e agora vê problemas em ganhar na mega sena!”

“É que a coisa não ficou bem definida!”

“Como assim homem de Deus?”

“Não é toda mega sena que é uma Senhora Mega Sena. Há uma grande diferença entre ganhar sozinho ou num recorde nacional de acertadores. Também há as acumuladas, as grandonas nas viradas de ano, essas coisas, e você sabe muito bem que dinheiro o governo chupa ou escorrega fácil pelos dedos…”

“Então vamos simplificar!” Disse Ariel. “Eu posso lhe garantir que vai ser uma super mega sena acumulada, tendo você como único acertador, e num futuro muito próximo. Está bem assim?”

“É que aí surge um outro problema.” Questionei.

“Ah! Não acredito! Que tipo de problema você ainda consegue ver nessas circunstâncias especialíssimas?”

“Veja bem!” Argumentei. “Eu tenho vinte e oito anos, estou num casa-não-casa com uma mina aí, pretendo ter filhos, e ainda curto a minha mãezinha… Com toda essa grana a segurança dessa gente vai se transformar num problemão…”

Ariel se levantou, ergueu os braços e as asas e gesticulava exasperado: “Você muda de cidade, de país, contrata uma empresa de segurança, muda de identidade, finge que é pobre…”

“Eu não havia pensado dessa forma, Ariel, você foi de grande ajuda, acho que me decidi…”

Mas nessa hora houve um relâmpago cegante dentro da sala e em seguida uma trovoada ensurdecedora e Ariel disse: “Desculpa! É o meu celular… pensei que estava no silencioso.” E atendeu o aparelho falando lá com seu pessoal, por momentos parecendo surpreso, e em outros visivelmente enfurecido.

Por fim desligou e disse. “Um dia ainda pego um destes anjos estagiários, corto as asas dele e mando o infeliz fazer um treinamento de mil anos no Haiti.”

Eu alheio às questões administrativas da Diretoria estava ansioso para comunicar pro Ariel que afinal havia tomado uma decisão. “… pois é, Seu Anjo, acho que já tenho uma resposta pra você…”

Mas Ariel cortou a minha conversa e disse: “Esqueça, houve um erro no setor de registro. Não era você que tinha que fazer a escolha. Destinatário errado. Essas coisas da burocracia. Só perdi o meu tempo… e o seu, é claro! Mil perdões!”

“Mas e a juventude eterna? e a mega?”

“Fica pra próxima! Fui!”

E ele desapareceu num VUPT como quem suga todo o ar da sala e ficou apenas uma pena branca que lentamente foi planando até cair aos meus pés.

 

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4 Comentários em “O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais – 4 de 4)”

  1. Li Says:

    Essas coisas acontecem,rs.
    Pensamos tanto….que nem nos damo conta….do tempo que perdemos pensando…não que pensar seja ruim,mas pensar demais atrapalha,rs.

    Gostei do final.
    Assim o ” coitado do pobre “se livrou de um fardo pesadíssimo,ter que escolher algo para o resto de sua vida!

    Eu prefiro fazer minhas escolhas,ainda que erradas.


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