Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (3 de 5))

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05

Com a porta fechada, e alguns ouvidos colados nela pelo lado de fora, Sério e Ênio ouviram inquietos o relato em que Magda dava ao seu sonho a pintura de um fato consumado. Desta vez, se ninguém tomasse as devidas providências, aconteceria o suicídio de Astrogildo Gisto, o cara baixinho e amalucado que morava três pisos acima de Magda.

Astrogildo, peladão e embriagado, pularia de cabeça do quarto andar no meio da noite. Quebraria o pescoço ao se estatelar contra a calçada e teria morte imediata. Magda disse ao delegado que era só montar um esquema semelhante aos que os bombeiros usam para aparar um saltador, utilizando uma rede de proteção. Ênio argumentou que, se Astrogildo vinha planejando se suicidar, isso poderia ser facilmente evitado. Era só promover o atendimento preventivo do baixinho por profissionais capacitados. Magda desaconselhou essa conduta porque a abordagem introduziria elementos imponderáveis ao determinismo onírico fazendo com que o suicida optasse por outro horário ou até outro lugar e as variáveis de espaço-tempo lhes tiraria a oportunidade de ajudar. O que ficou muito bonito na boca da velha senhora. Confuso, mas bonito, e deu nos dedos do dentista que se saíra com frases também bonitas após a morte de Calapaentro.  Magda completou afirmando que depois de ter saltado a tentativa já fora levado a cabo e no íntimo do suicida em potencial ficaria a sensação de ter recebido uma nova chance de forma quase milagrosa. Aí sim, no andor da mágica, poderia ser ajudado por psicólogos e o escambau. Os dois homens torceram a boca e o nariz, mas não retrucaram. Sério considerou que com a ajuda de mais dois policiais a idéia da rede poderia funcionar. Ênio alegou que tinha uma extração e se despediu. Todos os ouvidos se desgrudaram da porta. Magda admoestou Sério sobre as suas responsabilidades e foi embora. E a vida continuou na Rua das Violetas.

06

Quando Astrogildo Gisto aparecia, saindo ou chegando, os assuntos eram suspensos e todos o seguiam com os olhos; quando ele desaparecia da vista, como num passe de mágica, as pessoas continuavam conversando como se nada tivesse acontecido. Afinal, no primeiro dia, extra-oficialmente ninguém, a não ser Magda, Sério e Ênio, sabia de qualquer coisa. É claro que os policiais tiveram que ser informados de suas atribuições noturnas. E quando a noite fechava e Astrogildo apagava as luzes, Zé Romeu e Apolíneo, com o reforço de dois policiais do distrito mais próximo, munidos com uma grande rede emprestada pelos bombeiros, se acocoravam sob o peitoril da janela do quarto de Magda, e ficavam à espreita na operação apara-gato. Ela ganhara esse nome por que na primeira noite os policiais perceberam um movimento no alto do prédio e às pressas estenderam a rede, mas quem saltou lá de cima foi Lúcifer.

Na terceira noite um dos policiais emprestados foi requisitado e Olívio Zino ganhou um trabalho extra. Na quarta noite o outro policial também foi embora e ficaram só os três heróis que já eram patrimônio da rua. Mesmo havendo um rodízio para descanso durante o dia, após a quinta noite os três foram até o Dr. Sério Fuss e disseram que aquela função, além de extremamente cansativa, estava ficando sem sentido, e já corriam boatos de que o delegado estava com as arruelas frouxas.

Sério pediu só mais um pouco de paciência e foi fazer uma visita para Magda. Ele queria saber se ela poderia dar algum detalhe sobre a data da ocorrência, pois estava ficando difícil manter a sua equipe em plantão permanente. Magda, pacientemente, explicou ao delegado que tal nível de precisão não havia sido incluído naquele pacote, mas que ele podia confiar que as sua providências seriam recompensadas.

Naquele tarde, durante um café no bistrô, Sério comentou o impasse com Ênio. O dentista perguntou ao delegado se ele não havia pensado na possibilidade daquilo tudo como uma pegadinha da velha. Sério sentiu os ouvidos zunirem, engoliu em seco, viu toda a lógica na afirmação de Ênio, imaginou o riso de Magda por trás das cortinas enquanto ele fazia o papel de palhaço, e, ao voltar para delegacia, chamou a sua equipe e desmontou a operação apara-gato.

E naquela noite Astrogildo Gisto escreveu uma carta explicando que dava fim à vida por que, ainda jovem, não pudera salvar o pai que morrera afogado numa pipa de vinho. Astrogildo tentara puxar o velho pelas botas e caíra sentado num formigueiro. Enquanto o velho Gisto era levado em definitivo para as terras de Baco, Astrogildo pulava desesperado tentando catar as formigas grudadas em sua bunda. Assim justificado, Astrogildo saltou para a morte. Exalava o fedor de um parreiral azedo. Estava nu como viera ao mundo. E quebrou a coluna cervical a cento e sessenta e seis centímetros da janela do quarto de Magda. Medidas da vida.

Magda acordou com o plôf do corpo contra a calçada. A Rua das Violetas acordou com os gritos de Magda. E o Dr. Sério Fuss acordou às três da madrugada com o telefonema assustado de Zé Romeu.

07

Se os sonhos de Magda haviam chamado a atenção dos meios sensacionalistas após a morte de Calapaentro Crespo, a morte de Astrogildo Gisto se transformou rapidamente num… (continua aqui)

 

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6 Comentários em “Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (3 de 5))”


  1. […] Quase nada sobre quase tudo! ( por Romacof ) « Sinais exteriores de riqueza. Lúcifer ( ou os sonhos de Magda (3 de 5)) […]

  2. Li Says:

    Eu que não ia querer ser amiga desta bendira senhora….

  3. Judith Rolim Says:

    To curiosa demais…não demore muito a postar, rsrsrs

  4. Li Says:

    Deus me livre de “amigos ocultos”,rs.


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