O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais – 3 de 4)

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03

Eu avaliava a situação enquanto encarava o anjo. Não era um sonho. Era uma situação surreal, mas palpável, e me dava um nó no estômago. Sisudo, Ariel me encarava visivelmente contrariado por estar envolvido naquela questão sem a menor importância aos olhos dele. Resignado com a determinação da tal Diretoria. E eu, incrédulo, fora confrontado com uma escolha maluca: juventude eterna ou ganhar uma soma incalculável de dinheiro. E agora? O que eu tinha que fazer? Dar uma resposta relâmpago ao anjo e pronto? Questão resolvida? Eternamente jovem ou riquíssimo? Só isto? E os trâmites? E as formalidades? E a burocracia?

“E então?” Perguntou Ariel, já visivelmente impaciente, interrompendo o meu devaneio.

“Eu, eu não sei!” Respondi. “Algumas ponderações precisam ser feitas antes de tomar uma decisão dessas!”

Ariel se levantou e abriu as asas. Era uma figura impressionante na minha pequena sala. Não disfarçava sua irritação. Quase gritava: “Vocês humanos são um saco! Mesmo lendo o pensamento de vocês, mesmo sabendo que coisas desse tipo vão acontecer, mesmo que eu já saiba o que vou ouvir, não posso deixar de sentir o significado do que é ter uma úlcera quando ouço vocês dizerem que são necessárias ponderações. Ponderações? Mas que ponderações são essas? Você não lembra com quem trepou na noite passada! Não entrou em coma alcoólico porque o vinho era tão ruim que o anestesiou antes de matar você! E agora quer ponderar? Em nome do Altíssimo, criatura sem lógica, escolha uma das duas opções. Ambas são ótimas! o problema fica resolvido, eu me mando, e você faz uso do seja lá o que que você for escolher.”

“Mas há questões fundamentais que precisam ser analisadas.” Disse eu. Ariel desabou no sofá, bufando e revirando os olhos. “Faça a sua análise! Eu espero.”

“Veja a questão da vida eterna…” dizia eu. “

Alto lá!” Interrompeu Ariel. “Foi dito eterna juventude e não vida eterna. Não confunda as coisas. Uma coisa é ficar eternamente jovem. Imune às agressões biológicas, ou aos desequilíbrios patológicos, ou acidentes que não destruam partes significativas do seu corpo, outra é pressupor que você pode se julgar o Clark Kent, se empanturrar impunemente de colesterol, ou querer parar um trem com uma dentada. Ser eternamente jovem não o torna indestrutível, meu chapa. Se você se transformar numa bola de banha não há cardiologista que desentupa  as suas coronárias. Se cair um meteoro neste planeta você vai pro beleléu como todo mundo…”

“Hã!” Disse eu.

“Ai, Meu Deus!” Disse Ariel.

“Mas se eu me cuidar, tiver uma vida regradinha, e o planeta durar alguns milhares de anos posso durar até lá…” Ponderei.

“Evidentemente!” Confirmou Ariel.

“Até conhecer outros planetas…” Emendei.

“Essas coisas todas!” Concordou Ariel.

“Mas aí surge um outro problema…”Comentei.

Ariel suspirou profundamente e perguntou: “Qual seria esse outro problema?”

“A solidão!” Completei. “Em mil anos todas as pessoas que eu conheci durante a minha vida já terão morrido de velhice…”

“Você conhecerá outras!” Disse Ariel.

“Que eu também vou perder porque elas também vão ficar esturricadas e morrer e assim por diante… não sei! É uma questão muito difícil!”

“Então agora ficou fácil!” Se animou Ariel. “A juventude eterna, segundo a sua argumentação, pode levá-lo a uma detestável solidão eterna. Sobra só a outra opção! A mega sena. Certamente essa vai ser a sua escolha? Correto?”

“Não sei não! Aí também há coisas que precisam ser avaliadas!”

“Anjo tinha que ter saco!” Bufou Ariel.

(Continua aqui!)

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3 Comentários em “O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais – 3 de 4)”

  1. Li Says:

    HUMANOS !!!

  2. franci23 Says:

    Nunca sabemos o que queremos.


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