O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais -1 de 4)

O1

Era um sábado e eu estava acordando tarde. Dizem que Deus ajuda a quem cedo madruga, mas o que vem depois demonstra que essa tese é no mínimo questionável. Eu emergia de um sonho confuso. Chegara a uma bifurcação numa estrada e tinha que escolher um caminho. Uma música repetitiva tirava completamente minha atenção. Minha cabeça doía. O gosto de vinagre me fez lembrar do preço do vinho da noite anterior. O celular tocava a oitava de Beethoven pela vigésima vez. Atendi: “Hã…!?

“Abre a porra dessa porta!” Gritou alguém irritado, perfurando o meu tímpano.

Por que telefonar se era mais fácil tocar a campainha? Cambaleei até porta e a entreabri.

Um cara de dois metros de altura me empurrou junto com a porta e se instalou no meio da sala: “Que missa! Tanta coisa mais importante pra fazer e recebo essa de mandalete pra alguém de merecimento no mínimo duvidoso!”

“Ei!” Eu já conseguira reunir a metade dos meus neurônios e começava a reagir à tempestuosa entrada daquele estranho na minha casa. “Qual é a tua? Me acorda aos berros e invade a minha casa! Tá pensando que é a casa da tua mãe? Tu é grande mas não é dois! E se o teu negócio é dinheiro te liga porque por aqui…” Foi aí que eu notei que o cara tinha asas! Asas! Essas feitas com um milhão de penas. Como uma alegoria de Carnaval. Parecia um pombão enorme.

“Que fantasia é essa?” Puxei uma das penas que se soltou com um estalo.

“Ei! isso dói! Pra seu governo isso não é uma fantasia. Sou um anjo e vim até aqui pra ter um papo com você.”

“Qual é! Cai na real! Convenhamos que essa história de anjo tá meio ruim de engolir! Não dá pra ser mais realista?”

Nesse instante, como num passe de mágica, o grandão me pegou pela mão e estávamos a mil ou dois mil metros acima da cidade. Eu de camiseta e cuecas sentindo um frio do caralho me congelando a alma. A vista era deslumbrante, mas o pavor por estar ali pairando sobre o nada me fez cair a bunda. Agarrei desesperado com as duas mãos o braço do outro e implorei pra que ele desse um fim naquilo.

No piscar seguinte eu estava tremendo de frio e de medo no meio da sala. E o anjo perguntou: “Foi suficientemente realista pra você?”

Ao som dos dentes tiritando eu sacudi a cabeça num sim.

“Meu nome é Ariel! Você teve um sonho e me mandaram aqui pra dar uma mão, essas coisas… mas antes vá trocar as cuecas… eu espero.”

(Continua aqui)

Anúncios
Explore posts in the same categories: Ariel, o anjo., Contos

Tags: , , , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

2 Comentários em “O livre arbítrio (ou pense um pouco, mas não pense demais -1 de 4)”

  1. Franci23 Says:

    Cara esse começou do jeitinho que eu gosto!
    Pois eu me senti o narrador desbocado, muito bom mesmo.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: