Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (4 de 5))

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Se os sonhos de Magda haviam chamado a atenção dos meios sensacionalistas após a morte de Calapaentro Crespo, a morte de Astrogildo Gisto se tornou rapidamente num prato transbordante. Sério Fuss viu a pacata Rua das Violetas transformada num pandemônio midiático. Logo ficou difícil saber qual era o inferno maior. Se a fúria de Magda, ou o ímpeto sem constrangimento dos repórteres e dos operadores de câmera.

A verdade é que o suicídio havia acontecido. Exatamente como Magda sonhara. E agora eram dois sonhos realizados. E ele suspendera a operação para aparar o suicida justamente no dia em que aconteceu. Os seus próprios subordinados, anteriormente queixosos e que alegavam não haver sentido no que faziam, agora o olhavam como se ele fosse um péssimo administrador, um imprevidente, ou coisa pior. O seu único cúmplice, o dentista, preferia ficar fechado no consultório, mergulhado em bocas, com as brocas abafando os comentários com seus zunidos acelerados.  Sério usava um “nada a declarar” quando a pergunta era sobre os sonhos, e um “os fatos estão sendo apurados” se lhe enfiavam um microfone na boca em busca de uma explicação para as duas mortes em tão pouco tempo numa rua de sessenta metros.

Para ele parecia que as coisas não podiam ficar piores, mas ficaram. Magda atravessou a rua com o ar de quem sonhara novamente. Desta vez ela vinha acompanhada por um pequeno séquito formado pelos repórteres persistentes e os curiosos da ocasião.

Magda foi até o delegado. Fumegava mas entre a fumaça dava para ver o seu semblante de agora-você-vai-ver. Pediu que o dentista fosse chamado para ouvir o seu último sonho, mas o delegado disse que o Dr. Ênio estava ocupadíssimo naquela manhã e não estava interessado se ela sonhara ou não. Magda afiançou que Ênio ficaria imediatamente interessado quando soubesse que desta vez o sonho era com ele. Opolíneo correu para o consultório do dentista.

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Assim, um público diversificado, composto pelo delegado, pelo dentista, pelo pessoal da delegacia, por quatro repórteres, e inúmeras pessoas ávidas por algo que enriquecesse suas vidas, ouviu quando ela disse que o Dr. Ênio Canino morreria atropelado por uma ambulância no meio da rua, em frente ao seu consultório, num dia indeterminado, mas num futuro próximo.

Ênio, a vítima em potencial, descrendo das revelações, afirmou que bastaria que ele não atravessasse a rua para que o sonho não se concretizasse. Os microfones se viraram automaticamente para a velhinha, porque sabiam que dali viria a réplica que lhes interessava. E Magda, com um sorriso de desdém, completou que, além disso, exigia ser mantida na delegacia até que o sonho se realizasse ou fossem tomadas medidas definitivas que o evitassem. Pois não estava nem um pouco disposta a ver a sua terceira tentativa de evitar uma tragédia ser jogada fora e, ao mesmo tempo, não queria que desta vez o delegado achasse uma desculpa para relacioná-la diretamente com a morte do dentista.

E assim, uma das duas celas da delegacia foi inaugurada com a presença de Magda, sua cadeira preferida, sua cama coberta por colchas rendadas, sua TV, e Lúcifer.

A notícia de que na delegacia da Rua das Violetas uma senhora de oitenta e tantos anos ocupava uma das celas rapidamente virou notícia com todas as interpretações possíveis. Uns jornais afirmavam que ela havia sido presa pelo delegado para que não pudesse matar o dentista do bairro. Outro dava detalhes sobre os sonhos proféticos e a ineficiência do delegado em colaborar com a santa velhinha em seus esforços para evitar a morte de dois infelizes. Um terceiro garantia que Magda era descendente direta de uma antiguíssima estirpe de profetizas. Houve depoimentos acalorados nos programas de televisão sobre os direitos humanos, a veracidade das previsões de Magda, o surgimento de novas religiões, e a incompetência das autoridades.

O movimento se transformou rapidamente num colossal transtorno. Foram chamados policiais do comando geral para reforçarem o contingente. No terceiro dia o Dr. Sério Fuss empurrou o povo, montou cavaletes de contenção e ordenou o fechamento da Rua das Violetas e das duas quadras da Rua Bispo Escalaverde que levavam à delegacia. Os veículos públicos tinham passagem, mas o trânsito do bairro ficou confuso. Houve protesto dos moradores. Algumas faixas com alusões à insanidade de Sério e outras pedindo a liberdade de Magda passaram a decorar as três bocas de rua. Fanáticos de religiões obscuras montaram barracas nas calçadas próximas ao perímetro isolado. Equipes de cinegrafistas monitoravam o tumulto à distância, de cima de se suas caminhonetes. Repórteres entrevistavam todo mundo e tudo que era insinuado ia alimentar as incansáveis línguas e ouvidos do mundo da notícia. Ficou impossível para o delegado ir para casa. Sério passou a dormir na cela ao lado da que era ocupada por Magda.

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No quarto dia o Dr. Sério Fuss foi comunicado pela direção da polícia de que teria 48 horas para dar um fim àquela situação insustentável. O delegado passou a considerar a hipótese de estrangular… (continua aqui)

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4 Comentários em “Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (4 de 5))”

  1. Li Says:

    Uma Cassandra moderna…..

  2. Franci23 Says:

    O Delegado tá é fudido, coitado, estou curioso pelo desfecho…


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