Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (5 de 5))

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09

 No quarto dia o Dr. Sério Fuss foi comunicado pela direção da polícia de que teria 48 horas para dar um fim àquela situação insustentável. O delegado passou a considerar a hipótese de estrangular Magda e dar aquela história por acabada.

Sério chegou a conversar com Magda e tentou lhe explicar o problema que enfrentava e a impossibilidade de manter indefinidamente aquele teatro surreal. Magda disse que a solução era simples. Bastava fechar o consultório do dentista e ordenar que ele fosse atender longe dali se comprometendo a nunca mais passar pela Rua das Violetas. Pronto! O seu sonho nunca se realizaria. Ele foi obrigado a concordar que, por mais absurda que fosse a proposição dela, aquela seria uma solução definitiva.

Assim, Sério foi ao consultório do dentista. O local estava abarrotado graças à propaganda inusitada decorrente do sonho de Magda com sua morte. Ênio ouviu incrédulo à proposta do delegado baseada na sugestão de Magda. Em seguida ele fez uma contraposta. Sugeriu que o delegado pedisse exoneração do cargo e deixasse a delegacia para um colega mais capacitado. Nessa hora o Dr. Sério Fuss pensou seriamente na possibilidade de empurrar o Dr. Ênio Canino para baixo de uma ambulância e concretizar o sonho de Magda.

Ainda durante aquele dia, como num eco às pressões que Sério sofria, a turba acampada nas extremidades da área isolada começou a fazer um barulho preocupante. O presidente da Associação dos Amigos e Protetores dos Idosos, acompanhado por meia dúzia de cabeças brancas, esfregou um mandato na cara de um dos policiais e foi até a delegacia para verificar as condições do tratamento dispensado à prisioneira. Pouco adiantou o delegado afirmar repetidamente que Magda não era prisioneira, que a cela estava aberta e que ela podia sair a hora que bem entendesse. Logo ele percebeu que todos os ouvidos estavam surdos para o que ele dizia e eles só ouviam o que estavam dispostos a ouvir.

Ênio foi almoçar no bistrô, caminhando pela calçada como um pavão, sabendo que naquela hora as lentes buscavam os seus movimentos e mais o promoviam. Semíramis trouxe um sanduiche para o delegado que comeu escondido em sua sala. Alguém tivera a idéia de incrementar o barulho com o rufar de tambores e buzinadas doentias. Foram agitadas bandeiras de partidos políticos. Um carro de som, a oeste, na Bispo, começou a despejar uma música estridente alternada com o berro de palavras de ordem. O povo imediatamente começou a se aglomerar mais densamente naquelas imediações. Magda resolveu tirar um cochilo e deixou que Lúcifer saísse entre as grades pra dar um passeio.

10

O dentista voltava do almoço. Estava um pouco contrariado por que as atenções nas proximidades do bistrô foram desviadas para o alvoroço do carro de som na outra quadra. Magda dormitava em sua cela e sonhava. Lúcifer miava desesperado, aparentemente preso num arame no terreno baldio do outro lado da rua.  Ênioobservava o gato de Magda se contorcendo enquanto tentava se livrar do arame. Sério foi até a porta da frente da delegacia. Ele não conseguia encontrar uma saída coerente e já pensava em pedir demissão como Ênio havia sugerido. Naquele instante Sério viu que Ênio atravessava a rua indo em direção ao gato. E então tudo aconteceu muito rapidamente.

Uma ambulância desgovernada ou sem freios rompeu a frágil contensão ao norte da Rua das Violetas, achou o Dr. Ênio Canino no meio da rua e foi esmagá-lo contra a parede do consultório. Assim morreu o dentista. E a notícia de sua morte foi imediatamente transmitida de pessoa a pessoa e já era conhecida pelo povo descontrolado que se reunia nas esquinas em menos tempo do que Sério levou para fechar a boca. Os estalos da vida.

Quando a massa quebrou os cavaletes, e passou por cima dos guardas, Sério correu para dentro do prédio e foi encontrar Magda acordando de seu cochilo. Ainda sonolenta ela disse que sonhara com um linchamento e que agora a vítima seria o próprio Dr Sério Fuss. Lúcifer se esgueirou para a cela e acomodado no colo de sua dona apreciou deliciado quando a turba invadiu a delegacia em perseguição ao delegado.

Só nesta hora Lúcifer miou e sorriu, mas a estas alturas ninguém estava prestando muita atenção num detalhe como esse.

 

Miau e FIM

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8 Comentários em “Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (5 de 5))”

  1. Franci23 Says:

    Caramba que trágico, adorei!
    A cada dia seus contos melhoram, mal posso esperar pelo próximo, parabéns pelo excelente trabalho.

  2. Li Says:

    Um gato que ri,genial!

    Imagino a cara do bicho,rs.

  3. Li Says:

    Bom…….se me permite,…….gostei.

    Não “amei” o bichano como “amei” o Pierre,mas deixa pra lá,rs.

    Já sinto no horizonte um rufar de asas…..magia negra,magia branca…..coisas da vida,né!

    Sinto que já não gosto tanto assim dos gatinhos……pobre de mim,fiquei traumatizada.

  4. Li Says:

    Romacof,o bichinho estava temporariamente “dominado”, ou não?


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